3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta

CINDER SE SENTOU EM SEU ESTANDE, O QUEIXO APOIADO NAS mãos, observando o enorme netscreen do outro lado da rua lotada. Ela não conseguia ouvir os comentários do repórter em meio ao caos, mas não precisava — ele estava cobrindo o festival no qual ela estava. O jornalista parecia estar se divertindo bem mais do que ela, gesticulando loucamente para os vendedores de comida e malabaristas que passavam, contorcionistas em pequenos carros alegóricos e o fim da cauda de uma pipa do dragão da sorte. Cinder sabia, pelo rebuliço, que o repórter estava na praça a apenas uma quadra dela, onde a maioria dos eventos acontecia durante o dia. Era bem mais festiva do que a rua com os estandes dos vendedores, mas pelo menos ela estava na sombra.
O dia teria sido bem ocupado comparado aos dias de feira — um monte de clientes em potencial tinham pesquisado preços de tablets quebrados e peças de androides —, mas ela fora forçada a dispensar todos. Não faria mais clientes em Nova Pequim. Ela nem estaria ali se Adri não a tivesse forçado a ir, deixando-a lá enquanto ela e Pearl iam ao shopping para comprar os acessórios de última hora para o baile. Ela desconfiava que Adri só queria observar os olhares pasmos para a garota manca de um pé só.
Ela não podia dizer à madrasta que Linh Cinder, renomada mecânica, não estava disponível para os negócios.
Porque não podia dizer a Adri que partiria.
Cinder suspirou, soprando um cacho de cabelo desarrumado para longe do rosto. O calor era miserável. A umidade se colava à pele, grudando sua camisa às costas. Junto às crescentes nuvens no horizonte, isso prometia chuva, muita chuva.
Não eram as condições ideais para dirigir.
Mas isso não a deteria. Dali a doze horas, estaria quilômetros além dos limites da cidade, abrindo a maior distância que conseguisse entre ela e Nova Pequim. Descera para a garagem todas as noites depois que Adri e Pearl adormeciam, saltando em uma perna só, apoiada em uma muleta improvisada, feita em casa, para que pudesse trabalhar no carro. A noite passada, pela primeira vez, o motor rugiu para a vida.
Bem, na verdade, foi mais como se gaguejasse para a vida e cuspisse gases nocivos do escapamento, que a fizeram tossir como louca. Usara quase a metade do dinheiro da pesquisa de Erland em um grande tanque de gasolina que, se ela tivesse sorte, a levaria pelo menos até a província seguinte. Seria uma viagem sacolejante. Seria uma viagem fedorenta.
Mas ela estaria livre.
Não — elas estariam livres. Ela e o chip de personalidade de Iko e o chip de identificação de Peony. Iam todas fugir juntas, como sempre dissera que fariam.
Embora ela soubesse que nunca traria Peony de volta, esperava que algum dia pelo menos pudesse encontrar outro corpo para Iko. Alguma outra carcaça de androide, talvez — quem sabe até mesmo uma acompanhante, com suas formas femininas ideais, zombeteira. Ela achava que Iko gostaria disso.
O telão mudou, exibindo as outras principais notícias da semana. Chang Sunto, a criança que passara por um milagre. Sobrevivente da peste. Ele foi entrevistado inúmeras vezes sobre sua inacreditável recuperação, e toda vez isso despertava um pequeno brilho no coração de silício de Cinder.
Imagens de sua louca fuga da quarentena foram reproduzidas repetidas vezes nas telas também, mas a gravação nunca mostrava seu rosto, e Adri estava muito distraída — pelo baile e pelo enterro para o qual Cinder não foi convidada — para perceber que a garota misteriosa vivia debaixo de seu próprio teto. Ou talvez Adri prestasse tão pouca atenção nela que não a reconheceria de qualquer forma.
