7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e Dois

A NOITE CAIU RÁPIDO. A FLORESTA PARECIA SE INCLINAR EM CIMA deles, uma parede sólida de sombras sob a luz fraca da lua minguante. Passaram por um cruzamento e seguiram para o norte, sem falar nada. Ver outro trilho conjugado ao deles deu uma ponta de esperança a Scarlet; pelo menos, agora havia a chance de eles encontrarem outro trem. Mas os trilhos do trem de levitação magnética permaneceram em silêncio. A luz do tablet de Scarlet foi suficiente para eles enxergarem por um tempo, mas ela estava com medo de a bateria acabar e sabia que eles deveriam parar logo.
Lobo não ficava mais olhando para trás a cada minuto, e Scarlet desconfiava de que ele sabia que estavam sendo seguidos o tempo todo.
Ele parou de repente, e o coração de Scarlet deu um salto, pois teve a certeza momentânea de que ele tinha ouvido lobos mais uma vez.
— Aqui. Isso vai funcionar. — Ele olhou para cima, para um tronco caído que unia um lado da beirada dos trilhos à outra. — O que você acha?
Scarlet o seguiu pela vegetação que batia na sua cintura.
— Pensei que estivesse brincando antes. Você realmente acha que consegue pular em um trem em movimento daqui?
Ele assentiu.
— Sem quebrar a perna?
— Sem quebrar nada.
Ele observou o olhar especulativo dela com uma certa arrogância.
Scarlet deu de ombros.
— Qualquer coisa para sair desta floresta.
A plataforma ficava a alguns metros acima, mas ela subiu sem dificuldades, se agarrando em raízes e pedras presas. Ouviu um sibilar abaixo, virou e viu uma expressão de dor no rosto de Lobo quando ele se ergueu atrás dela. Prendeu a respiração quando ele limpou as mãos, se sentindo culpada.
— Me deixa ver — falou, segurando o antebraço de Lobo, e posicionou o tablet para iluminar o curativo. Não havia vazado sangue ainda. — Sinto muito por ter atirado em você.
— Sente mesmo?
Suas mãos se demoraram no curativo para verificar se estava bem apertado.
— O que isso quer dizer?
— Desconfio de que você atiraria em mim de novo se achasse que isso ajudaria sua avó.
Ela olhou para ele, surpresa ao perceber o quanto estavam próximos.
— É verdade — disse. — Mas isso não quer dizer que eu não sentiria muito depois.
— Só estou feliz de você não ter aceitado meu conselho de atirar na cabeça — disse ele, mostrando os dentes na luz do tablet. Quando seus dedos roçaram o bolso do moletom dela, Scarlet deu um pulo.
Mas logo os dedos se afastaram, e Lobo apertou os olhos sob a luz intensa do tablet.
— Desculpe — gaguejou Scarlet, apontando-o para o chão.
Lobo se moveu ao redor dela e pressionou o tronco caído com o pé.
— Parece confiável.
Scarlet notou uma ironia estranha na escolha de palavras dele.
— Lobo — disse, testando a forma como sua voz ecoava no vazio da floresta. Ele ficou tenso, mas não virou. — Quando você me contou que tinha abandonado a matilha, achei que meses ou anos tinham se passado, mas Ran fez parecer que você acabou de sair.
Uma das mãos bagunçando o cabelo, ele se virou na direção dela.
— Lobo?
— Faz três semanas — sussurrou. E depois: — Menos de três semanas.
Ela inspirou, prendeu a respiração e soltou de uma vez.
— Mais ou menos na época que minha avó desapareceu.
Ele baixou a cabeça e não conseguiu olhar nos olhos dela.
Scarlet tremeu.
— Você me disse que era um ninguém, pouco mais do que um garoto de recados. Mas Ran chamou você de “alfa”. Essa não é uma posição bem alta?
Ela viu o peito dele subir e descer em uma respiração lenta e tensa.
— E agora, você me diz que deixou o bando na mesma época em que minha avó foi sequestrada.
Ele esfregou a tatuagem distraidamente, mas não disse nada. Scarlet esperou, com o sangue começando a ferver, até ele ousar olhar para ela. O tablet lançava uma luz branco-azulada nos seus pés, mas quase não o iluminava. No escuro, só se via um leve contorno do maxilar e das bochechas e o cabelo, que parecia um pinheiro se projetando da cabeça.
