7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Um


SCARLET ESTAVA POUSANDO NO BECO ATRÁS DA TAVERNA RIEUX quando seu tablet apitou no banco do carona e uma voz automatizada soou em seguida: Comunicado para mademoiselle Scarlet Benoit do Departamento de Pessoas Desaparecidas da Polícia de Toulouse.
Com o coração disparado, ela desviou a nave bem a tempo de evitar que o boreste raspasse na parede de pedra e, então, manteve o freio pressionado até que parasse completamente. Scarlet desligou o motor ao mesmo tempo que pegava o tablet largado de lado. A pálida luz azul se refletiu nos controles do cockpit.
Tinham encontrado alguma coisa.
A polícia de Toulouse devia ter encontrado alguma coisa.
— Aceito! — gritou ela, praticamente esmagando o tablet com os dedos.
Ela esperava uma mensagem de vídeo do detetive encarregado do caso da avó, mas só recebeu um arquivo de texto sem sentido.

28 AGO 126 T.E.
RE: ID CASO #AIG00155819, ARQ. 11 AGO 126 T.E.
ESTE COMUNICADO É PARA INFORMAR SCARLET BENOIT, DE RIEUX, FRANÇA, FEDERAÇÃO EUROPEIA, DE QUE, ÀS 15H42 DO DIA 28 DE AGOSTO DE 126, O CASO DE DESAPARECIMENTO DE MICHELLE BENOIT, DE RIEUX, FRANÇA, FEDERAÇÃO EUROPEIA, FOI ARQUIVADO DEVIDO À FALTA DE PROVAS SUFICIENTES DE VIOLÊNCIA OU DELITO NÃO ESPECÍFICO. CONJECTURA: PESSOA(S) FOI(RAM) EMBORA POR VONTADE PRÓPRIA E/OU SUICÍDIO. CASO ENCERRADO.
AGRADECEMOS O APOIO À NOSSA INVESTIGAÇÃO.

A mensagem veio seguida de um vídeo corporativo da polícia lembrando a todos os pilotos de naves de entrega que tomassem cuidado e usassem os equipamentos de segurança enquanto os motores permanecessem ligados.
Scarlet ficou olhando para a telinha até as palavras virarem uma mancha em preto e branco e o piso da nave quase sumir debaixo de seus pés. O painel de plástico atrás da tela estalou com a força do aperto de suas mãos.
— Idiotas — sibilou na nave vazia.
Em resposta as palavras CASO ENCERRADO riram dela.
Ela soltou um berro gutural e atirou o tablet contra o painel de controle da nave, torcendo para quebrá-lo em pedaços de plástico, metal e fios. Depois de três golpes fortes, a tela só tremeu com uma leve irritação.
Seus idiotas!
Ela arremessou o tablet no piso em frente ao banco do carona e se recostou, puxando com os dedos os fios de seu cabelo cacheado.
O cinto de segurança apertou seu peito, estrangulando-a de repente. Na mesma hora, ela soltou a fivela, empurrou e abriu a porta, por pouco não caiu no beco sombrio. O cheiro de gordura e uísque da taverna quase a sufocou quando ela respirou fundo, tentando encontrar a razão em meio a tamanha fúria.
Iria até a delegacia de polícia. Mas agora estava tarde demais. Amanhã então. Logo de manhã. Estaria calma e racional, e explicaria por que as suposições deles estavam erradas. Faria com que reabrissem o caso.
Scarlet passou o pulso pelo escâner ao lado da porta traseira da nave e a abriu com mais força do que o sistema hidráulico permitia.
Diria ao detetive que ele tinha que continuar a busca. Faria com que ele ouvisse. Faria com que ele entendesse que a avó não tinha ido embora por vontade própria e que certamente não tinha se matado.
Havia seis engradados de plástico, cheios de legumes e verduras, amontoados na parte de trás da nave, mas Scarlet nem os notou. Estava a quilômetros de distância, em Toulouse, planejando a conversa em pensamento. Procurando cada última possibilidade de persuasão, cada pedacinho de poder de argumentação que lhe restava.
