20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Um


Os dedos dos pés de Winter tinham virado cubos de gelo. Estavam frios como o espaço. Frios como o lado escuro de Luna. Frios como…
— … imagens de segurança o capturaram entrando no ar-condicionado central dos subníveis da clínica médica às vinte e três horas U.T.C…
O taumaturgo Aimery Park falava com cadência serena e calculada, como uma balada. Era fácil perder o fio da meada do que ele estava dizendo, fácil deixar todas as palavras se misturarem e confundirem. Winter encolheu os dedos dos pés nos sapatos de solas finas, com medo de que, se ficassem ainda mais frios antes do fim do julgamento, eles fossem cair.
— … estava tentando interferir com um dos cascudos atualmente guardado…
Cair. Um por um.
— … registros indicam que o menino cascudo é filho do acusado, levado no dia 29 de julho do ano passado. Ele tem quinze meses de idade hoje.
Winter escondeu as mãos nas dobras do vestido. Estavam tremendo de novo. Ela estava sempre tremendo. Apertou os dedos para fazê-los ficarem parados e pressionou as solas dos pés no chão duro. Ela lutou para fazer a sala do trono entrar em foco antes de se dissolver.
A sala do trono, na torre central do palácio, tinha a vista mais incrível da cidade. De onde estava sentada, Winter via o lago Artemísia espelhando o palácio branco e a cidade indo até o domo transparente enorme que os abrigava dos elementos externos, ou da falta deles. A sala do trono ia além das paredes da torre, então, quando alguém ultrapassava o fim do piso de mosaico, se via em um parapeito de vidro transparente. Era como ficar de pé no ar, prestes a despencar nas profundezas do lago na cratera.
À esquerda, ela via as pontas das unhas da madrasta batendo no braço do trono, um assento imponente entalhado em pedra branca. Normalmente, a madrasta ficava calma durante esses procedimentos e ouvia os julgamentos sem dar sinal de emoção. Winter estava acostumada a ver as pontas dos dedos de Levana acariciando a pedra polida, não batucando nela. Mas a tensão estava forte desde que Levana e sua comitiva voltaram da Terra, e a madrasta teve mais ataques de fúria do que o habitual nos últimos meses.
Desde que aquela lunar fugitiva, aquela ciborgue, fugiu da prisão terráquea.
Desde que a guerra começou entre a Terra e Luna.
Desde que o noivo da rainha foi sequestrado e as chances de Levana ser coroada imperatriz foram roubadas dela.
O planeta azul pairava acima do horizonte, cortado bem na metade. Luna estava pouco depois da metade da longa noite, e a cidade de Artemísia brilhava com postes de um azul pálido e janelas de cristal cintilantes, seus reflexos dançando na superfície do lago.
Winter sentia falta do sol e do calor. Os dias artificiais nunca eram iguais.
— Como ele sabia sobre os cascudos? — perguntou a rainha Levana. — Por que não acreditou que o filho morreu no parto?
Sentadas por toda a sala em quatro fileiras, estavam as famílias. A corte da rainha. Os nobres de Luna, favorecidos por Sua Majestade pelas gerações de lealdade, pelos talentos extraordinários com o dom lunar ou por pura sorte de terem nascido cidadãos da grande cidade de Artemísia.
Havia também o homem de joelhos ao lado do taumaturgo Park. Ele não teve sorte ao nascer. Suas mãos estavam unidas, suplicantes. Winter queria poder dizer a ele que não importaria. Os apelos dele não serviriam para nada. Ela achava que haveria consolo em saber que nada podia ser feito para evitar a morte. Os que eram levados até a rainha já tendo aceitado o destino pareciam lidar melhor com a situação.
Ela olhou para as próprias mãos, ainda segurando a fina saia branca. Os dedos haviam sido maltratados pela geada. Até que era bonito. Brilhando e cintilando e frios, tão frios…
— Sua rainha fez uma pergunta — disse Aimery.
Winter se encolheu, como se ele tivesse gritado.
Concentração. Ela precisava tentar se concentrar.
Levantou a cabeça e inspirou.
Aimery estava usando branco agora que tinha substituído Sybil Mira como taumaturgo-chefe da rainha. O bordado dourado no casaco cintilou quando ele andou ao redor do prisioneiro.
— Peço desculpas, Vossa Majestade — disse o homem. — Minha família e eu a servimos há gerações. Sou zelador naquela clínica e já tinha ouvido boatos… Não era da minha conta, então nunca liguei, nunca dei atenção. Mas… quando meu filho nasceu cascudo… — choramingou. — Ele é meu filho.
