13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta

CRESS CANTAROLOU BAIXINHO ENQUANTO PASSAVA A TOALHA pelo cabelo, impressionada porque o peso não mais a incomodava. Saiu do banheiro revigorada: sua pele estava rosada de tanto ela esfregar, e tinha conseguido tirar quase toda a sujeira que havia debaixo da unha. As solas dos pés e as partes de dentro das pernas ainda doíam, mas todas essas reclamações eram pequenas em comparação à sensação do luxo inesperado. Uma toalha macia. Cabelo curto e limpo. Mais água do que ela era capaz de beber durante um ano. Ou, pelo menos, o banho logo fez com que parecesse infinita.
Cress olhou para a pilha de roupas e não conseguiu suportar a ideia de vesti-las novamente. Como Thorne ainda não tinha voltado, ela pegou um cobertor na cama e se enrolou com ele, depois lutou para chutar as pontas ao atravessar o quarto até a tela na parede.
— Tela, ligar.
Estava sintonizada em um canal animado que mostrava polvos laranja e crianças azuis pulando ao som de uma batida eletrônica. Cress mudou para o noticiário local, depois abriu uma janela no canto para verificar as coordenadas GPS.
Kufra, uma cidade mercante na beirada oriental do Saara. Ela afastou o mapa e tentou localizar onde o satélite devia ter caído, embora fosse impossível avaliar o quanto eles andaram. Provavelmente não tanto quanto parecia. Apesar disso, não havia nada, nada, no território coberto de areia ao norte e ao oeste.
Ela tremeu ao se dar conta do quanto eles chegaram perto de virar comida de gaviões.
Tirou o mapa da tela e começou a elaborar uma estratégia para fazer contato com a Rampion. Embora eles não tivessem mais o chip D-COMM, isso não queria dizer que a Rampion estava fora de alcance. Afinal, com ou sem equipamento de rastreio, ela ainda teria capacidade de comunicação e um endereço de protocolo de rede. Poderia invadir o banco de dados militar e procurar o endereço original da nave, mas isso seria perda de tempo. Se fosse tão fácil, a Comunidade teria feito contato com a Rampion assim que determinou que nave estava procurando.
Isso significava que o endereço tinha sido mudado, provavelmente não muito depois da deserção de Thorne.
O que provavelmente significava que o sistema de autocontrole tinha sido trocado.
Com sorte, Thorne teria alguma informação sobre onde e quando o novo sistema tinha sido comprado, ou por que a programação tinha sido substituída.
Se ele não soubesse de nada, bem... ela teria que ser criativa.
Não valia a pena se preocupar com isso. Uma coisa de cada vez.
Tinha que ter certeza de que havia alguém a bordo da nave para poder fazer contato.
Ela começou a verificar os noticiários. Uma busca simples deixou claro que, dessa vez, a imprensa da Terra não tinha mais informações sobre o paradeiro de Linh Cinder do que cinco dias antes.
— ... satélite lunar...
Ela dirigiu a atenção ao âncora do noticiário que estava falando em uma língua estrangeira, provavelmente a língua na qual o caçador da caravana falou com eles primeiro. Cress franziu a testa, pensando que estava só ouvindo coisas. Mas, ao apertar os olhos para observar os lábios do homem, ela pensou ter ouvido Saara e, de novo, lunar.
— Configurar tradução para língua universal.
A língua foi trocada quando o âncora foi substituído por imagens de um deserto enorme, um deserto horrivelmente familiar. E ali, no meio dele, estavam os destroços que ela e Thorne abandonaram. O satélite, ainda preso à nave lunar e com o paraquedas preso atrás. Um quadrado grande tinha sido cortado do tecido.
Ela engoliu em seco.
Não demorou para ela entender a essência da história. Diversas testemunhas viram uma coisa cair do céu. A chama pôde ser vista até mesmo ao norte do Mediterrâneo, e o satélite foi descoberto dois dias depois. Não havia dúvida de que era de construção lunar.
Não havia dúvida de que alguém tinha sobrevivido e abandonado o local, levando os suprimentos que conseguiu carregar.
As autoridades ainda estavam vasculhando o deserto. Não se sabia se procuravam um sobrevivente ou muitos, mas era certo que buscavam lunares, e, no estado de tensão entre Luna e a Terra, ninguém estava disposto a correr o risco da ira da rainha se os fugitivos não fossem encontrados.
Cress afundou as mãos no cabelo molhado e embaraçado.
As implicações a atingiram em sucessão rápida.
Se algum dos caravaneiros descobrisse sobre o acidente, desconfiaria que Cress e Thorne eram os sobreviventes. Eles os entregariam, e, quando as autoridades encontrassem Thorne, ele logo seria reconhecido.
E não só os caravaneiros. Todos ficariam desconfiados de estranhos.
Mas havia também uma luz em meio ao pânico.
Se Linh Cinder soubesse do acidente, também saberia o que aconteceu. Ela saberia que Thorne e Cress estavam vivos.
