20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e cinco

Jacin se sentia tomado pelo medo quando entrou na sala do trono. Os assentos reservados para os membros da corte estavam vazios. Só a rainha estava sentada no trono, com Aimery ao lado. Nem os guardas pessoais estavam com eles, o que queria dizer que, fosse qual fosse o assunto da reunião, Levana não queria que ninguém soubesse.
Cress, pensou ele. Ela sabia sobre Cress. Ele a estava escondendo em seus aposentos particulares, deixando-a em segurança como prometeu a Winter, mas sabia que não podia durar para sempre.
Como Levana descobriu?
Uma tela foi levada para o aposento, um netscreen grande de tela plana como os usados para a mídia bidimensional da Terra, só que aquele era mais elaborado do que qualquer outra coisa que Jacin tivesse visto na Terra. Estava apoiado em um cavalete com moldura de prata polida e rosas e espinhos envolvendo a tela como se fosse uma obra de arte. A rainha não poupava com nada, como sempre.
A rainha Levana e o taumaturgo Park estavam com expressões sombrias quando Jacin parou e bateu os calcanhares, tentando não pensar na última vez que esteve na mesma posição. Quando teve certeza de que seria morto e que Winter teria que ver.
— Chamou, minha rainha?
— Chamei — disse Levana, passando os dedos pelo braço do trono.
Ele prendeu a respiração, revirando o cérebro em busca de uma forma de poder explicar a presença de Cress sem incriminar Winter.
— Andei pensando muito sobre nosso pequeno dilema — disse a rainha. — Eu desejo depositar minha confiança em você de novo, como fiz quando você estava sob os cuidados de Sybil, mas ainda não consegui me convencer de que você serve a mim. Sua rainha. E não… — Ela balançou os dedos no ar, e seu belo rosto assumiu uma coisa parecida com um esgar. — Sua princesa.
Jacin contraiu o maxilar. Ele esperou. Esperou que ela o acusasse de abrigar uma traidora conhecida. Esperou que sua punição fosse declarada.
Mas a rainha também parecia estar esperando.
Por fim, ele baixou a cabeça.
— Com todo o respeito, Vossa Majestade, meu posicionamento como guarda da princesa Winter foi decisão sua. Não minha.
Ela lançou um olhar opressivo para ele.
— E como você pareceu chateado por isso. — Suspirando, Levana se levantou e andou para trás da cadeira de sempre de Winter. Ela passou os dedos pelo acolchoado. — Depois de muita deliberação, elaborei uma espécie de teste. Uma missão para provar sua lealdade de uma vez por todas. Acho que, com o fim dessa missão, não vai haver dúvida sobre colocar ou não você novamente a serviço do meu taumaturgo-chefe. Aimery está ansioso para ter suas habilidades sob o comando dele.
Os olhos de Aimery brilharam.
— Bastante.
Jacin franziu a testa, e lentamente lhe ocorreu que aquela reunião não tinha nada a ver com Cress.
Ele podia sentir alívio; mas, se não tinha a ver com Cress…
— Já falei com você sobre minha promessa ao meu marido, o pai de Winter — continuou Levana. — Falei para ele que eu protegeria a criança da melhor forma que pudesse. Todos esses anos, eu cumpri essa promessa. Cuidei dela e a criei como se fosse minha.
Embora tentasse, Jacin não conseguiu sufocar uma onda de rebelião contra essas palavras. Ela criou Winter como se fosse dela? Não. Ela torturava Winter fazendo-a ir a todos os julgamentos e execuções, apesar de todo mundo saber o quanto a princesa odiava. Ela deu a Winter a faca que desfigurou seu belo rosto. Debochava de Winter incessantemente por causa do que via como “fraquezas” mentais, sem ter ideia do quanto Winter tinha que ser forte para evitar a tentação de usar o glamour e de quanta força de vontade foi necessária para que ela o sufocasse ao longo dos anos.
Um sorriso sarcástico surgiu nos lábios vermelho-sangue de Levana.
— Você não gosta quando eu falo da sua querida princesa.
— Minha rainha pode falar de quem quiser.
A resposta foi automática e sem entonação. Não faria diferença tentar negar que ele gostava de Winter, não com todas as pessoas do palácio tendo testemunhado as estripulias de infância deles, as brincadeiras e as traquinagens.
Ele cresceu ao lado de Winter porque os pais deles eram muito próximos, apesar de ser impróprio para uma princesa ficar subindo em árvores e brincando de lutar de espada com o filho de um guarda humilde. Ele se lembrava de querer protegê-la já naquela época, bem antes de saber o quanto ela precisava de proteção. Também se lembrava de ter tentado roubar um beijo uma vez, só uma vez, quando tinha dez anos e ela, oito. Ela riu e se virou, repreendendo-o. Não seja bobo. Só podemos fazer isso quando formos casados.
