3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Um


O PARAFUSO QUE ATRAVESSAVA O TORNOZELO DE CINDER enferrujara, as marcas em forma de cruz tinham sido gastas até se tornarem um círculo deformado. Suas articulações doíam por forçar a chave de fenda nas juntas, enquanto lutava para afrouxar o parafuso numa volta rangente após a outra. Quando já o havia retirado o bastante para que terminasse de torcer e puxar com sua mão protética de aço, os fios finos como cabelo estavam desencapados.
Jogando a chave de fenda na mesa, Cinder segurou o calcanhar e puxou o pé do encaixe. Uma centelha queimou levemente as pontas de seus dedos e ela se sobressaltou e largou o pé, que ficou pendurado por uma confusão de fios vermelhos e amarelos.
Ela se deixou cair para trás com um gemido. Uma sensação de alívio pairava no fim daqueles fios — liberdade. Suportara o pé pequeno demais por quatro anos. Jurou nunca mais usar aquele lixo novamente e tinha a esperança de que Iko voltasse logo com a peça substituta.
Cinder era a única mecânica faz-tudo na feira de Nova Pequim. Sem nenhuma placa, seu ofício podia ser deduzido apenas pelas prateleiras que enchiam as paredes com peças estocadas de androides. O estande ficava espremido em um espaço sombrio entre um comerciante de netscreens usados e um mercador de seda, e ambos constantemente reclamavam do cheiro ácido de metal e graxa que vinha dali. Mesmo que, em geral, ele fosse disfarçado pelo aroma dos pães de mel que vinha da padaria do outro lado da praça, Cinder sabia que, na verdade, os dois não gostavam de ficar perto dela.
Uma toalha de mesa manchada separava Cinder dos fregueses que passavam. A praça estava repleta de compradores, mascates e crianças fazendo barulho: os gritos dos homens que negociavam com os donos de comércios de peças robóticas, tentando barganhar até que o preço dos computadores atingisse a margem de lucro desejada; o zumbido dos escâneres de identidade e os monótonos recibos falados, quando o dinheiro era transferido de uma conta para a outra; os telões que cobriam cada um dos edifícios e preenchiam o ar com o burburinho de anúncios, notícias, fofocas.
A interface auditiva de Cinder abafava o ruído, transformando-o em uma estática repetitiva e monótona, mas naquele dia uma melodia se mantinha mais alta do que o restante, e ela não conseguia abafá-la. Uma roda de crianças cantarolava bem na frente de seu estande: “Cinzas, cinzas, nós todos caímos!”, e, em seguida, riam de maneira histérica e se jogavam na calçada.
Um sorriso se formou nos lábios de Cinder, não tanto pela cantiga infantil, uma canção fantasmagórica sobre doença e morte que tinha voltado a ser popular na última década. A música em si fazia com que Cinder se sentisse enjoada, mas ela amava os olhares dos pedestres quando as crianças sorridentes se jogavam em seu caminho. A inconveniência de ter que se desviar dos corpos se contorcendo despertava resmungos dos compradores, e Cinder adorava as crianças por isso.
— Sunto! Sunto!
O divertimento de Cinder se extinguiu. Ela viu Chang Sacha, a padeira, forçando passagem pela multidão, com o avental coberto de farinha.
— Sunto, venha aqui! Eu te disse para não brincar tão perto da…
Sacha encontrou o olhar de Cinder, apertou os lábios, pegou o filho pelo braço e deu meia-volta. O garoto choramingava, arrastando os pés, enquanto Sacha mandava que ele ficasse mais perto do estande deles. Cinder franziu o nariz para as costas da padeira que se retirava. As outras crianças desapareceram no meio da multidão, levando junto suas risadas alegres.
— Fios não são contagiosos — murmurou Cinder para seu estande vazio.
Alongando os braços para estalar a coluna, ela passou os dedos sujos pelo cabelo, prendendo-o em um rabo de cavalo bagunçado, e pegou as luvas de trabalho enegrecidas. Cobriu a mão de aço primeiro, e embora a palma da mão direita tivesse começado a suar imediatamente dentro do tecido espesso, sentiu-se mais confortável com as luvas, escondendo o revestimento metálico da mão esquerda. Esticou os dedos, tentando se livrar da cãibra que começara a sentir na base do polegar de tanto apertar a chave de fenda, e olhou novamente para a praça da cidade. Avistou vários androides brancos atarracados em meio àquela barulheira, mas nenhum deles era Iko.
