3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e Cinco

KAI RECEBEU DOIS COMUNICADOS ENTRE O MOMENTO EM que saíram do elevador e que chegaram ao escritório do dr. Erland — Cinder sabia porque podia ouvir o som vindo do cinto dele —, mas não os respondeu. Insistiu em ajudá-la a percorrer o corredor, apesar de seus protestos de que podia andar por si só e dos olhares curiosos de todos que passavam por eles. Olhares curiosos não pareciam incomodar o príncipe como a ela.
Ele não bateu à porta quando chegaram ao escritório, e o dr. Erland, vendo que tinham entrado sem se anunciar, não pareceu surpreso ao ver o príncipe.
— Aconteceu de novo — disse Kai. — O desmaio dela, seja lá o que isso for.
Os olhos azuis do dr. Erland se voltaram para Cinder.
— Já passou — disse ela. — Estou bem.
— Você não está bem — argumentou Kai. — O que causa isso? O que podemos fazer para impedir que isso aconteça de novo?
— Vou dar uma olhada nela — disse o dr. Erland. — Veremos o que pode ser feito para evitar que isso aconteça de novo.
Kai pareceu considerar essa uma resposta aceitável, mas apenas um pouco.
— Se você precisar de verbas para fazer a pesquisa… ou de um equipamento especial, ou qualquer coisa.
— Não vamos precipitar as coisas — disse o doutor. — Ela provavelmente só precisa de outro ajuste.
Cinder cerrou os dentes quando o detector de mentiras piscou para ela. Ele estava mentindo para o príncipe de novo. Estava mentindo para ela. Mas Kai não se opôs, não questionou. Ele respirou fundo e encarou Cinder. A expressão a deixou desconfortável — o olhar que sugeria que ela era uma boneca chinesa, facilmente quebrável.
E talvez um sinal de desapontamento estivesse por trás de tudo.
— É sério, estou bem.
Ela podia ver que ele não estava convencido, mas não tinha como argumentar. O comunicador dele soou de novo. Kai finalmente olhou para o aparelho, em seguida fechou a cara e o desligou.
— Preciso ir.
— É óbvio.
— O primeiro-ministro da África convocou uma reunião dos líderes mundiais. Muito chato e político. Meu conselheiro está prestes a ter um colapso.
Ela ergueu as sobrancelhas de uma forma que esperava convencê-lo do quanto estava tranquila com o fato de ele a deixar. Afinal, ele era um príncipe. Os mais poderosos homens e mulheres da Terra o haviam convocado. Ela entendia.
E ainda assim ele estava lá, com ela.
— Estou bem — disse Cinder. — Vá embora.
A preocupação nos olhos dele se suavizou. Ele se virou na direção do dr. Erland, tirou algo do bolso e colocou-o na mão do doutor.
— Eu também vim para lhe trazer isso.
O dr. Erland pôs os óculos e segurou o frasco de vidro contra a luz. Estava cheio de um líquido claro.
— E isso é?
— Um presente da rainha Levana. Ela declara ser um antídoto para a letumose.
O coração de Cinder disparou. Todo o foco de seu olhar estava no frasco.
Um antídoto?
Peony.
O dr. Erland ficou pálido, os olhos arregalados por trás dos óculos.
— É mesmo?
— Pode ser um truque. Eu não sei. Supostamente, é uma dose, o suficiente para um homem adulto.
— Entendo.
— Você acha que pode duplicá-lo? Se for mesmo um remédio?
Os lábios do dr. Erland se apertaram em uma linha fina. Ele baixou o frasco.
— Isso depende de muitas coisas, Vossa Alteza — respondeu ele, depois de uma longa pausa. — Mas farei o melhor possível.
— Obrigado. Me avise assim que descobrir alguma coisa.
— É claro.
A testa de Kai relaxou com alívio. Ele se virou para Cinder.
— E você me avisará se qualquer coisa…
— Sim.
— … mudar sua ideia quanto ao baile?
Cinder pressionou os lábios.
