20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e seis

— Uau — sussurrou Scarlet. — Bom discurso.
O coração de Cinder estava disparado.
— Obrigada. Kai escreveu a maior parte.
Ela espiou a fila de casas vazias. As poucas pessoas que tinha visto antes ainda encaravam o domo. Mais mineiros e operários de fábrica já deviam ter voltado, mas as ruas ficaram vazias. O domo era um vácuo de silêncio.
Saber que deu o primeiro passo deveria ter assustado Cinder. Ela estava fugindo havia tanto tempo. Levana a manteve na defensiva desde que a viu no baile da Comunidade.
Mas era o fim disso. Ela se sentia energizada. Pronta. Longe de fazer papel de boba no vídeo, ela na verdade falou como uma rainha. Falou como uma revolucionária. Falou como se fosse mesmo capaz daquilo.
— Venha — disse Scarlet, enquanto saía andando. — Vamos ver o que está acontecendo.
Cinder apressou o passo atrás dela. Elas ouviram gritos vindos da praça central, os cidadãos distantes estavam se aproximando das ruas residenciais, embora parassem com frequência para olhar para trás. Quando Cinder e Scarlet se aproximaram, ouviram que os gritos eram ordens.
Os guardas do setor tinham aberto caminho em meio à multidão parada, segurando cassetetes compridos e finos.
— Andem — gritou um guarda. O rosto dele todo, com exceção dos olhos, estava escondido embaixo do capacete e de uma máscara. — Faltam quatro minutos para o toque de recolher! Embromar é estritamente proibido, e nenhum vídeo vai mudar isso.
Cinder e Scarlet se esconderam atrás de um carrinho de entregas.
Os cidadãos estavam amontoados em pequenos grupos, com o cabelo e os uniformes cobertos de poeira de regolito. Alguns estavam com as mangas dobradas, deixando à mostra as tatuagens de MR-9 nos antebraços. A maioria baixou os olhos quando os guardas se aproximaram e se encolheram pelo prospecto de receberem golpes dos cassetetes. Mas bem poucos pareciam estar indo embora.
Um guarda segurou um homem pelo cotovelo e o empurrou para longe do chafariz borbulhante no centro do domo.
— Andem logo, todos vocês. Não nos obriguem a fazer um relatório de má conduta.
Os trabalhadores cansados trocaram olhares. A multidão estava diminuindo. Os ombros exaustos murcharam conforme eles foram dispersando. Os grupos se dissolveram sem nem uma palavra de raiva ser gritada para os guardas.
O coração de Cinder se espremeu.
Eles não iam lutar.
Eles não iam se defender.
Eles estavam com tanto medo dos opressores quanto antes.
Ela foi tomada de decepção e cambaleou, apoiando-se no carrinho. Era possível que não tivesse sido persuasiva o bastante? Tinha deixado de transmitir o quanto era importante que todos se defendessem, unidos e decididos? Teria falhado?
Scarlet colocou a mão no ombro dela.
— É só um setor — disse ela. — Não desanime. Nós não sabemos o que mais está acontecendo por aí.
Embora suas palavras fossem gentis, Cinder via sua frustração espelhada em Scarlet. Podia ser verdade, elas não sabiam o que estava acontecendo no resto dos setores e não tinham como saber. Mas o que ela viu ali não lhe passou confiança nenhuma.
— Não toquem em mim! — gritou um homem.
Cinder olhou de trás do carrinho. Um guarda estava olhando um homem magrelo com pele pálida e doentia. Apesar da curvatura esquelética de seu corpo, o homem estava na frente do guarda com punhos fechados.
— Eu não vou voltar para minha casa em aceitação ao toque de recolher — disse ele. — Podem ameaçar me denunciar o quanto quiserem. Depois de um vídeo assim, a rainha e os asseclas dela vão ficar atarefados reunindo pessoas culpadas de crimes bem maiores do que ficar na rua alguns minutos a mais.
Dois outros guardas pararam de mandar as pessoas dispersarem e foram na direção do homem. As mãos enluvadas apertaram os cassetetes.
O restante dos trabalhadores parou para olhar. Com curiosidade. Com cautela. Mas também, pelo que Cinder avaliou, com raiva.
O primeiro guarda parou de pé na frente do homem. A voz dele saiu abafada pela máscara, mas a arrogância ficou evidente:
— Nossas leis são para a proteção de todo o povo, e ninguém vai se eximir delas. Sugiro que você vá para casa antes que eu seja obrigado a fazer de você um exemplo.
— Sou perfeitamente capaz de fazer de mim um exemplo — o homem rosnou para os guardas que estavam se reunindo em torno dele, depois para as pessoas que hesitavam ao redor da praça: — Vocês não entendem? Se os outros setores também viram aquele vídeo…
O guarda colocou a mão livre na nuca do homem e o empurrou para baixo, forçando-o a ficar de joelhos. Suas palavras foram interrompidas por um grunhido estrangulado.
