7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e Seis

O SORRISO DE CINDER FICOU CONGELADO NO ROSTO. O NOME DE Peony era como uma pedra em seu peito que tirava o ar dos pulmões enquanto lembranças povoavam sua visão. Peony assustada e sozinha nas quarentenas. Peony morrendo, com o antídoto ainda na mão de Cinder.
A dor foi imediata, como fogo estraçalhando seus músculos. Cinder gritou, apertou a mesa e quase caiu.
O oficial cambaleou para trás, e a colega dele gritou:
— É ela!
Cinder sentiu a mesa ser empurrada contra si quando Thorne deu um pulo. Levou um momento para a queimação diminuir. O gosto de sal permaneceu em sua língua, alguém gritou e, em meio à confusão no cérebro, ela ouviu pernas de cadeiras e de mesas arranhando o chão.
A voz da mulher continuou:
— Linh Cinder, vamos levá-la conosco.
Um texto em vermelho brilhou em sua retina.
TEMPERATURA INTERNA ACIMA DA TEMPERATURA DE CONTROLE RECOMENDADA. SE O PROCEDIMENTO DE RESFRIAMENTO NÃO FOR INICIADO, O DESLIGAMENTO AUTOMÁTICO OCORRERÁ EM UM MINUTO.
— Linh Cinder, coloque lentamente as mãos acima da cabeça. Não faça movimentos bruscos. Ela piscou tentando afastar a névoa intensa em sua visão, quase não percebendo a oficial com a arma apontada para sua testa. Atrás dela, Thorne estava dando um soco no nariz do jovem com o tablet, que se abaixou e reagiu. O terceiro oficial estava com a arma apontada para os dois homens, que, na briga, caíram em cima de uma mesa ali perto.
Cinder respirou fundo, feliz de só um resíduo da dor permanecer sob sua pele.
CINQUENTA SEGUNDOS ATÉ O DESLIGAMENTO AUTOMÁTICO...
Ela soltou a respiração lentamente.
DESLIGAMENTO AUTOMÁTICO PAUSADO. TEMPERATURAS CAINDO.
PROCEDIMENTO DE RESFRIAMENTO ACIONADO.
— Linh Cinder — repetiu a mulher. — Coloque as mãos no alto da cabeça. Tenho autorização para atirar, se necessário.
Ao passar as mãos em frente ao rosto, ela percebeu que tinha esquecido que a ponta de um dos dedos estava aberta, armada com um dardo.
— Saia de trás da mesa lentamente e dê a volta. — A mulher deu um passo para trás para dar espaço para Cinder se mover. Atrás dela, Thorne gemeu quando um soco acertou seu estômago e ele se encolheu.
Cinder também se encolheu ao ouvir aquele som, mas fez o que mandaram, esperando que o estômago parasse de se revirar, que a fraqueza passasse. Tentou preparar o cérebro para a tentativa, sabendo que só teria uma chance.
Ficou de pé na hora em que estavam colocando algemas nos pulsos de Thorne. Cinder virou.
Com o canto do olho, viu a oficial esticar a mão para o cinto.
— Você não quer fazer isso — disse, mais uma vez se encolhendo por causa da adorável serenidade da própria voz. — Você quer nos soltar.
A oficial fez uma pausa e olhou para ela com uma expressão vazia.
— Vocês querem nos soltar. — A ordem foi dirigida a todos os oficiais, a todo mundo na taverna, mesmo os fregueses assustados que estavam encostados na parede dos fundos. A cabeça de Cinder zumbia com a volta da força, do controle e do poder. — Vocês querem nos soltar.
A oficial baixou os braços para a lateral do corpo.
— Nós queremos soltar...
Um grito gutural ecoou pela taverna. Atrás da oficial, o homem de olhos azuis ficou de pé, mas caiu em cima da mesa. As pernas da mesa quebraram com o peso, e ele caiu no chão. Os outros fregueses se afastaram, e a atenção de todo mundo foi desviada. Cinder olhou para Thorne, que estava assistindo ao espetáculo com as mãos presas às costas.
