13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Um


O SATÉLITE FAZIA UMA ÓRBITA COMPLETA AO REDOR DO PLANETA Terra a cada dezesseis horas. Era uma prisão com uma visão eterna de tirar o fôlego: vastos oceanos azuis e nuvens em movimento e nasceres do sol que deixavam metade do mundo pegando fogo.
Quando ela foi presa, o que mais amava fazer era empilhar os travesseiros na escrivaninha embutida na parede e colocar os lençóis sobre as telas, fazendo uma pequena alcova para si mesma. Fingia que não estava em um satélite, mas em uma nave de passeio a caminho do planeta azul. Logo, ela pousaria e andaria em um chão de terra de verdade, sentiria o sol de verdade, inspiraria oxigênio de verdade.
Ela olhava para os continentes durante horas e horas, imaginando como devia ser morar lá.
Mas evitava sempre olhar para Luna. Havia dias em que o satélite passava tão perto que a lua ocupava a vista toda, e ela identificava os enormes domos cintilantes na superfície e as cidades luminosas onde viviam os lunares. Onde ela também vivera. Anos atrás. Antes de ser banida.
Quando criança, Cress se escondera da lua durante aquelas longas horas dolorosas. Às vezes, fugia para o pequeno banheiro e se distraía fazendo tranças elaboradas no cabelo. Ou se encolhia embaixo da escrivaninha e cantava cantigas de ninar até adormecer. Ou inventava uma mãe e um pai, imaginava-os brincando de faz de conta e lendo histórias de aventura e afastando com carinho o cabelo da testa dela, até que finalmente — finalmente — a lua sumiria de novo atrás da protetora Terra, e ela estaria a salvo.
Mesmo naquele momento, Cress passava horas debaixo da cama, cochilando, lendo ou escrevendo músicas na cabeça, ou tentando decifrar códigos complicados. Ela ainda não gostava de olhar para as cidades de Luna; ainda guardava dentro de si uma paranoia secreta de que, se conseguisse ver os lunares, sem dúvida eles também poderiam olhar além de seus céus artificiais e vê-la.
Durante mais de sete anos, esse tinha sido seu pesadelo.
Mas, então, o horizonte prateado de Luna surgiu no canto da janela, e Cress não prestou atenção. Dessa vez, a parede de telas invisíveis mostrava um novo pesadelo.
Palavras brutais se espalhavam pelas notícias, e fotos e vídeos embaçavam sua visão quando ela mudava de uma fonte para outra. Ela não conseguia ler rápido o suficiente.

14 CIDADES ATACADAS NO MUNDO TODO
ONDA DE ASSASSINATO DE DUAS HORAS RESULTA EM 16 MIL MORTES TERRÁQUEAS
MAIOR MASSACRE DA TERCEIRA ERA

