13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e um

A GAROTA VOLTOU DA IDA AO BAR E COLOCOU A BEBIDA encostada no pulso de Thorne, para ele saber onde estava.
Ele inclinou a cabeça na direção dela e ergueu as cartas.
— O que você acha?
As tranças dela tocaram no ombro dele.
— Acho... — Ela puxou duas cartas na mão dele. — Essas duas.
— Exatamente o que eu estava pensando — disse ele, pegando as duas cartas. — Nossa sorte está mudando bem... agora.
— Duas para o cego — falou o carteador, e Thorne ouviu as cartas sendo colocadas na mesa. Ele as levou até a mão.
A mulher estalou a língua.
— Não é o que queríamos — retrucou ela, e ele notou o mau humor na voz dela.
— Ah, bem — disse Thorne. — Não dá para ganhar todas. Ou, ao que parece, nenhuma. — Esperou até as apostas chegarem a ele e desistiu. A mulher se inclinou para mais perto por trás e fez carinho no pescoço dele. — A próxima mão vai ser sua.
Thorne sorriu.
— Sinto que estou com sorte.
Ele escutou as apostas aumentarem duas vezes pela mesa, e o vencedor levou as fichas com coringas e setes. Pela voz rouca do homem, Thorne imaginava uma barba áspera e barriga protuberante. Ele tinha construído imagens mentais detalhadas de todos os jogadores da mesa. O carteador era um homem alto e magro com bigode fino. A mulher ao lado dele era mais velha, e alguma coisa fazia barulho quando ela pegava as cartas, então Thorne imaginou uma abundância de joias chamativas. Ele avaliou o homem à direita como sendo magro e com pele ruim, mas isso devia ser porque era quem mais estava vencendo.
É claro que a mulher abraçando Thorne era incrivelmente linda.
E nem um pouco sortuda, ao que parecia.
O carteador distribuiu outra mão, e Thorne levantou as cartas. Atrás dele, a garota deu um assobio triste.
— Desculpe, amor — sussurrou ela.
Ele fez beicinho.
— Não tem esperança? Que pena.
As apostas começaram, seguindo pela mesa. Pedir cartas. Apostar. Aumentar a aposta. Thorne bateu com os dedos nas cartas e suspirou. Eram inúteis, a julgar pela inflexão triste da mulher.
Naturalmente, ele colocou a palma da mão sobre as fichas e deslizou a pilha inteira para o centro da mesa, ouvindo o barulho alegre de umas caindo sobre as outras. Não que ele tivesse muitas.
— Aposto tudo — disse ele.
A mulher atrás ficou em silêncio. A mão no ombro dele nem tremeu. Nada que reconhecesse que ele agiu contra a sugestão dela.
Cara de blefe mesmo.
— Você é um tolo — julgou o jogador magro, mas desistiu da jogada.
Em seguida, o homem barbudo deu uma gargalhada debochada que fez a espinha de Thorne formigar, não de preocupação, mas de expectativa. Esse era seu homem.
— Eu aumentaria se achasse que você ainda tem alguma coisa para apostar — retrucou ele, e seguiu-se o estalo de fichas.
Os dois últimos jogadores desistiram. O carteador entregou cartas para substituir as descartadas, duas para o oponente de Thorne.
Ele ficou com todas as cartas. Se sua moça não aprovou, suas mãos imóveis não indicaram nada.
Eles não se deram ao trabalho de apostar novamente, pois sabiam que Thorne estava sem nada. Thorne abriu as cartas na mesa. O carteador as leu, batendo com o dedo no conjunto do oponente.
— Dois pares. — E então: — A trinca real ganha!
Thorne arqueou uma sobrancelha enquanto a senhora com as bijuterias deu uma risadinha satisfeita.
— Do homem cego!
— Imagino que a trinca real tenha sido minha?
— Foi, sim. Bela mão — disse o carteador, e empurrou as fichas na direção de Thorne.
Ele ouviu uma cadeira cair no chão.
— Seu lixo velho! Você devia ter dito para ele desistir dessa mão!
— Eu disse — falou a garota atrás de Thorne, em um tom firme que parecia não reconhecer o insulto. — Ele preferiu ignorar minha recomendação.