Suspirando, Cinder se curvou sobre a caixa de ferramentas debaixo da mesa de trabalho. Depois de procurar em meio à bagunça de chaves de fenda e chaves inglesas, ela se levantou segurando o saca-fusíveis que havia muito tempo estava escondido ao fundo. Um por um, cortou os fios que ainda conectavam seu pé ao tornozelo, cada um soltando uma pequena faísca. Como suas mãos estavam protegidas pelas luvas, ela não podia senti-las, mas o visor de retina, de modo prestativo, informou-lhe com um texto piscante em vermelho que ela estava perdendo a conexão com o membro.
Deu um puxão no último fio e seu pé retiniu no concreto.
A diferença foi imediata. Pela primeira vez na vida, sentiu-se… leve.
Ela abriu espaço para o pé descartado sobre a mesa, dispondo-o como num santuário em meio às chaves e porcas, antes de curvar-se novamente sobre o tornozelo e limpar a sujeira da parte de encaixe com um trapo velho.
BAMP.
Cinder levou um susto e bateu a cabeça embaixo do tampo da mesa. Afastou-se, de semblante fechado, vendo primeiro a carcaça de um androide jogado sobre a área de trabalho e, em seguida, o homem logo atrás. Ela se deparou com os olhos castanho-acobreados surpresos, os cabelos pretos que passavam um pouco da altura das orelhas e lábios que cada menina no país tinha admirado milhares vezes.
Sua careta desapareceu.
A expressão de surpresa dele também durou pouco, derretendo-se em um pedido de desculpas.
— Sinto muito — disse ele. — Eu não percebi que tinha alguém aí atrás.
Cinder mal o escutava apesar do vazio em sua mente. Com os batimentos cardíacos ganhando velocidade, seu visor de retina escaneava as feições dele, tão familiares depois de tantos anos vendo-o nos netscreens. Ele parecia mais alto pessoalmente e usava um moletom cinza com capuz, diferente de todas as roupas refinadas com que geralmente era visto, mas ainda assim, o escâner de Cinder levou apenas 2,6 segundos para medir os pontos de seu rosto e vincular sua imagem à base de dados. Mais um segundo e o visor informou o que ela já sabia; letras rabiscavam a parte inferior de sua visão em um fluxo verde de texto.

PRÍNCIPE KAITO, HERDEIRO DA COMUNIDADE DAS NAÇÕES ORIENTAIS
IDENTIDADE: #0082719057
NASCIDO EM 07 DE ABRIL DO ANO 108 DA TERCEIRA ERA
FF 88.987 APARIÇÕES NA MÍDIA, ORDEM CRONOLÓGICA REVERSA
POSTADO EM 14 DE AGOSTO DO ANO 126 DA TERCEIRA ERA: UMA COLETIVA DE IMPRENSA SERÁ DADA PELO PRÍNCIPE HERDEIRO KAI NO DIA 15 DE AGOSTO PARA DISCUTIR AS PESQUISAS EM ANDAMENTO SOBRE LETUMOSE E POSSÍVEIS CAMINHOS PARA UM ANTÍDOTO —

Cinder saltou da cadeira e quase caiu por ter esquecido que lhe faltava um membro. Firmando-se com as mãos na mesa, conseguiu fazer uma estranha reverência. O visor de retina desapareceu de vista.
— Vossa Alteza — gaguejou Cinder, com a cabeça baixa, feliz por ele não poder ver o tornozelo sem pé atrás da toalha de mesa.
O príncipe vacilou e lançou um olhar por sobre o ombro antes de se curvar em direção a ela.
— Talvez, hum… — pediu silêncio, com o dedo nos lábios —, sobre essa coisa de Alteza?
De olhos arregalados, Cinder dá um aceno trêmulo com a cabeça.
— Certo. É claro. Como… posso… o senhor está? — Ela engoliu em seco as palavras grudadas como chiclete na língua.
— Estou procurando um tal de Linh Cinder — disse o príncipe. — Ele está por aí?
Cinder se atreveu a levantar a mão que a estabilizava na mesa, usando-a para puxar a bainha da luva mais para cima de seu pulso. Encarando o peito do príncipe, balbuciou:
— Eu… eu sou Linh Cinder.
Seus olhos seguiram a mão dele enquanto a apoiava no topo da cabeça arredondada do androide.
Você é Linh Cinder?
— Sim, Vossa Alte… — Ela mordeu o lábio.
— O mecânico?
Ela concordou.
— Como posso ajudar?