— Você me disse que não fazia ideia de por que levariam minha avó. Mas era mentira, não era?
— Scarlet...
— Então o que era verdade? Você os abandonou mesmo ou é tudo uma história pra me pegar... — Ofegando, ela cambaleou para trás. Sua cabeça girava, e uma cascata de dúvidas e perguntas disparou na mente dela. — Sou eu a missão sobre a qual Ran estava falando? A que supostamente foi cancelada?
— Não...
— E depois que meu pai me avisou sobre isso! Ele disse que um de vocês viria atrás de mim, e ali estava você, e eu até sabia que você era um deles. Sabia que não podia confiar em você, mas me deixei levar...
— Scarlet, pare.
Ela fechou a mão no cordão do casaco e apertou ao redor do pescoço. Seu coração estava disparado agora, com o sangue correndo quente sob a pele.
Ela ouviu Lobo inspirar, viu as mãos dele se abrirem sob a luz do tablet.
— Você está certa, eu menti sobre não saber por que levaram sua avó. Mas você não é a missão sobre a qual Ran falou.
Ela inclinou o tablet para cima e iluminou o rosto de Lobo, que se encolheu, mas não afastou o olhar.
— Mas tem alguma coisa a ver com a minha avó.
— Tem tudo a ver com a sua avó.
Ela mordeu o lábio inferior com força, ainda tentando sufocar a onda de raiva crescendo dentro de si.
— Me desculpe. Eu sabia que, se lhe contasse, você não confiaria em mim. Sei que devia ter contado mesmo assim, mas... não consegui.
A mão segurando o tablet começou a tremer.
— Me conte tudo.
Houve uma longa pausa.
Uma pausa longa e enlouquecedora.
— Você vai me desprezar — murmurou ele. Seu peito encolheu na tentativa de ficar menor de novo, como tinha feito no beco, sob as luzes da nave.
Scarlet apertou as mãos com tanta força nos quadris que os ossos começaram a doer.
— Ran e eu estávamos no grupo enviado para pegar sua avó.
O estômago de Scarlet deu um nó. O grupo enviado para pegá-la.
— Eu não estava com eles quando ela foi levada — acrescentou logo depois. — Assim que chegamos a Rieux, vi minha chance de fugir. Eu sabia que conseguiria desaparecer lá sem a rede da cidade me encontrar. Então, aproveitei a oportunidade. Na manhã em que ela foi capturada. — Cruzou os braços, como se estivesse se protegendo do ódio de Scarlet. — Eu poderia tê-los impedido. Era mais forte do que todos eles. Poderia ter impedido. Podia ter avisado a ela, ou a você. Mas não fiz nada. Só fugi.
Os olhos de Scarlet começaram a arder. Ela inspirou com força, virou as costas para ele e inclinou a cabeça para o céu preto, para impedir que lágrimas repentinas caíssem. Esperou até ter certeza de que conseguiria falar e virou de novo para ele.
— Foi quando você começou a ir às lutas?
— E à taverna — disse ele, assentindo.
— E depois, o quê? Você sentiu culpa, então pensou em me seguir por um tempo, talvez ajudar na fazenda, como se isso fosse algum tipo de compensação?
Ele fechou a cara.
— É claro que não. Eu sabia que me meter com você seria suicídio, que eles acabariam me encontrando se eu não fosse embora de Rieux, mas eu... mas você... — Ele pareceu frustrado porque as palavras lhe fugiam. — Eu não podia ir embora.
Scarlet ouviu um estalo de plástico e se obrigou a afrouxar o aperto no tablet.
— Por que a levaram? O que querem com ela?
Ele abriu a boca, mas ficou em silêncio.
Scarlet ergueu as sobrancelhas. Sua pulsação parecia trovejar.
— Bem?
— Estão tentando encontrar a princesa Selene.
O eco nos ouvidos a fez pensar por um momento que ela não tinha ouvido direito.
— Estão tentando encontrar quem?
— A princesa lunar, Selene.