Rumores abundavam sobre a garota e a miraculosa recuperação de Chang Sunto, e embora alguns falassem de um antídoto, ninguém era muito claro. O menino estava agora sob a vigilância da equipe de pesquisa do palácio, o que significava que o dr. Erland tinha uma nova cobaia para se divertir. Ela esperava que fosse o suficiente, dado que seu papel como voluntária na pesquisa chegara ao fim. Ela não tivera a coragem de dizer ao doutor ainda, contudo, e a culpa se agarrava a ela quando via um novo depósito em sua conta a cada manhã. O dr. Erland mantinha suas promessas — criara uma conta ligada à identificação de Cinder de forma que só ela pudesse acessar, e não Adri, e fizera depósitos quase diários do fundo de pesquisa e desenvolvimento. Até então não pedira nada em troca. Seus únicos comunicados foram para dizer que ainda estava usando suas amostras de sangue e para lembrá-la de não retornar ao palácio até que a rainha tivesse ido embora.
Cinder franziu o cenho, coçando a bochecha. O dr. Erland nunca tivera a chance de lhe explicar por que ela era tão especial, se ele também era imune. A curiosidade dela permanecia no fundo de seus pensamentos, mas não tão forte quanto sua determinação para fugir. Alguns mistérios permaneceriam sem solução.
Ela puxou a caixa de ferramentas em cima da mesa para si, remexendo-a por nenhuma outra razão a não ser manter suas mãos ocupadas. O tédio dos últimos cinco dias a levara a organizar meticulosamente cada parafuso restante. Agora começara a contar, criando um inventário digital no cérebro.
Uma criança surgiu do outro lado da mesa de trabalho, o cabelo preto macio preso em marias-chiquinhas.
— Com licença — disse ela, pousando um tablet na mesa. — Você pode consertar isso?
Cinder virou os olhos entediados da criança para o tablet. Era pequeno o bastante para caber em sua mão e estava coberto por uma capa rosa cintilante. Suspirando, ela pegou o tablet e o virou nas mãos. Pressionou o botão de força, mas apenas um jargão ininteligível apareceu na tela. Torcendo os lábios, ela bateu o canto da tela na mesa duas vezes. A garota pulou para trás.
Cinder tentou o botão de força novamente. A tela de boas-vindas apareceu.
— Dê uma chance a ele — disse ela, devolvendo-o à criança, que tropeçou ao pegá-lo. Os olhos da garota brilharam. Ela deu um sorrisinho rápido com dois dentes faltando antes de correr para a multidão.
Cinder se curvou, pousou o queixo nos antebraços e desejou pela milésima vez que Iko não estivesse presa dentro de um pequeno pedaço de metal. Elas estariam se divertindo com os vendedores com os rostos suados e rosados, se abanando dentro das coberturas de seus estandes. Falariam sobre todos os lugares a que iriam e veriam — o Taj Mahal, o mar Mediterrâneo, a estrada do trem transatlântico de levitação magnética. Iko iria querer fazer compras em Paris.
Quando um estremecimento a percorreu, Cinder enterrou o rosto no cotovelo. Por quanto tempo ela teria que carregar aqueles fantasmas ao seu redor?
— Você está bem?
Ela se sobressaltou e levantou os olhos. Kai estava se inclinando no canto do estande, um braço apoiado no trilho de metal da porta, o outro escondido atrás dele. Usava seu disfarce novamente, o moletom cinza com o capuz na cabeça, e, mesmo naquele calor sufocante, conseguia parecer perfeitamente composto. O cabelo dele apenas despenteado, o sol brilhando atrás dele — o coração de Cinder começou a se expandir antes que ela o contivesse.
Ela não se deu o trabalho de levantar, mas de modo consciente enfiou a perna o mais para baixo possível, querendo esconder o máximo de fios, mais uma vez feliz pela fina toalha de mesa.
— Vossa Alteza.
— Não quero lhe dizer como conduzir o seu negócio nem nada — disse ele —, mas você já pensou em cobrar das pessoas pelos seus serviços?
