7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e Um

CINDER OBSERVOU UM CULTIVO DE PLANTAS FOLHOSAS PELA JANELA do cockpit. O campo se estendia em todas as direções, e a visão do horizonte reto era interrompida apenas por uma casa de fazenda de pedra, a mais de um quilômetro de distância.
Uma casa. Muitos legumes e verduras. E uma espaçonave gigantesca.
— Isso não é nada chamativo.
— Pelo menos, estamos no meio do nada — disse Thorne, saindo da cadeira do piloto e colocando a jaqueta de couro. — Se alguém chamar a polícia, vai demorar um tempo para chegarem aqui.
— A não ser que já estejam a caminho — murmurou Cinder.
O coração dela disparou durante a descida sem fim para a Terra, com o cérebro avaliando mil destinos diferentes em que podiam estar esperando por eles. Embora tivesse mantido o cantarolar ridículo pelo máximo de tempo que conseguiu, ainda não tinham como saber se ela estava sendo eficiente, e Cinder tinha a sensação horrível de que suas tentativas de disfarçar a nave usando magia lunar eram pateticamente inúteis. Não conseguia entender como conseguiria manipular radares e ondas de rádio com nada além de pensamentos confusos.
Ainda assim, o fato era que ninguém os descobrira no espaço, e até o momento a sorte perdurava. A Benoit Fazendas e Jardins parecia completamente deserta.
A rampa começou a baixar no compartimento de carga, e Iko disse:
— Vocês dois, saiam e se divirtam. Vou ficar aqui sozinha, verificando interferências no radar e fazendo diagnósticos. Vai ser fantástico.
— Seu sarcasmo está ficando bem afiado — falou Cinder, se juntando a Thorne no alto da rampa, cujo metal esmagou uma fileira bem bonita de folhagem viçosa.
Thorne forçou os olhos para ter o brilho em seu tablet.
— Bingo — disse, apontando para a casa de dois andares que devia ser velha o bastante para ter sobrevivido à Quarta Guerra Mundial. — Ela está aqui.
— Me traga uma lembrancinha! — gritou Iko quando Thorne pisou no campo. O chão estava úmido por ter sido irrigado recentemente, e a lama grudou na barra de sua calça enquanto andava em meio à plantação, seguindo em linha reta para a casa.
Cinder foi atrás, absorvendo o terreno aberto da fazenda e o ar fresco, tão doce depois de ficar trancada dentro do ambiente de oxigênio reciclado da Rampion. Mesmo em comparação com a interface de áudio desligada, era o silêncio mais profundo que ela já tinha testemunhado.
— Está tão silencioso aqui.
— Assustador, né? Não sei como as pessoas aguentam.
— Acho até legal.
— É, da mesma forma que um necrotério é legal.
Um amontoado de construções menores se espalhava pelos campos: um celeiro, um galinheiro, um depósito, um hangar grande o bastante para alguns aerodeslizadores ou até mesmo uma espaçonave, embora não grande o suficiente para a Rampion.
Cinder parou de repente tinha visto alguma coisa. Ela franziu a testa e procurou a memória vaga que parecia reconhecer o hangar.
— Espere.
Thorne virou para ela.
— Viu alguém?
Sem responder, ela mudou de direção e saiu andando em meio à lama. Thorne foi atrás dela em silêncio enquanto Cinder abria a porta do hangar.
— Não sei se invadir os arredores da casa de Michelle Benoit é a melhor maneira de nos apresentarmos.
Cinder olhou para trás e observou as janelas vazias da casa.
— Preciso ver uma coisa — disse ao entrar. — Luzes, acendam.
As luzes se acenderam e seu queixo caiu com o que se deparou. Ferramentas e peças, parafusos e porcas, roupas e trapos sujos, tudo estava jogado para todos os lados. Todos os armários estavam abertos, todos os engradados de armazenamento e caixas de ferramentas tinham sido virados. O chão branco brilhoso mal podia ser visto embaixo da bagunça.
Do outro lado do hangar, uma pequena nave de entregas estava com a janela de trás quebrada. Cacos de vidro brilhavam sob as luzes intensas. O hangar tinha cheiro de combustível derramado e vapores tóxicos, e fedia um pouco como a barraca de Cinder na feira.
— Que chiqueiro — disse Thorne, enojado. — Não sei se consigo confiar em um piloto com tão pouco respeito pela sua nave.
Cinder o ignorou e se ocupou virando o escâner para as prateleiras e paredes. Apesar da distração do caos, a interface do cérebro de máquina estava captando alguma coisa. Uma impressão geral de familiaridade, matizes de uma lembrança há muito perdida. O ângulo pelo qual o sol entrava pela porta. Os aromas combinados de maquinário e esterco. O padrão cruzado das vigas expostas.
Ela andou pelo concreto esmagando detritos com os pés. Caminhou lentamente, com medo de o fantasma da familiaridade sumir.
— Hã, Cinder — chamou Thorne, olhando para trás, para a fazenda. — O que estamos fazendo aqui?
— Procurando uma coisa.
— Nessa confusão? Boa sorte aí.
Ela encontrou uma área vazia de concreto e parou ali, pensando. Examinando. Sabendo que já tinha estado ali antes. Em um sonho, em um torpor.
