7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e Três

CINDER SOLTOU UM PALAVRÃO E OLHOU PARA THORNE, MAS ELE só deu de ombros. Ela virou para a garota desmaiada. A cabeça estava inclinada em um ângulo estranho, apoiada na mesa do saguão, e os pés estavam perto da porta.
— É a neta? — perguntou Cinder enquanto seu escâner comparava as medidas do rosto da menina aos dados em seu cérebro, o que não levou a nenhum resultado. Ele teria reconhecido Scarlet Benoit. — Deixa pra lá — falou e se aproximou do corpo prostrado da garota. Tirou a mesa do caminho, e a cabeça da menina bateu no piso.
Cinder se aproximou sorrateiramente e espiou pela porta. Um aerodeslizador velho estava no pátio.
— O que você está fazendo? — perguntou Thorne.
— Olhando. — Cinder virou e viu Thorne entrando no saguão e olhando para a menina com uma leve curiosidade. — Ela parece estar sozinha.
Um sorriso malicioso se abriu no rosto dele.
— Devíamos levá-la conosco.
Cinder olhou com irritação.
— Você está louco?
— Loucamente apaixonado. Ela é linda.
— Você é um idiota. Me ajude a carregá-la para a sala.
Ele não discutiu, e um momento depois a menina estava nos braços dele, sem que a ajuda de Cinder fosse necessária.
— Aqui, no sofá. — Cinder seguiu na frente e rearrumou algumas almofadas desbotadas.
— Estou bem, assim. — Thorne mexeu os braços de forma que a cabeça da menina caiu contra o peito dele, com os cachos louros tocando o zíper da jaqueta de couro.
— Thorne. Coloque-a no sofá. Agora.
Murmurando alguma coisa baixinho, ele colocou a menina no sofá e ajeitou meticulosamente a blusa de forma a cobrir a barriga exposta, depois arrumou as pernas para ficar em posição mais confortável. Cinder o agarrou pela parte de trás da gola e o puxou para cima.
— Vamos sair daqui. Ela nos reconheceu. Assim que acordar, vai mandar uma mensagem para a polícia.
Thorne tirou um tablet do bolso da jaqueta e entregou para Cinder.
— O que é isso?
— O tablet dela. Peguei enquanto você estava ocupada demais entrando em pânico.
Cinder tirou o tablet da mão dele e enfiou no bolso lateral da calça cargo militar.
— Ainda assim, não vai demorar até ela contar para alguém. Virão investigar e vão descobrir que estávamos procurando Michelle Benoit, e aí vão começar a procurar Michelle Benoit e... Talvez eu devesse incapacitar o aerodeslizador dela antes de irmos.
— Acho que devíamos ficar e conversar com ela. Talvez ela saiba onde encontrar Michelle.
— Ficar e conversar com ela? E dar mais pistas sobre como nos encontrar? É a coisa mais idiota que já ouvi.
— Ei, sugeri que a levemos junto, mas você já vetou a ideia, então agora estou recorrendo ao plano B, que é interrogá-la. E estou muito ansioso para isso. Eu brincava de um jogo chamado interrogatório com uma das minhas antigas namoradas e nós...
— Já chega. — Cinder levantou a mão e o silenciou. — É uma péssima ideia. Vou embora agora. Pode ficar com a sua namorada, se quiser. — E passou andando por ele.
Thorne foi logo atrás.
— Isso que acabei de ouvir sem dúvida foi ciúme.
Um choramingo fez os dois pararem no caminho da porta, e, ao virarem, viram as pálpebras da menina se abrirem.
Soltando um palavrão, Cinder puxou Thorne para a porta, mas ele não se mexeu. Depois de um momento, soltou a mão dela e voltou para a sala. O pavor surgiu no rosto da menina e ela sentou, se apoiando no braço do sofá.
— Não tenha medo — disse Thorne. — Não vamos machucar você.
— Vocês são aquelas pessoas das telas. Os fugitivos — disse com um adorável sotaque europeu. Olhou para Cinder boquiaberta. — Você é a... a...
— Fugitiva lunar ciborgue? — sugeriu Thorne.
O pouco de cor que havia no rosto da garota sumiu. Cinder rezou para ter paciência.
— V-Vocês vão me matar?
— Não! Não, não, não, é claro que não. — Thorne se sentou na outra ponta do sofá. — Só queremos fazer algumas perguntas.
A menina engoliu em seco.
— Qual é seu nome, querida?
Ela mordeu o lábio inferior e olhou para Thorne com uma mistura de desconfiança e esperança.
— Émilie — sussurrou ela, quase sem som.
— Émilie. Um nome bonito para uma garota bonita.
Lutando com a vontade de vomitar, Cinder bateu com a cabeça no batente da porta. Isso fez a menina olhar para ela, e Émilie se encolheu de medo.