A tripulação iria buscá-los.
Era tudo uma questão de quem os encontraria primeiro.
Cress saiu da cadeira e vestiu as roupas sujas, ignorando o tanto que arranhavam a pele.
Ela precisava contar para Thorne.
Foi cautelosa ao seguir pelo corredor, tentando agir com naturalidade, mas sem saber direito como era isso. Já estava ciente do quanto a pele e o cabelo claros a destacavam ali e não queria atrair mais atenção do que precisava.
O barulho do saguão do hotel subiu pela escada. Gargalhadas e gritos e o tilintar de copos. Cress espiou por cima do corrimão. A quantidade de pessoas quadruplicara desde que eles saíram do saguão; devia ser uma hora movimentada. Homens e mulheres ocupavam o bar e as mesas de jogo, comendo de tigelas de frutas secas.
O grupo ao redor de uma mesa no canto gritou de alegria, e Cress ficou aliviada ao ver Thorne no meio deles, ainda com a venda e segurando um leque de cartas. Ela seguiu em meio às pessoas na direção dele, com a boca aguando pelos aromas desconhecidos e picantes.
A multidão se mexeu, e ela ficou paralisada.
Havia uma mulher no colo de Thorne. Ela era linda como uma atriz de novela, com pele marrom quente e lábios cheios e cabelo caído em dezenas de tranças compridas e finas tingidas de vários tons de azul. Usava um short cáqui simples e uma blusa, mas que lhe davam uma aparência elegante.
E tinha as pernas mais compridas que Cress já tinha visto.
A mulher se inclinou para a frente e empurrou uma pilha de fichas de plástico na direção de um dos outros jogadores. Thorne inclinou a cabeça, rindo. Pegou uma das poucas fichas que ainda havia na frente dele e girou pelos dedos algumas vezes antes de colocar na mão da mulher. Em resposta, ela passou as unhas pelo pescoço dele.
O ar queimou ao redor de Cress, grudando na pele dela e apertando-a, espremendo sua garganta até ela não conseguir respirar. Sufocada, virou-se e saiu correndo do saguão.
Seus joelhos estavam tremendo enquanto subia a escada. Ela achou a porta número oito e balançou a maçaneta inutilmente, vendo aquelas unhas provocando a pele dele de novo e de novo, antes de perceber que estava trancada. A chave se encontrava lá dentro, atrás da pia do banheiro.
Ela chorou e escorregou encostada na parede enquanto batia a testa na moldura da porta.
— Burra. Burra. Burra.
— Cress?
Ela se virou enquanto limpava as lágrimas quentes. Jina estava na frente dela, pois tinha acabado de sair do quarto no final do corredor.
— O que foi?
Cress afastou a cabeça.
— E-Estou trancada do lado de fora. E Carswell... Carswell está...
Ela desabou, chorando nas palmas das mãos. Jina se aproximou e a abraçou.
— Ah, pronto, pronto, não vale a pena se chatear tanto.
Isso só fez Cress chorar mais. Como a história deles se distorceu! Thorne não era marido dela, apesar do romance inventado, apesar das noites passadas nos braços dele. Ele tinha todo o direito de flertar com quem quisesse, mas...
Mas...
Como ela estava errada. Como tinha sido burra.
— Você está em segurança agora — disse Jina, massageando suas costas. — Tudo vai ficar bem. Aqui, eu trouxe sapatos.
Fungando, Cress olhou para os sapatos simples de lona nas mãos de Jina. Pegou-os com mãos trêmulas, gaguejando sua gratidão, embora enterrada embaixo de soluços.
— Escute, eu ia me encontrar com Niels para comer. Você quer vir conosco?
Cress balançou a cabeça.
— Não quero voltar lá para baixo.
Jina acariciou o cabelo de Cress.
— Você não pode ficar aqui em cima sem sua chave. Vamos passar direto pelo saguão. Tem um restaurante na esquina. Parece boa ideia?
Cress tentou se acalmar. Só queria entrar no quarto e se esconder embaixo da cama, mas precisaria ir falar com a garota na recepção de novo para obter outra chave. Atrairia ainda mais atenção para si, principalmente porque seus olhos e rosto estavam vermelhos. As pessoas falariam, e ela de repente se lembrou do quanto era ruim as pessoas falarem.
E não queria ainda estar de pé no corredor, fungando e infeliz, quando Thorne voltasse. Se pudesse ter um tempo para se acalmar, depois poderia falar com ele racionalmente. Ela seguiria em frente, como se seu coração não estivesse em pedaços.
— Tudo bem — disse ela. — Sim, obrigada.
Jina a manteve em segurança debaixo do braço e desceu a escada depressa, passando pelo saguão em seguida. Guiou-a pela calçada da rua principal. A multidão tinha diminuído, e muitas das lojas estavam fechadas até o dia seguinte.
— Não é certo ver uma garota tão bonita chorando assim, principalmente depois do que você passou.
Cress fungou de novo.