Alguma coisa tinha acontecido com sua avó. Alguma coisa estava errada, e se a polícia não continuasse investigando, Scarlet levaria o caso aos tribunais e cuidaria para que cada um daqueles detetives cabeça-oca fosse cassado e jamais pudesse voltar a trabalhar e...
Ela agarrou em cada mão um tomate, girou e os atirou contra a parede de pedra. Os tomates explodiram e espalharam suco e sementes em cima das pilhas de lixo que aguardavam a vez de serem colocadas no compactador.
A sensação foi boa. Scarlet pegou outro, imaginando as dúvidas do detetive quando ela tentasse explicar a ele que sumir não era um comportamento comum de sua avó. Imaginou os tomates explodindo naquela fuça arrogante...
Uma porta se abriu na hora em que o quarto tomate foi destruído. Scarlet ficou paralisada, pois já estava a caminho de pegar outro quando o dono da taverna se apoiou no batente da porta.
O rosto estreito de Gilles brilhava enquanto ele avaliava a sujeira úmida e avermelhada que Scarlet tinha feito na parede do prédio.
— É melhor não serem os meus tomates.
Ela afastou a mão do engradado e a limpou na calça jeans manchada e suja. Conseguia sentir o calor que emanava de seu rosto, o batimento errático do coração.
Gilles secou o suor da cabeça quase careca e a olhou com raiva, sua expressão padrão.
— E aí?
— Não eram seus — murmurou ela. E era verdade. Tecnicamente, os tomates eram dela até que ele pagasse.
Ele resmungou.
— Então vou descontar apenas três univs pela limpeza dessa sujeira. Agora, se você acabou com o tiro ao alvo, talvez possa se dignar a trazer parte deles aqui pra dentro. Estou servindo alface murcha há dois dias.
Ele voltou para o restaurante e deixou a porta aberta. O barulho de pratos e gargalhadas se espalhou pelo beco, bizarro em sua normalidade.
O mundo ao redor de Scarlet estava despencando e ninguém ligava. A avó estava desaparecida e ninguém se importava.
Ela virou para o compartimento de carga e pegou pelas beiradas o engradado de tomates, esperando que o coração parasse de saltar dentro do peito. As palavras do comunicado ainda bombardeavam seus pensamentos, mas começavam a perder força. A primeira onda de agressão começou a apodrecer junto com os tomates destruídos.
Quando conseguiu respirar sem os pulmões entrarem em convulsão, ela colocou o engradado em cima de outro, de batatas russet, e os tirou da nave.
Os cozinheiros ignoraram Scarlet conforme ela desviava das frigideiras fumegantes e seguia em direção à gélida despensa. Ela colocou os produtos nas prateleiras que tinham sido rotuladas à caneta, apagadas e rotuladas de novo mais de dez vezes ao longo dos anos.
Bonjour, Scarlinda!
Scarlet virou enquanto tirava o cabelo do pescoço suado.
Émilie sorria na porta. Os olhos brilhavam com a promessa de um segredo. Mas recuou quando viu a expressão de Scarlet.
— O quê...?
— Não quero falar sobre isso. — Ela se esquivou da garçonete e seguiu pela cozinha, mas Émilie fez um muxoxo e, saltitante, foi atrás.
— Então não fale. Só estou feliz de você estar aqui — disse ela, segurando o cotovelo de Scarlet e seguindo com ela para o beco. — Porque ele voltou. — Apesar dos cachos louros angelicais que cercavam o rosto de Émilie, o sorriso sugeria pensamentos diabólicos.
Scarlet se afastou, pegou um engradado de chirívia e rabanetes e entregou para a garçonete. E não respondeu, incapaz de ligar para quem ele era e por que importava o fato de ter voltado.
— Que ótimo — disse Scarlet, enchendo uma cesta de cebolas-rosas.