O guarda levantou o cassetete.
Cinder apertou a mão sobre a boca. Tentou usar o dom, mas estava longe demais para impedir, longe demais para controlá-lo.
Os outros dois guardas se aproximaram, com os cassetetes acertando a cabeça do homem, as costas, os ombros. Ele caiu de lado e cobriu o rosto, gritando pela força dos golpes, mas os guardas não paravam…
Cinder trincou os dentes e deu um passo para a rua, mas outra voz interrompeu os gritos do homem antes que ela pudesse falar.
— Parem! — gritou uma mulher. Ela abriu caminho pela multidão.
Um dos guardas parou. Não, ele ficou paralisado.
Os outros dois hesitaram ao verem o companheiro com o cassetete parado no meio do golpe. O rosto da mulher estava contorcido em concentração.
— Uso ilegal de manipulação — gritou outro guarda. Ele segurou a mulher e puxou os braços dela para as costas. Mas, antes que pudesse prendê-los, outro mineiro deu um passo à frente, um homem idoso com as costas curvadas de anos de trabalho. Mas o olhar dele era cortante quando levantou uma das mãos.
O corpo do guarda virou pedra.
Outro civil deu um passo à frente. Depois outro, todos com expressões de determinação severa. Um a um, os guardas largaram os cassetetes. Um a um, foram tomados pelo povo.
Um garotinho correu na direção do homem que apanhou. Ele estava caído inerte no chão, gemendo de dor.
A mulher que se adiantou primeiro rosnou para os guardas:
— Não sei se aquela garota era a princesa Selene ou não, mas sei que ela está certa. Essa pode ser nossa única chance de nos unirmos, e eu, pelo menos, me recuso a voltar a ter medo de vocês! — O rosto dela estava tenso, cheio de ressentimento.
Enquanto Cinder olhava, o guarda que ela estava controlando esticou a mão para pegar a faca que tinha no cinto e a levou até o próprio pescoço.
Um horror se espalhou por ela como água gelada.
— Não! — berrou Cinder. Ela saiu correndo e interrompeu o glamour de garota normal. — Não! Não os matem! — Abrindo caminho até o centro da multidão, Cinder levantou as mãos na direção dos civis reunidos. Sua pulsação estava disparada.
Ela foi recebida primeiro com raiva, resíduo de anos de tirania e de desejo de vingança transformados em nojo com sua interrupção.
Mas então, aos poucos, houve reconhecimento, misturado com confusão.
— Sei que esses homens são armas da rainha. Eles agrediram e humilharam vocês e suas famílias. Mas eles não são seus inimigos. Muitos guardas foram retirados de seus familiares e obrigados a trabalhar para a rainha contra a própria vontade. Não sei sobre esses aqui especificamente, mas matá-los sem oferecer um julgamento justo e sem mostrar misericórdia só vai prolongar o ciclo de desconfiança. — Ela olhou para a mulher que estava controlando o homem e a faca dele. — Não fiquem iguais à rainha e à corte. Não os matem. Vamos levá-los como prisioneiros até decidirmos o que fazer. Talvez ainda encontremos uso para eles.
O braço do guarda começou a baixar, acabando com a ameaça iminente da faca. Mas ele estava olhando para Cinder, não para a mulher. Talvez estivesse aliviado com a intervenção. Talvez estivesse constrangido por sua falta de poder. Talvez estivesse planejando matar todos os cidadãos rebeldes assim que tivesse a oportunidade.
Passou pela cabeça dela que essa mesma cena poderia estar acontecendo em vários outros setores, sem que ela estivesse lá para impedir. Ela queria que as pessoas se defendessem do regime de Levana, mas não considerou que podia estar sentenciando milhares de guardas à morte.
Tentou sufocar a sensação de culpa e disse a si mesma que agora era guerra e que as guerras tinham sua cota de morte. Mas isso não a fez se sentir melhor.
Ela se aproximou do chafariz e subiu na beirada. A água borrifou suas panturrilhas. A multidão tinha crescido e continuava crescendo. As pessoas que tinham ido para casa voltaram com tudo, atraídas pela movimentação e pelos sussurros que se espalhavam, falando de rebelião. Com os guardas controlados, as cabeças das pessoas estavam erguidas.
Ela imaginou centenas de milhares, até mesmo milhões de lunares se reunindo assim, ousando imaginar um novo regime.
De repente, uma voz de homem gritou:
— Isso é um truque! É Levana nos testando! Ela vai nos matar por isso.