— Você não pensou que podia haver um motivo para sua rainha ter decidido manter seu filho e todos os outros lunares sem dons separados dos nossos cidadãos? — disse Levana, com voz alta e ríspida. — Que podemos ter um propósito voltado para o bem de todo o nosso povo ao deixá-los sob controle como fizemos?
O homem engoliu em seco alto o bastante para Winter ver o pomo de adão subindo e descendo.
— Eu sei, minha rainha. Sei que o sangue deles é usado para… experiências. Mas… vocês têm tantos, e ele é só um bebê, e…
— Além de o sangue dele ser valioso para o sucesso de nossas alianças políticas, algo que não espero que um zelador dos setores externos entenda, ele também é cascudo, e a espécie dele se mostrou perigosa e instável, como você pode lembrar pelos assassinatos do rei Marrok e da rainha Jannali dezoito anos atrás. Ainda assim, você sujeitaria nossa sociedade a essa ameaça?
Os olhos do homem estavam loucos de medo.
— Ameaça, minha rainha? Ele é um bebê. — Ele fez uma pausa. Não parecia abertamente rebelde, mas a falta de remorso faria Levana ter um ataque de fúria em breve. — E os outros naqueles tanques… tantos deles, crianças. Crianças inocentes.
O aposento esfriou.
Ele sabia demais. O infanticídio de cascudos acontecia desde a ordem da irmã de Levana, a rainha Channary, depois que um cascudo entrou escondido no palácio e matou os pais delas. Ninguém ficaria satisfeito de saber que seus bebês não foram mortos, mas trancados e usados como pequeninas fábricas de plaquetas.
Winter piscou e imaginou o próprio corpo como uma fábrica de plaquetas.
Baixou seu olhar de novo. O gelo tinha se estendido até os pulsos agora.
Isso não seria bom para a linha de produção de plaquetas.
— O acusado tem família? — perguntou a rainha.
Aimery balançou a cabeça.
— Os registros indicam uma filha de nove anos. Ele também tem duas irmãs e um sobrinho. Todos moram no Setor GM-12.
— Não tem esposa?
— Morreu cinco meses atrás de envenenamento por regolito.
O prisioneiro olhou para a rainha, seu desespero formava uma poça ao redor dos joelhos.
A corte começou a se mexer, com as roupas vibrantes balançando. Esse julgamento estava demorando tempo demais. Eles estavam ficando entediados.
Levana se encostou no trono.
— Você está sendo declarado culpado de invasão e tentativa de roubo contra a coroa. Esse crime é punível com morte imediata.
O homem tremeu, mas seu rosto permaneceu suplicante. Eles sempre demoravam alguns segundos para compreender essa sentença.
— Seus familiares vão receber, cada um, doze chibatadas públicas como lembrete ao seu setor de que não tolero que minhas decisões sejam questionadas.
O maxilar do homem ficou frouxo.
— Sua filha vai ser dada como presente a uma das famílias da corte. Lá, vai aprender obediência e humildade, que é de se supor que não aprendeu sob seus cuidados.
— Não, por favor. Deixe que ela more com as tias. Ela não fez nada!
— Aimery, pode prosseguir.
Por favor!
— Sua rainha já se pronunciou — disse o taumaturgo Aimery. — A palavra dela é final.
Aimery tirou uma faca de obsidiana de uma das mangas em forma de sino e segurou o cabo na direção do prisioneiro, cujos olhos estavam arregalados de histeria.
A sala ficou mais fria. A respiração de Winter cristalizou no ar. Ela apertou os braços com força contra o corpo.
O prisioneiro segurou o cabo da faca. A mão estava firme. O resto dele estava tremendo.
— Por favor. Minha garotinha… eu sou tudo o que ela tem. Por favor. Minha rainha. Vossa Majestade!
Ele levou a lâmina até o pescoço.
Foi nessa hora que Winter afastou o olhar. Era essa a hora em que ela sempre afastava o olhar. Ela observou os próprios dedos afundarem no vestido, as unhas raspando o tecido até sentir o ardor nas coxas. Viu o gelo subir pelos pulsos na direção dos cotovelos.
Onde o gelo tocava, a pele ficava dormente.
Ela se imaginou atacando a rainha com os punhos sólidos de gelo. Imaginou as mãos se estilhaçando em mil pedaços.
Estava nos ombros dela. No pescoço.