O sorriso de Kai mal alcançava seus olhos. Com uma reverência breve para o doutor, ele se foi. Cinder tornou a olhar para o frasco, seguro pelo punho do doutor. Um desejo a percorreu. Mas então ela viu que as articulações dele estavam pálidas, e levantou os olhos, percebendo-se alvo de um olhar tempestuoso.
— O que você acha que está fazendo aqui? — perguntou ele, plantando a mão livre na mesa. Ela o encarou, surpresa com a sua veemência. — Você não compreende que a rainha Levana está aqui, agora, neste palácio? Não entendeu quando eu lhe avisei para ficar longe daqui?
— Eu tive que entregar o androide do príncipe. Faz parte do meu trabalho.
— Você está falando de subsistência. Eu estou falando de sobrevivência. Você não está segura aqui!
— Para sua informação, aquele androide pode ser uma questão de sobrevivência. — Ela cerrou os dentes, impedindo-se de dizer mais. Com um suspiro pesado, tirou as mãos das luvas sufocantes e as enfiou no bolso. — Está certo, desculpe, mas agora estou aqui.
— Você tem que ir. Agora. E se ela pedir para visitar os laboratórios?
— Por que a rainha se importaria com os laboratórios? — Ela tomou o assento em frente ao do dr. Erland. Ele continuou de pé. — Além disso, é tarde demais. A rainha já me viu.
Ela esperava que o doutor explodisse com a declaração, mas em vez disso sua cara fechada foi logo substituída por uma expressão de horror. Suas sobrancelhas espessas se juntaram sob o chapéu. Lentamente, ele afundou na cadeira.
— Ela viu você? Tem certeza?
Cinder assentiu.
— Eu estava no jardim quando os protestos aconteceram. A rainha Levana apareceu em uma das varandas superiores e… fez alguma coisa. Com a multidão. Lavagem cerebral ou encanto ou seja lá como for chamado. Todos se acalmaram e pararam de protestar. Foi tão horripilante. Como se todos tivessem, de uma hora para outra, esquecido por que estavam ali, por que a odiavam. E depois simplesmente foram embora.
— Isso mesmo. — O dr. Erland pousou o frasco na mesa. — De repente fica muito claro como ela consegue impedir que o próprio povo se rebele contra seu reinado, não fica?
Cinder se inclinou para a frente, batendo na mesa com os dedos de metal.
— Mas o problema é o seguinte. Você disse antes que os cascudos não são afetados pelo encanto lunar, não disse? Foi por isso que ela mandou que eles, quero dizer, nós fôssemos mortos?
— Certo.
— Mas o encanto me afetou. Eu confiei nela, tanto quanto em qualquer um. Pelo menos, até que a minha programação entrasse em cena e tomasse o controle. — Ela o observou enquanto o dr. Erland tirava o boné, ajustava a aba e o colocava de novo sobre seu macio cabelo grisalho. — Isso não deveria ter acontecido, não é? Porque sou uma cascuda.
— Não — respondeu ele, sem muita convicção. — Isso não deveria ter acontecido.
Ele se levantou da cadeira e ficou olhando pelas janelas que iam do chão ao teto.
Um impulso de esticar a mão e pegar o frasco da mesa se avolumou na ponta de seus dedos, mas Cinder se conteve. O antídoto — se aquilo era mesmo um antídoto — era importante para todos.
Engolindo em seco, ela se inclinou para trás.
— Doutor? Você não parece muito surpreso.
Ele ergueu a mão e deu tapinhas na boca com dois dedos antes de se virar lentamente para ela.
— Talvez eu tenha interpretado mal seu diagnóstico.
Mentira.
Ela esfregou as mãos no colo.
— Ou então você simplesmente não me disse a verdade.
As sobrancelhas dele se uniram, mas ele não negou.
Cinder torceu os dedos.
— Então eu não sou lunar?
— Não, não. Você é definitivamente lunar.
Verdade.
Ela afundou na cadeira, desapontada.
