3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e Um

FOI UMA LONGA CAMINHADA ATÉ EM CASA. ADRI E PEARL DEIXARAM o mercado sem ela, ansiosas para se aprontarem para o baile, o que foi um alívio para Cinder inicialmente, mas depois do primeiro quilômetro e meio andando com suas muletas improvisadas enterradas embaixo das axilas e a bolsa-carteiro batendo no quadril, ela amaldiçoava sua madrasta a cada passo claudicante.
Não que Cinder tivesse alguma pressa de chegar em casa. Não conseguia imaginar em que preparativos poderia ajudar Pearl, mas não tinha dúvidas de que seriam bolados para torturá-la. Mais uma noite de servidão. Mais uma noite.
Os pensamentos a impulsionaram.
Quando finalmente chegou ao apartamento, encontrou os corredores sinistramente quietos. Todo mundo estava no festival ou se arrumando para o baile. Os gritos que em geral podiam ser ouvidos atrás das portas fechadas haviam sido substituídos por risadinhas femininas.
Cinder enfiou as muletas sob os braços doloridos e apoiou-se na parede para chegar até a porta.
O apartamento parecia vazio quando ela entrou, mas conseguia ouvir o ranger do piso enquanto Adri e Pearl se moviam pelos quartos em direção aos fundos. Esperando ser capaz de passar a noite inteira sem esbarrar com elas de novo, Cinder foi para o seu pequeno quarto e fechou a porta atrás de si. Tinha pensado em começar a fazer as malas quando alguém bateu na porta.
Suspirando, ela a abriu. Pearl estava no corredor, usando seu vestido dourado de baile, todo de seda e com pérolas minúsculas, com um decote que se aprofundava exatamente como Adri requisitara.
— Será que você conseguiria vir mais devagar para casa? — disse ela. — Sairemos assim que a coroação acabar.
— Bem, tenho certeza de que teria vindo mais rápido se não tivessem roubado meu pé.
Pearl lançou-lhe um olhar rápido de raiva e em seguida recuou, voltando para o corredor, e fez uma meia-volta, deixando a saia se avolumar em volta de seus calcanhares.
— O que você acha, Cinder? O príncipe me notará neste vestido?
Cinder mal conteve a vontade de passar as mãos imundas pelo vestido. Em vez disso, tirou as luvas de trabalho e as enfiou no bolso traseiro.
— Você precisa de alguma coisa?
— Sim, na verdade. Eu queria pedir sua opinião. — Pearl levantou a saia para revelar sapatos descombinados em seus pequenos pés. No esquerdo, havia uma pequena bota de veludo da cor de leite fresco amarrada no tornozelo. No direito, uma sandália dourada amarrada com fitas brilhantes e pequenos enfeites em forma de coração.
— Já que você é tão próxima do príncipe, pensei que poderia perguntar se você acha que ele ia preferir as sandálias douradas ou os sapatos brancos.
Cinder fingiu pensar.
— As botas fazem seu tornozelo parecer gordo.
Pearl deu um sorriso afetado.
— O revestimento de metal faz com que o seu tornozelo pareça gordo. Você está com inveja porque tenho pés encantadores. — Ela suspirou com uma simpatia debochada. — Que pena que você nunca conhecerá esse prazer.
— Fico feliz que você tenha encontrado uma parte de seu corpo que é encantadora.
Pearl jogou os cabelos para trás, um sorrisinho sarcástico convencido no rosto. Ela sabia que o argumento de Cinder não tinha fundamento, e Cinder estava irritada porque o insulto vulgar não lhe trouxe prazer.
— Estive ensaiando minha conversa com o príncipe Kai — disse Pearl. — É claro, pretendo contar tudo a ele. — Ela girou para que a saia brilhasse. — Primeiro, contarei a ele sobre suas horrorosas extremidades metálicas e a vergonha que você é, a criatura repulsiva em que a transformaram. E me assegurarei de que ele perceba o quão mais desejável eu sou.
Cinder se apoiou no batente da porta.
— Eu queria ter sabido dessa sua quedinha por ele antes, Pearl. Sabe, antes de ela morrer, fiz Sua Alteza prometer que dançaria com Peony hoje à noite. Poderia ter pedido o mesmo para você, mas acho que agora é muito tarde. Que pena.
O rosto de Pearl corou.
— Você não deveria nem dizer o nome dela — disse ela, com um sussurro áspero.
Cinder piscou.
— Peony?
A raiva nos olhos de Pearl se tornou mais intensa, superando os insultos infantis.
— Eu sei que você a matou. Todo mundo sabe que foi sua culpa.
