7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e Cinco

SCARLET SONHOU QUE UMA NEVASCA COBRIA TODA A EUROPA com uma camada de neve que ia até o pescoço. Era criança de novo, desceu a escada e encontrou a avó ajoelhada em frente ao fogão à lenha.
— Pensei que tinha encontrado uma pessoa para acolher você — disse a avó. — Mas ela não quer vir buscá-la, com toda essa neve. Acho que vou ter que esperar até a primavera para me livrar de você.
Ela cutucou o fogo. Fagulhas voaram nos olhos de Scarlet, fazendo-os arder, e ela acordou com as bochechas molhadas, os dedos parecendo gelo. Por muito tempo, não conseguiu distinguir o que era sonho e o que era lembrança. Neve, mas não tanta neve. A avó esperando para mandá-la para longe, mas não quando ela era criança. Quando era adolescente. Com treze anos.
Foi em janeiro ou um pouco mais adiante no inverno? Ela lutou para encaixar as lembranças vagas. Precisava tirar o leite da vaca, uma tarefa que odiava, e suas mãos ficavam tão dormentes que ela ficava com medo de apertar as tetas com força demais.
Por que não tinha ido à escola naquele dia? Era fim de semana? Férias?
Ah, sim. Ela tinha visitado o pai e voltara no dia anterior. Era para ter ficado com ele um mês inteiro, mas não conseguiu suportar. A bebedeira, a volta ao apartamento no meio da noite. Scarlet tomou o trem de volta para casa sem contar para ninguém, pegando a avó de surpresa com sua chegada. Em vez de ficar feliz em vê-la, a avó ficou zangada por Scarlet não ter mandado uma mensagem para avisar o que estava acontecendo. Elas brigaram. Scarlet ainda estava furiosa com ela quando tirava o leite da vaca, com os dedos congelando.
Foi a última vez que ela andou no trem de levitação magnética. A última vez que viu o pai.
Ela se lembrava de fazer as tarefas apressadamente, desesperada para terminar e poder entrar e se aquecer. Só viu o aerodeslizador na frente quando voltava correndo. Tinha visto muitos aerodeslizadores enquanto morava na cidade, mas eram raros no campo, onde os fazendeiros preferiam naves maiores e mais rápidas.
Scarlet entrou sorrateiramente pela porta de trás e ouviu a avó na cozinha com um homem, conversando com vozes abafadas. Contornou lentamente a escadaria, com os pés silenciosos nos azulejos de terracota.
— Não consigo imaginar que peso ela tem sido para você todos esses anos — disse um homem com sotaque oriental.
Scarlet franziu a testa e sentiu o calor da cozinha nas bochechas quando espiou pela fresta na porta. Ele estava sentado à mesa, com uma caneca nas mãos. Tinha cabelo preto sedoso e um rosto longo. Scarlet nunca o tinha visto antes.
— Ela não tem dado o trabalho que pensei que daria — disse a avó, que estava fora do seu campo de visão. — Quase me afeiçoei a ela depois de todos esses anos. Mas devo dizer que vou ficar feliz quando for embora. Não vou mais entrar em pânico cada vez que uma nave desconhecida passar voando.
A garganta de Scarlet se apertou.
— Você disse que ela estaria pronta para partir em uma semana? É possível?
— Logan parece pensar que sim. Esse seu dispositivo é tudo que estávamos esperando. Se o procedimento correr bem, pode até ser antes. Mas você vai ter que ser paciente. Ela vai estar bem fraca e bastante desnorteada.
— É compreensível. Não consigo imaginar como deve ser para ela.
Scarlet colocou a mão tapando a boca para esconder a respiração.
— Você está com as acomodações preparadas?
— Sim, estamos preparados. Vai demorar um pouco para nos acostumarmos também, mas tenho certeza de que vai dar certo depois que ela se acostumar. Tenho duas meninas mais ou menos da idade dela, de doze e nove anos. Tenho certeza de que vão se gostar, e vou tratá-la como se fosse minha.
— E quanto à madame Linh? Ela está preparada?
— Preparada? — O homem riu, mas o som foi rouco e desconfortável. — Ela não poderia ter ficado mais atônita quando sugeri a ideia de adotar uma terceira garota, mas é uma boa mãe. Lamento por ela não ter podido vir comigo, mas eu queria chamar o mínimo de atenção possível. É claro que ela não sabe sobre a garota. Não... tudo.
Scarlet deve ter emitido algum som, porque o homem de repente ergueu o olhar e a viu. Ele se enrijeceu.
A cadeira da avó foi arrastada no chão e a porta foi aberta. Ela estava furiosa. Scarlet também estava furiosa com a avó.
