3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e Sete

ELA ESTAVA DEITADA DE COSTAS, OUVINDO A CONSTANTE BATIDA de seus dedos metálicos na resina branca do chão da cela. De tudo que deveria estar ocupando sua mente, um único momento parecia preso em seus pensamentos, em uma repetição interminável.
Um dia de mercado, o ar úmido, o cheiro dos pães doces de Chang Sacha permeando a praça da cidade. Antes de isso tudo ter acontecido — antes de Peony ficar doente, antes de Levana vir para a Terra, antes de Kai a convidar para o baile. Ela era apenas uma mecânica, e ele era o príncipe com todos os encantos aos quais ela fingia ser imune. E ele estava lá, diante dela, enquanto ela se equilibrava em um único pé e tentava acalmar seu coração acelerado. Como mal conseguia olhar nos olhos dele. Como ele se inclinou para a frente, forçando-a a vê-lo, e sorriu.
Ali.
Aquele momento. Aquele sorriso.
Uma vez e outra, e outra.
Cinder suspirou e mudou o ritmo da batida de seus dedos.
A rede estava repleta de vídeos do baile. Ela assistira a exatamente 4,2 segundos das filmagens pela sua rede — ela em seu vestido de baile sujo tropeçando nos degraus — antes de desligar. A filmagem a fazia parecer louca. Sem dúvida, todo ser humano da Terra ficaria feliz quando a rainha Levana se apossasse dela e a levasse de volta para Luna. Para seu “julgamento”.
Cinder ouviu os passos do guarda, abafados, no outro lado da porta da cela. Tudo em torno dela era branco, inclusive o macacão de algodão extremamente alvejado que a fizeram vestir, forçando-a a descartar o vestido destruído de Peony e o pouco da luva de seda que ainda não estava derretido ou rasgado. Eles também ainda não tinham se dado o trabalho de apagar as fortes luzes, deixando-a inquieta e exausta. Ela estava começando a se perguntar se não seria um alívio quando a rainha viesse buscá-la, se talvez ela lhe permitisse ao menos um momento de sono.
E ela só estava lá havia quatorze horas, trinta e três minutos e dezesseis segundos. Dezessete segundos. Dezoito.
A porta fez um barulho, assustando-a. Ela apertou os olhos em direção à pequena janela na porta, vendo a sombra da cabeça de um homem no portão de ferro. A parte de trás da cabeça. Nenhum dos guardas a olhava.
— Você tem uma visita.
Ela ergueu-se, se apoiando nos cotovelos.
— O imperador?
O guarda soltou uma curta risada.
— Sim, é claro. — Sua sombra desapareceu da grade.
— Por favor, abra a porta — disse uma voz familiar, com um sotaque familiar. — Preciso falar com ela em particular.
Cinder ergueu-se em um pé só, apoiando-se na parede lisa como vidro.
— Ela está sob segurança máxima — disse o guarda. — Eu não posso deixá-lo entrar. Você deve falar com ela através da grade.
— Não seja ridículo. Pareço uma ameaça à segurança?
Cinder pulou até a janela e subiu na ponta dos dedos. Era o dr. Erland, segurando um saco de linho claro. Ele ainda usava o jaleco, com os óculos prateados minúsculos sobre o nariz e o boné de lã na cabeça. Embora tivesse de erguer a cabeça para olhar nos olhos do guarda, não se intimidou.
— Eu sou o cientista líder da equipe real de pesquisa de letumose — disse o dr. Erland — e essa menina é minha principal cobaia. Preciso de amostras de sangue dela antes que deixe o planeta. — Ele retirou uma seringa do saco. O guarda cambaleou para trás surpreso, antes de cruzar os braços sobre o peito.
— Tenho que cumprir ordens, senhor. Você terá que obter uma autorização oficial do imperador que permita sua entrada.
O dr. Erland deixou seus ombros caírem e guardou a seringa de volta na sacola.
