7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e Sete


— O QUE FOI AQ UILO? — GRITOU THORNE ENQUANTO FAZIA A nave decolar.
Voando mais baixo e muito mais rápido do que as leis permitiam, seguiram sobre a colcha de retalhos de plantações que cercava a cidade de Rieux.
Cinder balançou a cabeça, ainda ofegante.
— Eram lunares. O cara mencionou a rainha.
Thorne bateu com a palma da mão no painel de controle da pequena nave, falando vários palavrões.
— Sei que é de se esperar que lunares tenham uns parafusos soltos, sem querer ofender, mas aqueles homens eram psicóticos. Ele praticamente mastigou meu braço! E essa é minha jaqueta favorita!
Cinder olhou para Thorne, mas o ombro ferido estava do outro lado. No entanto, ela conseguia ver um galo vermelho no ponto em que tinha batido com a cabeça na dela para arrancá-la do delírio.
Ela apertou os dedos de metal frio na testa, que estava começando a latejar, e reparou em um fluxo de texto no campo de visão que antes estava apavorada e distraída demais para reparar.
ONDE VOCÊS ESTÃO???
— Iko está em pânico.
Thorne desviou de um trator abandonado.
— Eu esqueci a polícia! Minha nave está bem?
— Espere.
Ficando enjoada com as curvas que ele estava fazendo, Cinder se segurou no apoio lateral e enviou uma nova mensagem.
A CAMINHO. A POLÍCIA AINDA ESTÁ AÍ?
A resposta de Iko foi quase instantânea.
NÃO, ELES PRENDERAM UM MECANISMO DE RASTREAMENTO NA NAVE E FORAM EMBORA. HOUVE ALGUMA CONFUSÃO EM RIEUX. ESTOU ASSISTINDO ÀS TELAS AGORA... CINDER, VOCÊ ESTÁ VENDO ISSO?
Ela engoliu em seco, mas não respondeu.
— A polícia foi embora. Deixou um rastreador.
— Ah, isso é previsível. — Thorne desceu e o trem de pouso esbarrou na ponta de um moinho.
Cinder viu a Rampion a poucos quilômetros, uma mancha enorme no meio da plantação, mas quase imperceptível à noite.
IKO, ABRA A PLATAFORMA DE NAVES DE PASSEIO.
Quando a nave alcançou a Rampion, a plataforma estava aberta. Cinder apertou os olhos e se ajeitou no assento quando Thorne mergulhou rápido demais na direção da abertura. Mas ele acionou os propulsores bem na hora, e em pouco tempo a nave parou repentina e agitadamente. Ela tremeu e morreu. Cinder já tinha saído pela porta lateral antes mesmo que as luzes se apagassem.
— Iko! Onde está o rastreador?
— Pelas estrelas, Cinder! Onde você esteve? O que está acontecendo lá fora?
— Não temos tempo. O rastreador!
— Está debaixo do trem de pouso, a boreste.
— Eu tiro — disse Thorne, caminhando em direção às portas abertas. — Iko, lacre a plataforma assim que eu sair, depois abra a escotilha principal. Cinder, instale a bateria! — Thorne pulou da plataforma, e Cinder ouviu um splash de lama quando ele caiu. Um momento depois, as portas de encaixe começaram a deslizar e fechar.
— Espere!
As portas pararam, deixando um espaço do tamanho da cabeça de Cinder.
— O quê? — gritou Iko. — Pensei que ele tivesse saído! Por acaso o esmaguei?
— Não, não. Ele está bem. Só preciso fazer uma coisa.
Mordendo o lábio, ela se abaixou em um joelho. Puxou a calça para cima, abriu o compartimento na prótese da perna e encontrou os dois pequenos chips em meio a vários fios emaranhados: o chip de comunicação direta, brilhando com sua iridescência peculiar, e o chip de identificação de Peony, ainda coberto de sangue seco.
Aqueles oficiais a haviam rastreado pelo chip de Peony, e ela não ficaria surpresa se os asseclas de Levana a tivessem encontrado da mesma forma.
— Sou tão burra — murmurou, soltando o chip. Seu coração se apertou de repente, mas fez o melhor que pôde para ignorar o sentimento, deu um beijo rápido no chip de identificação e o jogou no campo. Ele brilhou uma vez sob o luar e desapareceu no escuro. — Tudo bem. Pode fechar as portas agora.
Quando as portas se fecharam com um estalo, ela foi até a nave e pegou a bateria no chão. As luzes vermelhas de emergência da sala de máquinas estavam piscando. Seu display de retina já estava exibindo as plantas enquanto rastejava para o canto externo da nave, e desconectou a bateria velha.
Quando soltou os fios, a nave inteira ficou às escuras.
Ela falou um palavrão.
Cinder! — gritou Thorne, perturbado, em algum lugar acima dela.
Cinder acendeu a lanterna e tirou a proteção da bateria nova, sua respiração rápida e assustada. Não demorou para a casa de máquinas ficar sufocante sem o sistema de refrigeração. Enfiou um cabo na entrada da bateria, depois o prendeu ao motor. Já estava esquecendo como conseguia sobreviver sem a chave de fenda na nova mão enquanto prendia a bateria à parede. A planta sobreposta à sua visão se aproximou enquanto ligava os fios delicados.
