20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta

Os corredores de alimentação estavam pretos como breu. Scarlet fez uma pausa para prestar atenção em passos ou vozes, mas não havia nada além dos ruídos abafados dos pássaros que ficaram para trás. O cheiro a lembrou da fazenda, uma combinação intensa de ração e feno e estrume. Ela se orientou. Ir para a direita a levaria para o meio do jardim, mas a esquerda poderia levá-las de volta ao palácio, com sorte a algum tipo de aposento de criados. Com uma das mãos na parede, ela segurou o pulso de Winter e saiu correndo. Seus dedos passaram por portas fechadas, e ela usou o que sabia do jardim para contá-las. Esta deve ser a do cervo. Esta pode ser a do leopardo das neves. Esta é a da raposa do ártico?
Elas dobraram uma esquina, e uma luz piscante chamou sua atenção, vaga e distante. Ela seguiu nessa direção e encontrou um painel de controle embutido na parede, onde dava para controlar as luzes e temperaturas e alimentadores automáticos do jardim. Ao lado do painel, quase imperceptível na luz fraca, havia uma porta.
Ela apertou o mecanismo para destrancar, torcendo demais para que a porta não levasse ao leão. Nada aconteceu.
Scarlet falou um palavrão e apertou o mecanismo para destrancar. Nada.
Então, o painel de controle apitou, dando um susto nela, e uma mensagem surgiu no topo.
TOME CUIDADO, SCARLET.
O queixo dela caiu.
— O quê…
Antes que pudesse questionar, ela ouviu a porta se destrancar. Tremendo, esticou a mão para a maçaneta. A porta se abriu.
Ela se encolheu por causa de toda a luz que surgiu e puxou Winter para perto da parede, mas uma olhadela deixou claro que o corredor bem-iluminado estava igualmente vazio. Era estreito e simples. Se Scarlet tivesse que dar um palpite de como era um corredor de criados, seria assim.
Ela prestou atenção e não ouviu nada.
Olhou para cima e seu coração pulou.
Uma câmera estava girando no teto, verificando o corredor de um lado para outro. Mas, assim que Scarlet a viu, ela parou. A luz de energia ficou fraca e sumiu. Assustada, Scarlet se inclinou para a frente no corredor e viu uma segunda câmera a uns cinquenta passos. Na mesma hora, ela foi desligada.
O que Jacin dissera? Alguma coisa sobre cuidar da segurança?
Mas… como?
Scarlet segurou o cotovelo de Winter e a arrastou pelo corredor.
— Você sabe onde estamos?
— Perto da ala dos convidados.
Bem, já era alguma coisa. Pelo menos Scarlet não precisava se preocupar com a possibilidade de começarem totalmente perdidas.
— Estamos tentando chegar ao Porto E de Artemísia. Você sabe onde é, não sabe?
— E… — murmurou Winter. — E de execuçãoDe espaço. De Evret. De enteada. — Ela ponderou mais um momento. — de escapada.
Scarlet gemeu.
— de inútil.
— Não, isso não está certo.
Scarlet se virou para ela, e a princesa parou de repente. A parte de trás da saia estava escura de sangue, e manchas cobriam os braços, pernas, até o rosto. Na verdade…
Ao olhar para baixo, Scarlet viu que também tinha uma boa quantidade nela. Isso não as ajudaria a passarem despercebidas.
— As docas, Winter — disse ela, com cara feia para a princesa. — Você sabe onde ficam ou não?
A princesa contraiu o rosto e apertou as palmas das mãos sujas de sangue nas bochechas. Por um momento, Scarlet achou que ela fosse chorar.
— Não. Sim. Não sei. — A respiração dela ficou curta e os ombros começaram a tremer.
— Princesa — avisou Scarlet.
— Acho que sei. As docas… sim, as docas. Com os cogumelos.
— Cogumelos?
— E as sombras que dançam. O Porto E. de escapada.
— Isso mesmo, de escapada. — Scarlet sentia a esperança escorrendo por entre os dedos. Não havia como aquilo dar certo. — Como chegamos lá?
— Pegamos o trem. Até a extremidade da cidade.
— O trem. Tudo bem. Como chegamos lá?
— Para baixo, nós vamos para baixo.
Scarlet sentiu sua paciência chegando ao fim.
— E como vamos para baixo?
Winter balançou a cabeça, com desculpas nadando nos olhos cor de âmbar. Scarlet teria vontade de abraçá-la se não estivesse ao mesmo tempo com vontade de estrangulá-la.
— Tudo bem. Eu vou descobrir. — Ela saiu correndo pelo corredor, torcendo para darem de cara com um lance de escadas ou um elevador. Criados tinham que se deslocar com rapidez, não tinham? Elas acabariam encontrando…