Seus fios pareciam estar lutando para se conectar em seu cérebro por um momento, antes que ela se lembrasse da garotinha de alguns instantes atrás. Ela limpou a garganta e olhou em volta. A garota estava sentada na calçada com o vestido esticado sobre os joelhos, cantarolando a música que saía das pequenas caixas de som. Consumidores passavam, girando sacolas contra os quadris e petiscando ovos cozidos em chá. Os lojistas estavam ocupados transpirando.
Ninguém estava prestando nenhuma atenção neles.
— Não quero lhe dizer como ser príncipe, mas você não devia ter alguns guarda-costas ou algo assim?
— Guarda-costas? Quem iria querer fazer mal a um cara encantador como eu?
Quando ela o olhou, ele sorriu e mostrou rapidamente o pulso para ela.
— Acredite em mim, eles sabem exatamente onde estou o tempo todo, mas tento não pensar nisso.
Ela pegou um parafuso de cabeça chata da caixa de ferramentas e começou a rodopiá-lo entre os dedos, qualquer coisa para manter as mãos ocupadas.
— Então, o que você está fazendo aqui? Você não deveria, não sei, estar se preparando para a coroação ou algo do gênero?
— Acredite ou não, parece que estou tendo dificuldades técnicas de novo. — Ele tirou o tablet do cinto e olhou para baixo. — Veja, eu imaginei que provavelmente é demais esperar que a mecânica mais renomada de Nova Pequim esteja tendo problemas com o tablet dela, então concluí que deve haver algo errado com o meu. — Contorcendo os lábios, ele bateu o canto de seu tablete na mesa, em seguida checou a tela de novo com um suspiro pesado. — Não, nada. Talvez ela esteja ignorando meus comunicados de propósito.
— Ela não pode estar ocupada?
— Ah, sim, você parece completamente atarefada.
Cinder revirou os olhos.
— Aqui, eu trouxe uma coisa para você. — Kai deixou o tablet de lado e tirou a mão de detrás das costas, fazendo surgir uma caixa longa e fina embalada num papel dourado e com uma fita branca. O papel era lindo, mas o embrulho em si, nem tanto.
Cinder largou a chave de fenda com um retinir.
— Para que é isso?
Uma pontada de mágoa atravessou o rosto dele.
— Como assim? Eu não posso comprar um presente para você? — perguntou, em um tom que quase interrompeu as ondas elétricas na fiação dela.
— Não. Não depois de eu ter ignorado seis comunicados seus na última semana. Você é lento para entender as coisas?
— Então você os recebeu!
Ela pousou os cotovelos na mesa, afundando o queixo nas palmas das mãos.
— É claro que recebi.
— Então por que está me ignorando? Eu lhe fiz alguma coisa?
— Não. Sim. — Ela fechou os olhos e os esfregou, massageando as têmporas em seguida. Pensara que a parte difícil tinha passado. Ela desapareceria, e ele seguiria com sua vida. Ela passaria o resto da vida acompanhando quando o príncipe, não, o imperador Kai fizesse discursos e aprovasse impostos. Quando viajasse em missões diplomáticas pelo mundo. Quando apertasse mãos e beijasse bebês. Ela o veria se casar. Assistiria quando sua esposa lhe desse filhos, porque o mundo todo pararia para ver isso acontecer.
Mas ele a esqueceria. Era o que precisava acontecer.
Como fora ingênua em pensar que seria tão simples.
— Não? Sim?
Ela gaguejou, pensando que seria fácil culpar Adri por seu silêncio, sua cruel madrasta que se recusara a lhe permitir que deixasse a casa, mas não era fácil. Ela não podia arriscar dar esperanças a Kai. Não podia se arriscar a fazer qualquer coisa que pudesse mudar sua determinação.
