20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e dois

Cinder estava acostumada a sentir a energia de Lobo, incansável e agitada, saindo dele como fumaça, como ondas de calor no asfalto. Mas isso era novidade vindo de Thorne, normalmente inabalável. Enquanto eles corriam por uma escadaria interminável, cada vez mais fundo no subterrâneo de Luna, a energia de Thorne foi ficando tão palpável quanto a de Lobo. Furioso, apavorado, cheio de culpa. Cinder queria poder desligar seu dom lunar para não ter que lidar com a sobrecarga de emoções dos companheiros, além das dela própria.
Eles perderam Cress. Levana sabia da traição de Kai. O grupo já estava fragmentado e o plano dela estava desmoronando.
Os degraus terminaram em um corredor longo e estreito ladeado de estátuas de túnica, cada uma segurando uma esfera iluminada que emitia luz no teto em arco. O chão era feito de milhares de azulejos pretos e dourados, criando um padrão que girava e encolhia como a Via Láctea. Seria uma maravilha de olhar se eles tivessem tempo de admirar, mas os pensamentos de Cinder estavam tumultuados demais. Procurando sons de perseguição. Visualizando o rosto de Cress, determinado, apesar do medo. Tentando planejar o próximo passo e o que fariam se os trens falhassem, pois Levana devia saber para onde estavam indo.
No final do corredor, chegaram a outra escadaria em espiral, entalhada em madeira escura e polida. O corrimão e os degraus eram ondulados e irregulares, e Cinder demorou dois lances, segurando nos corrimões para, em sua pressa, não cair de cabeça, para perceber que a escada fora feita para se assemelhar a um polvo enorme que oferecia passagem com seus tentáculos ondulados.
Tão lindo. Tão estranho. Tudo feito com talento e detalhes impressionantes. E tudo isso só em uns túneis dezenas de metros abaixo da superfície da Lua. Ela não conseguia imaginar o quanto o palácio devia ser lindo.
Eles chegaram a outra porta dupla decorada com um mapa artístico mostrando todo o sistema de trens de levitação magnética.
— Esta é a plataforma — disse Iko, a única que não estava ofegando.
— Eu vou primeiro — disse Cinder. — Se tiver alguém lá, vou usar um glamour para fazer com que nos vejam como integrantes da corte de Levana. Qualquer taumaturgo, nós matamos na hora. Todas as outras pessoas, nós ignoramos.
— E guardas? — perguntou Iko.
— Os guardas são fáceis de controlar. Deixe que eu cuido deles. — Ela ajeitou as luvas grossas que Kai deu a ela e abriu os pensamentos, preparada para detectar a bioeletricidade de qualquer pessoa que pudesse estar na plataforma. Encostou as palmas das mãos nas portas. Com o toque, elas se abriram em quatro seções que espiralaram para dentro da parede. Cinder entrou na plataforma.
Vazia.
Ela não achava que fosse ficar assim por muito tempo.
Três veículos brancos cintilantes esperavam nos trilhos. Eles correram para o primeiro. Cinder deixou os outros entrarem antes, pronta para invocar um glamour ao primeiro sinal de alguém se aproximando, mas a plataforma permaneceu silenciosa.
Lobo segurou Cinder e a arrastou junto.
— Como fazemos essa coisa funcionar? — gritou Iko, batendo na tela de controle. O trem permaneceu aberto e imóvel. — Fechar porta! Partir! Nos tire daqui!
— Não vai funcionar para você — disse Lobo, se inclinando ao lado de Iko para encostar as cinco pontas dos dedos na tela. Ela se iluminou e as portas se fecharam.
Era uma sensação falsa de proteção, mas Cinder não resistiu a um suspiro de alívio.
Uma voz tranquila encheu o veículo.
— Bem-vindo, Alfa Ze’ev Kesley, Agente Especial Lunar Número 962. Aonde devo levar você?
Ele olhou para Cinder.