Em vez de responder, o príncipe curvou-se, esticando o pescoço de forma que ela não teve escolha senão olhá-lo, e abriu um sorriso para ela. Seu coração se contraiu.
O príncipe se endireitou, forçando o olhar de Cinder a segui-lo.
— Você não é bem o que eu esperava.
— Bem, o senhor também… o que eu… hum… — Incapaz de sustentar o olhar dele, Cinder alcançou o androide e puxou-o para o seu lado da mesa. — O que está errado com o androide, Vossa Alteza?
O androide parecia ter acabado de sair da esteira, mas Cinder conseguia ver pelo formato feminino que era um modelo ultrapassado. O design porém, era elegante, com uma cabeça esférica em cima de um corpo em forma de pera e um revestimento branco lustroso e acetinado.
— Não consigo ligá-la — disse o príncipe Kai, observando enquanto Cinder examinava o robô. — Ela estava funcionando bem num dia, e no outro, parou.
Cinder virou o androide para que a luz do sensor ficasse de frente para o príncipe. Ela estava contente por ter tarefas rotineiras para as mãos e perguntas rotineiras para a boca — algo em que se concentrar para que não se afobasse e perdesse o controle da conexão de rede em seu cérebro novamente.
— Já teve problemas com ela antes?
— Não. Ela passa por uma avaliação completa dos mecânicos da realeza a cada mês, e este é o primeiro problema que de fato já apresentou.
Inclinando-se para a frente, o príncipe Kai pegou o pequeno pé de metal de Cinder na mesa de trabalho, virando-o com curiosidade em suas mãos. Cinder ficou tensa, observando enquanto ele olhava a cavidade repleta de fios e mexia nas articulações dos dedos do pé. Ele usou a manga longa demais de seu moletom para polir o metal e remover uma mancha.
— O senhor não está com calor? — perguntou Cinder, no mesmo instante se lamentando por ter falado quando ele voltou sua atenção para ela.
Por um breve momento, o príncipe parecia quase envergonhado.
— Morrendo — disse ele —, mas estou tentando ser discreto.
Cinder cogitou dizer-lhe que não estava funcionando, mas pensou melhor. A falta de uma multidão de meninas gritando ao redor de seu estande era, provavelmente, uma evidência de que estava funcionando melhor do que ela desconfiava. Em vez de parecer um galã real, ele apenas parecia um louco.
Limpando a garganta, Cinder voltou sua atenção para o androide. Ela encontrou a trava quase invisível e abriu o painel traseiro.
— Por que os mecânicos da realeza não a consertaram?
— Eles tentaram, mas não conseguiram. Uma pessoa sugeriu que eu a trouxesse para você. — Ele voltou a atenção para as prateleiras de coisas velhas e desgastadas: peças de androides, aerodeslizadores, telões, tablets. Partes de ciborgues. — Dizem que você é o melhor mecânico de Nova Pequim. Eu esperava encontrar um velho.
— Dizem? — murmurou ela.
Ele não fora o primeiro a ficar surpreso. A maioria de seus clientes não conseguia entender como uma adolescente podia ser o melhor mecânico da cidade, e ela nunca divulgava a razão de seu talento. Quanto menos pessoas soubessem que era um ciborgue, melhor. Cinder tinha certeza de que enlouqueceria se todos os comerciantes do mercado olhassem para ela com o mesmo desprezo que Chang Sacha.
Ela cutucou alguns fios do androide com o dedo mindinho.
— Às vezes os robôs simplesmente se desgastam. Talvez seja hora de trocar por um modelo novo.
— Receio não poder fazer isso. Ela contém informações secretas. É uma questão de segurança nacional que eu as recupere… antes que outra pessoa o faça.
Batucando na mesa, Cinder olhou para ele.
Ele sustentou seu olhar por três segundos antes dos lábios se contraírem.
— Só estou brincando. Nainsi foi meu primeiro androide. Tem valor afetivo.
Uma luz laranja piscou no canto do olho de Cinder. Seu dispositivo óptico biônico tinha captado alguma coisa, embora ela não soubesse o quê — uma engolida em seco, uma piscada muito rápida, uma leve tensão na mandíbula do príncipe.
Ela estava acostumada àquela pequena luz laranja. Aparecia o tempo todo. Significava que alguém estava mentindo.
— Segurança nacional — disse ela. — Engraçado.
O príncipe inclinou a cabeça, como se a desafiasse a contradizê-lo. Uma mecha de cabelo preto caiu em seus olhos. Cinder desviou o olhar.
