3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e Dois

CINDER PODIA OUVIR OS ALERTAS DO DR. ERLAND EM SUA MENTE, ecoando como um arquivo de áudio danificado, durante todo o percurso de quase dez quilômetros até o palácio.
Nada impedirá a rainha Levana de assegurar seu controle, de exterminar qualquer resistência. Isso significa matar aqueles que podem resistir a ela, gente como você. Está me entendendo, srta. Linh? Se ela visse você, isso significaria sua morte.
E ainda assim, se algo acontecesse no percurso entre o apartamento e o palácio ao androide que tinha informações reais sobre a princesa lunar desaparecida, Cinder nunca se perdoaria. Era sua responsabilidade entregar o androide são e salvo para Kai.
Além disso, o palácio era um lugar enorme. Quais eram as chances de ela esbarrar com a rainha lunar, que provavelmente não tinha a intenção de passar muito tempo socializando com o povo, de qualquer forma?
Nainsi era bem mais rápida em suas rodas do que Iko, e Cinder tinha que se apressar para acompanhá-la. Mas o passo delas diminuiu quando descobriram que não eram as únicas pessoas do povo que se dirigiam ao palácio aquela tarde.
Na base do penhasco, a estrada principal fora bloqueada ao deixar a cidade para trás e se tornar o caminho privativo para o palácio, sombreada pelos pinheiros torcidos e salgueiros caídos. A via sinuosa estava cheia de pedestres percorrendo sua lenta subida montanha acima. Alguns andavam sozinhos, outros em grandes grupos. Suas conversas alcançaram Cinder, iradas e determinadas, os braços movimentando-se em gestos loucos. Nós não a queremos aqui. O que Sua Alteza está pensando? O crescente bramido da multidão ecoava estrada abaixo.
Centenas, talvez milhares, de vozes irritadas entoando em uníssono.
— Fora, rainha lunar! Fora, rainha lunar! Fora, rainha lunar!
Ao virar a última curva, o olhar de Cinder recaiu sobre a multidão lá em cima, tomando o jardim diante dos portões marrons do palácio e se espalhando pela rua. Mal era contida pela fila aturdida de guardas da segurança.
Cartazes apareciam acima de suas cabeças. A GUERRA É MELHOR DO QUE A ESCRAVIDÃO! PRECISAMOS DE UMA IMPERATRIZ, NÃO DE UMA DITADORA! SEM ALIANÇA COM O DEMÔNIO! Muitos incluíam a imagem da rainha coberta por um véu riscada com um X vermelho.
Meia dúzia de novos aerodeslizadores circulavam pelo céu, capturando imagens dos protestos para transmiti-los mundialmente.
Cinder margeou o fim da multidão, abrindo caminho para o portão principal enquanto tentava proteger o corpo compacto de Nainsi com o seu próprio. Mas, quando alcançou o portão, ela o encontrou fechado e protegido por humanos e androides, postados ombro a ombro.
— Me desculpe — disse ela ao guarda mais próximo. — Preciso entrar no palácio.
O homem esticou o braço na direção dela, empurrando-a até dar um passo atrás.
— Hoje a entrada do publico não é permitida.
— Mas eu não estou com eles. — Ela pôs as mãos na cabeça de Nainsi. — Este androide pertence a Sua Alteza Imperial. Fui contratada para consertá-lo e agora vim devolvê-lo. É muito importante que ele seja devolvido o quanto antes.
O guarda olhou para o androide, examinando-o.
— Sua Alteza Imperial deu um passe a você?
— Bem, não, mas…
— O androide tem código de identificação?
— Tenho. — Girando o torso, Nainsi mostrou o código de identificação ao guarda.
Ele assentiu.
— Você pode entrar.
Os portões foram abertos, apenas um pouco, e não levou nem um segundo até que a multidão se avolumasse sobre ele. Cinder gritou por causa do conflito de vozes furiosas em seus ouvidos e o repentino esmagamento dos corpos, empurrando-a contra o guarda. Nainsi adiantou-se portão adentro sem hesitar, mas, quando Cinder se moveu para segui-la, o guarda bloqueou sua passagem com o braço, firme contra a multidão.
— Só o androide.
— Mas nós estamos juntas! — gritou ela para superar a multidão.
— Sem passe, nada de entrada.
— Mas eu o consertei! Preciso entregá-lo. Preciso… receber pelo meu trabalho. — Mesmo ela estava comovida pela lamúria em sua voz.
— Mande sua cobrança para a tesouraria, como todos os demais — disse o homem. — Ninguém pode entrar sem uma licença.
— Linh-mèi — chamou Nainsi do outro lado do portão. — Vou informar ao príncipe Kai que você quer vê-lo. Tenho certeza de que ele pode lhe mandar uma mensagem com o passe oficial.