Thorne inclinou a cabeça para trás.
— A culpa é sua por ensinar o jogo tão bem a ela. Se eu tivesse ganhado algumas rodadas, não teria ficado desconfiado, mas nem minha sorte é tão ruim. — Ele girou os dedos no ar, apreciando a explicação. — Só precisei esperar que ela me dissesse que eu tinha uma jogada impossível de salvar, aí soube que era a jogada vencedora.
Sorrindo largamente, ele se inclinou para a frente e puxou as fichas na direção dele, apreciando a forma como enchiam seus braços. Ele ouviu duas caírem no chão, mas deixou-as, para não sofrer a indignidade de tatear no chão com os dedos.
— Mas estou disposto a fazer um acordo, se você não for um mau perdedor — disse ele enquanto começava a empilhar seus ganhos, ficha a ficha, sem ter ideia da cor e do valor delas.
— Que acordo? Isso foi praticamente tudo o que eu tinha.
— Culpa sua, claro. Por roubar.
O homem disse alguma coisa incoerente:
— Mas não passo de um homem de negócios. Eu gostaria de comprar sua androide-acompanhante de você. — Ele balançou os dedos sobre as pilhas de fichas. — Você diria que ela vale mais ou menos... isso?
O homem falou com impulsividade:
— Mas você nem consegue vê-la!
Com um sorrisinho, Thorne esticou a mão e bateu naquela ainda apoiada em seu ombro.
— Ela passa confiança — disse ele. — Mas sou um homem de excelente observação, e o que posso dizer? Os batimentos dela não parecem normais. — Ele indicou as fichas de novo. — Troca justa?
Ele ouviu o barulho de pernas de cadeira sendo arrastadas sobre o piso e o estalo das botas do homem contornando a mesa.
— Oh-oh.
Thorne pegou a bengala no local em que a tinha apoiado, na lateral da mesa, na hora em que foi puxado pela gola da camisa.
— Vamos ser cavalheir...
Uma dor terrível se espalhou por seu crânio e jogou sua cabeça para trás. Ele caiu no chão, com a bochecha ardendo e gosto de ferro na língua. Depois de verificar que o maxilar ainda funcionava, apertou a mão no rosto e percebeu que o soco deixaria marca.
— Isso não foi politicamente correto — murmurou em meio aos pensamentos enevoados.
Um homem rugiu, e em seguida soaram mais cadeiras arrastadas e mobília caindo e alguma coisa como pratos quebrando e pessoas gritando, junto com uma confusão de membros caindo e tateando quando uma briga de enormes proporções explodiu no bar.
Thorne se encolheu e segurou a bengala acima da cabeça como um escudo patético contra o caos, tentando se tornar o menor alvo possível. Um joelho aleatório acertou seu quadril. Uma cadeira caiu e machucou seus antebraços.
Duas mãos surgiram debaixo de suas axilas e o puxaram para trás. Thorne chutou o chão e se permitiu ser arrastado para longe da confusão de cotovelos e joelhos.
— Você está bem? — perguntou um homem.
Thorne usou a bengala para se levantar e se encostou à parede, feliz pelo apoio e proteção.
— Estou, obrigado. Se tem uma coisa que odeio é um cara que fica louco quando é pego roubando. Se você vai roubar, tem que estar pronto para encarar a descoberta como homem.
— Boa política. Mas acho que ele ficou mais incomodado por você insultar a mulher dele.
Thorne se encolheu e limpou um pouco do sangue da boca. Estava feliz de pelo menos todos os dentes ainda parecerem firmes.
— Não me diga que ela não é uma androide-acompanhante. Eu poderia jurar...
— Ah, ela é acompanhante. E bem bonita. Só que muitos homens não gostam de admitir que sua companheira é comprada e programada.
Thorne reajustou a bandana e balançou a cabeça.
— Mais uma vez. Se você vai fazer, encare como homem. Sem querer ser rude, eu conheço você?
— Jamal, da caravana.
— Jamal. Certo. Obrigado pelo resgate.
— Foi um prazer. Acho bom você colocar gelo no olho. Venha, vamos sair dessa confusão antes que mais alguém passe a não gostar de você.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!