— É só que eu…
Ela recuou, sabendo que deveria lhe contar. Ele pensava que ela era uma simples mecânica, e talvez estivesse disposto a cruzar essa barreira social. Mas ser ciborgue e lunar? Ser odiada e desprezada por cada cultura na galáxia? Ele entenderia em um instante porque precisava tirá-la da cabeça.
Mais do que isso, ele provavelmente a esqueceria num piscar de olhos.
Seus dedos de metal coçaram. Sua mão direita estava queimando dentro do tecido.
Tire as luvas e mostre a ele.
Ela esticou a mão para a bainha distraidamente, tocando o material sujo de graxa.
Mas não conseguia. Ele não sabia. Ela não queria que ele soubesse.
— Porque você ficou insistindo sobre o baile idiota — disse ela, empalidecendo só em pensar nas próprias palavras.
Ele lançou um olhar superficial para a caixa dourada em suas mãos. A tensão se derreteu até que seus braços caíssem ao lado do corpo.
— Pelas estrelas, Cinder, se eu soubesse que você baixaria um embargo sobre mim só por convidá-la para um encontro, eu não teria me atrevido.
Ela olhou para cima, para o céu, desejando que ele tivesse ficado pelo menos um pouco aborrecido com a resposta dela.
— Tudo bem, você não quer ir ao baile. Entendi. Não vou mais mencioná-lo.
Ela brincou com as pontas dos dedos das luvas.
— Eu agradeço.
Kai pousou a caixa na mesa.
Ela se remexeu, desconfortável, incapaz de esticar o braço para pegar o presente.
— Você tem alguma coisa importante para fazer? Algo como… governar um país?
— Provavelmente.
Inclinando-se para a frente, ele espalmou a mão no balcão e se inclinou mais, endireitando-se para ver o colo de Cinder. O coração dela saltou e ela se enfiou ainda mais para dentro do balcão, posicionando o pé o mais longe possível do raio de visão dele.
— O que você está fazendo? — perguntou ela.
— Você está bem?
— Estou. Por quê?
— Você normalmente é o mais elevado exemplo da etiqueta real, mas nem sequer se levantou. E eu estava tão preparado para ser um cavalheiro e insistir para que você se sentasse novamente…
— Sinto muito por ter roubado de você esse momento de tanto orgulho… — disse ela, afundando mais na cadeira. — Mas cheguei aqui ao amanhecer e estou cansada.
— Desde o amanhecer! Que horas são agora? — Ele esticou a mão para pegar o tablet.
— São uma e quatro da tarde.
Ele parou com a mão no dispositivo em sua cintura.
— Bem, é hora para um intervalo então, não é? — Ele sorriu radiante. — Será que eu posso ter a honra de lhe convidar para almoçar?
Pânico faiscou na parte posterior da cabeça de Cinder e ela se sentou reta.
— É claro que não.
— Por quê?
— Porque estou trabalhando. Não posso simplesmente sair daqui.
Ele ergueu uma sobrancelha para as pilhas de parafusos impecavelmente organizados no balcão.
— Trabalhando nisso?
— Para seu governo, estou esperando um grande pedido de peças e alguém tem que estar aqui para recebê-lo. — Ela estava orgulhosa pela mentira ter soado tão verossímil.
— Cadê o androide?
A respiração dela falhou.
— Ela… não está aqui.
Kai deu um passo para trás, afastando-se do balcão, e olhou dramaticamente em volta.
— Peça a um dos vendedores para dar uma olhada no seu estande.
— De jeito nenhum. Gastei dinheiro para alugar esse estande. Não vou simplesmente abandoná-lo porque algum príncipe apareceu.
Kai se aproximou da mesa de novo.
— Vamos… Não posso levar você para aquele lugar que começa com b, e não posso levá-la para almoçar. A não ser que eu desconecte o processador de um dos meus androides, essa será a última vez em que nos veremos.
— Acredite ou não, eu, na verdade, já tinha meio que aceitado isso.
