20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e sete

Kai estava com os braços cruzados, olhando com irritação para a janela da suíte luxuosa de hóspede, mas sem ver nada do belo lago e nem da cidade abaixo. Ele não conseguiu apreciar nenhum luxo de sua prisão, apesar de a suíte ser maior do que a maioria das casas da Comunidade. Levana estava fingindo respeito e deu a ele acomodações completas, com uma cama enorme e um closet, duas salas, um escritório e um banheiro que, a um primeiro olhar, parecia ter uma piscina, mas que logo Kai percebeu que era uma banheira.
De tirar o fôlego, claro. Era ainda mais luxuosa do que as suítes de hóspedes no Palácio de Nova Pequim, embora Kai e seus ancestrais se orgulhassem de como recebiam e tratavam bem seus convidados diplomáticos.
Mas o efeito era estragado pelo fato de que a porta dupla que levava para a varanda ficava trancada e guardas lunares permaneciam parados em frente aos aposentos dia e noite. Ele fantasiou sobre quebrar uma das janelas e tentar escalar para descer pela parede do palácio, provavelmente era o que Cinder teria feito, mas qual era o sentido? Mesmo que não quebrasse o pescoço, ele não tinha para onde ir. Embora doesse pensar no assunto, o lugar dele era ali, ao lado de Levana, fazendo seu melhor para mantê-la ocupada com toda a porcaria de casamento e coroação.
E aquilo não estava indo bem, considerando que ele não via Levana e nenhum dos cúmplices dela desde que o trancaram ali, depois da emboscada na doca. Os únicos visitantes que recebeu foram criados mudos levando pratos transbordando com comidas extravagantes que ficavam praticamente intocadas.
Com um grunhido exasperado, ele recomeçou a andar de um lado para outro, seguro de que faria um buraco no piso de pedra antes que a situação se resolvesse.
Ele levou Cinder e seu grupo para Luna, que era seu papel básico no planejamento, mas as coisas não aconteceram com tranquilidade, e ele estava ficando louco por não saber o que tinha ocorrido. Eles tinham escapado? Alguém estava ferido?
Mesmo sem um chip D-COMM, ele ficaria tentado a mandar uma mensagem para Iko ou Cinder, só para saber o que estava acontecendo, mas Levana tinha confiscado seu tablet. Era enlouquecedor, mas considerando o risco de uma mensagem ser rastreada, devia ser mesmo melhor.
A ansiedade diminuiria se ele pudesse seguir em frente com os outros objetivos. Além de distrair Levana, ele também tinha sido encarregado de reunir informações sobre Scarlet Benoit, mas não poderia descobrir nada, nada, enquanto estivesse preso ali.
Era como estar preso na Rampion de novo, mas cem vezes pior.
Um sino ecoou por sua suíte.
Ele correu pela sala principal e abriu a porta. Havia um criado de uniforme do outro lado, um garoto poucos anos mais novo do que Kai. Ele estava escoltado por quatro guardas lunares.
— Eu não sou prisioneiro — disse Kai, enfiando o pé na porta caso ela fosse batida, como tinha acontecido incontáveis vezes antes. O criado enrijeceu. — Sou o imperador da Comunidade das Nações Orientais, não um criminoso qualquer, e exijo ser tratado com respeito diplomático. Tenho o direito de me reunir com meu conselheiro e meus oficiais de gabinete e exijo ouvir os motivos da rainha Levana para nos deter desta forma!
A boca do criado se moveu sem falar nada por um momento, até que ele gaguejou:
— E-Eu fui e-enviado para acompanhá-lo até Sua Majestade.
Kai piscou, atordoado por um momento, mas logo se recompôs.
— Já estava na hora. Leve-me até ela imediatamente.
O criado se curvou e voltou para o corredor.
Kai foi levado pelo palácio se sentindo ainda mais prisioneiro com os guardas espalhados atrás, embora ninguém tivesse tocado nele. Esforçou-se para observar a disposição do palácio, prestando atenção em marcos memoráveis sempre que podia: uma escultura interessante, uma tapeçaria complicada. Passando por uma passarela e descendo um corredor longo e estreito, onde retratos holográficos se enfileiravam como um corredor polonês.