— Modelo Tutor 8.6 — disse ela, lendo o painel pouco iluminado dentro do crânio de plástico. Tinha quase vinte anos. Para um androide, era uma anciã. — Parece estar em perfeitas condições.
Levantando o punho, Cinder bateu com força na lateral da cabeça do androide, mal conseguindo segurá-lo antes que tombasse na mesa. O príncipe deu um salto.
Cinder ajeitou o androide na mesa de novo e apertou o botão de energia, mas nada aconteceu.
— O senhor ficaria surpreso com a frequência com que isso funciona.
O príncipe soltou uma única risada estranha.
— Tem certeza de que é Linh Cinder? O mecânico?
— Cinder! Consegui! — Iko avançou da multidão até o estande dela, e o sensor azul de Cinder piscou. Levantando a mão em forma de pinça, ela pôs com força um novo pé de aço sobre a mesa, atrás do androide do príncipe. — É uma grande melhoria em relação ao antigo, com pouquíssimo uso, e a fiação parece compatível. Além disso, consegui negociar o preço com o vendedor para apenas seiscentos univs.
Uma onda de pânico percorreu Cinder. Ainda equilibrada na perna humana, tirou rapidamente o pé da mesa e o deixou cair atrás dela.
— Bom trabalho, Iko. Nguyen-shìfu ficará feliz em ter um pé de reposição para o seu androide-acompanhante.
O sensor de Iko esmaeceu.
— Nguyen-shìfu? Não computei.
Sorrindo por entre os dentes cerrados, Cinder fez um gesto apontando o príncipe.
— Iko, por favor, cumprimente nosso cliente. — Ela baixou a voz. — Sua Alteza Imperial.
Iko esticou a cabeça, mirando o sensor redondo no príncipe, que estava quase um metro acima dela. A luz brilhou mais quando seu escâner o reconheceu.
— Príncipe Kai — disse ela, com a fina voz metálica. — É ainda mais bonito pessoalmente.
O estômago de Cinder se retorceu em constrangimento, mesmo quando o príncipe riu.
— Já é o suficiente, Iko. Entre no estande.
Iko obedeceu, afastando a toalha e se agachando sob a mesa.
— Não se vê uma personalidade como essa todo dia — disse o príncipe Kai, encostado no batente da porta do estande como se trouxesse androides para o mercado o tempo todo. — Você mesma a programou?
— Acredite ou não, já veio assim. Desconfio que tenha um erro de programação, e provavelmente foi por isso que minha madrasta pagou tão barato por ela.
— Eu não tenho nenhum erro de programação! — disse Iko atrás dela.
O olhar de Cinder cruzou com o do príncipe. Foi momentaneamente ofuscada por outra risada fácil e baixou a cabeça atrás do androide dele.
— Então, o que você acha? — perguntou ele.
— Precisarei executar o diagnóstico dela. Levará alguns dias, talvez uma semana. — Ajeitando uma mecha do cabelo atrás da orelha, Cinder sentou-se, satisfeita em dar descanso à perna enquanto examinava o interior do androide. Ela sabia que deveria estar quebrando algum protocolo, mas o príncipe pareceu não se importar e se inclinou para a frente, observando as mãos dela.
— Você precisa de pagamento adiantado?
Ele ofereceu o pulso esquerdo para ela, onde estaria incorporado o chip de identificação, mas Cinder acenou com a mão enluvada para ele.
— Não, obrigada. Será uma honra para mim.
O príncipe Kai parecia disposto a protestar, mas depois baixou o braço.
— Suponho que não haja nenhuma esperança de tê-la de volta antes do festival.
Cinder fechou o painel do androide.
— Acho que não será problema. Mas sem saber o que há de errado com ela…
— Eu sei, eu sei. — Ele se balançou para trás nos calcanhares. — É apenas pensamento positivo.
— Como vou avisá-lo quando ela estiver pronta?
— Envie uma mensagem ao palácio. Você estará aqui novamente na semana que vem? Eu também poderia vir ao mercado.
— Ah, sim! — disse Iko dos fundos do estande. — Estamos aqui todos os dias de mercado. O senhor deveria passar por aqui novamente. Seria ótimo.
Cinder se encolheu.
— O senhor não precisa…
— Será um prazer. — Baixou a cabeça em uma despedida cortês, ao mesmo tempo puxando as bordas do capuz para cobrir mais o rosto. Cinder retribuiu o aceno de cabeça, sabendo que deveria ter se levantado e curvado, mas não ousou testar seu equilíbrio uma segunda vez.