Não, sua única defesa era fingir que não ligava por todo mundo saber. Que as provocações das pessoas não o incomodavam. Que, a cada vez que Levana mencionava a princesa, seu sangue não virava gelo. Que não morria de medo de Levana usar Winter contra ele.
Levana desceu da plataforma.
— Ela tem os melhores professores, as roupas mais elegantes, os animais mais exóticos. Quando me faz um pedido, eu me esforço para fazer o que ela pede.
Embora tenha feito uma pausa, Jacin achava que ela não estava esperando resposta.
— Apesar disso tudo, o lugar dela não é aqui. A mente dela é fraca demais para que ela seja útil, e a recusa dela de esconder aquelas cicatrizes horrendas a tornou motivo de risada na corte. Ela está debochando da coroa e da família real. — Ela firmou o queixo. — Só percebi o tamanho da desgraça dela recentemente. Aimery ofereceu a mão em casamento à garota. Eu não podia esperar par melhor para uma criança que não tem sangue real.
O tom dela ficou feroz, e Jacin a sentiu estudando-o novamente, mas já tinha recuperado o controle. Ela não obteria reação dele, nem sobre esse assunto.
— Mas, não — disse a rainha, por fim. — A criança recusa até essa proposta generosa. Por nenhum outro motivo, tenho certeza, além de rejeitar meu conselheiro mais valioso e trazer mais humilhação para esta corte. — Ela inclinou o queixo para cima. — E houve também o incidente em AR-2. Imagino que você se lembre?
A boca dele ficou amarga. Se não tivesse tomado tanto cuidado para esconder o medo crescente, teria falado um palavrão.
— Não? — Levana ronronou quando ele não disse nada. — Permita que eu reavive sua memória.
Ela deslizou os dedos pela superfície. A tela ganhou vida no meio da moldura elaborada, mostrando imagens de uma fileira de lojas simples. Ele se viu sorrindo para Winter. Cutucando-a com o ombro e deixando que ela o cutucasse também. Os olhos de um observando o outro, quando o outro não estava olhando.
O peito dele pareceu ficar vazio. Qualquer um via o que eles sentiam um pelo outro.
Jacin ficou olhando, mas não precisava. Ele se lembrava das crianças e da coroa de galhos feita à mão. Lembrava-se do quanto Winter tinha ficado linda quando a colocou na cabeça, despreocupada. Lembrava-se de ter arrancado da cabeça dela e colocado na cesta.
Ele teve esperança de que o incidente fosse passar despercebido.
Mas devia ter sabido. A esperança era a ferramenta do tolo.
Ele voltou a atenção para a rainha, mas ela estava olhando com desprezo para a imagem, com ódio no olhar. As entranhas dele deram um nó. Ela mencionou uma missão especial que provaria a lealdade dele, mas só falou de Winter e da vergonha que ela se tornou.
— Estou decepcionada com você, Sir Clay. — Levana se virou para ele. — Achei que podia confiar que você a manteria sob controle, que cuidaria para que ela não fizesse nada que fosse constranger a mim e à corte. Mas você falhou. Achou apropriado ela ficar andando pela cidade, brincando de ser rainha em frente a seus súditos leais?
Jacin se manteve firme, já se resignando à morte. Ela o levou ali para que ele fosse executado, afinal. Ele ficou agradecido de ela ter decidido poupar Winter de presenciar aquilo.
— Bem? Você não tem nada a dizer em sua defesa?
— Não, minha rainha — disse ele. — Mas espero que você me permita falar em defesa dela. As crianças deram a ela um presente em agradecimento por ter comprado algumas flores na floricultura. Elas ficaram confusas, não sabiam o que a coroa sugeria. A princesa não teve intenção nenhuma com isso.
— Confusas? — O olhar de Levana tornou-se rígido. — As crianças ficaram confusas? — Ela riu. — E quanta confusão devo tolerar? Devo ignorar o jeito doentio como as pessoas a idolatram? Que falam sobre a beleza e as cicatrizes dela como se fossem um distintivo de honra, quando não têm ideia do quanto ela é fraca! Da doença, das ilusões. Ela seria esmagada se algum dia se sentasse em um trono, mas elas não veem isso. Não, só pensam em si mesmas e na bela princesa, sem pensar por um segundo em tudo o que fiz para dar-lhes segurança e estrutura e… — Ela se virou, os ombros tremendo. — Devo esperar até colocarem uma coroa de verdade na cabeça dela?
Um horror subiu pelo peito de Jacin, e desta vez ele não conseguiu disfarçar.
Ela era psicótica.
Disso ele sabia, claro. Mas ele nunca tinha visto a vaidade e a ganância e a inveja a inflamarem assim. Ela se tornou irracional, e sua raiva estava direcionada a Winter.
Não… a Winter e Selene. Era esse o motivo de tudo. Havia uma garota que alegava ser a sobrinha perdida dela, e Levana se sentia ameaçada. Estava com medo de seu domínio do trono estar diminuindo e estava compensando com paranoia e um controle maior.