— Scarlet, você sabe que não deve xeretar. Vá para o seu quarto!
Ela queria gritar, bater os pés, dizer que não podia dispensá-la como se não fosse nada, não novamente. Mas as palavras não surgiram. Ficaram entaladas na base da garganta.
Assim, fez o que a avó mandou, batendo os pés na escada e entrando no quarto antes que a avó pudesse ver suas lágrimas.
O problema não foi só descobrir que não era desejada, nem que poderia ser entregue a qualquer estranho que fosse buscá-la. O problema era que, depois de seis longos anos, ela começara a se sentir parte dali. A achar que a avó a amava, mais do que a mãe a amara, mais do que o pai. Que talvez as duas formassem um time.
Depois daquela manhã, ela viveu com medo por uma semana. Duas semanas. Um mês.
Mas o homem nunca foi buscá-la, e ela e a avó nunca voltaram a falar do assunto.
— Scarlet?
O aperto do braço de Lobo na cintura levou Scarlet de volta para o presente, para o vagão de trem que estava desacelerando. Ela estava encolhida como uma criança de costas para ele, e apesar de estar com os olhos apertados, algumas lágrimas quentes escaparam, rolaram pelo nariz e escorreram até seu queixo. Ela as secou rapidamente.
Lobo se ergueu atrás dela.
— Scarlet? — A voz dele estava nervosa.
— Tive um sonho ruim — disse ela, não querendo que pensasse que as lágrimas tinham alguma coisa a ver com ele. O trem já estava parando, e ela se deitou de costas. Ainda devia ser noite, pela escuridão que dominava o vagão do trem, mas o brilho nada natural dos néons da cidade se refletia nas caixas perto da porta, espalhando tons de rosa e verde.
— Me lembrei de uma coisa — sussurrou ela. — Acho que pode ter relação com a princesa.
Ele ficou tenso.
— Eu agora me lembro de minha avó ter mencionado Logan, mas ela não queria que eu escutasse. Eu ouvi atrás da porta. E havia outro homem... — Ela contou a história da melhor forma que conseguiu, juntando as partes da lembrança de novo quando o cérebro ameaçou se confundir.
Quando acabou, ficou parada, ouvindo o assobio do vento do lado de fora dos vagões. A lateral do corpo estava toda doída por dormir em uma caixa dura.
Em vez de parecer aliviado ou esperançoso, Lobo olhou para ela apavorado.
— É o que estão procurando, não é? Só pode ser da princesa que eles estavam falando. Não sei onde ela estava, nem quem estava cuidando dela. Eu nunca a vi. O tempo todo, achava que ela estava planejando me mandar embora, mas agora... Depois do que você me contou sobre Logan Tanner e grand-mère e a princesa Selene...
Lobo se afastou dela, se sentou e puxou os joelhos para o peito. Olhou sem ver as pilhas de caixas ao redor.
— Aquele homem tinha sotaque. Acho que era da Comunidade das Nações Orientais. — Scarlet se sentou ao lado dele e puxou o cabelo para um lado. — E tenho certeza de que vovó chamou a esposa dele de “madame Linh”. Não sei se é um nome comum, mas... Eu o reconheceria se o visse de novo. Tenho certeza de que sim.
— Não diga isso. — Lobo colocou as mãos nos ouvidos. — Eu não ouvi isso.
Scarlet piscou, perplexa pela cara dele.
— Lobo? — Ela esticou o braço e puxou as mãos dele. — Isso é bom, não é? Eles querem informações, e eu as tenho. Vamos negociar. Vamos trocar pela segurança da minha avó. Não é...?
— Não vá.
O olhar dele pareceu prendê-la na escuridão. Cabelo desgrenhado, cicatrizes leves, traços de sono nos olhos. Lobo enrolou um cacho do cabelo dela nos dedos.
— Não vá procurar sua avó.
Um raio de luz laranja brilhou pela porta e sumiu.
— Eu tenho que ir.
— Não, Scarlet, você não tem que ir — disse, segurando a mão dela. — Não tem nada que você possa fazer por ela. Se você for, só vai se colocar em perigo. Sua avó ia querer isso?
Scarlet afastou a mão.
— Podemos fugir — continuou ele, com os dedos procurando contato, procurando espaço nos bolsos dela. — Vamos desaparecer na floresta. Vamos para a África, ou para a Comunidade das Nações Orientais. Podemos sobreviver, e eles nunca vão nos encontrar. Posso manter você em segurança, Scarlet. Posso proteger você.