O estranho rosnou. Estava agachado, de quatro, com saliva pingando da boca. Por baixo das sobrancelhas escuras, seus olhos tinham adquirido uma estranha luminescência e uma expressão louca e sedenta por sangue que fez as entranhas de Cinder se contorcerem. Ele curvou os dedos, arranhou o chão com as unhas e olhou para os rostos apavorados ao redor.
Um rosnado subiu de sua garganta e seus lábios se abriram, revelando dentes pontudos, mais lupinos do que humanos.
Cinder recuou até o banco, certa de que o surto momentâneo tinha estragado alguma coisa, que seu dispositivo óptico biônico estava enviando mensagens cruzadas ao cérebro. Mas sua visão não mudou.
Ao mesmo tempo, os oficiais militares apontaram as armas para o homem, mas ele não demonstrou preocupação. Pareceu satisfeito com os gritos horrorizados, com a forma como a multidão se afastou dele.
Ele pulou no oficial mais próximo antes que conseguisse puxar o gatilho. Suas mãos envolveram a cabeça do homem. Houve um estalo alto, e ele caiu no chão sem vida. Aconteceu tão rápido, cada movimento não mais que um borrão.
Gritos se espalharam pela taverna. Houve correria em direção à porta, clientes pulando por cima de mesas e cadeiras caídas.
Ignorando as pessoas, o homem deu um sorrisinho debochado para Cinder. Ela cambaleou até cair sentada no banco, tremendo.
— Oi, garotinha — disse ele, com voz humana demais, controlada demais. — Acho que minha rainha anda procurando você.
Pulou para cima dela. Cinder recuou, incapaz de gritar.
A oficial se jogou entre os dois, de frente para Cinder, com os braços bem abertos de forma protetora. Seu rosto estava completamente sem expressão. Seus olhos sem vida observavam Cinder na hora em que o homem uivou de raiva e agarrou-a por trás. Passou um braço ao redor da cabeça dela, puxou para trás e afundou as presas na garganta.
Ela não gritou. Não lutou.
Um gorgolejar sangrento saiu de sua boca.
Uma arma disparou.
O homem enlouquecido rosnou, pegou a oficial e jogou para o lado como um cachorro faria com um brinquedo, lançando-a do outro lado da taverna. Ela caiu no chão quando outro tiro soou e acertou o homem no ombro. Com um grito, ele pulou para a frente e arrancou com uma das mãos a arma do oficial que tinha sobrado. Atacou-o com a outra, os dedos curvados como garras, que deixaram quatro cortes no rosto do oficial.
Com o coração disparado, Cinder olhou para a mulher quando a vida se esvaía dos olhos. Sua respiração ofegante ficou presa na garganta. O coração estava batendo com tanta força que sem dúvida pularia para fora do peito. Pontos brancos manchavam sua visão. Não conseguia respirar.
— Cinder!
Atordoada, procurou pelo salão e encontrou Thorne saindo de trás de uma mesa derrubada com as mãos ainda presas nas costas. Ele caiu de joelhos ao lado do banco.
— Vamos, as algemas!
Os pulmões dela queimavam. Os olhos ardiam. Estava hiperventilando.
— Eu... eu a matei... — gaguejou.
— O quê?
— Eu matei... Ela estava...
— Não é a hora de surtar, Cinder!
— Você não entende. Fui eu. Eu...
Thorne se jogou e bateu sua testa na dela com tanta força que Cinder gritou e caiu no banco.
— Componha-se e me ajude a abrir esse troço!
Ela se segurou na mesa e se pôs de pé. Com a cabeça doendo, olhou para Thorne, depois para a oficial caída na parede, com o pescoço inclinado em um ângulo estranho.