— Você não lembra, né? Vamos lá, Scar, o lutador de rua sobre quem te contei outro... Ah, talvez tenha sido pra Sophia.
— Lutador de rua? — Scarlet apertou os olhos quando uma dor de cabeça começou a latejar em sua testa. — Jura, Ém?
— Não fala assim. Ele é fofo! E veio aqui quase todos os dias desta semana e sempre senta na minha área, o que certamente quer dizer alguma coisa, não acha? — Como Scarlet não disse nada, a garçonete colocou a cesta no chão e pegou um pacote de chicletes no bolso do avental. — Ele é sempre tranquilo, não é como Roland e o grupo dele. Acho que é tímido... e solitário. — Colocou um chiclete na boca e ofereceu outro a Scarlet.
— Um lutador de rua que parece tímido? — Scarlet recusou o chiclete com um gesto. — Ouviu o que você acabou de dizer?
— Você precisa vê-lo para entender. Ele tem uns olhos que... — Émilie abanou o rosto como se estivesse com calor.
— Émilie! — Gilles apareceu na porta de novo. — Pare de blá-blá-blá e venha para cá. A mesa quatro precisa de você. — Ele lançou um olhar irritado para Scarlet, um aviso silencioso de que descontaria mais univs do pagamento dela se não parasse de perturbar os funcionários, depois entrou sem esperar resposta. Émilie mostrou a língua na direção em que o chefe estivera um momento antes.
Scarlet apoiou a cesta de cebolas no quadril, fechou a porta do compartimento de carga e passou pela garçonete.
— A mesa quatro é a dele?
— Não, ele está na nove — murmurou Émilie, pegando a cesta. Ao passarem pela cozinha quente, Émilie ofegou. — Ah, sou tão idiota! Pensei em te mandar uma mensagem pra perguntar sobre a sua grand-mère a semana toda. Teve alguma notícia?
Scarlet cerrou os dentes, e as palavras do comunicado vibraram como cornetas em sua mente. Caso encerrado.
— Nada de novo — respondeu ela, depois deixou que a conversa se perdesse no caos dos cozinheiros gritando uns com os outros.
Émilie a seguiu até a despensa e descarregou a cesta. Scarlet se ocupou com a rearrumação dos engradados para evitar que a garçonete dissesse algo otimista. Antes de voltar para o interior da taverna, Émilie disse o esperado:
— Tente não se preocupar, Scar. Ela vai voltar.
O maxilar de Scarlet estava começando a doer de tanto que ela trincava os dentes. Todo mundo falava do desaparecimento da avó como se ela fosse um gato de rua que voltaria para casa quando sentisse fome. Não se preocupe. Ela vai voltar.
Mas tinha sumido havia mais de duas semanas. Desapareceu sem deixar mensagem, sem se despedir, sem avisar. Até perdeu o décimo oitavo aniversário de Scarlet, embora tivesse comprado na semana anterior os ingredientes para fazer o bolo de limão favorito da neta.
Nenhum dos trabalhadores da fazenda a viu ir embora. Nenhum dos androides trabalhadores registrou nada de suspeito. O tablet dela ficara em casa, mas não ofereceu pistas nas mensagens arquivadas, na agenda ou no histórico de rede. A partida dela sem o dispositivo era suspeita o bastante. Ninguém ia a lugar nenhum sem seu tablet.
Mas o pior não foi nem o tablet abandonado, nem o bolo a fazer.
Scarlet tinha encontrado o chip de identificação da avó.
O chip de identificação. Enrolado em gaze, com manchas vermelho-sangue e deixado como um pacotinho sobre a bancada da cozinha.
O detetive disse que era o que as pessoas faziam quando fugiam e não queriam ser encontradas: arrancavam seus chips de identificação. Ele falou como se tivesse solucionado o mistério, mas Scarlet concluiu que a maioria dos sequestradores provavelmente também conhecia aquele truque.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!