Reparou em um armário estreito de metal pintado de marrom pútrido, em que havia três jaquetas penduradas. Todas tinham insígnias das forças militares da Federação Europeia bordadas nas mangas. Ajeitando a postura, Cinder seguiu na direção delas e empurrou as jaquetas para o lado.
— Sério, Cinder? — disse Thorne, aparecendo ao lado dela. — Não é hora de se preocupar com roupas.
Cinder mal o ouviu acima do tique-taque na cabeça. Aquela confusão não era coincidência. Alguém tinha estado ali, e a pessoa estava procurando alguma coisa.
Estava procurando por ela.
Desejou não ter tido essa percepção, mas agora não havia como voltar atrás.
Ela se agachou na frente do armário e deslizou a mão no canto de trás até tocar na maçaneta que sabia que estaria lá. Pintada do mesmo tom de marrom, ficava invisível nas sombras. Jamais seria percebida a não ser que a pessoa soubesse onde procurar. E ela sabia, porque já tinha estado ali. Cinco anos atrás, em um estado de delírio drogado que sempre confundiu com sonho, ela surgiu naquele lugar. Cada junta e músculo doía das cirurgias recentes. Rastejou lentamente para fora da escuridão sem fim, piscando, como se pela primeira vez, saindo em um mundo muito iluminado.
Cinder se apoiou no armário e girou a maçaneta.
A porta secreta era mais pesada do que ela esperava, feita de alguma coisa bem mais forte do que metal. Girou em dobradiças escondidas e deixou que batesse no chão de concreto. Uma nuvem de poeira subiu por todos os lados.
Um buraco quadrado esperava por eles. Uma escada com degraus de plástico tinha sido acoplada à base, levando a um compartimento subterrâneo secreto.
Thorne se inclinou e apoiou as mãos nos joelhos.
— Como você sabia que isso estava aí?
Cinder não conseguia desviar o olhar da passagem secreta.
Incapaz de dizer a verdade, respondeu simplesmente:
— Visão ciborgue.
Ela desceu primeiro e acendeu a lanterna ao sentir o ar denso e parado. O facho de luz iluminou um aposento tão grande quanto o hangar acima, sem portas nem janelas. Quase com medo de saber o que tinha encontrado, ela disse com hesitação:
— Luzes. Acender.
Ouviu o som de um gerador independente estalando primeiro, antes de as três longas lâmpadas fluorescentes gradualmente se acenderem, uma após a outra. Os sapatos de Thorne bateram no chão duro quando pulou os quatro últimos degraus da escada. Ele virou e ficou paralisado.
— O que... o que é isso?
Cinder não conseguiu responder. Mal conseguia respirar.
Havia um tanque no meio do aposento, com dois metros de comprimento e uma tampa de vidro abaulada. Uma variedade de máquinas complexas o cercava: monitores cardíacos, indicadores de temperatura, escâneres de bioeletricidade. Máquinas com mostradores e tubos, agulhas e telas, plugues e controles.
Uma longa mesa de cirurgia encostada à parede mais distante continha uma quantidade de luzes móveis surgindo de cada extremidade como os tentáculos de um polvo de metal, e ao lado havia uma pequena mesa de rodinhas com uma jarra quase vazia de desinfetante e uma variedade de instrumentos cirúrgicos: bisturis, seringas, ataduras, máscaras, toalhas. Na parede, havia duas telas desligadas.
Enquanto aquele lado do aposento secreto imitava uma sala de cirurgia, o outro parecia mais a oficina de Cinder no porão do prédio de Adri, cheio de chaves de fenda, extrator de fusíveis e um ferro de soldar. Partes de androides descartadas e chips de computadores. A mão incompleta e com três dedos de um ciborgue.
Cinder tremeu ao sentir o ar com cheiro misturado de hospital estéril e de caverna úmida subterrânea.
Thorne se aproximou do tanque. Estava vazio, mas a forma vaga de uma criança podia ser vista no forro gosmento sob a tampa de vidro.
— O que é isso?
Cinder tentou mexer na luva, mas lembrou que não a possuía mais.
— Um tanque de animação suspensa — respondeu, sussurrando como se os fantasmas de cirurgiões desconhecidos pudessem estar ouvindo. — Projetado para manter uma pessoa viva, porém inconsciente, por longos períodos de tempo.
— Isso não é ilegal? Por causa da lei da superpopulação, ou algo assim?
Cinder assentiu. Aproximou-se do tanque e apertou o vidro com os dedos, tentando se lembrar de acordar ali dentro, mas não conseguiu. Só lembranças confusas do hangar e da fazenda voltaram à sua mente, mas nada desse calabouço. Só ficou completamente consciente quando estava a caminho de Nova Pequim, pronta para começar a nova vida como uma órfã assustada, confusa e ciborgue.
O contorno da garota na gosma parecia pequeno demais para ser dela, mas ela sabia que era.
A perna esquerda parecia significativamente mais pesada do que a direita. Ela se perguntou por quanto tempo ficou deitada ali sem perna.
— O que você acha que isso está fazendo aqui embaixo?
Cinder umedeceu os lábios.
— Acho que estava escondendo uma princesa.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!