Ela dobrou uma esquina e parou, quase se chocando com uma garota, uma criada que não podia ter mais de catorze anos. Winter foi de encontro a Scarlet, que segurou o braço da princesa, adrenalina latejando nos ouvidos. A criada olhou por um segundo para Scarlet, depois para a princesa coberta de sangue, em seguida fez uma reverência nervosa, segurando roupas lavadas nos braços.
— V-Vossa Alteza — gaguejou ela.
Trincando os dentes, Scarlet pegou a faca na bainha e partiu para cima da garota, prendendo-a contra a parede com a lâmina na garganta.
A garota deu um gritinho. As roupas caíram aos pés delas.
— Precisamos chegar ao trem que vai nos levar às docas. Do jeito mais rápido. Agora.
A garota começou a tremer, com olhos enormes.
— Não tenha medo — disse Winter, com voz cantarolada e delicada. — Ela não vai machucar você.
— Imagine se não. Como chegamos às docas?
A garota levantou um dedo.
— P-Por esse corredor, à direita. A escada desce até a plataforma.
Afastando-se, Scarlet pegou uma toalha de mesa branca da pilha caída e levou Winter pelo corredor sem olhar para trás.
O corredor terminava em um T. Scarlet virou para a direita e encontrou uma alcova que dava em uma escadaria iluminada. Quando a porta se fechou depois da passagem delas, Scarlet abriu a toalha e a enrolou ao redor de Winter, fazendo o melhor que podia para criar algo parecido com uma capa, algo que escondesse o sangue e a beleza reconhecível da princesa. Quando achou que o resultado estava passável, ela segurou a mão de Winter e desceu a escada. Quando chegaram ao segundo patamar, as paredes passaram a ser de pedra cinza-amarronzada. Elas estavam no subterrâneo, nos subníveis do palácio.
Três andares, elas saíram em uma plataforma iluminada por arandelas brilhantes. À frente havia trilhos magnéticos silenciosos. Scarlet se aproximou da beirada e olhou para os dois lados do túnel.
Ela viu uma segunda porta, arqueada e adornada com azulejos fosforescentes. Era a entrada dos corredores do palácio, diferente da entrada sem graça dos criados.
Alguma coisa estalou. Os ímãs começaram a zumbir. Com o coração dando um pulo até a garganta, Scarlet esticou o braço e empurrou Winter contra a parede. Um veículo em forma de bala surgiu do túnel e parou nos trilhos. Scarlet ficou imóvel, torcendo para que quem estivesse lá dentro não as visse, nem olhasse na direção delas.
A porta do veículo se abriu com um chiado hidráulico e uma nobre saiu aos risos, usando um vestido chamativo verde-esmeralda que cintilava com penas de pavão e pedras preciosas. Um homem a seguiu, de túnica bordada com runas parecidas com as usadas pelos taumaturgos. Ele esticou a mão e apertou as costas da mulher. Ela deu um gritinho e o empurrou para longe.
Scarlet só respirou quando eles saíram pela porta e a risada sumiu na escada.
— Aquele não era o marido dela — sussurrou Winter.
— Não estou nem aí. — Scarlet correu para o veículo. — Abra!
O veículo não se mexeu. A porta não se abriu.
— Abra, seu lixo imbecil! — Scarlet enfiou os dedos entre as portas e tentou abrir. O dedo machucado latejou pela primeira vez em dias. — Vamos lá. Qual é o problema dessa coisa? Como a gente…
A porta se abriu, quase derrubando Scarlet. Uma voz robótica disse:
— Transporte para Artemísia Porto E.
Arrepios explodiram em sua pele, mas ela fez Winter entrar, agradecendo em silêncio ao aliado invisível que as estava ajudando. Scarlet entrou logo depois de Winter e desabou em um banco. A porta se fechou, trancando-as lá dentro. Quando o veículo se elevou e começou a deslizar pelos trilhos, Winter acrescentou:
— De escapada.
Scarlet limpou a testa úmida com a manga suja. Quando sentiu o pânico sossegar o bastante para falar, ela perguntou:
— O que aconteceu lá? No jardim?
A força que tinha surgido nos olhos de Winter sumiu na mesma hora.
— A rainha o mandou me matar — disse ela. — Mas ele matou Ryu no meu lugar.
Scarlet abriu o moletom para esfriar a pele quente.
— Por que a rainha quer matar você?
— Ela acredita que eu seja uma ameaça à coroa dela.
Scarlet riu com deboche, um som exausto que não transmitia o desprezo que sentia.
— É mesmo? Ela já ouviu você falar?