Kai pousou os cotovelos no balcão, abaixando a cabeça de forma que o capuz ocultava dela os olhos dele. Os dedos de Kai encontraram um parafuso e começaram a passá-lo de um para o outro.
— Você vai assistir à coroação, pelo menos?
Ela hesitou antes de encolher os ombros.
— É claro que sim.
Assentindo com a cabeça, ele usou a ponta do parafuso para limpar a unha do polegar, embora Cinder não conseguisse ver nenhuma sujeira ali.
— Espera-se que eu faça uma declaração hoje à noite. Não durante a coroação, mas no baile. Sobre as negociações de paz que estamos discutindo desde a semana passada. Não será transmitida por causa dessa política ridícula da Levana contra câmeras, mas eu queria que você soubesse.
Cinder se enrijeceu.
— Houve algum progresso?
— Acho que pode-se dizer que sim. — Ele olhou para ela, mas não conseguiu sustentar o olhar por muito tempo. Logo ele estava olhando além dela, para todas as peças abandonadas. — Sei que é idiota, mas em parte eu sentia que, se visse você hoje, se eu pudesse convencê-la a me acompanhar esta noite, então talvez ainda pudesse mudar as coisas. É ridículo, eu sei. Não que Levana se importe se eu, você sabe, de repente sentir alguma coisa por alguém. — Ele ergueu a cabeça de novo, arremessando o parafuso de volta para sua pilha.
Todo o corpo de Cinder formigou com as palavras dele, mas ela engoliu em seco, forçando a distração a se afastar. Ela se lembrou de que aquela era a última vez que o veria.
— Você quer dizer que vai… — As palavras secaram. Ela baixou a voz. — Mas e Nainsi? As coisas que… que ela sabia?
Kai enfiou as mãos nos bolsos, o olhar perturbado desaparecendo.
— É tarde demais. Mesmo que eu pudesse achá-la. Não aconteceria hoje, nem mesmo antes… E também há o antídoto, e eu… não posso simplesmente fazer corpo mole diante disso. Muita gente está morrendo.
— O dr. Erland descobriu alguma coisa?
Kai assentiu lentamente.
— Ele confirmou que é um antídoto de verdade, mas diz que não consegue duplicá-lo.
— O quê? Por quê?
— Acho que um dos ingredientes somente é encontrado na Lua. Irônico, não? E também houve o menino que se recuperou na semana passada, e o dr. Erland tem feito exames nele há dias, mas está fazendo muito segredo quanto a isso. Diz que não devo alimentar esperanças de que a recuperação do menino possa nos conduzir a qualquer nova informação. Ele não disse isso diretamente, mas… estou com a impressão de que o doutor está perdendo as esperanças de encontrar um antídoto a curto prazo. Algum antídoto além do de Levana, pelo menos. Pode ser que leve anos para que façamos qualquer progresso, e a qualquer momento… — Ele hesitou, os olhos assombrados. — Não sei se seria capaz de ver tanta gente morrer.
Cinder baixou o olhar.
— Sinto tanto… queria que houvesse algo que eu pudesse fazer.
Kai se levantou do balcão, endireitando-se de pé novamente.
— Você ainda está pensando em ir para a Europa?
— Ah, sim, de fato. Estou, um pouco. — Ela respirou fundo. — Você quer me acompanhar?
Ele deu uma risadinha e tirou o cabelo do rosto.
— Sim. Você está brincando? Acho que essa foi a melhor proposta que já recebi.
Ela sorriu para ele, mas durou pouco. Um único momento feliz de faz de conta.
— Preciso voltar — disse ele, baixando o olhar para a caixa embrulhada pelo fino papel dourado. Cinder tinha quase esquecido o presente. Ele o empurrou pelo balcão, desarrumando uma fila de parafusos com o gesto.
— Não. Eu não posso…
— Claro que pode. — Ele deu de ombros, aparentemente constrangido, o que lhe dava uma aparência, por estranho que pareça, charmosa. — Tinha pensado nele para o baile, mas… bem, onde quer que você tenha a chance, eu acho.