— Me desculpe — disse Cinder, esticando as duas mãos. — Hã, é um prazer conhecer...
Émilie começou a chorar, histérica, com o olhar grudado na mão de metal de Cinder.
— Por favor, não me mate. Não vou contar para ninguém que vi vocês! Eu prometo, só não me mate, por favor.
Com o queixo caído, Cinder olhou para o membro por um segundo até perceber que não era a parte ciborgue dela que provocava medo na garota. Era a lunar. Ela olhou para Thorne, que olhava para ela de um jeito acusador, e levantou os braços no ar.
— Tudo bem, você cuida disso — disse ela e saiu da sala.
Ela se sentou na escada, de onde conseguia ouvir Thorne tentando acalmar a menina enquanto ficava de olho na estrada pela janela da frente. Cruzou os braços em cima dos joelhos e ficou a escutar Thorne acalmando o choro de Émilie, enquanto massageava a cabeça para afastar uma dor de cabeça incipiente.
Antigamente, as pessoas olhavam para ela com repulsa. Agora, as pessoas morriam de medo dela.
Não sabia o que era pior.
Tinha vontade de gritar para o mundo que não era culpa dela ser assim. Que ela não tinha nada a ver com isso.
Não teria sido a escolha dela, se tivesse tido a oportunidade de escolher.
Lunar.
Ciborgue.
Fugitiva.
Fora da lei.
Pária.
Cinder escondeu o rosto nos braços e desejou que as injustiças desaparecessem. Não se deixaria levar pela autodepreciação. Tinha muitas outras coisas com as quais se preocupar.
Na sala ao lado, conseguia ouvir Thorne falando sobre Michelle Benoit, pedindo que a menina contasse alguma coisa a ele, qualquer coisa útil, mas tudo que ouviu foram pedidos de desculpas exagerados.
Cinder suspirou, desejando haver alguma maneira de conseguir convencê-la de que não pretendiam fazer mal a ela, que na verdade eram os mocinhos.
O corpo dela ficou tenso.
Ela era capaz de convencer a garota disso. Com facilidade.
A culpa jorrou por suas veias um momento depois, mas não fez a tentação desaparecer. Ela observou o horizonte e não viu sinal de civilização além dos campos.
Cruzou os dedos e refletiu.
— Você conhece Michelle Benoit, não conhece? — perguntou Thorne, com um tom quase de súplica. — Afinal, você está na casa dela. Esta casa é dela, não é?
Cinder massageou as têmporas com os polegares.
Ela não era como a rainha Levana e seus taumaturgos, e todos os outros lunares que abusavam do dom faziam lavagem cerebral, enganavam e controlavam os outros para benefício próprio e egoísta.
Mas se controlar alguém fosse para o bem maior... E só por um curto período...
— Émilie, por favor, pare de chorar. É só uma pergunta simples.
— Tudo bem — murmurou Cinder, se levantando da escada. — É para o bem dela, afinal.
Depois de respirar fundo para afastar a culpa, voltou para a sala.
O olhar da menina se dirigiu para ela. Estava com o rosto inchado. Ela se encolheu.
Cinder se obrigou a relaxar e deixar o formigar delicado percorrer seus nervos enquanto pensava em coisas gentis, simpáticas, calorosas.
— Somos seus amigos — disse. — Viemos ajudar você.
Os olhos de Émilie se iluminaram.
— Émilie, pode nos contar onde está Michelle Benoit?
Uma última lágrima desceu despercebida pela bochecha de Émilie.
— Não sei onde ela está. Ela desapareceu três semanas atrás. A polícia não encontrou nada.
— Você sabe alguma coisa sobre o desaparecimento dela?
— Aconteceu no meio do dia, quando Scarlinda estava fazendo as entregas. Não levou o aerodeslizador nem a nave. Não pareceu ter levado nenhum pertence. O chip de identificação foi retirado e deixado para trás, junto com o tablet.
Foi preciso toda a concentração de Cinder para manter a aura de simpatia e confiança quando a decepção começou a surgir.
— Mas acho que Scarlet talvez soubesse de alguma coisa.
Cinder se animou.
— Ela ia procurar a avó. Partiu faz uns dois dias e me pediu para cuidar da fazenda. Parecia ter uma pista, mas não me contou qual era. Sinto muito.
— Você teve notícias de Scarlet depois disso? — perguntou Thorne, se inclinando para a frente.
Émilie balançou a cabeça.
— Nada. Estou preocupada, mas ela é forte. Vai ficar bem. — A expressão dela se iluminou como a de uma criança. — Eu ajudei? Quero ajudar.
Cinder se encolheu ao ouvir a ansiedade da garota.
— Sim, ajudou. Obrigada. Se você pensar em mais alguma coisa...
— Mais uma pergunta — disse Thorne, erguendo o dedo. — Nossa nave precisa de alguns consertos. Tem alguma boa loja de peças por aqui?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!