7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta

AS BOTAS DE SOLADO DURO DO ALFA ZE’EV KESLEY ESTALARAM com força no piso de mármore quando marchou pelo saguão, ignorando alguns soldados que assentiram para ele com respeito ou talvez medo. Ou até mesmo curiosidade pelo oficial que passou semanas em meio a humanos, fingindo ser um deles.
Ele tentou não pensar no assunto. Estar de volta ao quartel-general dava a sensação de ter despertado de um sonho. Um sonho que primeiro parecia um pesadelo, mas não mais. Tinha acordado em uma realidade muito mais sombria. Tinha lembrado quem realmente era. O que realmente era.
Chegou à Rotunda Lunar, um nome irônico que agradava muito ao Mestre Jael. Passou por um espelho manchado e escurecido pelo tempo e quase não reconheceu seu reflexo com o uniforme limpo e o cabelo bem-penteado para trás. Desviou o olhar.
Sentiu o cheiro do irmão assim que pisou na biblioteca, e os pelos da nuca se arrepiaram.
Hesitou brevemente ao seguir pela galeria com revestimento de madeira até entrar no escritório particular do taumaturgo. Tinha sido feito para a realeza, um aposento para terráqueos importantes da alta sociedade refletirem sobre os trabalhos filosóficos de seus ancestrais. Os suportes antes exibiam obras de arte valiosíssimas, e as estantes alcançavam dois andares acima da cabeça dele. Mas os livros não estavam mais lá — tinham sido resgatados quando o teatro fora ocupado pelos militares —, e um aroma mofado e úmido tomara conta da madeira ao redor.
Jael estava sentado a uma escrivaninha larga. Feita de plástico e metal, causava uma impressão sem graça em comparação à decoração extravagante. Ran também estava lá, apoiado na parede de prateleiras vazias.
Seu irmão sorriu. Quase.
Jael ficou de pé.
— Alfa Kesley, obrigado por vir tão rapidamente. Queria que você fosse o primeiro a saber que seu irmão voltou em segurança.
— Fico feliz em ver — respondeu. — Oi, Ran. Você não estava com a aparência muito boa na última vez que te vi.
— A recíproca é verdadeira, Ze’ev. Seu cheiro melhorou muito, agora que você tirou o aroma daquela humana.
Todos os músculos dele se contraíram.
— Espero que não haja ressentimentos quanto ao que aconteceu na floresta.
— Nenhum. Você estava executando um papel. Entendo que fez o que tinha que fazer. Eu não devia ter interferido.
— Não. Não devia.
Ran prendeu os polegares na cintura larga da calça.
— Eu estava preocupado com você, irmão. Você pareceu quase... confuso.
— Como você disse — falou Ze’ev, erguendo o queixo —, eu estava desempenhando um papel.
— Sim. Nunca devia ter duvidado de você. Ainda assim, é bom ver que voltou ao normal e que o ferimento da bala não foi profundo. Quando ouvi o disparo, tive medo que ela tivesse atingido seu coração. — Ran sorriu e virou para Jael. — Se terminamos aqui, gostaria de pedir permissão para me reportar ao comando.
— Permissão concedida — disse Jael, assentindo, e Ran o cumprimentou com a saudação de um punho no peito.
Ze’ev captou um traço do aroma de Scarlet em Ran, e seu estômago se apertou. Mandou o corpo relaxar e afastou o instinto animal de arrancar o pescoço do irmão se descobrisse que encostou um dedo nela.
Ran inclinou a cabeça e sua expressão se turvou com um segredo guardado.
— Bem-vindo ao lar, irmão.
Ze’ev permaneceu impassível enquanto Ran prosseguiu e esperou até ouvir a porta se fechar do outro lado da galeria. Ele fez uma saudação para o taumaturgo.
— Se não houver mais nada...
— Na verdade, há mais uma coisa. Algumas coisas, na verdade, que desejo discutir com você. — Jael se sentou na cadeira. — Recebi uma mensagem de Sua Majestade esta manhã. Ela pediu que todas as matilhas localizadas na Terra se preparassem para atacar amanhã.
Ele trincou os dentes.
— Amanhã?
— As negociações dela com a Comunidade das Nações Orientais não seguiram conforme desejava, e decidiu parar de oferecer acordos que se recusam a aceitar. A rainha ofereceu uma prorrogação temporária de paz se uma garota ciborgue, Linh Cinder, fosse capturada e entregue a ela, mas isso não aconteceu. O ataque vai ser centrado em Nova Pequim, começando à meia-noite do horário local. Vamos atacar às 18h. — Enfiou as mãos nas enormes mangas carmesim, e as runas bordadas refletiram a luz das lâmpadas penduradas acima. — Estou feliz de você ter voltado a tempo de liderar seus homens. Quero você posicionado no coração de nosso ataque de Paris. Você aceita essa posição?
Ze’ev juntou as mãos atrás das costas, apertando os pulsos até doerem.
— Não desejo questionar os motivos de Sua Majestade, mas não consigo entender por que ela está nos afastando de nosso objetivo inicial de encontrar a princesa para dar uma liçãozinha na Comunidade das Nações Orientais. Por que a mudança de prioridades?