Cinder ficou boquiaberta, perturbada pela repentina mudança dos insultos imaturos.
— Isso não é verdade. Eu nunca fiquei doente.
— Foi culpa sua ela ter ido ao ferro-velho. Foi onde ela pegou.
Cinder abriu a boca, mas nenhum som saiu.
— Se não fosse por você, ela estaria indo ao baile hoje, então não tente fingir que teria lhe feito algum favor. A melhor coisa que você poderia ter feito por Peony era tê-la deixado em paz. Então talvez ela ainda estivesse aqui. — Lágrimas se acumulavam nos olhos de Pearl. — E você tenta fingir que se importava com ela, como se ela fosse sua irmã, e isso não é justo. Ela estava doente e você estava… se encontrando com o príncipe, tentando atrair a atenção dele, quando você sabia o que ela sentia em relação a ele. É doentio.
Cinder cruzou os braços, se protegendo.
— Sei que você não acredita nisso, mas eu realmente amava Peony. Ainda amo.
Pearl fungou uma vez, alto, como se quisesse encobrir o choro antes que ele a dominasse.
— Você está certa. Eu não acredito em você. Você é mentirosa e ladra, e não se importa com ninguém a não ser você mesma. — Ela fez uma pausa. — E vou me assegurar de que o príncipe saiba disso.
A porta do quarto de Adri se abriu, e ela saiu usando um quimono branco e vermelho bordado com elegantes grous.
— Sobre o que vocês duas estão discutindo agora? Pearl, você está pronta para irmos? — Ela mirou Pearl com um olhar astuto, tentando averiguar se alguma coisa ainda precisava ser feita.
— Não acredito que vocês vão — disse Cinder. — O que as pessoas pensarão, enquanto vocês ainda estão no período de luto? — Ela sabia que estava mexendo em ninho de marimbondos, um comentário injusto quando havia escutado ambas chorando através das paredes finas, mas agora ela não estava disposta a ser justa.
Mesmo que tivesse escolha, não iria. Não sem Peony.
Adri fixou um olhar gélido nela, os lábios retesados.
— A coroação está começando — disse ela. — Vá lavar o aerodeslizador. Quero que ele pareça novo em folha.
Feliz por não ser forçada a se sentar com elas durante a coroação, Cinder não retrucou enquanto pegava as muletas e rumava para a porta.
Mais uma noite.
Ela ligou o netlink tão logo chegou ao elevador, exibindo os procedimentos da coroação no canto de sua visão. Era ainda a pré-cerimônia. Uma parada de oficiais do governo marchava para dentro do palácio, enxameado por um mar de jornalistas e câmeras.
Ela pegou um balde e sabão na despensa antes de mancar em direção à garagem, ouvindo sem atenção enquanto o locutor explicava o simbolismo por trás dos diferentes elementos da coroação. O bordado no manto de Kai, os desenhos no brasão que seria erguido quando ele fizesse seus votos, o número de vezes que o gongo tocaria quando ele subisse à plataforma de discurso, todos os procedimentos praticados por séculos, executados juntos como resultado das diversas culturas que se uniram para formar a Comunidade.
O noticiário continuamente mudava do festival no centro da cidade para uma tomada ocasional de Kai durante seus preparativos. Apenas esses pequenos lances afastavam a atenção de Cinder do balde de água com bolhas de sabão. Ela não conseguia evitar a fantasia de que estava no palácio com ele, em vez de naquela garagem escura e fria. Kai apertando a mão de algum representante desconhecido. Kai saudando a multidão. Kai tentando conseguir um momento de conversa privada com seu conselheiro. Kai virando-se na sua direção, sorrindo para ela, feliz porque ela estava ao seu lado.
As visões momentâneas dele fizeram com que o coração de Cinder se sentisse consolado, e não magoado. Era um lembrete de que coisas muito maiores estavam acontecendo no mundo, e o anseio de Cinder por liberdade, os ataques infantis de Pearl, os caprichos de Adri e até mesmo o flerte de Kai com ela não cabiam numa visão mais abrangente.
A Comunidade Oriental estava coroando seu novo imperador. Hoje, o mundo inteiro assistia.
A roupa de Kai era uma mistura de novas e antigas tradições. Pombas bordadas ao longo de sua gola chinesa significavam paz e amor. Sobre os ombros, um manto azul-escuro bordado com seis estrelas prateadas, significando a paz e a unidade dos seis reinos orientais, e uma dúzia de crisântemos, significando as doze províncias da Comunidade e como elas prosperaram sob seu reinado.
