13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e sete

O DR. ERLAND ACORDOU NO CHÃO EM UM QUARTO QUENTE E POEIRENTO de hotel, sem lembrar por um momento onde estava.
Não era o laboratório ao lado do palácio de Nova Pequim, onde ele viu ciborgue após ciborgue ser tomado de feridas vermelhas e roxas. Onde viu a vida sumir dos olhos e amaldiçoou o sacrifício de mais uma vida enquanto planejava o próximo passo em sua caça pela única ciborgue que importava.
Não era o laboratório de Luna, onde estudou e pesquisou com determinação única para receber reconhecimento. Onde viu monstros nascerem na ponta de seus instrumentos cirúrgicos. Onde viu as ondas cerebrais de jovens assumirem o padrão caótico e selvagem de animais ferozes.
Ele não era o dr. Dmitri Erland, como em Nova Pequim.
Não era o dr. Sage Darnel, como em Luna.
Ou talvez fosse... ele não conseguia pensar, não conseguia lembrar... não se importava.
Seus pensamentos ficavam se afastando dele e de suas duas identidades odiosas e voltando para o rosto em formato de coração da mulher com cabelo louro-mel que ficava cheio de frizz cada vez que o departamento de ecologia injetava mais umidade na atmosfera controlada de Luna.
Seus pensamentos estavam em um bebê que berrava, com quatro dias de nascido e confirmada como cascuda, quando a mulher a colocou nas mãos da taumaturga Mira, com toda a frieza e nojo que teria sentido por um roedor.
A última vez que ele viu sua pequena Lua Crescente.
Ele observou o ventilador girando no teto, que não diminuía o calor do deserto, e perguntou-se por que, depois de tantos anos, suas alucinações escolheram voltar para torturá-lo.
Essa garota cascuda não tinha mesmo as sardas e nem o cabelo louro da mulher. Essa garota cascuda não tinha sua altura infeliz nem seus olhos azuis. Essa garota cascuda não era sua filha, que se ergueu dos mortos para assombrá-lo. A ilusão estava toda em sua mente.
Talvez fosse apropriado. Ele tinha feito tantas coisas horríveis. O ataque recente contra a Terra era apenas o resultado de anos dos esforços dele. Foi pela pesquisa dele que a rainha Channary começou a desenvolver o exército de híbridos lobos, e pelos experimentos dele que Levana o levou ao final sangrento.
E havia também todos os que ele machucou para encontrar Selene e acabar com o reinado de Levana. Todos os que assassinou para encontrar Linh Cinder.
Ele estava otimista demais quando pensava que podia pagar essas dívidas. Esforçou-se para duplicar o antídoto que Levana deu para o imperador Kaito. Tinha que tentar, e por suas dores... mais sacrifício. Mais amostras de sangue. Mais experimentos, embora ele fosse obrigado a encontrar voluntários de verdade quando os traficantes não traziam sangue novo.
Ele descobriu em Nova Pequim, quando estava estudando o antídoto levado por Levana, que cascudos lunares guardavam o segredo. A mesma mutação genética que os tornava imunes à alteração lunar de bioeletricidade podia ser usada para criar anticorpos que lutavam e derrotavam a doença.
E assim começou a reunir cascudos e o sangue deles e o DNA. Usando-os, assim como utilizou os jovens que se tornaram soldados sem cérebro da rainha. Assim como usou os ciborgues que costumavam ser candidatos contra a própria vontade nas experiências contra a letumose.
É claro que seu cérebro faria isso com ele. É claro que sua insanidade chegaria a uma profundidade tal que as alucinações lhe devolveriam a única coisa com a qual ele já se importara e distorceriam a realidade para que ela se tornasse mais uma de suas vítimas.
Só mais uma pessoa comprada e descartada.
Só mais uma amostra de sangue.
Só mais uma cobaia de laboratório que o odiava.
Sua pequena Lua Crescente.
Acima de sua cabeça, o tablet apitou na prateleira do laboratório.
Ele precisou de mais energia do que pensava para se levantar, gemendo ao usar a moldura da cama como apoio.
Demorou o tempo que precisou, evitando a verdade, em parte porque não sabia qual verdade preferia. Uma alucinação com a qual conseguiria lidar. Ele poderia descartá-la e continuar o trabalho.
Mas, se fosse ela...
Ele não podia perdê-la de novo.
Passou pelo armário aberto e empurrou a janela para olhar para a rua. Dava para ver a curva da nave a duas ruas dali, refletindo a luz do sol conforme o crepúsculo se aproximava. Ele tinha que acabar logo com isso, antes que Cinder chegasse para ver o amigo Lobo. Nenhuma cobaia tinha sido vendida a ele desde que ela chegou, e ele achava que ela não entenderia. Ela já teve dificuldade para entender os sacrifícios que tinham que ser feitos para o bem de todos. Ela, que devia entender isso melhor do que qualquer pessoa.
Suspirando, andou pelo pequeno laboratório até a amostra de sangue da garota. Pegou o tablet e clicou no relatório gerado pelo teste. Sentiu-se tonto ao observar os dados recolhidos no DNA.
Lunar.
Cascuda.
ALTURA ATUAL (E FINAL): 153,48 CENTÍMETROS
PIGMENTAÇÃO DA ÍRIS NA ESCALA MARTIN-SCHULTZ: 3
PRODUÇÃO DE MELANINA: 28/100, COM MELANINA LOCALIZADA CONCENTRADA NO ROSTO/EFÉLIDES
As estatísticas físicas vieram seguidas de uma lista de doenças em potencial e fraquezas genéticas, com sugestões de tratamentos e prevenções.
Não dizia o que ele precisava saber até se preparar e comparar os dados com os seus, um relatório que praticamente decorou de tantas as vezes que tirou o próprio sangue para experimentos.
Sentou-se na beirada da cama enquanto o computador avaliava os relatórios, comparando e contrastando mais de quarenta mil genes.
Ele se viu torcendo para a alucinação ser verdade e ela não ser sua filha. Para sua filha ter sido morta por Sybil Mira, como o fizeram acreditar tantos anos antes.
Porque, se fosse, ela o desprezaria.
E ele concordaria com ela.
Ela já fora embora, ele tinha certeza. Não sabia por quanto tempo ficara inconsciente, mas duvidava que ela fosse ficar por perto. Ele já tinha perdido aquele fantasminha. Duas vezes.
O tablet terminou de fazer a comparação.
Compatibilidade encontrada.
Paternidade confirmada.
Ele tirou os óculos, colocou-os na mesa e expirou fundo, tremendo.
Sua Lua Crescente estava viva.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!