Na mesma hora, Cinder sentiu o peso de sua tolice. É claro que ela não precisava ver o príncipe. Entregara o androide; seu trabalho estava feito. E ela não pretendia, realmente, cobrar o serviço, de qualquer forma. Mas Nainsi já tinha se virado e se dirigia à entrada principal do palácio antes que Cinder pudesse argumentar, deixando-a com a missão de bolar uma desculpa razoável para que fosse tão importante ver Kai, algo melhor do que o motivo tão estúpido e infantil que viera primeiro a sua mente. Ela simplesmente queria.
A entoação parou de repente, causando um sobressalto em Cinder.
O silêncio da multidão criou um vácuo na rua, desejoso para ser preenchido com uma respiração, um som, qualquer coisa. Cinder olhou em volta, para os rostos deslumbrados virados para cima, para o palácio, para os cartazes abaixados e seguros por dedos frouxos. Uma onda de temor percorreu sua espinha.
Ela seguiu os olhares da multidão para a sacada que se projetava de um dos andares mais altos do palácio.
A rainha lunar estava com uma das mãos no quadril, a outra na beirada da sacada. Sua expressão era dura — amarga —, mas essa visão em nada prejudicava sua beleza misteriosa. Mesmo de longe, Cinder podia ver a pálida luminescência de sua pele, o tom rubi de seus lábios. Os olhos escuros estudavam a multidão silenciosa, e Cinder se afastou do portão, querendo desaparecer atrás dos rostos inexpressivos.
Mas o choque e o terror logo passaram. Aquela mulher não era assustadora, não era perigosa. Ela era meiga. Acolhedora. Generosa. Deveria ser a rainha deles. Deveria governá-los, guiá-los, protegê-los…
Um alerta piscou no visor de Cinder. Ela tentou, em vão, piscar até que ele se desativasse, incomodada com a distração. Queria olhar para a rainha para sempre. Queria que a rainha falasse. Que prometesse paz e segurança, prosperidade e conforto.
A luz laranja brilhou no canto de sua visão. Cinder levou um momento para perceber o que era, o que significava. Ela sabia que algo estava errado. Sabia que aquilo não fazia sentido.
Mentiras.
Ela fechou os olhos com força. Quando olhou para cima de novo, a ilusão de bondade tinha desaparecido. O sorriso doce da rainha tinha se tornado soberbo e manipulador. O estômago de Cinder se revirou.
Ela estava fazendo uma lavagem cerebral neles.
A rainha tinha feito uma lavagem cerebral nela.
Cinder cambaleou e deu um passo para trás, colidindo com um homem de meia-idade hipnotizado.
O olhar da rainha mirou na direção deles, focando-se em Cinder. Uma onda de surpresa se acendeu em seu rosto. Depois ódio. Nojo.
Cinder se encolheu, querendo se esconder. Dedos gelados envolveram seu coração. Embora se sentisse compelida a correr, suas pernas haviam derretido. O visor de retina exibia linhas confusas em sua visão como se não aguentasse o encanto da rainha por mais um segundo.
Ela se sentiu exposta e vulnerável, totalmente sozinha em meio à multidão inculcada. Estava certa de que o chão debaixo de seus pés se abriria e a engoliria. Estava certa de que o olhar da rainha a transformaria em uma pilha de cinzas na estrada de pedras.
O olhar furioso da rainha se escureceu até que Cinder começasse a sentir que, com dutos lacrimais ou não, explodiria em lágrimas.
Mas então a rainha se virou, os ombros erguidos enquanto entrava de maneira tempestuosa no palácio.
Cinder pensara que, quando a rainha se fosse, a multidão retomaria seus protestos novamente, até mesmo mais furiosa por ela ter se atrevido a se mostrar. Mas não foi o que aconteceu. Lentamente, como sonâmbula, a multidão começou a partir. Aqueles com cartazes os deixaram no chão, para serem pisoteados e esquecidos. Cinder se apoiou no muro que cercava o palácio, saindo do caminho conforme os cidadãos passaram lentamente por ela.
Então esse era o efeito do encanto lunar, o feitiço para seduzir, ludibriar, tomar o coração de alguém para você e voltá-lo contra seus inimigos. E, em meio a toda aquela gente que desprezava a rainha lunar, Cinder parecia ser a única que havia resistido a ela.
E, ainda assim, ela não havia resistido a ela. Não no início. Um arrepio percorreu seus braços. Sua pele doía onde se misturava ao metal.
Ela não havia ficado inteiramente imune ao encanto, não da forma como cascudos deveriam ficar.
Pior ainda, a rainha a vira, e sabia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!