Ela recuou. Ocorreu-lhe que talvez Lobo estivesse fazendo alguma brincadeira cruel, mas a expressão dele era séria demais, horrorizada demais.
— O quê?
Ele começou a se mexer desconfortavelmente, o peso passando de um pé para o outro.
— Estão procurando a princesa há anos e acreditam que sua avó tem informações sobre o paradeiro dela.
Scarlet semicerrou os olhos, perplexa, certa de que estava entendendo errado. Ele só podia estar enganado. Mas o olhar de Lobo, penetrante e seguro, a manteve alerta.
— Por que minha avó...? — Ela balançou a cabeça. — A princesa lunar está morta!
— Há evidências de que ela sobreviveu ao incêndio e de que alguém a salvou e trouxe para a Terra — disse Lobo. — E, Scarlet...
— O quê?
— Tem certeza de que sua avó não sabe de nada?
Ela ficou boquiaberta por tanto tempo que a língua ficou seca e grudenta na boca.
— Ela é uma fazendeira! Morou na França a vida toda. Como saberia de alguma coisa?
— Ela era militar antes de ser fazendeira. Viajava bastante naquela época.
— Foi mais de vinte anos atrás. Há quanto tempo a princesa está desaparecida? Dez, quinze anos? Isso nem faz sentido.
— Você não pode desconsiderar a possibilidade.
— Claro que posso!
— E se ela souber de alguma coisa?
Ela franziu a testa, mas sua descrença sumiu ao ver o desespero crescente de Lobo.
— Scarlet — disse —, Ran falou que a missão tinha sido cancelada. Ele só podia estar falando da busca pela princesa. Não consigo imaginar por que, depois de tantos anos... Mas, se for verdade, isso pode significar que eles não têm mais utilidade para a sua avó.
Ela sentiu uma pontada no estômago.
— Então, a soltariam?
Rugas se formaram ao redor dos lábios de Lobo, e um peso começou a se instalar no peito de Scarlet. Ele não precisou falar para ela entender a resposta.
Não. Não, eles não a soltariam.
Ela inspirou fundo, tonta, e desviou a atenção para os raios de luar que iluminavam os trilhos abaixo.
— Se eu soubesse... Se tivesse conhecido você antes... Quero ajudar, Scarlet. Quero tentar consertar isso, mas eles querem informações que não tenho. A melhor coisa para sua avó é ser útil. Mesmo se tiverem parado de procurar Selene, pode ainda haver alguma coisa que ela saiba, ou alguma coisa no passado dela, qualquer coisa que a tornasse valiosa. É por isso que, se houver qualquer coisa que você saiba, qualquer informação que tenha... É a melhor chance que você tem de salvá-la. Você pode negociar por ela. Dar a eles a informação que eles querem.
Ela foi envolvida por uma frustração enorme.
— Não sei o que eles querem.
— Pense. Já aconteceu alguma coisa estranha? Qualquer coisa que sua avó tenha dito ou feito que você achou peculiar?
— Ela faz coisas peculiares o tempo todo.
— Relacionadas aos lunares? Ou à princesa?
— Não, ela... — Scarlet fez uma pausa. — Ela sempre teve mais solidariedade para com eles do que a maior parte das pessoas. Ela não tira conclusões apressadas.
— O que mais?
— Nada. Mais nada. Ela não tem nada a ver com os lunares.
— Há evidências de que isso não é verdade.
— Que evidências? Do que você está falando?
Lobo coçou a cabeça.
— Ela deve ter contado a você que já esteve em Luna.
Scarlet pressionou os olhos e inspirou, trêmula.
— Você está louco. Por que minha avó teria ido a Luna?
— Ela fez parte da única missão diplomática enviada da Terra a Luna nos últimos cinquenta anos. Ela foi o piloto que levou os oficiais terráqueos. A visita durou quase duas semanas, então ela deve ter interagido de alguma forma com os lunares... — Ele franziu a testa. — Ela nunca contou nada disso a você?
— Não! Não, ela nunca me contou nada disso! Quando foi?
Lobo afastou o olhar, e ela percebeu que hesitava.
— Lobo. Quando foi isso?
Ele engoliu em seco.
— Quarenta anos atrás — respondeu, a voz baixa novamente. — Nove meses antes do nascimento do seu pai.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!