— Estive pesquisando sobre sua família, srta. Linh. — Ele deve ter visto os olhos dela se iluminarem, porque rapidamente ergueu as mãos. — Quero dizer, sua família adotiva. Você está ciente de que seu falecido guardião, Linh Garan, desenvolvia sistemas para androides?
— Hum. — Cinder pensou nas placas e prêmios na cornija da lareira da sala de estar de Adri. — Isso me soa meio familiar.
— Bem. No ano anterior a sua cirurgia, ele lançou uma invenção na Feira de Ciências de Nova Pequim. Um protótipo a que chamou de sistema de segurança bioelétrico.
Cinder ficou olhando para ele.
— Um o quê?
De pé, o dr. Erland mexeu no netscreen até que uma holografia familiar surgisse diante deles. Ele aumentou a representação do pescoço de Cinder, exibindo o pequeno ponto preto na parte de cima de sua coluna.
— Isso.
Cinder esticou a mão para tocar sua nuca, massageando-a.
— É um dispositivo que se liga ao sistema nervoso de uma pessoa. Tem dois propósitos: em um terráqueo, evita a manipulação externa de sua própria bioeletricidade. Essencialmente, torna a pessoa imune ao controle lunar. Por outro lado, quando instalado em um lunar, impede que ele manipule a bioeletricidade dos outros. É como instalar uma trava no encanto lunar de alguém.
Cinder sacudiu a cabeça, ainda coçando a nuca.
— Uma trava? Na magia? Isso é possível?
O dr. Erland ergueu um dedo para ela.
— Não é magia. Chamar isso de magia apenas confere mais poder a eles.
— Tudo bem. Seja lá o que for bioelétrico. Isso é possível?
— Evidentemente. O dom lunar é a capacidade de usar o cérebro para emitir e controlar energia eletromagnética. Bloquear essa capacidade demandaria alteração do sistema nervoso quando ele entra no tronco cerebral, e fazer isso enquanto ainda permite movimento total e sensações seria… É bem impressionante. Engenhoso, de fato.
De boca aberta, Cinder seguiu o doutor com o olhar enquanto ele se sentava de novo.
— Ele estaria rico.
— Se ele tivesse sobrevivido, talvez estivesse. — O doutor desligou o netscreen. — Quando ele lançou a invenção na feira, o protótipo ainda não tinha sido testado, e seus contemporâneos estavam céticos, e com razão. Ele primeiro precisava testá-lo.
— E para isso ele precisava de um lunar.
— Para que tudo ocorresse da forma ideal, ele precisava de um lunar e um terráqueo para cobaias, a fim de testar os dois resultados separadamente. Se ele encontrou uma cobaia terráquea, não faço a menor ideia, mas claramente achou você, e instalou a invenção como uma forma de impedir que você usasse seu dom. Isso explica por que você não usou seu dom desde a operação.
Ela balançou os pés, inquieta.
— Você não interpretou mal meu diagnóstico. Você sabia disso desde o começo. Desde o momento em que entrou neste laboratório, sabia que eu era uma lunar e que tinha essa trava louca e… você sabia.
O dr. Erland apertou as mãos. Pela primeira vez, Cinder notou um anel de ouro no dedo dele.
— O que você fez comigo? — perguntou ela, fincando os pés e se levantando. — Quando me tocou e doeu tanto que eu desmaiei, e hoje de novo. O que está causando isso? O que está acontecendo comigo?
— Acalme-se, srta. Linh.
— Por quê? Para que você possa mentir um pouco mais para mim, como mente para o príncipe?
— Se eu menti, foi apenas para proteger você.
— Me proteger do quê?
O dr. Erland abriu os dedos.
— Entendo que você esteja confusa…
— Não, você não entende nada! Há uma semana, eu sabia exatamente quem eu era, o que eu era, e talvez fosse um ciborgue sem valor algum, mas pelo menos eu sabia disso. E agora… agora sou uma lunar, uma lunar que supostamente tem magia mas não pode usá-la, e agora tem essa rainha louca que, por alguma razão, quer me matar.