Ela encarou a tela, avaliando as possibilidades. Dar instruções para o setor MR-9 era um jeito certo de levar Levana direto para eles. Ela abriu um mapa de Luna no display da retina, tentando criar a melhor rota, que levaria Levana para longe de seu encalço.
— CS-1 — disse Thorne.
Ele estava caído no chão entre os dois bancos forrados, as mãos por cima dos joelhos e a cabeça encostada na parede. Com a expressão desanimada e a postura encolhida, estava quase irreconhecível. Mas, ao ouvir a voz dele, o veículo se levantou usando a força magnética por baixo dos trilhos e disparou para longe de Artemísia.
— Coleta seletiva? — disse Iko.
Thorne deu de ombros.
— Achei que seria bom ter um plano B caso uma coisa assim acontecesse.
Após um silêncio breve, no qual o maquinário de Iko zumbiu, ela disse:
— E o plano B é ir para o setor de coleta seletiva?
Thorne ergueu o rosto. A voz estava neutra quando explicou:
— É um trajeto curto de Artemísia, então não vamos dar tempo demais para Levana se reorganizar e enviar gente atrás de nós antes de sairmos deste trem. E é um dos setores com mais conexões em Luna, considerando que todo mundo produz lixo. Tem quinze túneis de trens de levitação magnética saindo daquela plataforma. Podemos andar um percurso a pé, tirá-los do nosso encalço e começar a volt…
— Não diga — disse Cinder. — Não sabemos se vamos ser gravados aqui.
Thorne fechou a boca e assentiu.
Cinder sabia que ele ia dizer que eles podiam voltar na direção de MR-9. Ela se concentrou no setor CS-1 no mapa que tinha na cabeça, e Thorne estava certo. Era um plano inteligente. Ela não conseguia acreditar que não tinha pensado nisso.
— Boa, Thorne.
Ele deu de ombros de novo, sem entusiasmo.
— Gênio do crime, lembra?
Cinder se sentou no banco ao lado de Lobo e deu um breve descanso ao corpo tomado de adrenalina.
— O sistema reconheceu você.
— Todos os cidadãos lunares estão no banco de dados. Só estou desaparecido há poucos meses, por isso achei que ainda não teriam removido minha identificação.
— Você acha que vão reparar se um agente especial que deveria estar na Terra aparecer de repente?
— Não sei. Mas, enquanto estivermos usando o trem, usar minha identidade vai atrair menos atenção do que a sua. E sem Cress aqui para invadir o sistema…
Thorne fez uma careta e encostou a testa na parede do trem. Eles ficaram em silêncio por um tempo, a ausência de Cress preenchendo os espaços vazios ao redor.
Foi só com a falta dela que Cinder percebeu o quanto eles contavam com Cress. Ela poderia tê-los colocado no sistema de trens de levitação magnética sem ter que usar nenhuma identificação. E Cress tinha confiança de que, quando chegassem a MR-9, ela conseguiria desarmar qualquer equipamento de segurança que pudesse entregá-los. Além do mais, tinha a questão importantíssima de infiltrar o sistema de transmissões para espalhar a mensagem de Cinder para os cidadãos de Luna.
Mas saber o quanto a perda de Cress tinha impacto no objetivo deles não era nada em comparação ao horror que Cinder sentia. Cress seria torturada para entregar informações sobre o paradeiro deles e depois morta, era quase certo.
— Ela é cascuda — observou Cinder. — Eles não conseguem detectar a bioeletricidade dela. Enquanto ficar escondida, vai estar…
— Não — disse Thorne.
Cinder encarou os nós brancos dos dedos e procurou uma coisa significativa para dizer. Seu grande plano de revolução e mudança tinha acabado de começar e ela já se sentia um fracasso. Mas isso parecia pior do que falhar com o povo de Luna. Ela tinha falhado com as pessoas de quem mais gostava no mundo.
Por fim, ela sussurrou:
— Eu sinto muito, Thorne.
— É — disse ele. — Eu também.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!