— Do que você está falando? Ontem à noite mesmo você disse que, se eu tivesse qualquer informação, isso poderia ajudar, poderia ser a única chance da minha avó, e agora eu tenho. Pensei que fosse o que você quisesse.
— Talvez — disse ele. — Talvez, se você tivesse nome completo, endereço, alguma coisa específica. Mas um sobrenome e um país, um país enorme, e uma descrição? Scarlet, se você contar isso para eles, só vão prender você na esperança de poder identificar o homem.
Ela puxou o zíper e o observou, viu a forma como os olhos dele ficavam mais enlouquecidos a cada inspiração.
— Que bom — retrucou. — Então vamos propor um troca: eu por minha avó.
Ele se encolheu, balançando a cabeça, mas Scarlet estava firme.
— Vamos juntos. Você pode dizer que tem informações, mas só vai dar a eles com a condição de deixarem você ir embora livremente com minha avó junto. E aí, podem ficar comigo.
Lobo tremeu.
— Lobo, você precisa me prometer que vai cuidar dela. Não sabemos em que tipo de condições ela vai estar. Se eles tiverem... se ela estiver ferida... você vai ter que cuidar dela. — Sua voz falhou, mas não houve mais lágrimas. Ela estava decidida.
Até...
— E se ela já estiver morta, Scarlet?
O medo tomou conta dela junto com as palavras que ela se recusava a enunciar por medo de tornar a situação real. O trem ainda estava diminuindo de velocidade, e Scarlet conseguia ouvir o som furioso da cidade: aerodeslizadores e telas e alarmes avisando às pessoas para se afastarem dos trilhos. Era tarde da noite, mas na cidade nunca havia silêncio.
— Você acha que ela está morta? — A voz dela tremeu. O coração latejou enquanto esperava uma resposta. — Acha que a mataram?
Cada momento se enrolava no pescoço de Scarlet, estrangulando-a, até que a única palavra possível de sair dos lábios de Lobo era sim. Sim, ela estava morta. Eles a tinham assassinado. Aqueles monstros a assassinaram.
Scarlet apertou as palmas das mãos na caixa, tentando empurrar o plástico.
— Me responda.
— Não — murmurou ele, dando de ombros. — Não, acho que não a mataram. Ainda não.
Scarlet tremeu de alívio. Cobriu o rosto com as mãos, tonta pelo furacão de emoções.
— Graças às estrelas — sussurrou. — Obrigada.
O tom dele ficou mais duro.
— Não me agradeça por contar a verdade quando teria sido misericordioso mentir para você.
— Misericordioso? Me dizer que ela está morta? Partir meu coração?
— Fazer você acreditar que ela estava morta era a única chance que eu tinha de convencer você a não ir procurá-la. Nós dois sabemos disso. Eu devia ter mentido.
O zumbido dos trilhos aumentou quando o trem se aproximou da estação. Vozes gritaram. Máquinas estalaram e chiaram.
— Não é uma decisão sua — disse ela, pegando o tablet e verificando a localização deles. Tinham chegado em Paris. — Tenho que ir atrás dela. Mas você não precisa ir comigo.
— Scarlet...
— Não, escute. Agradeço sua ajuda. Me trouxe até aqui. Mas posso prosseguir sozinha. Só me diga para onde ir, e vou encontrar o caminho sozinha.
— Talvez eu não diga.
Scarlet enfiou o tablet no bolso, a raiva esquentando suas bochechas. Ao ver a expressão de Lobo, porém, viu não teimosia, mas pânico. Os dedos dele abriam e fechavam sem parar.
Deixou o ressentimento crescente de lado. Deslizou para perto de Lobo e segurou o rosto dele com as mãos. Ele se encolheu, mas não se afastou.
— Eles vão querer essa informação, não vão?
A expressão dele era de pedra.
— Vamos me oferecer para troca. Você e grand-mère podem ir para um lugar seguro, cuidar um do outro, e quando me soltarem, vou procurar vocês. Não podem ficar comigo para sempre.
Ela deu o melhor sorriso que conseguiu e esperou que ele retribuísse. Mas não o fez. Ela passou os polegares pelas bochechas dele e o beijou. Apesar de puxá-la imediatamente para perto de si, Lobo não permitiu que o beijo fosse demorado.
— Não há garantia de que vão soltar você. Quando terminarem, podem matar você. Você está sacrificando sua vida pela dela.
— É um risco que tenho que correr.
O trem parou e baixou sobre os trilhos.
Os olhos de Lobo adquiriram uma expressão de tristeza.
— Eu sei. Você vai fazer o que tiver que fazer. — Tirou as mãos dela de seus ombros e deu um beijo doce no punho, onde o sangue pulsava sob a pele. — E eu também.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!