A curiosidade fervia dentro dela, mas ela se forçou a empurrar a caixa na direção dele.
— Não, por favor.
Ele pousou com firmeza a mão sobre a dela — Cinder podia sentir seu calor mesmo com a luva grossa.
— Aceite — disse ele, e deu seu característico sorriso de príncipe encantado, como se estivesse completamente tranquilo. — E pense em mim.
— Cinder, aqui, pegue isso.
Cinder se sobressaltou com a voz de Pearl e puxou a mão de baixo da de Kai.
Pearl passou o braço por sua mesa de trabalho, lançando pecinhas e parafusos retinindo para a calçada, e depois pousou violentamente uma pilha de caixas de papel no lugar deles.
— Coloque-as em algum lugar lá atrás, onde não serão roubadas — disse Pearl, gesticulando distraidamente na direção dos fundos do estande. — Algum lugar limpo, se houver.
Com o coração latejando, Cinder esticou a mão para pegar as caixas e as puxou para si. Seus pensamentos dispararam para seu calcanhar vazio, como ela teria que mancar para os fundos do estande, como não haveria jeito de esconder sua deformidade.
— Como assim, sem “por favor” nem “obrigado”? — disse Kai.
Cinder recuou, desejando que Kai já tivesse ido embora antes que Pearl arruinasse os últimos momentos em que ela poderia vê-lo.
Pearl se eriçou. Ela jogou o longo cabelo sobre o ombro enquanto virava na direção do príncipe, os olhos escurecendo.
— Quem é você para…
As palavras desapareceram, e seus lábios formaram um beicinho, em surpresa.
Kai botou as mãos nos bolsos e olhou para Pearl com um desdém mal disfarçado.
Cinder torceu os dedos nos laços que amarravam as caixas de Pearl.
— Vossa Alteza, por favor conheça minha meia-irmã, Linh Pearl.
Os lábios de Pearl se abriram, a mandíbula caindo enquanto o príncipe lhe fazia uma curta reverência.
— É um prazer — disse ele, o tom muito direto.
Cinder limpou a garganta.
— Obrigada novamente por seu generoso pagamento, Vossa Alteza. E, ah, felicidades em sua coroação.
O olhar de Kai se suavizou quando ele o desviou de Pearl. Uma ponta de conspiração compartilhada tocou os cantos de seus lábios, algo muito sugestivo para passar despercebido por Pearl. Ele abaixou sua cabeça para Cinder.
— Acho que é adeus, então. Meu pedido ainda vale, de qualquer forma, se você mudar de ideia.
Para o alívio de Cinder, ele não se estendeu no assunto, apenas se virou e desapareceu em meio à multidão.
Pearl o seguiu com os olhos. Cinder quis fazer o mesmo, mas se forçou a olhar para a pilha de caixas de compras.
— Sim, claro — disse ela, como se a interrupção do príncipe não tivesse acontecido. — Vou deixá-las nas prateleiras ali atrás.
Pearl pôs a mão sobre a de Cinder, detendo-a. Seus olhos estavam arregalados, incrédulos.
— Aquele era o príncipe.
Cinder fingiu indiferença.
— Eu consertei um dos androides reais semana passada. Ele veio apenas me pagar.
Uma ruga se formou entre as sobrancelhas de Pearl. Seus lábios se fecharam firmemente. Seu olhar cheio de suspeita caiu na fina caixa dourada que Kai deixara para trás. Sem hesitar, ela a pegou.
Cinder arfou e tentou pegar a caixa, mas Pearl saiu de seu alcance. Cinder pôs o joelho em cima da bancada, pronta para pulá-la, quando percebeu que catástrofe seria. Com a pulsação disparada, ela congelou e observou enquanto Pearl desfazia o laço e deixava a fita cair no chão poeirento, e depois rasgou o papel dourado. A caixa embaixo era simples e branca, sem nenhuma marca. Ela levantou a tampa.