Jael se recostou e o observou.
— Não cabe a você questionar as prioridades de Sua Majestade. No entanto, odiaria que sua mente estivesse turva quando seguirmos para essa importante primeira batalha. — Deu de ombros. — Ela está enfurecida com a fuga dessa Linh Cinder. Apesar de ser uma mera civil, ela conseguiu ver além do glamour de Sua Majestade. No entanto, não é uma cascuda.
Ze’ev não conseguiu esconder a expressão de surpresa.
— Não sabemos ainda se essa capacidade incomum é devido a alguma coisa na programação ciborgue ou se o dom lunar dela é excepcionalmente forte.
— Mais forte que o de Sua Majestade?
— Não sabemos. — Jael suspirou. — O estranho é que essa capacidade dela de resistir à nossa rainha não é diferente da capacidade de madame Benoit de resistir a mim. Encontrar duas não cascudas com a mesma capacidade em um intervalo tão curto é bem impressionante. Infelizmente, continuo não conseguindo determinar o motivo da capacidade de Michelle Benoit. Testei a neta dela uma hora atrás. Ela é maleável como argila, então não herdou a característica.
Nas costas, os punhos de Alfa Kesley se apertaram. Ainda não conseguia deixar de sentir o cheiro dela no aposento, um leve aroma dançando abaixo de suas narinas. Então Jael a tinha interrogado, e Ran também devia ter estado presente. O que eles fizeram? Será que ela se machucou?
— Alfa?
— Sim — disse rapidamente. — Peço desculpas. Pensei ter sentido o cheiro da garota.
Jael começou a rir. Foi uma risada clara e divertida. Era a afabilidade de Jael que sempre provocava mais desconfiança em Ze’ev. Pelo menos, os outros taumaturgos não tentavam disfarçar sua falta de piedade, o controle desdenhoso dos cidadãos lunares inferiores... e de seus soldados.
— Seus sentidos são incríveis, alfa. Sem dúvida, um dos nossos melhores. — Ele bateu na cadeira antes de se levantar. — E a força de sua personalidade é inigualável. Sua lealdade. Sua disposição para sacrifícios. Tenho certeza de que nenhum dos meus outros homens teria feito o que você fez para obter informações da mademoiselle Benoit, teria ido tão além do dever. Foi precisamente por isso que o escolhi para liderar o ataque de amanhã.
Jael andou pelo aposento cheio de estantes e passou o dedo pelas prateleiras, recolhendo a poeira pálida e cinza na pele. Ze’ev manteve a expressão neutra, tentando não pensar nos sacrifícios que Jael imaginava ter feito, bem acima do que o dever pedia.
Mas ela estava lá, na sua mente. A parte macia do polegar roçando suas cicatrizes. Os braços ao redor de seu pescoço.
Ele engoliu em seco. Cada músculo se contraiu em um esforço de bloquear a lembrança.
— Agora é só uma questão do que fazer com a garota. Como é frustrante finalmente termos encontrado uma pessoa que poderia nos levar para mais perto da princesa Selene bem na hora em que a informação não é mais útil.
As unhas de Ze’ev afundaram nas palmas das mãos. Frustrante parecia piada. Se Sua Majestade tivesse tirado o foco da princesa três semanas antes, Scarlet e a avó nunca teriam sido envolvidas em nada daquilo.
E não saberia a diferença.
Sentiu um aperto no peito.
— Mas estou otimista — prosseguiu Jael, falando distraidamente. — Ainda podemos encontrar um uso para a garota se ela conseguir persuadir a avó a falar. A madame tenta fingir ignorância, mas sabe por que consegue resistir ao controle. Tenho certeza. — Ele mexeu com a manga. — O que você acha que vai ser mais importante para a velha senhora? A vida da neta ou seus próprios segredos?
Ze’ev não tinha resposta.
— Acho que vamos descobrir — disse Jael, voltando à escrivaninha. — Pelo menos agora vou ter algum poder sobre ela. — Abriu os lábios e exibiu dentes brancos perfeitos em um sorriso agradável. — Você ainda não respondeu a minha pergunta, alfa. Vai aceitar a posição de liderar nossa batalha mais importante na Federação Europeia?
Ze’ev sentiu uma queimação nos pulmões. Queria perguntar mais, saber mais; sobre Scarlet, sobre a avó dela, sobre o que Jael faria com ela.
Mas as perguntas não seriam aceitáveis. Sua missão estava completa. Não tinha mais nenhuma ligação com mademoiselle Benoit.
Bateu com o punho no peito.
— Certamente, Mestre Jael. Será uma honra.
— Que bom. — Jael abriu uma gaveta, tirou uma caixa branca simples e deslizou-a pela mesa. — Acabamos de receber esse carregamento de chips de identificação das quarentenas de Paris. Espero que não seja trabalho demais levar para limpeza e reprogramação. Quero que estejam prontos para os novos recrutas que, espero, chegam amanhã de manhã. — Inclinou a cadeira para trás. — Queremos a maior quantidade possível de soldados disponíveis. É imperativo que as pessoas da Terra fiquem tão apavoradas a ponto de nem pensar em resistir.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!