Winter virou olhos questionadores para ela.
— Porque você é maluca — explicou Scarlet. — Não exatamente feita para ser rainha. Sem querer ofender.
— Eu não posso ser rainha porque não tenho ascendência real. Sua Majestade é apenas minha madrasta. Não tenho o sangue dela.
— Certo, porque é isso que importa em um governante.
Apesar de haver duas monarquias na União Terráquea, o Reino Unido e a Comunidade das Nações Orientais, Scarlet cresceu na Europa, uma democracia feita de separação de poderes, direito ao voto e representantes de províncias. Ela achava que cada um tinha seu jeito, e era evidente que os países da União estavam fazendo alguma coisa certo para terem passado por cento e vinte e seis anos de paz mundial.
Mas não era o caso com Luna. Havia alguma coisa defeituosa no sistema deles.
O veículo começou a ir mais devagar. Scarlet olhou para a janela quando a caverna preta de pedra se abriu em um enorme porto de espaçonaves vibrando em atividade. O piso azulejado brilhava, jogando as sombras de incontáveis naves nas paredes escuras.
Mas aquela doca estava lotada e era enorme, com vários trilhos de levitação magnética trazendo mais veículos a cada segundo. Havia carga sendo depositada em um veículo de outro trilho, comidas e mercadorias vindas dos setores externos, por homens que gritavam uns com os outros em ordens abreviadas que pareciam outra língua.
— Compartimento 22 — Scarlet lembrou a si mesma quando as portas do veículo se abriram. — Tente passar despercebida.
Winter olhou para ela, um momento de perfeita clareza, e até humor, em seu olhar. Ela estava certa. As duas estavam imundas. Estavam sujas de sangue. Winter era uma princesa amada mais bonita do que um buquê de rosas e mais maluca do que uma galinha sem cabeça.
Seria um milagre elas passarem despercebidas.
— Você poderia usar seu glamour — sugeriu Scarlet.
A ligação foi rompida e Winter se virou.
— Não, não poderia.
Ela saiu para a plataforma.
Scarlet foi atrás, aliviada de não ver ninguém usando roupas caras e adereços de cabeça ridículos. Ali era um lugar de negócios e carga, não de aristocratas, mas isso não queria dizer que elas estavam em segurança. Ela já sentia os trabalhadores parando, olhando de novo, impressionados.
— Você quer dizer que não vai usar — disse Scarlet.
— Eu quero dizer que não vou usar — concordou a princesa.
— Então pelo menos fique de cabeça baixa. — Scarlet ajeitou a toalha de mesa no cabelo de Winter, enquanto elas se afastavam dos trilhos.
O porto era enorme e se estendia ao longe. Havia centenas de alcovas escuras enfileiradas dos dois lados, com números entalhados acima. Scarlet observou a carga quando elas passaram, e palavras de guerra chamaram sua atenção.
MUNIÇÃO PARA ARMAS PEQUENAS
ENTREGA: REGIMENTO LUNAR 51, MATILHA 437
TAUMATURGO LAIGHT, ALFA GANUS
POSIÇÃO: ROMA, ITÁLIA, FE, TERRA
Munição. Eram armas destinadas à Terra para ajudar nos esforços de guerra de Luna.
Não reaja, disse para si mesma, apertando as mãos. Cada fibra em seu corpo desejava pegar uma arma e abrir fogo contra cada caixa daquele porto.
Não reaja. Não reaja.
Ela controlou a respiração e seguiu em frente, com Winter ao lado. Viu E7 pintado na parede à esquerda, E8 à direita. Quase lá.
Foi preciso toda a força de vontade do mundo para não sair correndo para o Compartimento 22.
— Posso ajudar?
Elas pararam. Um trabalhador deu um passo na direção delas, usando um macacão imundo.
— O que vocês… — Ele se controlou quando seu olhar pousou em Winter, ou no que ele via do rosto abaixado. — Eu… me perdoe. Vossa Alteza?
Winter levantou o rosto. As bochechas do homem ficaram vermelhas.
— É você — sussurrou ele. — Eu não… Posso ajudar, Vossa Alteza?
Scarlet se irritou. Ninguém tinha reparado nelas ainda. Ela segurou o braço do homem antes de ele fazer a reverência.
— Sua Alteza não quer ser observada. Se você quiser ajudar, pode nos acompanhar até o Compartimento 22.
O rosto do homem foi tomado de ansiedade e ele assentiu, como se estivesse com medo dela. Talvez achasse que ela era uma taumaturga em treinamento.
— S-Sim, claro. Por aqui.