Mesmo com os estalos e barulhos do gelo, ela ouviu o corte na carne. O borbulhar de sangue e um gemido abafado. O baque seco do corpo.
O frio tinha invadido o peito. Ela apertou bem os olhos e lembrou a si mesma de ficar calma, de respirar. Ouvia a voz firme de Jacin na mente, as mãos dele segurando seus ombros. Não é real, princesa. É só uma ilusão.
Normalmente, isso ajudava, essas lembranças a guiando em meio ao pânico. Mas desta vez a memória pareceu estimular o gelo. Envolvendo sua caixa torácica. Corroendo o estômago. Endurecendo sobre o coração dela.
Ela estava congelando de dentro para fora.
Escute minha voz.
Jacin não estava ali.
Fique comigo.
Jacin tinha ido embora.
Está tudo na sua cabeça.
Ela ouviu o bater das botas dos guardas quando eles se aproximaram do corpo. O cadáver sendo arrastado até o parapeito. O empurrão e o barulho de água distante lá embaixo.
A corte aplaudiu com uma polidez silenciosa.
Winter ouviu seus dedos se quebrarem. Um. Por. Um.
— Muito bom — disse a rainha Levana. — Taumaturgo Tavaler, cuide para que o resto da sentença seja executada.
O gelo estava no pescoço dela, escalando seu maxilar. Havia lágrimas congelando nos olhos. Havia saliva cristalizando na língua.
Ela levantou a cabeça quando um servo começou a lavar o sangue no piso. Aimery, limpando a faca com um tecido, olhou nos olhos de Winter. O sorriso dele queimava.
— Lamento dizer que a princesa não tem estômago para esses procedimentos.
Os nobres na audiência riram. A repulsa de Winter era fonte de diversão para boa parte da corte de Levana.
A rainha se virou, mas Winter não conseguiu encará-la. Ela era uma garota feita de gelo e vidro. Os dentes estavam frágeis, os pulmões seriam facilmente esmagados.
— Sim — disse Levana. — Muitas vezes, esqueço que ela está aqui. Você é tão inútil quanto uma boneca de pano, não é, Winter?
As pessoas riram de novo, mais alto, como se a rainha tivesse dado permissão para que elas debochassem da jovem princesa. Mas Winter não conseguia reagir, nem à rainha nem às gargalhadas. Ela manteve o foco no taumaturgo, tentando esconder o pânico.
— Ah, não, ela não é tão inútil assim — retrucou Aimery. Enquanto Winter o observava, uma linha vermelha fina surgiu no pescoço dele, o sangue borbulhando no corte. — A garota mais bonita de toda Luna? Ela vai tornar alguém da corte um noivo feliz um dia, eu acho.
— A garota mais bonita, Aimery? — O tom suave de Levana quase escondeu o rosnado por baixo.
Aimery fez uma reverência.
— Só bonita, minha rainha. Mas nenhum mortal poderia se comparar à sua perfeição.
A corte logo concordou e ofereceu cem elogios ao mesmo tempo, embora Winter ainda sentisse os olhares maldosos de mais de um nobre grudados nela.
Aimery deu um passo na direção do trono e sua cabeça cortada caiu, bateu no mármore e rolou, rolou, rolou, até parar nos pés congelados de Winter.
Ainda sorrindo.
Ela choramingou, mas o som ficou soterrado pela neve em sua garganta.
É coisa da sua cabeça.
— Silêncio — disse Levana, depois de ouvir sua cota de elogios. — Nós terminamos?
Finalmente, o gelo chegou aos olhos dela, e Winter não teve escolha além de fechá-los para a aparição sem cabeça de Aimery, envolvendo-a no frio e na escuridão.
Ela morreria ali e não reclamaria. Seria enterrada debaixo dessa avalanche de morte.
Jamais teria que testemunhar outro assassinato.
— Tem mais um prisioneiro a ser julgado, minha rainha — ecoou a voz de Aimery no vazio gelado da cabeça de Winter. — Sir Jacin Clay, guarda real, piloto e protetor designado da taumaturga Sybil Mira.
Winter ofegou e o gelo se estilhaçou, um milhão de pedacinhos cintilantes e afiados explodindo pela sala do trono e deslizando pelo chão. Ninguém mais ouviu. Ninguém mais reparou.
Aimery, com a cabeça ainda presa ao corpo, estava olhando para ela de novo, como se estivesse esperando para ver sua reação. O sorrisinho estava sutil quando ele voltou a atenção para a rainha.
— Ah, sim — disse Levana. — Tragam-no.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!