Engolindo em seco, ela digitou o código de reinicialização no computador central. O motor zumbiu, o barulho ficou mais alto e logo se tornou um ronronar como o de um gato feliz. As luzes vermelhas se acenderam e foram rapidamente substituídas por luzes brancas e intensas.
— Iko?
A resposta foi quase imediata.
— O que acabou de acontecer? Por que ninguém me conta o que está acontecendo?
Com um suspiro, Cinder se deitou e se contorceu em direção à porta. Se segurou nos degraus da escada que levava ao nível principal da nave e gritou:
— Prontos para a decolagem!
Assim que terminou de falar, os combustores se acenderam embaixo dela e a nave começou a flutuar. Cinder gritou e agarrou a escada, se segurando com força enquanto a Rampion flutuava momentaneamente antes de subir ao céu, para longe da destruição que acontecia na bela cidade de Michelle Benoit.
Quando entraram em órbita de novo, Cinder encontrou Thorne no cockpit e afundou na cadeira com os dois braços pendendo na direção do chão.
— Temos que limpar as feridas — disse ao ver o ponto escuro de sangue no ombro dele.
Thorne assentiu sem olhar para ela.
— É, eu não quero pegar qualquer coisa que aquele cara pudesse ter.
Com a perna direita tremendo com o próprio peso, Cinder seguiu desajeitada até a enfermaria, feliz por ter tido a ideia de afastar as caixas da porta, e encontrou uma variedade de ataduras e pomadas.
— Bela decolagem lá embaixo — elogiou ao se juntar a Thorne no cockpit. — Capitão.
Ele resmungou e fez uma cara mal-humorada quando Cinder usou a faca embutida para cortar a manga grudenta da jaqueta.
— Como está? — perguntou, examinando as marcas de mordida no braço.
— Parece que fui mordido por um cachorro selvagem.
— Você está tonto? Desnorteado? Perdeu bastante sangue.
— Estou bem — respondeu, sem paciência. — Mas fiquei muito chateado por causa da jaqueta.
— Podia ter sido bem pior. — Ela cortou um pedaço comprido de atadura. — Eu poderia ter usado você como escudo humano, como fiz com aquela oficial. — A voz dela tremeu na última palavra. Uma dor de cabeça estava surgindo, começando nos olhos secos como o deserto, enquanto ela enrolava uma atadura no braço de Thorne e prendia o curativo com esparadrapo.
— O que aconteceu?
Ela balançou a cabeça e olhou para o corte na palma da mão.
— Não sei — respondeu Cinder, enrolando sem jeito o esparadrapo ali também.
— Cinder.
— Não era minha intenção. — Ela afundou na cadeira. Estava enojada, se lembrando do olhar morto e vazio da mulher ao se colocar entre Cinder e aquele homem. — Entrei em pânico e, quando percebi, ela estava lá, na minha frente. Eu nem pensei, nem tentei, simplesmente aconteceu. — Ela se levantou da cadeira e andou até o compartimento de carga, precisando de espaço. Respirar, se mover, pensar. — É exatamente disso que eu estava falando! De ter esse dom. Está me transformando em um monstro! Como aqueles homens. Como Levana.
Esfregou a cabeça e engoliu a confissão seguinte.
Talvez não fosse só por ela ser lunar. Talvez estivesse no sangue. Talvez ela fosse como a tia... ou como a mãe, que não era nem um pouco melhor.
— Ou talvez — sugeriu Thorne — tenha sido um acidente, e você ainda esteja aprendendo.
— Um acidente! — Ela virou. — Eu matei uma mulher!
Thorne ergueu um dedo.
— Não. Aquele homem lobo uivador e sugador de sangue foi quem a matou. Cinder, você estava com medo. Não sabia o que estava fazendo.
— Ele estava vindo para cima de mim, e eu a usei.
— E você acha que ele teria deixado o resto de nós em paz depois que pegasse você?
Cinder trincou os dentes, com o estômago ainda embrulhado.
— Entendo você achar que foi sua culpa, mas vamos tentar colocar um pouco da culpa no lugar certo.
Cinder franziu a testa para Thorne, mas estava vendo aquele homem de novo, com os olhos azuis sinistros e o sorriso doentio.
— Eles estão com Michelle Benoit. — Ela tremeu. — E isso é minha culpa também. Estão me procurando.
— Do que você está falando agora?
— Ele sabia que foi por isso que fomos a Rieux, mas disse que eles já a tinham encontrado. A “velhota”, ele disse. Mas só foram atrás dela porque estavam tentando me encontrar!
Thorne colocou a palma da mão no rosto.
— Cinder, você está iludida. Michelle Benoit abrigou a princesa Selene. Se a procuraram, foi por isso. Não tem nada a ver com você.
Cinder engoliu em seco, com o corpo todo tremendo.
— Ela ainda pode estar viva. Temos que tentar encontrá-la.
— Como nenhum de vocês me conta nada — interrompeu Iko, com voz firme —, vou ter que adivinhar. Vocês por acaso foram atacados por homens que lutavam como animais selvagens famintos?
Thorne e Cinder trocaram olhares. Cinder reparou que o compartimento de carga tinha ficado anormalmente quente durante a falação dela.
— Bom palpite — concordou Thorne.
— Estão falando sobre isso em todos os noticiários — disse Iko. — Não é só na França. Está acontecendo no mundo todo, em todos os países da União. A Terra está sob ataque!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!