Seus pés tropeçaram quando ele viu o último holograma. Teve que olhar duas vezes para ter certeza de que não estava ficando louco.
O último holograma era de uma mulher que, a uma primeira olhada, se parecia muito com Cinder.
Seu coração disparou, mas quando o holograma se virou, ele percebeu sua confusão.
Era uma versão madura de Cinder, com olhos que flertavam e sorriso de megera. As bochechas eram mais acentuadas e o nariz, um pouco mais estreito. Na verdade, as similaridades existiam não entre aquela mulher e a Cinder que ele conhecia, mas entre ela e a Cinder que ele viu na base da escada do baile.
Ele verificou a placa e confirmou suas desconfianças. Rainha Channary Blackburn.
O glamour não intencional de Cinder, por mais dolorosamente lindo que tivesse sido, se parecia muito com a mãe dela.
— Vossa Majestade.
Ele levou um susto e virou a cabeça. Não disse nada para o criado quando deixou o holograma para trás.
Ele esperava ser levado para a sala do trono, mas quando passaram por uma porta com grades de ferro e entraram em um corredor bem menos luxuoso, ele ficou desconfiado. À esquerda, passaram por uma porta elaborada de cofre.
— O que tem lá dentro?
Esperando ser ignorado, ele ficou surpreso quando o criado respondeu:
— As joias e insígnias da coroa.
As joias da coroa. Em Nova Pequim, eles guardavam artefatos e relíquias de valor inestimável em um dos cofres subterrâneos mais seguros. Lá havia pedras do tamanho de ovos, espadas milenares cobertas de ouro, até as coroas do imperador e da imperatriz quando não estavam em uso.
Ficou claro que aquela ala não era aberta para passeios do palácio. Para onde o estavam levando?
Eles dobraram outra esquina e Kai foi levado para uma porta até uma espécie de centro de controles de computador, cheio de invisitelas e nódulos holográficos. Mapas e vídeos de segurança piscavam em todas as paredes, e havia pelo menos trinta homens e mulheres analisando a abundância de transmissões e compilando dados do momento.
Antes que ele começasse a entender o que as pessoas estavam fazendo, foi empurrado por uma porta para uma sala adjacente. A porta foi fechada e o trancou atrás de um vidro à prova de som.
Seu olhar avaliou o novo espaço. Um pano de fundo em uma das paredes mostrava a cidade de Artemísia e a Terra além do horizonte. Havia dois tronos elaborados à frente. O resto da sala estava cheio de luzes altas e equipamento de filmagem. O local lhe lembrou a sala de imprensa do Palácio de Nova Pequim, mas sem cadeiras para os jornalistas.
Levana estava atrás de um dos tronos, com as mãos apoiadas nas costas. Usava um vestido preto cintilante com uma faixa diagonal prateada. Um broche na faixa tinha uma filigrana dourada delicada e pedras que diziam: Princesa Winter, Embora Falecida, Jamais Esquecida.
Kai curvou os lábios com repulsa. Essa fofoca, ao menos, chegou a ele no cativeiro. A princesa Winter foi assassinada. Alguns diziam que foi por um guarda, alguns diziam que por um amante ciumento. Mas, depois de ver a forma como Levana falara com irritação com a própria enteada, Kai não conseguia evitar teorias próprias.
O taumaturgo Aimery estava junto à porta, ao lado do capitão ruivo da guarda. Um homem desconhecido estava mexendo numa das luzes.
Apesar de Levana estar sorrindo, os olhos eram malignos.
Alguma coisa tinha acontecido.
Kai firmou os pés e enfiou as mãos nos bolsos, torcendo para passar a imagem de composto e intimidante.
— Olá, meu docinho — disse ele, relembrando os apelidos carinhosos e bajuladores que ela mencionou no porto.
Levana lançou-lhe um olhar fulminante, o que dizia muito. Se não estava disposta a fingir que achou graça, alguma coisa tinha dado muito errado.
E ele torcia para que isso quisesse dizer que alguma coisa tinha dado muito certo.
— Prometeram que eu seria tratado como hóspede diplomático — disse ele. — Quero me reunir com Konn Torin e o resto dos representantes terráqueos e ter permissão de andar pelo palácio e pela cidade. Nós não somos seus prisioneiros.