Jacin levou o punho ao peito.
— Minha rainha, garanto-lhe que a princesa não é ameaça à sua coroa.
— Você não se curvaria a ela? — perguntou Levana, se virando para olhá-lo com veneno no rosto. — Você, que a ama com tanta lealdade? Que é tão leal à família real?
Ele engoliu em seco.
— Ela não tem sangue real. Não pode ser rainha.
— Não. Ela nunca vai ser rainha. — Ela oscilou na direção de Jacin, que sentiu como se estivesse sendo envolvido por uma serpente, esmagado e sufocado. — Porque você é meu servo leal, como proclamou de forma tão veemente. E você vai matá-la.
A língua de Jacin ficou tão seca quanto pedra da lua.
— Não — sussurrou ele.
Levana ergueu uma das sobrancelhas.
— Quer dizer… minha rainha. — Ele limpou a garganta. — Você não pode… — Ele olhou para Aimery, que estava dando um meio sorriso, satisfeito com a decisão. — Por favor. Peça-a em casamento de novo. Vou falar com ela. Vou cuidar para que aceite. Ela ainda pode ser útil, é uma boa combinação. Ela só está nervosa…
— Você ousa me questionar? — perguntou Levana.
A pulsação dele trovejou.
— Por favor.
— Eu ofereci minha mão à princesa como gentileza — disse Aimery. — Para protegê-la das propostas de pretendentes bem menos solidários. A recusa dela demonstrou o quanto é ingrata. Eu não a aceitaria mais, nem se ela me implorasse.
Jacin trincou os dentes. Seu coração estava disparado agora, e ele não conseguia fazê-lo parar.
A rainha ficou suave, toda mel e açúcar. Ela estava perto dele. Perto o bastante para ele poder pegar a faca e cortar sua garganta.
Seu braço seria mais rápido do que os pensamentos dela? Seria mais rápido do que o de Aimery?
— Queridíssimo Sir Clay — disse ela, e ele se perguntou se ela detectou seu desespero. — Não pense que não estou ciente do que estou pedindo e do quanto vai ser difícil para você. Mas estou sendo misericordiosa. Sei que você vai ser rápido. Ela não vai sofrer nas suas mãos. Dessa forma, também vou cumprir minha promessa para o pai dela, você não vê?
Ela era louca. Completamente louca.
O pior de tudo era que ele achava que ela talvez acreditasse mesmo no que estava dizendo.
Seus dedos tremeram. Uma gota de suor escorreu pelo pescoço.
— Eu não posso — disse ele. — Não quero. Por favor… por favor, poupe-a. Tire o título dela. Transforme-a em criada. Ou exile-a para os setores externos, e não vai nunca mais ouvir falar dela, prometo…
Com um olhar fulminante, Levana se virou e suspirou.
— Quantas vidas você sacrificaria pela dela? — Ela andou até a tela. O vídeo estava pausado, mostrando as três crianças na porta da floricultura. — Você prefere que eu mande matar essas crianças?
O coração dele deu um pulo, tentando se libertar da caixa torácica.
— Ou que tal… — Ela se virou para ele e bateu com o dedo no canto da boca. — Seus pais? Se me lembro corretamente, Sir Garrison Clay foi transferido para um posto da guarda em um dos setores externos. Diga, quando foi a última vez que você falou com eles?
Ele apertou bem os lábios, com medo de que qualquer admissão fosse usada contra ele.
Não via e não falava com os pais havia anos. Assim como com Winter, ele tinha certeza de que a melhor forma de proteger seus entes queridos era fingindo que não os amava, para que nunca pudessem ser usados contra ele. Assim como Levana os estava usando.
Como ele pôde fracassar assim? Não podia proteger ninguém. Não podia salvar ninguém…
Ele sabia que seu rosto estava contorcido de pânico, mas não conseguia controlar. Queria cair de joelhos e implorar que ela mudasse de ideia. Faria qualquer coisa, qualquer coisa, menos isso.
— Se você recusar de novo — disse Levana —, vai ficar claro que sua lealdade é falsa. Você será executado por traição e depois seus pais. Em seguida, vou mandar Jerrico cuidar da princesa, e acho que ele não vai ser tão delicado com ela quanto você seria.
Jacin engoliu a infelicidade. Não adiantaria de nada.
A ideia de Jerrico, o capitão da guarda arrogante e brutal, recebendo aquela ordem fez seu sangue gelar.
— Você fará essa tarefa para mim, Sir Clay?
Ele inclinou a cabeça para esconder o desespero, embora a demonstração de respeito quase o tenha matado.
— Farei. Minha rainha.

3 comentários:

  1. Muito FDP mesmo, essa Levana... Queria que ela pegasse letumose e morresse! Sangrando pelos olhos, pela boca, por tudo quanto é lugar. Ia ser lindo!

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    1. Meu sonho. Morrer pela doença que ela lançou na terra. Melhor até do que pelas mãos de Cinder.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!