NÍVEIS DE ADRENALINA ACENTUADOS, alertou o painel de controle dela.
PROVIDÊNCIA RECOMENDADA: DESACELERAR E CONTROLAR A RESPIRAÇÃO.
CONTANDO 1, 2, 3…
— Por favor, se acalme, srta. Linh. Na verdade, é muito bom que você tenha sido selecionada para receber essa trava.
— Tenho certeza de que você tem razão. Eu simplesmente amo ser tratada como cobaia, sabia?
— Goste ou não, a trava tem sido benéfica para você.
— Como?
— Se você parasse de gritar, eu diria.
Ela mordeu o lábio e sentiu a respiração se estabilizando contra sua vontade.
— Tudo bem, mas me diga a verdade dessa vez. — Cruzando os braços, ela se reclinou na cadeira.
— Às vezes você é um pouco irritante, srta. Linh. — O dr. Erland suspirou, coçando a têmpora. — Veja, manipular bioeletricidade é algo tão natural para os lunares que é praticamente impossível evitar, especialmente em uma idade tão jovem. Deixada à própria sorte, você teria chamado muita atenção para si mesma. Seria como tatuar “lunar” na sua testa. E mesmo que você conseguisse controlar isso, o dom é uma parte tão fundamental de nossa constituição interna que sufocá-lo poderia gerar efeitos colaterais psicológicos devastadores: alucinações, depressão… até mesmo loucura. — Ele uniu as pontas dos dedos. Esperou. — Então veja, instalar uma trava no seu dom protegeu você, de várias formas, de si mesma.
Cinder o encarou, os olhos fixos.
— Você entende como isso foi mutuamente benéfico? — continuou o doutor. — Linh Garan teve sua cobaia, e você foi capaz de se misturar aos terráqueos sem enlouquecer.
Cinder lentamente se inclinou para a frente.
— Nossa?
— Perdão?
— Nossa. Você disse que “o dom é uma parte fundamental de nossa constituição interna”.
O doutor se endireitou, ajustando as lapelas do jaleco.
— Ah. Eu disse?
— Você é lunar.
Ele tirou o chapéu e o arremessou na mesa. Parecia menor sem ele. Mais velho.
— Não minta pra mim.
— Eu não ia mentir, srta. Linh. Estava apenas tentando pensar em um jeito de explicar isso de um modo que faça você me olhar de uma maneira menos acusatória.
Fechando a boca, Cinder se levantou da cadeira novamente e se afastou da mesa. Ela o encarou de forma dura, como se realmente fosse aparecer uma tatuagem de “lunar” em sua testa.
— Como posso acreditar em qualquer coisa que você já disse? Como posso saber se não está fazendo uma lavagem cerebral em mim agora?
Ele deu de ombros.
— Se eu andasse por aí encantando pessoas o dia todo, pelo menos faria com que me vissem mais alto, você não acha?
Ela franziu o cenho, ignorando-o. Estava pensando na rainha à varanda, como seus dispositivos opticobiônicos a alertaram sobre uma mentira, mesmo quando nada havia sido dito. De alguma forma, o cérebro dela era capaz de diferenciar a realidade da ilusão, ainda que seus olhos não conseguissem.
Semicerrando os olhos, ela projetou um dedo acusador para o doutor.
— Você usou seu controle mental em mim. Quando nos conhecemos. Você… você fez uma lavagem cerebral em mim. Igualzinho à rainha. Me fez confiar em você.
— Seja justa. Você estava prestes a me atacar com uma chave de fenda.
A raiva dela oscilou.
O dr. Erland estendeu as palmas das mãos para ela.
— Eu lhe asseguro, srta. Linh, que nos vinte anos em que estive na Terra, não fiz mau uso do meu dom nenhuma vez sequer, e estou pagando o preço por essa decisão todos os dias. Minha estabilidade mental, minha saúde psicológica, meus sentidos estão falhando porque eu me recuso a manipular os pensamentos e sentimentos dos que estão a minha volta. Nem todos os lunares são confiáveis, e sei disso tão bem quanto qualquer outra pessoa, mas você pode confiar em mim.