Scarlet o soltou e disparou um olhar frio para Winter, indicando que ela escondesse o rosto novamente. Os passos do homem estavam rígidos quando ele as levou por plataformas flutuantes de carga e caixa em trilhos complicados. Ao coçar o pescoço com a mão livre, ele olhou duas vezes por cima do ombro.
— Tem alguma coisa errada? — perguntou Scarlet, com um tom de aço.
— N-Não. Desculpe.
— Então pare de olhar para ela.
Ele abriu a boca, e Scarlet achou que queria mencionar o sangue ou a sujeira ou a mera existência de Winter, mas fechou-a novamente e manteve a cabeça baixa.
Algumas das alcovas pelas quais passaram tinham portas pesadas de metal, mas a maioria estava aberta, e, dentro delas, havia naves paradas.
— Está vendo? — sussurrou Winter. — Cogumelos e as sombras que dançam.
Scarlet seguiu o gesto dela. As sombras das espaçonaves nas paredes pareciam mesmo cogumelos dançando. Mais ou menos. Se ela inclinasse a cabeça e apertasse os olhos.
— O Compartimento 22, Vossa Alteza.
Scarlet olhou para o número por cima da porta em arco e para a nave lá dentro. Era uma nave de duas pessoas, marcada com a insígnia dourada da corte real.
— Obrigada — disse Scarlet. — Isso é tudo.
As sobrancelhas do homem se uniram.
— Vocês… vocês vão precisar de acompanhante de volta?
Scarlet fez que não e enlaçou o braço no de Winter de novo, mas só deu dois passos e parou.
— Não diga a ninguém que nos viu — disse ela para o homem. — Mas, se alguém perguntar, diga que usamos glamour para você nos ajudar. Entendeu?
Seus olhos arregalados se viraram para Winter, que deu um sorriso caloroso. Ele ficou mais vermelho.
— Não sei se não usaram mesmo — murmurou ele.
Revirando os olhos, Scarlet puxou a princesa na direção da nave. Ela viu se o homem tinha ido embora e depois abriu a porta do lado do piloto e fez Winter entrar.
— Vá até o outro lado, a não ser que você planeje pilotar esta coisa.
Winter obedeceu sem questionar. Scarlet tirou a faca da cintura e a colocou entre elas.
Fechou a porta, e o barulho das docas silenciou a nave selada a vácuo.
Scarlet expirou e desejou que as mãos parassem de tremer. Que a confusão de controles à frente entrasse em foco. Ela examinou o cockpit e reparou nas semelhanças e nas diferenças em relação ao da nave de entrega que pilotava desde que tinha quinze anos.
— Eu consigo fazer isso — sussurrou ela, apertando o dedo na tela principal. A tela se acendeu. Os controles se iluminaram.
LIBERAÇÃO DE SEGURANÇA INDETERMINADA
Ela ficou encarando a mensagem. Precisou ler quatro vezes para que o significado das palavras fosse absorvido. Em parte, esperava que a ajuda fantasma anulasse a segurança da nave e ligasse o motor para ela. Como nada aconteceu, ela se lembrou do cilindro que Jacin lhe deu. Pegou-o do bolso, tirou a tampa e prendeu a respiração quando enfiou no orifício de segurança correspondente.
Um ícone girou acima da mensagem.
E girou.
E girou.
Seu estômago se contraiu. Uma gota de suor deslizou por sua nuca.
LIBERAÇÃO CONCEDIDA. BEM-VINDO, GUARDA REAL JACIN CLAY.
Scarlet deu um grito, tonta de alívio. Mexeu em alguns botões. O motor zumbiu e a nave se ergueu com a força magnética embaixo do porto, firme e segura. Fora da alcova, uma série de naves de carga seguia na direção da câmara selada que separava o Porto E de Artemísia do vazio do espaço. Elas podiam ir logo atrás, ninguém pararia uma nave real, ninguém nem questionaria…
— Espere — disse Winter quando Scarlet fez a nave seguir em frente.
O coração de Scarlet despencou.
— O quê? — perguntou ela, procurando um taumaturgo, um guarda, uma ameaça.
Winter esticou a mão e puxou o cinto de segurança do piloto por cima da cabeça de Scarlet.
— A segurança primeiro, amiga Scarlet. Somos coisinhas frágeis.

4 comentários:

  1. Pelas estrelas como eu amo a Winter

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  2. "Coisinhas frágeis" SÉRIO ISSO WINTER?

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  3. — A segurança primeiro, amiga Scarlet. Somos coisinhas frágeis.
    Elas estão fugindo e a winter pensa na segurança.

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  4. Ai gnt a winter é maravilhosa olha isso "coisinhas frágeis" PHSKSLQPAISJWMDNDSHWIWI

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Boa leitura, E SEM SPOILER!