— Tudo bem. Se esse é o protocolo, eu entendo. — Mas, em vez de se afastar, ele mexeu com os punhos de suas mangas, sua expressão momentaneamente escurecendo, antes de lançar outro sorriso ao guarda. — Aqui, você vê? — disse, sua voz enviando uma sensação estranha para a espinha de Cinder. O médico continuou, a cadência de suas palavras calmante como uma canção. — Obtive a liberação necessária do imperador. — Ele indicou com as mãos em direção a porta da cela. — Pode abrir a porta.
Cinder piscou como se quisesse limpar teias de aranha de sua mente. Parecia que o dr. Erland queria ser preso também, mas, em seguida, o guarda se virou para ela com uma expressão perplexa e passou sua identificação no escâner. A porta se abriu.
Cinder cambaleou para trás, apoiando-se na parede.
— Agradeço muito — disse o médico, entrando na cela sem dar as costas para o guarda. — Vou pedir que nos dê um pouco de privacidade. Não demorarei mais do que um minuto.
O guarda fechou a porta sem discutir. Seus passos ecoaram pelo corredor.
O dr. Erland virou-se e deu um suspiro quando seus brilhantes olhos azuis caíram sobre Cinder. Seus lábios se abriram por um momento antes de ele virar a cabeça e fechar os olhos. Quando os abriu novamente, o olhar de espanto tinha suavizado em suas feições.
— Se havia qualquer dúvida, se foi agora. Pode lhe fazer bem praticar o controle do seu encanto.
Cinder apertou a bochecha com uma das mãos.
— Eu não estou fazendo nada.
O médico limpou a garganta, desconfortável.
— Não se preocupe. Você vai pegar o jeito. — Ele lançou seu olhar ao redor da cela. — Muito difícil a situação em que você se meteu, não é?
Cinder ergueu um dedo em direção à porta.
— Você tem que me ensinar esse truque.
— Seria uma honra, srta. Linh. É realmente muito simples. Se concentre em seus pensamentos, leve os de sua vítima em sua direção e deixe clara sua intenção. Internamente, é claro.
Cinder franziu a testa. Não parecia nem um pouco simples.
O médico ignorou o olhar.
— Não se preocupe. Você vai perceber que virá naturalmente quando precisar de seu dom, mas não temos tempo para lições. Eu preciso ser rápido antes que levante suspeitas em alguém.
— Minhas suspeitas aumentaram.
Ele a ignorou, seu olhar percorrendo Cinder — o macacão branco, volumoso e largo sobre seu corpo esguio, a mão de metal amassada e riscada pela queda, os fios coloridos que pendiam da perna da calça.
— Você perdeu seu pé.
— Sim, eu notei. Como está o Kai?
— O quê? Você não vai perguntar como eu estou?
— Você parece estar bem — disse ela. — Melhor do que o normal, na verdade. — Era verdade: a luz fluorescente da cela o deixava dez anos mais jovem. Ou, mais provável, ela percebeu, eram os efeitos prolongados de usar o seu dom lunar sobre o guarda. — Mas como ele está?
— Confuso, eu acho. — O médico deu de ombros. — Acredito que ele estivesse apaixonado por você. Descobrir que você é… Bem… Foi muito para assimilar, tenho certeza.
Cinder passou a mão pelos cabelos, frustrada, os fios emaranhados pelas quatorze horas que passara amassando-os entre os punhos.
— Levana o forçou a escolher. Casar com ela ou me entregar. Caso contrário, ela disse que iria declarar guerra com base em alguma lei sobre abrigar lunares fugitivos.
— Parece que ele tomou a decisão certa. Ele será um bom governante.
— A questão não é essa. Levana não se satisfará com a decisão por muito tempo.
— Claro que não. Nem teria deixado você viver por muito tempo se ele tivesse escolhido o casamento. Ela quer muito ver você morta, mais do que imagina. É por isso que ela deve acreditar que Kai fez tudo ao seu alcance para mantê-la confinada e está disposto a lhe entregar assim que ela retorne à Lua, o que não vai demorar muito, acho. Caso contrário, pode haver consequências horríveis para ele… e para a Comunidade das Nações Orientais.