— Não me diga que você e Carswell brigaram depois de sobreviver no grande Saara juntos?
— Ele não é...
Ela baixou a cabeça e viu areia escorrer pelas rachaduras no piso de argila.
Jina segurou o cotovelo dela.
— Ele não é o quê?
Cress fungou na manga.
— Nada. Deixe pra lá.
Houve uma pausa, e Jina falou com a voz suave:
— Vocês não são casados de verdade, são?
Cress trincou os dentes e balançou a cabeça.
Jina acariciou o braço dela de leve.
— Todos nós temos nossos segredos, e posso tentar adivinhar seus motivos. Se eu estiver certa, não culpo você pelas mentiras. — Ela se inclinou a ponto de sua testa tocar no cabelo de Cress. — Você é lunar, não é?
Seus pés tropeçaram e pararam. Ela se soltou do toque gentil de Jina, os instintos a mandando correr, se esconder. Mas a expressão de Jina era cheia de solidariedade, e o pânico sumiu rapidamente.
— Eu soube do satélite caído. Achei que deviam ter sido vocês. Mas está tudo bem. — Ela puxou Cress de novo. — Lunares não são tão raros por aqui. Alguns de nós até apreciam o fato de ter vocês por perto.
Cress cambaleou ao lado dela.
— É mesmo?
A mulher inclinou a cabeça e apertou os olhos para Cress.
— Basicamente, descobrimos que o seu povo só quer ficar na sua. Depois de passar por toda a dificuldade para chegar à Terra, por que se arriscar a ser pego e enviado de volta, afinal?
Cress se permitiu ser guiada enquanto ouvia, surpresa pela forma racional como Jina falava sobre aquilo tudo. Toda a mídia terrestre a tinha feito acreditar que havia um ódio tão grande por lunares, que ela jamais poderia ser aceita. Mas e se isso não fosse verdade?
— Espero que você não se ofenda pela minha pergunta — prosseguiu Jina —, mas você não... tem o dom?
Ela confirmou sem jeito e ficou surpresa com o sorriso arrogante que surgiu no rosto de Jina, como se ela tivesse adivinhado desde o começo.
— Ali está Niels.
Os pensamentos de Cress giravam. E pensar que ela e Thorne podiam ter dito a verdade desde o começo... mas não, ele ainda era um criminoso procurado. Ela teria que pensar em uma nova história para explicar como ela e Thorne estavam juntos. Será que achavam que ele também era lunar?
Niels e Kwende estavam em frente a um veículo enorme e poeirento com grandes rodas de tração. A capota se achava levantada, um fio o ligava a um gerador adjacente a um prédio, e uma porta ampla estava aberta atrás. Eles colocavam coisas dentro, muitos sacos de mercadorias que Cress pensou reconhecer dos camelos.
— Abrindo espaço para a nova carga? — perguntou Jina, juntando-se aos homens. Se Niels ficou surpreso de ver Cress sem o marido, não demonstrou.
— Praticamente terminamos — disse ele, limpando as mãos. — O motor está quase todo carregado. Não devemos ter problema para chegar a Farafrah e voltar sem precisar usar as reservas de gasolina.
— Fara...? — Cress olhou para Jina. — Vocês não vão ficar?
Jina estalou a língua.
— Ah, Jamal e alguns outros vão, mas recebemos uma nova ordem e precisamos fazer uma viagem especial. Tem sempre mais negócios a fazer.
— Mas vocês acabaram de chegar aqui. E os camelos?
Niels riu.
— Vão ficar nos estábulos da cidade, felizes pelo descanso. Às vezes eles servem a nossos propósitos, e às vezes precisamos de alguma coisa um pouco mais rápida. — Ele bateu com a palma da mão na lateral do carro. — Você andou chorando?
— Não é nada — disse ela, baixando a cabeça.
— Jina?
A mão de Jina apertou mais o braço de Cress, e ela respondeu à pergunta muda na outra língua deles. Cress ficou vermelha e desejou saber o que Jina estava dizendo.
Ele sorriu de forma enigmática e assentiu.
Cress foi agarrada de repente por trás. A mão de alguém cobriu sua boca e abafou o grito de susto quando foi empurrada para além de Jina, além de Niels. Sua cabeça foi forçada para baixo quando ela foi jogada na traseira do veículo e bateu com a canela no para-lama. A porta se fechou. A escuridão a envolveu.
Niels gritou uma coisa que ela não entendeu, e o motor rugiu embaixo dela. Cress ouviu mais duas portas baterem na frente do veículo.
— Não!
Ela se jogou na porta traseira e bateu com os punhos no metal. Gritou até a garganta ficar áspera, até o rugido e o movimento do veículo ficarem altos e os solavancos a empurrarem sobre uma pilha de tecidos enrolados.
Sua mente ainda estava girando quando, poucos minutos depois, ela sentiu as vibrações mudarem. Eles já tinham deixado as ruas pavimentadas de Kufra para trás.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!