Cinder engoliu em seco e se apoiou no encosto da cadeira.
— Kai sabe?
— É claro que não. Ninguém pode saber.
— Mas você trabalha no palácio. Vê Kai o tempo todo. E o imperador Rikan!
Um brilho de irritação atravessou os olhos azuis do dr. Erland.
— Sim, e por que isso deveria aborrecer você?
— Porque você é lunar!
— Assim como você. Eu deveria pensar que a segurança do príncipe está ameaçada porque ele a convidou para o baile?
— Isso é diferente!
— Não seja tola, srta. Linh. Eu entendo os preconceitos. De muitas formas, eles são compreensíveis, até mesmo justificáveis, dado o histórico da Terra com Luna. Mas isso não significa que somos todos demônios egoístas e gananciosos. Acredite em mim: não há neste planeta uma pessoa que gostaria mais de ver Levana longe do trono do que eu. Eu mesmo poderia matá-la se tivesse poder para isso. — O rosto do médico ficou vermelho como cereja, seus olhos flamejando.
— Tudo bem. — Cinder apertou a almofada da cadeira até sentir o aço de seus dedos furar o material. — Eu posso aceitar isso. Nem todos os lunares são demônios, e nem todos os lunares são tão facilmente convencidos a seguir Levana. Mas mesmo dentre aqueles que desejam desafiá-la, quantos arriscam a vida para fugir? — Ela parou, olhando para o doutor. — Então, por que você fugiu?
O dr. Erland se moveu como se fosse se levantar, mas, depois de hesitar, seus ombros caíram, murchos.
— Ela matou minha filha.
Verdade.
Cinder recuou.
— A pior parte é que, se fosse qualquer outra criança, eu acharia certo — continuou o doutor.
— O quê? Por quê?
— Porque ela era uma cascuda. — Ele pegou o boné da mesa e o analisou enquanto falava, seus dedos traçando o padrão espinha de peixe do tecido. — Eu concordava com as leis no passado, pensava que os cascudos eram perigosos. Que nossa sociedade ruiria se permitíssemos que eles vivessem. Mas não a minha garotinha. — Um sorriso irônico torceu seus lábios. — Depois que ela nasceu, eu quis fugir, trazê-la para a Terra, mas minha esposa era mais devota à Sua Majestade do que eu. Ela não queria ter nenhum tipo de ligação com aquela criança. E então minha pequena Lua Crescente foi levada embora, como todos os outros. — Ele colocou o chapéu de volta na cabeça e semicerrou os olhos para Cinder. — Ela teria sua idade agora.
Cinder girou na cadeira e se ajeitou na ponta do assento.
— Sinto muito.
— Foi há muito tempo. Mas preciso que você entenda, srta. Linh, pelo que alguém passou para trazer você para cá. Ir tão longe a ponto de esconder seu dom lunar, para proteger você.
Cinder cruzou os braços, encolhendo-se.
— Mas por que eu? Eu não sou cascuda. Não corria perigo algum. Isso não faz sentido.
— Fará, prometo. Escute atentamente, mesmo que isso seja um pouco chocante para você.
— Chocante? Você quer dizer que tudo que veio antes era só o começo?
Os olhos dele se suavizaram.
— Seu dom está voltando, srta. Linh. Eu consegui manipular sua bioeletricidade para controlar temporariamente o protótipo de Linh Garan. Foi o que fiz no primeiro dia em que você esteve aqui, quando perdeu a consciência, e a trava de seu dom foi danificada de forma irreparável por causa disso. Com a prática, você será capaz de lidar com as falhas sozinha, até que controle totalmente seu dom de novo. Entendo que é doloroso quando acontece tão rápido quanto hoje, mas essas situações devem ser raras, apenas em momentos de extrema perturbação emocional. Você pode pensar em qualquer coisa que tenha servido de gatilho para isso hoje mais cedo?
O estômago de Cinder se revirou, relembrando a proximidade com Kai no elevador. Ela limpou a garganta.