Cinder olhou para ele, apertando os olhos.
— Parece-me que ele está fazendo tudo que pode para me manter confinada.
— De fato. — Ele girou os polegares. — Isso complica as coisas, não é?
— O que você…?
— Por que não nos sentamos? Você não pode estar confortável assim, em um pé só. — O dr. Erland afundou na única cama da cela. Cinder deslizou pela parede oposta a ele. — Como está sua mão?
— Bem. — Ela flexionou os dedos de metal. — A articulação no meu dedo mindinho está ruim, mas poderia estar pior. Ah, e… — Ela apontou para a têmpora. — Sem buracos na minha cabeça. Ainda estou feliz com isso.
— Sim, ouvi dizer como a rainha a atacou. Foi sua programação ciborgue que a salvou, não foi?
Cinder deu de ombros.
— Acho que sim. Eu recebi uma mensagem sobre manipulação bioelétrica, logo antes de… Eu nunca tinha recebido aquela mensagem, nem mesmo perto do seu encanto.
— Foi a primeira vez que um lunar a forçou a fazer algo, ao contrário de simplesmente acreditar ou sentir alguma coisa. E parece que sua programação funcionou como foi concebida: outra decisão impressionante do seu cirurgião, ou talvez tenha sido o protótipo de Linh Garan que fez isso. De qualquer maneira, Levana deve ter sido pega completamente desprevenida. Embora eu suspeite que a exibição explosiva que você criou não tenha cativado muitos terráqueos.
— Eu não sabia como controlar. Não sabia o que estava acontecendo. — Ela puxou os joelhos contra o peito. — Acho que é bom eu estar aqui. Não há lugar lá fora a que eu pertença, não depois disso. — Ela apontou para um lugar inexistente além das paredes brancas. — Ainda bem que Levana acabará com meu sofrimento.
— É mesmo, srta. Linh? É uma pena. Eu esperava que você tivesse herdado a garra do nosso povo.
— Desculpe. Pareço ter perdido minha energia quando meu pé caiu durante uma transmissão ao vivo.
O médico torceu o nariz para ela.
— Você se preocupa tanto com coisas tão bobas.
— Bobas?
O dr. Erland sorriu.
— Eu vim aqui por uma razão muito importante, sabe, e não temos o dia todo.
— Certo — resmungou Cinder enquanto arregaçava as mangas e estendia o braço para ele. — Colha quanto sangue você quiser. Não vou precisar dele.
O dr. Erland afagou seu cotovelo.
— Isso foi uma desculpa. Não estou aqui para coletar amostras de sangue. Existem lunares na África para testar se for preciso.
Cinder deixou o braço cair de volta para o colo.
— Na África?
— É, estou indo para a África.
— Quando?
— Dentro de três minutos. Há muito trabalho a ser feito, e será difícil concluí-lo em uma cela, portanto decidi ir para onde os primeiros casos de letumose foram documentados, em uma pequena cidade a leste do deserto do Saara. — Ele girou os dedos no ar, como se apontasse para um mapa invisível. — Espero encontrar alguns hospedeiros e convencê-los a se tornarem parte da minha pesquisa.
Cinder desenrolou a manga.
— Então, por que você está aqui?
— Para convidá-la a se juntar a mim. Quando for conveniente, é claro.
Cinder fez uma careta.
— Puxa, obrigada, doutor. Vou dar uma olhada na minha agenda para ver quando estarei disponível novamente.
— Eu espero que sim, srta. Linh. Aqui, tenho um presente para você. Dois, na verdade. — O dr. Erland enfiou a mão no saco e retirou uma mão e um pé de metal, ambos brilhando sob as luzes fortes. As sobrancelhas de Cinder se ergueram.