A rede estava tomada de horrores. Vítimas mortas nas ruas, seus abdomens estraçalhados e sangue escorrendo para os bueiros. Criaturas meio humanas, meio animalescas, manchadas de sangue nos queixos, embaixo das unhas e na frente das camisas. Ela via tudo com uma das mãos sobre a boca. Conforme assimilava toda aquela verdade, ficava mais e mais difícil respirar.
Era culpa dela.
Durante meses, vinha impedindo que aquelas naves lunares fossem detectadas pela Terra, fazendo sem questionar o que a mestra Sybil mandava, como a serva bem treinada que era.
Ela sabia que tipo de monstro estava a bordo daquelas naves. E finalmente entendia o que Sua Majestade estava planejando o tempo todo, mas era tarde demais.
16 MIL MORTES TERRÁQUEAS
A Terra foi pega de surpresa, e apenas porque Cress não teve coragem suficiente de dizer não para as exigências da mestra. Tinha feito seu trabalho e fingido não perceber nada do que acontecia.
Desviando o olhar das fotos de morte e carnificina, concentrou-se em outra notícia que sugeria que mais horrores estavam por vir.
O imperador da Comunidade das Nações Orientais, Kaito, tinha posto um fim aos ataques ao concordar em se casar com Levana, a rainha lunar.
A rainha Levana se tornaria a nova imperatriz da Comunidade.
Chocados, os jornalistas da Terra estavam se esforçando para determinar uma postura frente a esse arranjo diplomático, mas controverso. Alguns se mostravam ultrajados e proclamavam que a Comunidade e o resto da União Terráquea deviam se preparar para uma guerra, não para um casamento. Outros logo tentavam justificar a aliança. Fazendo um movimento com os dedos na tela fina e transparente, Cress aumentou o áudio para ouvir um homem que discursava sobre os benefícios em potencial. Nada mais de ataques nem especulações sobre quando um ataque poderia acontecer. A Terra viria a entender a cultura lunar melhor. Eles compartilhariam seus avanços tecnológicos. Seriam aliados.
Além do mais, a rainha Levana queria apenas governar a Comunidade das Nações Orientais. Sem dúvida ela deixaria o resto da União Terráquea em paz.
Mas Cress sabia que seriam tolos se acreditassem nisso. A rainha Levana se tornaria imperatriz, depois mandaria matar o imperador Kaito, reivindicaria o país como seu e o usaria como quartel-general para montar seu exército e invadir o resto da União. Só pararia quando o planeta inteiro estivesse sob seu controle. Esse pequeno ataque, essas dezesseis mil mortes, era apenas o começo.
Tirando o som da transmissão, Cress apoiou os cotovelos na escrivaninha e enfiou as mãos no emaranhado de cabelos louros. Ficou com frio de repente, apesar da temperatura consistentemente controlada dentro do satélite. Uma voz infantil, que levou quatro meses de um tédio quase enlouquecedor para ser programada, quando Cress tinha dez anos, lia algo em voz alta em uma das telas atrás dela. A voz era alegre demais para o tema: um blog médico da República Americana anunciando o resultado de uma autópsia feita em um dos soldados lunares.
Os ossos foram reforçados com biotecido rico em cálcio, enquanto a cartilagem nas juntas principais continha uma solução salina para aumentar a flexibilidade e a maleabilidade. Implantes ortodônticos substituíram os dentes caninos e incisivos por outros que imitam os dentes de um lobo, e vemos o mesmo reforço ósseo ao redor do maxilar, que proporciona força suficiente para esmagar materiais como osso e outros tecidos. Um remapeamento do sistema nervoso central e interferências psicológicas constantes foram responsáveis pela agressividade contínua e pelas tendências lupinas do elemento. O dr. Edelstein levantou a hipótese de que uma técnica avançada de manipulação das ondas bioelétricas do cérebro também pode ter tido um papel em...
— Mudo.
A doce voz de dez anos silenciou, dando lugar ao zumbido do satélite e a outros sons que muito tempo antes já haviam sido relegados ao fundo da consciência de Cress. O girar das hélices. O vibrar do sistema de aparelhos. O gorgolejar do tanque de reciclagem de água.
Cress pegou as mechas grossas de cabelo na base do pescoço e puxou tudo por cima do ombro, porque seu cabelo tinha a tendência de ficar preso nas rodinhas da cadeira quando ela não tomava cuidado. As telas à frente piscaram, e mais e mais informações apareceram dos noticiários da Terra. Havia notícias vindas de Luna também, sobre os “bravos soldados” e a “vitória conquistada”, baboseiras aprovadas pela coroa, naturalmente. Cress tinha parado de prestar atenção nas notícias lunares aos doze anos.
Ela enrolou distraidamente o rabo de cavalo no braço esquerdo, as voltas indo do cotovelo até o pulso, sem perceber os nós que se amontoavam no colo.
— Ah, Cress — murmurou. — O que vamos fazer?
Seu eu de dez anos respondeu:
— Por favor, explique melhor suas instruções, Mana.
Cress fechou os olhos contra o brilho da tela.