— O que você está dizendo é que eu estou me tornando lunar de fato? Magia e tudo mais?
O dr. Erland crispou os lábios, mas não a corrigiu de novo.
— Sim. Vai levar algum tempo, mas você terá o dom pleno com que nasceu. — Ele girou os dedos no ar. — Você quer tentar usá-lo agora? Pode ser que consiga, não tenho certeza.
Cinder imaginou uma faísca em sua fiação, algo estalando na base da coluna. Ela sabia que provavelmente era coisa de sua cabeça, pânico autoinduzido, mas não conseguia ter certeza. Como se sentia sendo lunar? Tendo esse tipo de poder?
Ela balançou a cabeça.
— Não, tudo bem. Não estou preparada para isso.
Um sorriso estreito se alongou pelos lábios do doutor, como se ele estivesse um pouco desapontado.
— É claro. Quando você estiver pronta.
Envolvendo sua própria cintura com os braços, ela respirou tremulamente.
— Doutor?
— Sim?
— Você é imune à letumose, como eu?
O dr. Erland a encarou, sem piscar.
— Sim, sou.
— Então por que não usou suas próprias amostras de sangue para encontrar a cura? Tanta gente morreu… E as experiências com ciborgues…
As rugas no rosto dele se suavizaram.
— Eu usei, srta. Linh. De onde você acha que vieram os vinte e sete antídotos pelos quais já passamos?
— E nenhum deles funcionou. — Ela enfiou os pés embaixo da cadeira, sentindo-se pequena. Insignificante, de novo. — Então a minha imunidade não é o milagre que você fez parecer. — Os olhos dela pousaram no frasco. O antídoto da rainha.
— Srta. Linh.
Encontrando o olhar do doutor, Cinder viu um lampejo. Uma excitação mal contida, como na primeira vez em que eles se encontraram.
— Você é o milagre pelo qual eu procurava — disse ele. — Mas você está certa. Não é por causa de sua imunidade.
Cinder o encarou, esperando que ele explicasse. O que mais poderia ser tão especial nela? Será que ele estivera procurando pelo genial dispositivo de trava da magia, o protótipo de Linh Garan?
O comunicado interno dela apitou com uma nova mensagem antes que ele pudesse continuar. Ela se sobressaltou, desviando-se do doutor enquanto um texto verde rolava por seu visor.

COMUNICADO RECEBIDO DO DISTRITO 29 DE NOVA PEQUIM, QUARENTENA DE LETUMOSE. LINH PEONY ENTROU NO QUARTO ESTÁGIO DA LETUMOSE ÀS 17H24M, EM 18 DE AGOSTO, 126 DA TERCEIRA ERA.

— Srta. Linh?
Os dedos dela estremeceram.
— Minha irmã entrou no quarto estágio. — O olhar dela recaiu no frasco em cima da mesa do dr. Erland.
Ele seguiu o olhar.
— Entendo — respondeu ele. — O quarto estágio avança muito rápido. Não há tempo a perder. — Inclinando-se para a frente, ele pegou o frasco. — Promessa é promessa.
— Mas você não precisa disso? Para duplicar?
De pé, o doutor andou até a estante de livros e pegou um copo à sua frente.
— Quantos anos ela tem?
— Quatorze.
— Então acho que isso será o suficiente. — Ele pingou um quarto do antídoto no copo. Fechando o frasco, ele se virou para Cinder. — Você está ciente de que isso veio da rainha Levana. Não sei qual poderia ser o plano dela, mas sei que não será para o bem da Terra. Isso pode muito bem ser um truque.
— Minha irmã já está morrendo.
Ele assentiu e ofereceu o frasco a ela.
— Foi o que pensei.
Cinder se levantou, pegou o frasco e aninhou-o na palma da mão.
— Tem certeza?
— Tenho uma condição, srta. Linh.
Engolindo em seco, ela segurou o frasco junto ao peito.
— Você deve me prometer que não chegará nem perto deste palácio enquanto a rainha Levana estiver aqui.

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