Um conselheiro real permanecia ao lado de Kai na plataforma. As primeiras filas da multidão eram formadas por oficiais do governo de cada divisão e província. Mas os olhos de Cinder eram sempre atraídos de volta para Kai, se prendendo a ele como ímã, uma vez depois da outra.
Em seguida, uma pequena equipe desceu um dos corredores, a última a ocupar os assentos — a rainha Levana, junto a dois taumaturgos. A rainha usava um delicado véu branco que descia até os cotovelos, ocultando sua face e fazendo-a parecer mais um fantasma do que uma hóspede real.
Cinder estremeceu. Não achava que algum lunar já tivesse comparecido a uma coroação da Comunidade. Em vez de deixá-la esperançosa com o futuro, a visão encheu Cinder de ansiedade, porque a postura arrogante de Levana sugeria que ela pertencia ao lugar mais do que qualquer cidadão terráqueo. Como se fosse ela quem estivesse prestes a ser coroada.
A rainha e sua equipe reivindicaram seus assentos reservados na primeira fila. Aqueles sentados em volta deles tentaram, sem sucesso, esconder o desagrado por estar tão perto dela.
Cinder pegou o farrapo com sabão no balde e depositou toda sua apreensão no trabalho, esfregando o aerodeslizador de Adri até que brilhasse.
A coroação começou com um estrondo de tambores.
O príncipe Kai se ajoelhou em uma plataforma coberta por seda enquanto um lento desfile de homens e mulheres passava diante dele, cada um depositando uma fita ou medalhão ou joia ao redor de seu pescoço. Cada um era um presente simbólico — longa vida, sabedoria, bondade no coração, generosidade, paciência, alegria. Quando todos os colares haviam sido colocados no pescoço do príncipe, a câmera aproximou-se do rosto de Kai. Ele parecia surpreendentemente sereno, seus olhos baixos, mas a cabeça erguida.
Como era costume, um representante de cada um dos outros cinco reinos terrestres fora selecionado para oficializar a coroação, a fim de mostrar que os outros países honrariam e respeitariam o direito do novo soberano de governar.
Eles selecionaram o primeiro-ministro da Federação Europeia, Bromstad, um homem alto e loiro com ombros largos. Cinder sempre achara que ele parecia mais um fazendeiro do que um político. Ele ergueu um rolo de papel antiquado que continha todas as promessas que Kai estava fazendo a seu povo ao aceitar ser imperador.
Enquanto as mãos do primeiro-ministro seguravam as extremidades do rolo, ele pronunciou uma série de votos, e Kai repetia depois dele.
— Eu juro solenemente governar os povos da Comunidade Oriental de acordo com as leis e costumes conforme foi feito pelas gerações de governantes anteriores — proclamou ele. — Usarei todo o poder conferido a mim para promover a justiça, ser misericordioso, honrar os direitos inerentes a todos os povos, respeitar a paz entre as nações, governar com bondade e paciência, e buscar a sabedoria e conselhos de meus colegas e irmãos. Tudo isso, prometo fazer hoje e durante todos os dias de meu reinado, diante de todas as testemunhas da Terra e dos céus.
O coração de Cinder se avolumou enquanto ela esfregava a capota. Nunca vira Kai parecer tão sério, nem tão bonito. Ela temeu por ele um pouco, sabendo o quão nervoso deveria estar, mas naquele momento não era o príncipe que trouxera um androide quebrado para o mercado ou quase a beijara em um elevador.
Ele era um imperador.
O primeiro-ministro Bromstad ergueu o queixo.
— Eu, por meio deste, proclamo você Imperador Kaito da Comunidade Oriental. Longa vida a Sua Majestade Imperial.
A multidão explodiu em saudações e cânticos animados de “Longa vida ao imperador” enquanto Kai se virava para olhar seu povo.
Era impossível dizer se ele estava feliz em sua elevada posição. Seus lábios estavam neutros, seu olhar discreto enquanto ele permanecia na plataforma e os aplausos da multidão explodiam ao seu redor.
Depois de um longo momento de sua própria serenidade enfrentando o tornado de saudações, um pódio foi trazido ao palco para o primeiro discurso do imperador. A multidão silenciou.
Cinder jogou água no veículo.
Kai ficou inexpressivo por um momento, olhando fixamente a borda da plataforma, os dedos batendo nos lados do pódio.
