13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e três

CRESS FICOU AGACHADA NO CANTO DA VAN, SEGURANDO OS joelhos contra o peito. Tremia apesar do calor sufocante. Estava com fome e sede, e seus tornozelos, machucados no ponto em que bateram no para-choque. Apesar de ter derrubado alguns rolos de tecido para sentar sobre eles, o sacolejar constante do veículo em chão irregular deixou as costas dela doendo.
A noite estava tão escura que ela não via nem a própria mão na frente do rosto, mas o sono não vinha. Os pensamentos estavam erráticos demais enquanto ela tentava descobrir o que aquelas pessoas queriam. Repassou os momentos anteriores à captura na mente cem vezes, e a expressão de Jina definitivamente se iluminou quando Cress confirmou as desconfianças dela.
Ela era uma cascuda. Uma cascuda imprestável.
Por que Jina viu valor nisso?
Ela botou o cérebro para trabalhar, mas nada fazia sentido.
Cress se esforçou para ficar calma. Tentou ser otimista. Tentou dizer para si mesma que Thorne iria buscá-la, mas suas dúvidas se sobrepunham às esperanças.
Ele não enxergava. Não sabia para onde ela fora. Provavelmente ainda nem sabia que desaparecera, e quando descobrisse... e se ele achasse que ela o tinha abandonado? E se não se importasse?
Ela não esquecia a imagem de Thorne sentado à mesa de jogo com uma garota estranha abraçando-o. Não estava pensando em Cress nessa hora.
Talvez Thorne não fosse buscá-la.
Talvez estivesse errada sobre ele o tempo todo.
Talvez ele não fosse herói, só um sujeito egoísta, arrogante, mulherengo...
Ela chorou, a cabeça tomada de medo e raiva e ciúme e horror e confusão, tudo se contorcendo em seus pensamentos até não poder sufocar mais os gritos frustrados. Ela berrou e puxou mechas de cabelo até o couro cabeludo arder.
Mas os gritos pararam rápido, substituídos pelos dentes trincados quando ela começou a tentar se acalmar. Passou os dedos ao redor dos pulsos como se tivesse longas mechas de cabelo para enrolar neles. Engoliu em seco com força em uma tentativa de sufocar o pânico crescente, para se impedir de hiperventilar.
Thorne iria buscá-la. Ele era um herói. Ela era uma donzela. Era assim nas histórias, era assim que sempre acontecia.
Com um gemido, ela se acomodou no canto e voltou a chorar, e chorou até não sair mais nenhuma lágrima.
De repente, ela deu um pulo e acordou.
Havia sal seco em suas bochechas, e suas costas ardiam por ter passado tanto tempo encolhida. Seu traseiro e os lados do corpo estavam machucados de bater com o sacolejo da van, que ela percebeu que tinha parado.
Ficou imediatamente alerta, o estupor espantado por uma nova onda de medo. Havia uma sugestão de luz entrando pelas frestas ao redor das portas, o que significava que eles dirigiram a noite toda. Uma porta bateu, e ela distinguiu a voz de Jina, nada simpática e reconfortante. A van tremeu quando o motorista saiu.
— Vieram rápido — Cress ouviu um homem dizer. — Alguém pode me ajudar ali atrás?
Outro homem riu.
— Não aguenta a mocinha sozinho?
A voz de Jina interrompeu a discussão deles:
— Tentem não a machucar. Quero um pagamento excelente desta vez, e vocês sabem como ele negocia. Presta atenção em cada detalhe.
Cress engoliu em seco quando as botas se aproximaram. Ela se preparou. Daria um pulo. Lutaria. Seria feroz. Morderia e arranharia e chutaria se precisasse. Ela o pegaria de surpresa.
E então correria. Rápida como um guepardo, graciosa como uma gazela.
Ainda era cedo. A areia estaria fria em seus pés descalços. As bolhas estavam quase secas, e, apesar de as pernas ainda doerem muito, ela era capaz de ignorar a dor. Com sorte, eles considerariam não valer a pena ir atrás dela.
Ou talvez atirassem nela.
Ela sufocou o pensamento. Tinha que se arriscar.
A tranca estalou. Ela respirou fundo, esperou que a porta se abrisse... e pulou. Um grito gutural foi arrancado dela, com toda a raiva e vulnerabilidade inflando e se soltando naquele momento cruel, quando as unhas foram direcionadas aos olhos dele.
O homem a pegou. Duas mãos seguraram seus pulsos pálidos. O impulso a fez seguir para fora do veículo, e ela teria caído na areia se ele não a tivesse segurado no ar. Seu grito de guerra foi interrompido de repente.
O homem começou a rir dela, das tentativas patéticas de vencê-lo.
— Ela é um tigre, isso eu tenho que dizer — disse ele para o homem que o tinha provocado.
Ele virou Cress para segurar os dois pulsos com um aperto firme. O corpo ainda estava preso na mão dele quando começou a levá-la para longe da van, na direção das dunas.
— Me solte! — gritou ela, chutando-o, mas ele não se deixou afetar pelo movimento. — Para onde você está me levando? Me solte!
— Acalme-se, garotinha, não vou machucar você. Não valeria a pena.
Ele deu uma risada debochada e soltou-a do outro lado da duna.
Ela cambaleou e rolou duas vezes na areia antes de parar agachada. Cress tirou o cabelo do rosto. Quando ergueu o olhar para o homem, ele estava com uma arma apontada para ela.
O coração dela saltou.
— Se você tentar fugir, eu atiro. E não pretendo matar. Mas você é inteligente o bastante, não é? Não tem mesmo para onde ir, certo?
Cress engoliu em seco. Ainda ouvia as vozes do outro lado da duna. Mas não conseguia saber quantos homens ainda estavam no grupo.
— O q-que você quer de mim?
— Desconfio que você tenha negócios a resolver, não?
Ela ficou de pé e cambaleou um pouco colina abaixo, com a areia instável abaixo dos pés. O homem nem tremeu. Ele apontou a arma para os pés dela.
— Vá logo. Só vamos parar daqui a algumas horas, então é melhor resolver logo. Não quero você urinando na traseira daquela van. Não receberíamos a devolução da nossa caução, e Jina odeia isso.
O lábio inferior tremeu e Cress lançou outro olhar pelo deserto, para a amplidão do terreno árido. Ela balançou a cabeça.
— Não, não consigo. Não com...
— Ah, não vou olhar. — Para provar, ele se virou e coçou atrás da orelha com a arma. — Mas seja rápida.
Ela viu outro homem em cima da duna, de costas para ela, e desconfiou que se aliviava.
Cress virou-se de costas, envergonhada e constrangida. Estava com vontade de chorar, de implorar para o homem deixá-la em paz, para deixá-la ali. Mas sabia que não daria certo.
E não queria implorar nada a esse homem.
Thorne iria buscá-la, pensou ao cambalear até a base da duna em busca da privacidade que conseguisse.
Thorne tinha que ir buscá-la.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!