— De última geração — disse o dr. Erland. — Com todos os acessórios. Revestidos por titânio puro. E olhe! — Como uma criança com um brinquedo novo, ele mexeu os dedos da mão, revelando uma lanterna secreta, uma adaga, uma pistola, uma chave de fenda e um cabo conector universal. — É um pilar da utilidade. Os dardos tranquilizantes são armazenados aqui. — Ele abriu um compartimento na palma da mão, revelando uma dezena de dardos finos. — Assim que a fiação estiver sincronizada, você será capaz de carregar a arma com um simples pensamento.
— Isso é… fantástico. Agora, quando eu estiver para ser executada, posso ao menos levar alguns espectadores comigo.
— Exatamente! — Ele riu. Cinder franziu a testa, irritada, mas o dr. Erland estava muito ocupado admirando as próteses para notar. — Eu as mandei fazer especialmente para você. Usei o exame do seu corpo para garantir que tivessem as dimensões corretas. Se houvesse mais tempo, poderia ter feito um enxerto de pele, mas não podemos ter tudo, suponho.
Cinder pegou as partes quando ele as entregou, fiscalizando o trabalho com apreensão.
— Não deixe que o guarda veja isso, ou realmente estarei em apuros — disse ele.
— Obrigada. Eu com certeza estou animada para usá-los nos dois últimos dias da minha vida.
Com um sorriso malicioso, o dr. Erland percorreu com o olhar a pequena cela.
— Engraçado, não é? Tanto avanço, tanta tecnologia. Mas mesmo os sistemas de segurança mais complexos não são projetados com ciborgues lunares em mente. Acho que é bom não existirem muitos de vocês por aí, ou ganhariam uma má reputação pelas fugas de cadeias.
— O quê? Você está louco? — disse Cinder, baixando a voz para um sussurro áspero. — Você está sugerindo que eu deveria tentar escapar?
— Na verdade, estou um pouco louco esses dias. — O dr. Erland coçou sua bochecha. — Não tenho cura. Toda essa bioeletricidade sem ter para onde ir, nada a fazer… — Ele suspirou de forma excêntrica. — Mas não, srta. Linh, não estou sugerindo que tente escapar. Estou dizendo que deve escapar. E deve fazê-lo em breve. Suas chances de sobrevivência cairão drasticamente quando Levana vier buscá-la.
Cinder recostou-se na parede, sentindo o princípio de uma dor de cabeça.
— Olha, eu agradeço que se importe comigo, de verdade. Mas mesmo que eu pudesse encontrar um jeito de sair daqui, você sabe como Levana reagiria? Você mesmo disse que haverá consequências terríveis se ela não conseguir o que quer. Não vale a pena começar uma guerra por minha causa.
Os olhos dele brilharam por trás dos óculos. Pareceu jovem por um momento, quase eufórico.
— Na verdade, vale.
Ela inclinou a cabeça, olhando-o com atenção. Talvez ele fosse realmente louco.
— Eu tentei lhe dizer quando você esteve no meu consultório semana passada, mas você teve que sair correndo para ver a sua irmã… Ah, e eu sinto muito sobre sua irmã, a propósito.
Cinder mordeu o interior de sua bochecha.
— De qualquer forma, sabe, eu tinha o seu DNA sequenciado. Isso me informou não só que você é lunar, não só que você não é uma cascuda, mas também algo sobre sua herança. Sua linhagem.
O batimento cardíaco de Cinder acelerou.
— Minha família?
— Sim.
— E? Eu tenho uma? Meus pais, eles estão… — Ela hesitou. Os olhos do dr. Erland se entristeceram com a sua explosão. — Eles estão mortos?
Ele tirou o boné.
— Sinto muito, Cinder. Eu deveria ter lhe contado isso de uma maneira melhor. Sim, sua mãe está morta. Não sei quem é seu pai nem se ele está vivo. Sua mãe era, digamos assim… conhecida por sua promiscuidade.
Cinder sentiu sua esperança murchar.
— Ah.
— E você tem uma tia.
— Uma tia?
O dr. Erland apertou o chapéu entre as mãos.
— Sim. A rainha Levana.
Cinder piscou, confusa.
— Minha querida. Você é a princesa Selene.

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