— Entendo que o imperador Kai só queira fazer a guerra parar, mas ele deveria saber que isso não vai deter Sua Majestade. Ela vai matá-lo se ele for em frente com isso, e o que vai ser da Terra, então? — Uma dor de cabeça latejou em suas têmporas. — Eu estava certa de que Linh Cinder tinha contado para ele no baile, mas e se eu estiver errada? E se ele ainda não fizer ideia do perigo que está correndo?
Ela girou na cadeira, passou os dedos por um noticiário mudo, digitou um código e abriu a janela escondida que checava cem vezes por dia. A janela do D-COMM se abriu como um buraco negro, abandonado e silencioso, sobre a escrivaninha. Linh Cinder ainda não tinha tentado entrar em contato com ela. Talvez o chip tivesse sido confiscado ou destruído. Talvez Linh Cinder nem o possuísse mais.
Suspirando, Cress fechou o link e, clicando depressa com as pontas dos dedos, abriu uma dezena de janelas diferentes no lugar da outra. Estavam ligadas a um serviço de alerta que patrulhava a rede constantemente em busca de qualquer informação relacionada à ciborgue lunar que tinha sido presa uma semana antes. Linh Cinder. A garota que fugiu da prisão de Nova Pequim. A garota que era a única chance de Cress de contar para o imperador Kaito a verdade sobre as intenções da rainha Levana, caso ele concordasse com a aliança de casamento.
O noticiário principal não era atualizado havia onze horas. Na histeria da invasão lunar, a Terra parecia ter esquecido sua fugitiva mais procurada.
— Mana?
Com o coração pulando, Cress agarrou os braços da cadeira.
— Sim, Pequena Cress?
— A nave da mestra foi detectada. Chegada esperada em vinte e dois segundos.
Cress pulou da cadeira ao ouvir a palavra mestra, falada, mesmo durante tantos anos, com uma pontada de medo.
Seus movimentos eram uma dança precisamente coreografada, que ela dominou depois de anos de prática. Na sua imaginação tornava-se uma bailarina da segunda era, deslizando em um palco escuro enquanto a Pequena Cress fazia a contagem regressiva dos segundos.
00:21. Cress apertou o botão de acionar o colchão com a palma da mão.
00:20. Ela se voltou para a tela e escondeu todas as notícias sobre Linh Cinder atrás de uma camada de propagandas da coroa lunar.
00:19. O colchão caiu com um baque no chão, os travesseiros e cobertores embolados, como ela os deixara.
00:18. 17. 16 Seus dedos dançaram pelas telas, escondendo noticiários terráqueos e grupos de rede.
00:15. Uma virada, uma busca rápida pelas duas pontas do cobertor.
00:14. Um giro de pulso, que fez o cobertor subir como uma vela soprada pelo vento.
00:13. 12. 11. Arrumando os lençóis, se arrastou até o lado oposto da cama, girando na direção das telas do outro lado de seus aposentos.
00:10. 9. Dramas terráqueos, gravações musicais, literatura da segunda era, tudo foi escondido.
00:08. Outro giro de volta para a cama. Uma dobra graciosa do cobertor.
00:07. Dois travesseiros empilhados simetricamente contra a cabeceira. Um floreio do braço para puxar o cabelo que tinha ficado preso debaixo do cobertor.
00:06. 5. Uma deslizada pelo chão, mergulhando e girando, catando todas as meias e elásticos de cabelo largados e os colocando no túnel de renovação.
00:04. 3. Uma limpeza das escrivaninhas em que pegou sua única tigela, sua única colher, seu único copo e um punhado de canetas digitais e guardou tudo no armário.
00:02. Uma pirueta final para avaliar seu trabalho.
00:01. Um suspiro satisfeito, culminando com uma reverência graciosa.
— A mestra chegou — avisou a Pequena Cress. — Está pedindo a extensão da haste de pouso.
O palco, as sombras, a música, tudo sumiu dos pensamentos de Cress, embora um sorriso treinado tenha permanecido em seus lábios.
— É claro — disse com alegria, e saiu andando na direção da plataforma de pouso principal.
Havia duas rampas no seu satélite, mas apenas uma era usada. Ela nem sabia se a outra entrada funcionava. Cada porta larga de metal se abria para uma haste de pouso e, depois disso, para o espaço.
Exceto quando havia uma nave ancorada ali. A nave da mestra.
Cress digitou o comando. Um diagrama na tela mostrou a haste se abrindo, e ela ouviu o baque que a nave fez ao atracar. As paredes ao redor tremeram.
Ela sabia os momentos seguintes de cor, seria capaz de contar seus batimentos entre cada som familiar. O zumbido dos motores da pequena nave se desligando. O estalo da haste se prendendo ao redor da nave. O vácuo quando o oxigênio era lançado para o espaço. O bipe confirmando que a viagem entre os dois módulos era segura. A nave se abrindo. Passos ecoando no corredor. O som da entrada no satélite.
Houve uma época em que Cress esperava carinho e gentileza por parte da mestra. Que talvez Sybil olhasse para ela e dissesse: “Minha querida e doce Crescente, você ganhou a confiança e o respeito de Sua Majestade, a rainha. Pode voltar comigo para Luna e ser aceita como uma de nós.”
Essa época estava bem distante, mas o sorriso treinado de Cress se mantinha firme mesmo frente à frieza da mestra Sybil.