— Estou honrado — começou — que minha coroação tenha coincidido com nosso mais celebrado feriado. Há cento e vinte e seis anos, o pesadelo e a catástrofe que foi a Quarta Guerra Mundial acabou, e a Comunidade Oriental nasceu. Ela cresceu a partir da unificação de muitos povos, muitas culturas, muitos ideais. Foi fortalecida por uma única crença persistente de que juntos, nós, como um só povo, somos fortes. Temos a capacidade de amar uns aos outros, não importando nossas diferenças. De ajudar uns aos outros, não importando nossas fraquezas. Escolhemos a paz em vez da guerra. A vida em vez da morte. Escolhemos coroar um homem para ser nosso soberano, nos guiar, nos apoiar. Não para governar, mas para servir. — Ele fez uma pausa. Cinder desviou o foco do visor de retina por tempo suficiente para fazer uma rápida inspeção no aerodeslizador. Estava muito escuro para saber se ela tinha feito um trabalho decente, mas perdera o interesse na perfeição.
Satisfeita, ela jogou o pano molhado no balde e se apoiou na parede de concreto atrás da fila de aerodeslizadores estacionados, prestando total atenção à pequena tela.
— Eu sou o tataraneto do primeiro imperador da Comunidade — continuou Kai. — Desde o tempo dele, nosso mundo mudou. Continuamos a enfrentar novos problemas, novas decepções. Embora uma guerra entre homens não seja travada em solo terrestre há cento e vinte e seis anos, agora lutamos em uma nova batalha. Meu pai estava combatendo a letumose, um mal que assola nosso planeta por anos. Essa doença trouxe morte e sofrimento até a porta de nossas casas. As boas pessoas da Comunidade e todos os nossos semelhantes terráqueos perderam amigos, familiares, amores, vizinhos. E, com essas perdas, enfrentamos a queda da indústria e do comércio, uma retração econômica, condições de vida piores. Alguns ficaram sem comida porque não há fazendeiros o bastante para trabalhar na terra. Alguns ficaram sem aquecimento quando nossas fontes de energia minguaram. Essa é a guerra que encaramos agora. A guerra com que meu pai estava determinado a acabar, e agora tomo para mim essa missão. Juntos encontraremos uma cura para essa doença. Nós a derrotaremos. E devolveremos ao nosso país o seu antigo esplendor.
A plateia aplaudiu, mas Kai não demonstrou nenhum sinal de alegria com suas palavras. Sua expressão estava sombria, resignada.
— Seria ingênuo da minha parte — disse ele quando a audiência silenciou — não mencionar um segundo tipo de conflito, não menos mortal.
Houve um rumor na multidão. Cinder inclinou a cabeça para trás, apoiando-a na parede fria.
— Como estou certo de que todos estão cientes, a relação entre as nações terráqueas aliadas e Luna tem sido tensa durante muitas gerações. Também tenho certeza de que todos sabem que a soberana de Luna, Sua Majestade rainha Levana, nos honra com sua presença desde a semana passada. Ela é a primeira soberana lunar a pisar na Terra há quase um século, e sua presença indica a esperança de que um tempo de verdadeira paz entre nós se aproxima rapidamente.
A tela se abriu, mostrando a rainha Levana na primeira fileira. Suas mãos leitosas estavam dobradas recatadamente no colo, como se ela aceitasse humildemente o reconhecimento. Cinder estava certa de que não enganava ninguém.
— Meu pai passou os últimos anos de vida discutindo com Sua Majestade, na esperança de forjar uma aliança. Ele não viveu para ver o resultado dessas discussões, mas estou determinado a fazer com que seus esforços ganhem nova vida em mim. É verdade que houve obstáculos nesse caminho para a paz. Que tivemos dificuldades em achar um meio-termo com Luna, uma solução que seja boa para as duas partes. Mas não abri mão da esperança de que uma solução possa ser encontrada. — Ele respirou fundo, então parou, com os lábios ainda abertos. Seu olhar baixou para o pódio. Os dedos se apertaram ao redor das beiradas.
Cinder se inclinou para a frente, como se pudesse olhar o príncipe mais de perto enquanto ele lutava com as próximas palavras.
— Eu vou… — Ele parou novamente, se endireitou, e elegeu algum ponto distante e invisível como seu novo foco. — Farei o que quer que seja necessário para assegurar o bem-estar de meu país. Farei o que for preciso para mantê-los todos a salvo. Essa é a minha promessa.
Ele tirou as mãos do pódio e o deixou antes que a multidão pudesse pensar em aplaudir, deixando uma salva de preocupadas embora educadas palmas atrás de si.
O coração de Cinder se apertou quando a tela permitiu outra olhada nos lunares da primeira fileira. O véu podia esconder o semblante da rainha, mas os sorrisinhos convencidos de suas duas assistentes não deixavam duvidas. Elas estavam certas da vitória.

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