Ela esperou até que a sombra dele desaparecesse da mesa antes de observar a praça. A presença do príncipe em meio à multidão parecia ter passado despercebida. Cinder se permitiu relaxar.
Iko rolou para o seu lado, apertando as garras de metal sobre o peito.
— Príncipe Kai! Verifique minha ventoinha, acho que estou superaquecendo.
Cinder inclinou-se e pegou o pé novo, limpando-o na calça cargo. Verificou o revestimento de metal, contente por não tê-lo amassado.
— Consegue imaginar a expressão da Peony quando souber o que aconteceu? — disse Iko.
— Imagino um monte de gritinhos agudos. — Cinder se permitiu fazer mais uma varredura cautelosa da multidão antes que o primeiro sinal de tontura e distração surgisse dentro dela. Mal podia esperar para contar a Peony. O príncipe em pessoa! Uma risada abrupta escapou. Era estranho. Era inacreditável. Era…
— Ah, querida.
O sorriso de Cinder sumiu.
— O quê?
Iko apontava para a testa dela com o dedo pontudo.
— Você está manchada de graxa.
Cinder cambaleou para trás com o susto e esfregou a testa.
— Você está brincando.
— Tenho certeza de que ele mal reparou.
Cinder baixou a mão.
— Que importa? Vamos lá, me ajude a encaixar isso antes que mais alguém da realeza resolva passar por aqui. — Ela apoiou o tornozelo no joelho oposto e começou a conectar os fios de cores coordenadas, imaginando se tinha conseguido enganar o príncipe.
— Adapta-se perfeitamente, não é? — disse Iko, segurando um punhado de parafusos, enquanto Cinder os apertava nos furos já feitos.
— É muito bom, Iko, obrigada. Só espero que Adri não perceba. Ela me mataria se soubesse que gastei seiscentos univs em um pé. — Ela apertou o último parafuso e esticou a perna, rodando o tornozelo para a frente, para trás, balançando os dedos dos pés. Ainda estava um pouco rígido, os sensores nervosos precisariam de alguns dias para se harmonizar com a fiação que fora trocada, mas pelo menos ela não teria mais que mancar por aí.
— É perfeito — disse ela, puxando a bota. Ela viu o pé antigo entre as pinças de Iko. — Pode jogar esse pedaço de lixo fora…
Um grito invadiu os ouvidos de Cinder. Ela se encolheu com o susto, o som chegando no volume máximo a sua interface de áudio, e virou-se na direção dele. O mercado ficou silencioso. As crianças, que estavam brincando de esconde-esconde entre os estandes aglomerados, saíram lentamente de seus esconderijos.
O grito viera da padeira, Chang Sacha. Perplexa, Cinder levantou-se e subiu na cadeira para olhar além da multidão. Ela viu Sacha no estande, atrás da vitrine de pães doces e bolos de carne de porco, olhando boquiaberta para as mãos estendidas.
Cinder fechou a mão sobre o nariz ao mesmo tempo que o fato percebido se espalhou pelo resto da praça.
— A peste! — gritou alguém. — Ela tem a peste!
A rua se encheu de pânico. Mães pegaram os filhos, cobrindo-lhes os rostos com mãos desesperadas enquanto lutavam para sair do estande de Sacha.
Comerciantes fecharam as portas com força.
Sunto gritou e correu em direção à mãe, mas ela mostrou as mãos para ele.
Não, não, não se aproxime. Um comerciante vizinho pegou o menino, enfiando a criança debaixo do braço enquanto corria. Sacha gritou algo para ele, mas suas palavras se perderam no meio do tumulto.
O estômago de Cinder se revirou. Elas não podiam correr porque Iko seria pisoteada em meio ao caos. Prendendo a respiração, alcançou o cabo no canto do estande e puxou a porta de metal pelo trilho. A escuridão as cobriu, deixando apenas um único fio de luz cruzando o chão. O calor emanava do piso de concreto, sufocante, no espaço apertado.
— Cinder? — disse Iko, com preocupação na voz robótica. Ela acendeu o sensor, banhando o estande com luz azul.
— Não se preocupe — disse Cinder, pulando da cadeira e pegando o pano coberto de graxa da mesa. Os gritos já estavam diminuindo, transformando o estande em seu próprio universo vazio. — Ela está do outro lado da praça. Estamos a salvo aqui. — Mas se aproximou da parede das prateleiras mesmo assim, agachando-se e cobrindo o nariz e a boca com o pano.
Ficaram lá, e Cinder mal respirava até que ouviram as sirenes do aerodeslizador de emergência vindo e levando Sacha.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!