— Infelizmente, não estou aceitando exigências hoje. — As longas unhas de Levana afundaram nas costas do trono falso. — Mas você vai me ajudar com um projetinho. Estamos prontos?
O homem estava segurando papéis de vários tons de branco.
— Mais um momento, minha rainha.
Kai ergueu uma das sobrancelhas.
— Eu não vou ajudar você com nada até que aceite meus pedidos e responda minhas perguntas.
— Meu querido futuro marido, você abriu mão dos seus direitos de cortesia diplomática quando trouxe aqueles criminosos para minha casa. Sente-se.
Kai experimentou um breve momento de desafio antes de sentir as pernas se moverem por vontade própria e o corpo desabar em um dos tronos. Ele olhou para a rainha com raiva.
— Disseram que você capturou uma prisioneira terráquea durante um momento de cessar-fogo — insistiu ele. — Uma cidadã da Federação Europeia chamada Scarlet Benoit. Exijo saber se existe alguma verdade nesse boato e onde a garota está agora.
Levana começou a rir.
— Garanto que não existe prisioneira terráquea com esse nome aqui.
A gargalhada fez Kai trincar os dentes, e a declaração não o convenceu de nada. Estaria Levana sugerindo que Scarlet estava morta? Ou que não estava mais no palácio? Ou que não estava mais em Artemísia?
Levana pegou um véu na cabeça de um manequim e colocou sobre si mesma. Aimery deu um passo à frente e colocou a coroa da rainha na cabeça dela. Quando Levana se virou, o glamour não estava mais visível. Depois de se acostumar com o rosto bonito, Kai tinha esquecido como aquele véu liso o encheu de horror por tanto tempo.
— O que estamos fazendo aqui? — perguntou Kai.
— Vamos filmar um videozinho — disse Levana. — Houve algumas confusões nos setores externos ultimamente, e achei pertinente lembrar ao povo a verdadeira lealdade que me devem, e todas as coisas grandiosas que você e eu vamos fazer quando formos marido e mulher.
Ele a observou, mas não viu muita coisa por baixo do véu.
Ela contou tão pouca coisa, mas contou o bastante. O vídeo de Cinder tinha sido transmitido. Levana estava na defensiva. Só podia ser.
— O que você espera que eu diga?
Levana estalou os dentes e se sentou no trono ao lado dele.
— Nada, querido. Eu falo por você.
Ele sentiu consternação no peito. Tentou se levantar, mas as pernas tinham virado pedra. Ele fechou as mãos nos braços da cadeira e afundou as unhas na madeira polida.
— Eu não acho…
A língua dele ficou imóvel.
O técnico contou nos dedos, e uma luz se acendeu nas câmeras à frente.
O corpo de Kai relaxou. Suas mãos soltaram os braços da cadeira e pousaram no colo.
A postura estava ereta, mas natural; o olhar, delicado. Ele estava sorrindo quando olhou para a lente da câmera.
Mas, por dentro, estava furioso. Gritava e ameaçava Levana com todas as leis sobre política intergaláctica em que pensava. Nada disso importava. Seu rompante não era visível para ninguém além dele mesmo.
— Meu bom povo, chegou a mim a informação de que vocês foram abordados por uma impostora alegando ser nossa amada princesa Selene, que perdemos tragicamente treze anos atrás — declarou Levana. — Fiquei imensamente perturbada por essa garota, cujo verdadeiro nome é Linh Cinder e que é uma criminosa procurada tanto em Luna quanto na Terra, tenha ousado tirar vantagem desse episódio doloroso da nossa história, particularmente quando ainda estamos de luto pela morte da minha enteada. Parte meu coração informar a vocês que as alegações dessa garota não passam de mentiras elaboradas para confundir e manipulá-los para que se juntem a ela, mesmo quando seu bom senso, quando não estão sendo manipulados, se recusaria a participar.
Ela fez um sinal na direção de Kai.
— Quero apresentar a vocês todos meu futuro marido, Sua Majestade Imperial, o imperador Kaito da Comunidade das Nações Orientais da Terra. Ele tem a reputação de ser um governante justo e compassivo, e não tenho dúvida de que será um grande rei para nós também. Juntos, vamos unir nossos países em uma união construída em admiração e respeito mútuos.