Cinder levantou a cabeça, tentando ver o que tinha dentro, enquanto Pearl olhava pasma o presente. Ela podia ver vincos de papel de seda e algo branco e sedoso. Analisou o rosto de Pearl, tentando julgar sua reação, mas conseguia apenas perceber confusão.
— Isso é uma piada?
Sem dizer nada, Cinder recuou lentamente, tirando o joelho do balcão.
Pearl baixou a caixa para que Cinder pudesse ver. Do lado de dentro estava o mais lindo par de luvas que ela já vira. Seda pura e com um brilho branco-prateado. Eram longas o bastante para cobrir seus cotovelos, e havia uma linha de pérolas somente ao longo da bainha que acrescentava um toque simples de elegância. Eram luvas adequadas a uma princesa.
Parecia mesmo uma piada.
Uma risada aguda explodiu em Pearl.
— Ele não sabe, não é? Ele não sabe sobre sua… sobre você. — Ela pegou as luvas, tirando-as de sua cama de papel de seda, e deixou a caixa cair na rua. — O que você achou que aconteceria? — Ela sacudiu as luvas para Cinder, os dedos vazios balançando, indefesos. — Você achou que o príncipe poderia gostar mesmo de você? Pensou que poderia ir ao baile e dançar com ele usando suas lindas luvas novas e seu… — Ela olhou com cuidado para as roupas de Cinder, a calça cargo imunda, a blusa manchada, o cinto de ferramentas amarrado ao redor da cintura, e deu uma risada de novo.
— É claro que não — disse Cinder. — Eu não vou ao baile.
— Então qual é a utilidade disto para um ciborgue?
— Não sei. Eu não… ele só…
— Talvez você tenha pensado que não teria importância — disse Pearl, estalando a língua. — Foi isso? Você achou que o príncipe, não, o imperador acharia sentimento em seu coração para relevar todas as suas… — ela girou a mão — deficiências?
Cinder fechou as mãos, tentando ignorar as palavras afiadas.
— Ele é apenas um cliente.
O brilho de deboche se apagou nos olhos de Pearl.
— Não. Ele é o príncipe. E, se soubesse a verdade a seu respeito, não teria olhado para você, nem de passagem.
O peito de Cinder se encheu de ressentimento. Ela olhou nos olhos de Pearl.
— Isso foi mais ou menos o que ele fez com você, não é? — Ela desejou ter segurado a língua no momento em que as palavras saíram, mas o ultraje que surgiu no rosto de Pearl quase valeu a pena.
Até que Pearl jogou as luvas no chão, apanhou a caixa de ferramentas no balcão e deixou que todo seu conteúdo caísse sobre elas. Cinder gritou com o barulho que se seguiu, com porcas e parafusos rolando para a rua. A multidão parou e olhou para elas e para a bagunça.
Pearl ergueu o nariz na direção de Cinder. Seus lábios mal se enrugaram.
— É melhor você arrumar tudo isso antes que o festival acabe. Vou precisar de sua ajuda hoje à noite. Afinal, tenho um baile real para comparecer.
Os fios de Cinder ainda zumbiam quando Pearl pegou suas caixas de compras e foi embora. Mas Cinder não perdeu tempo em pular sobre o balcão e se abaixar ao lado da caixa de ferramentas virada. Ela virou a caixa para cima, mas ignorou as peças bagunçadas, esticando-se para pegar as luvas no fim da pilha.
Estavam cobertas por sujeira e poeira, mas foram as manchinhas de graxa que fizeram seu coração doer. Cinder as enrolou sobre o joelho e tentou desamassar as rugas da seda, o que apenas espalhou o óleo. Elas eram lindas. A coisa mais bonita que ela já havia possuído.
Mas se havia uma coisa que ela aprendera ao longo dos anos como mecânica era que certas manchas nunca saíam.

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