Com o cérebro lutando para se prender à realidade, ela deu um salto para a frente e foi arrastando Thorne por entre cadeiras derrubadas. Depois de se agachar ao lado do primeiro oficial caído, segurou o braço dele e ergueu o pulso. Thorne girou as mãos na direção dela, e as algemas piscaram e se abriram.
Cinder soltou a mão inerte e ficou de pé. Saiu correndo para a porta, mas alguma coisa segurou seu rabo de cavalo e puxou-a para trás. Ela gritou e caiu em uma mesa. Garrafas se estilhaçaram embaixo dela, e água e álcool encharcaram as costas de sua blusa. O homem louco estava em cima dela, com uma expressão de desprezo. Sangue pingava de seus lábios e dos ferimentos a bala, que mal parecia reparar.
Cinder tentou se afastar, mas escorregou e um caco de vidro cortou a palma da mão. Sufocou um grito.
— Eu perguntaria o que trouxe você à pequena Rieux, na França, mas acho que já sei. — Ele sorriu, mas era inquietante e nada natural, com os caninos proeminentes manchados de sangue. — Pena que encontramos a velhota primeiro, e agora minha matilha tem vocês duas. Fico pensando qual será minha recompensa quando eu levar o que sobrar de você para minha rainha em uma caixa de plástico.
Thorne gritou, levantou uma cadeira e quebrou-a nas costas do homem.
O homem virou, e Cinder aproveitou a distração para rolar por cima da mesa. Ela desabou no chão e ergueu o olhar na hora em que o homem afundou os dentes no braço de Thorne. O capitão deu um grito.
— Thorne!
O homem recuou, com o queixo pingando sangue, e deixou Thorne, que caiu de joelhos. Os olhos do assassino brilhavam.
— Sua vez.
Ele deu dois passos lentos na direção dela. Cinder virou a mesa e criou um obstáculo entre eles, mas o homem a chutou para longe com uma gargalhada.
Cinder ficou de pé, ergueu a mão e disparou um dardo tranquilizante no peito dele. Rosnando, arrancou o dardo como um incômodo insignificante.
Cinder recuou. Ao tropeçar em uma cadeira caída, gemeu e caiu de costas no corpo quente e imóvel do oficial, e conseguiu disparar duas balas, mas inutilmente.
O homem sorriu de uma maneira repugnante, mas fez uma pausa, empalidecendo. Seu sorriso cruel sumiu e, com mais um passo, caiu de cara no chão.
Cinder ficou olhando com o estômago embrulhado para a forma inerte em meio à confusão. Quando viu que ele não se mexia, ousou olhar para o oficial morto cujo sangue escorria pela clavícula. Rolou de cima do policial, pegou a arma que tinha caído no chão e ficou de pé.
Cinder segurou o cotovelo de Thorne e enfiou a arma na mão dele. Ele gemeu de dor, mas não lutou quando ela o colocou de pé e o empurrou até a porta. Cinder voltou correndo até a mesa, pegou a bateria e enfiou debaixo do braço antes de sair correndo atrás dele.
A rua estava um caos, com pessoas correndo e saindo dos prédios, chorando histericamente.
Cinder viu os dois policiais que estavam inspecionando a nave agora tentando orientar a multidão. Uma janela se estilhaçou quando um homem passou pelo vidro (o homem apavorante da loja de peças) e agarrou um dos policiais no caminho. Seus dentes se enfiaram no pescoço do policial.
Uma onda de náusea cresceu dentro dela quando o louco soltou o policial e virou o rosto manchado de sangue para o céu.
E uivou.
Foi um uivo longo, orgulhoso e agourento.
O dardo de Cinder acertou-o no pescoço, silenciando-o. Ele teve tempo de virar e olhá-la com raiva antes de cair de lado.
Não pareceu importar. Enquanto Cinder e Thorne corriam para a nave abandonada, o uivo do homem foi repetido por outro e mais outro, meia dúzia de gritos alienígenas sendo repetidos em todas as direções para receber a lua que surgia no céu.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!