Por dentro, Kai vomitou.
Por fora, voltou o olhar apaixonado para a noiva.
— Vocês podem não saber que Sua Majestade teve experiências pessoais com Linh Cinder, essa criminosa que está se fazendo passar por Sua Alteza, a princesa Selene — continuou Levana. — Eu queria que vocês ouvissem a opinião dele sobre a garota, para tomarem uma decisão baseada em fatos, e não em reações emocionais. Por favor, ofereçam a ele sua total atenção.
Kai olhou para a câmera de novo, e as palavras que saíram pela boca o fariam mais tarde esfregar a língua:
— Cidadãos de Luna, é uma honra para mim falar com vocês como seu futuro rei e uma grande tristeza que minha apresentação tenha que ser feita em momento tão conturbado. Como sua rainha declarou, eu tive muitas experiências com Linh Cinder, e sei com certeza absoluta que ela não é o que alega ser. A verdade é que ela é uma criminosa violenta, responsável por incontáveis roubos e mortes no planeta Terra. Depois de desenvolver uma obsessão por mim, ela até tentou assassinar minha amada futura esposa, sua rainha, durante nosso Festival Anual da Paz em Nova Pequim. Quando a tentativa falhou, ela chegou ao ponto de me sequestrar no dia que era para ser o do nosso casamento e me manteve refém contra minha vontade e em condições desumanas, até que prometesse desistir dessa união entre a Terra e Luna, e aceitasse me casar com ela. Foi só graças aos corajosos soldados de Luna e ao espírito indomável de Sua Majestade que fui libertado ileso. Infelizmente, Linh Cinder não desistiu. Ela continua a viver uma fantasia na qual é a princesa Selene, que voltou da morte, na esperança de conquistar minha afeição. A instabilidade e a imprudência dela a tornaram uma criminosa perigosa e uma ameaça, não só à minha segurança, mas ao bem-estar de todos os que entram em contato com ela. Peço a todos que, se virem Linh Cinder, relatem às autoridades imediatamente. Não falem com ela. Não se aproximem dela. Como seu futuro rei, estou muito preocupado com sua segurança, e é minha esperança que Linh Cinder seja encontrada e trazida a Artemísia, onde poderá receber a justiça que seus crimes merecem.
Quando terminou de falar, Kai se sentiu capaz de arrancar a própria língua se tivesse oportunidade.
Levana voltou a falar:
— Claro que, se fosse descoberto que havia qualquer verdade no boato de que minha querida sobrinha Selene sobreviveu tantos anos atrás, eu a receberia com alegria no meu coração e na minha casa, e colocaria eu mesma a coroa de Luna na cabeça dela. Infelizmente, não é assim. Selene está com as estrelas, e eu, sozinha, devo manter a segurança e a subsistência do nosso povo. Sei que são tempos difíceis. É com grande tristeza que vejo nossa produção de alimentos diminuir ano após ano e nossos recursos limitados não cobrirem as necessidades de nossa população crescente. E é por isso que a prioridade maior do meu regime é assegurar essa aliança com a Terra, de forma que nosso futuro possa ser melhor e nosso povo receba os devidos cuidados pelas gerações vindouras. Esse, meu povo, é o futuro que posso oferecer a vocês. Não essa ciborgue, essa impostora, essa fraude.
Quando o tom começou a transmitir ressentimento, Levana fez uma pausa e se recompôs. A voz passava o som de um sorriso novamente quando ela terminou:
— Sou sua rainha e vocês são meu povo. É um grande privilégio para mim guiar a todos em direção a um futuro novo e melhor.
O técnico parou a gravação, e o corpo de Kai latejou quando recuperou o controle. Ele se levantou e se virou para Levana.
— Não sou um instrumento desmiolado para ser usado nas suas propagandas.
Levana tirou o véu e o entregou para Aimery.
— Fique calmo, meu amado. Você falou com muita eloquência. Sem dúvida, o povo ficou impressionado.
— Cinder vai saber que foi mentira. Vai saber que você estava me controlando.
Os olhos de Levana brilharam.
— Que importância tem o que Cinder pensa? A opinião dela, como a sua, não quer dizer nada. — Ela estalou os dedos para o guarda. — Terminei com ele. Pode levar de volta.

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