— Bom dia, mestra.
Sybil fungou. As mangas bordadas do casaco branco balançavam ao redor da caixa grande que carregava, cheia com os suprimentos de sempre: comida e água fresca para o confinamento de Cress e, é claro, o kit médico.
— Então você a encontrou, não foi?
O rosto de Cress ficou tenso ao redor do sorriso congelado.
— Encontrei, mestra?
— Se é um bom dia, então você deve finalmente ter concluído a tarefa simples que passei. É isso, Crescente? Você encontrou a ciborgue?
Cress baixou o olhar e afundou as unhas nas palmas das mãos.
— Não, mestra. Eu não encontrei.
— Entendo. Então não é um bom dia, é?
— Eu só quis dizer... Sua companhia é sempre... — Ela parou sem terminar a frase. Forçou-se a abrir as mãos e ousou encarar o olhar de raiva da mestra Sybil. — Eu só estava lendo no noticiário, mestra. Achei que talvez estivéssemos felizes pelo noivado de Sua Majestade.
Sybil deixou a caixa cair sobre a cama arrumada.
— Vamos ficar satisfeitas quando a Terra estiver sob controle lunar. Até lá, há trabalho a ser feito, e você não devia perder seu tempo lendo notícias e fofocas.
Sybil se aproximou do monitor onde ficava a janela secreta com a transmissão do chip D-COMM e a prova da traição à coroa lunar, e Cress ficou tensa. Mas Sybil passou direto pelo monitor e esticou a mão para uma tela que exibia um vídeo do imperador Kaito falando em frente à bandeira da Comunidade das Nações Orientais. Com um toque, a tela se apagou, revelando a parede de metal e um emaranhado de tubos de aquecimento por trás.
Devagar, Cress voltou a respirar.
— Espero que você tenha encontrado alguma coisa.
Cress se empertigou.
— Linh Cinder foi vista na Federação Europeia, em uma cidadezinha no sul da França, aproximadamente às 18h no horário loc...
— Sei muito bem disso. Depois ela foi para Paris e matou um taumaturgo e alguns agentes especiais inúteis. Mais alguma coisa, Crescente?
Cress engoliu em seco e começou a enrolar o cabelo nos dois pulsos, formando um oito.
— Às 17h48 em Rieux, na França, o funcionário de uma loja de peças de naves e veículos atualizou o inventário da loja e retirou uma bateria que seria compatível com uma Rampion 214, Classe 11.3, mas sem acrescentar qualquer tipo de pagamento. Achei que talvez Linh Cinder o tivesse roubado... ou enfeitiçado...
Ela hesitou. Sybil gostava de fingir que a ciborgue era uma cascuda, apesar de as duas saberem que não era verdade. Diferentemente de Cress, que era cascuda de verdade, Linh Cinder tinha o dom lunar. Mesmo que estivesse enterrado ou escondido de alguma forma, havia claramente se manifestado no baile anual da Comunidade.
— Uma bateria? — perguntou Sybil, ignorando a hesitação de Cress.
— Ela converte hidrogênio comprimido em energia para propelir...
— Eu sei o que é — cortou Sybil. — Você está me dizendo que o único progresso que fez foi encontrar provas de que ela está consertando a nave? Que vai ficar ainda mais difícil rastreá-la, uma tarefa que você nem conseguiu fazer quando eles estavam na Terra?
— Sinto muito, mestra. Estou tentando. É só que...
— Não estou interessada em suas desculpas. Todos esses anos eu convenci Sua Majestade a deixar você viver com o argumento de que você tinha uma coisa valiosa a oferecer, uma coisa ainda mais valiosa do que sangue. Será que errei ao proteger você, Crescente?
Cress mordeu o lábio e segurou um comentário sobre tudo o que fez por Sua Majestade durante seu tempo aprisionada. Elaborou incontáveis sistemas de espionagem para observar os líderes da Terra, invadiu as ligações de comunicação entre diplomatas e misturou sinais de satélite para permitir que os soldados de Luna invadissem a Terra sem serem detectados, de forma que o sangue de dezesseis mil terráqueos estava em suas mãos. Sybil só se importava com os fracassos de Cress, e não encontrar Linh Cinder era o maior deles até o momento.
— Sinto muito, mestra. Vou me esforçar mais.
Sybil apertou os olhos.
— Vou ficar muito insatisfeita se você não encontrar aquela garota, e logo.
Sob o olhar de Sybil, Cress se sentiu uma mariposa presa a uma lâmina de laboratório.
— Sim, mestra.
— Que bom. — Sybil esticou a mão e deu um tapinha na bochecha dela. A sensação foi quase de uma aprovação de mãe, mas não exatamente. Em seguida, ela se virou e soltou os mecanismos de tranca da caixa. — Agora — disse, pegando uma seringa de um kit médico. — Seu braço.

2 comentários:

  1. n sei pq mas eu imagino a rainha levana como a angelina jolie...acho q combina sei lá
    --Carla

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  2. Gente, será que a Cress é a filha daquele doutor que ajudou a Cinder a fugir?! ��
    Pq quando ele conversou com a Cinder ele disse q a rainha tinha levado a filha dele (ele disse - minha pequena lua crescente)

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Boa leitura, E SEM SPOILER!