A multidão se agitou, nervosa com a acusação. Os olhos se dirigiram para o rosto de Cinder, para as roupas, para a mão de metal, que não estava escondendo. Ela sentia como se estivesse no baile de novo, o centro de atenção indesejada, seguindo em frente com determinação obstinada e a certeza de que não podia voltar atrás, mesmo que quisesse.
— Não é truque nenhum — disse ela, alto o bastante para as palavras ecoarem nas paredes das fábricas próximas. — E também não é teste. Eu sou a princesa Selene, e o vídeo que vocês viram foi transmitido para quase todos os setores de Luna. Eu estou, sim, organizando uma rebelião que vai se espalhar por toda a superfície de Luna… e vai começar aqui. Vocês querem se juntar a mim?
Ela esperava ser recebida com gritos animados, mas um silêncio desconfortável se estabeleceu.
O homem idoso que ela viu antes inclinou a cabeça.
— Mas você é só uma adolescente.
Ela o encarou com indignação, mas, antes que pudesse falar, um rosto familiar surgiu na multidão. Maha parou na frente dela. Apesar da estatura pequena, ela tinha todo o destemor de Lobo na postura.
— Vocês não ouviram o vídeo? Nossa verdadeira rainha voltou! Nós vamos nos acovardar com medo e ignorar a única chance que temos de tornar a vida melhor para nós?
O homem idoso indicou o céu.
— Um discurso bonito não vai servir de rebelião organizada. Nós não temos treinamento nem armas. Não temos tempo para nos preparar. O que você espera que a gente faça, que marche para Artemísia com pás e picaretas? Seremos massacrados!
Ficou claro pelas expressões perplexas e cabeças balançando que ele não estava sozinho com essas ideias.
— O que nos falta em treinamento e tempo, vamos compensar com números e determinação, como Selene falou — disse Maha.
— Números e determinação? Vocês vão dar dois passos para dentro de Artemísia e os taumaturgos dela vão fazer vocês cortarem as próprias gargantas antes mesmo que vejam o palácio.
— Eles não podem fazer lavagem cerebral em todos nós! — gritou alguém na multidão.
— Exatamente — concordou Maha. — E é por isso que temos que fazer isso agora, quando toda Luna pode seguir junta.
— Como sabemos se os outros setores vão lutar? — perguntou o homem. — Devemos arriscar nossas vidas por uma fantasia?
— Sim! — gritou Maha. — Sim, eu vou arriscar minha vida por essa fantasia. Levana tirou meus dois filhos e eu não pude fazer nada para protegê-los. Não pude enfrentá-la, mesmo morrendo por permitir que eles fossem levados. Não vou desperdiçar essa chance!
Cinder percebeu que as palavras dela tinham significado para os civis reunidos. Olhos se dirigiram ao chão. Um punhado de crianças, cobertas com o mesmo pó que todo mundo, foi puxado para o abrigo dos braços dos pais.
O rosto do homem se contraiu.
— Eu desejei uma mudança minha vida toda, e é precisamente por isso que sei que não vai ser tão simples. Levana não pode enviar forças para todos os setores se nos rebelarmos ao mesmo tempo, mas o que vai impedi-la de parar de enviar trens com suprimentos? Ela pode nos fazer passar fome até a submissão. Nossas provisões já são poucas no momento.
— Você está certo — admitiu Cinder. — Ela pode cortar suas provisões e impedir a vinda dos trens com suprimentos. Mas não se nós controlarmos o sistema de trens de levitação magnética. Vocês não veem? A única forma de isso dar certo é se nos unirmos. Se nos recusarmos a aceitar as regras que Levana nos impôs.
Ela viu Scarlet na multidão, depois também Iko, com Lobo e Thorne. Thorne usava um uniforme de guarda, mas tinha tirado o capacete e a máscara. Ela esperava que o sorriso aberto dele bastasse para desviar o ódio deslocado de qualquer pessoa.
A presença deles lhe deu ânimo.
Ela tentou olhar nos olhos do máximo de cidadãos que conseguiu.
— Não tenho dúvida de que os outros setores estão enfrentando os mesmos medos que vocês. Sugiro que selecionemos voluntários para agirem como mensageiros e irem até os setores vizinhos. Vamos dizer para eles que eu estou aqui e que tudo o que eu disse no vídeo é verdade. Vou marchar para Artemísia e exigir meu direito de nascença.
— E eu vou com você — disse Maha Kesley. — Acredito que você seja nossa verdadeira rainha, e nós devemos nossa lealdade a você somente por isso. Mas, como mãe que teve a oportunidade de reencontrar o filho, devo muito mais a você.
Cinder sorriu para ela, agradecida.
Maha retribuiu o sorriso. Em seguida, ajoelhou-se e baixou a cabeça.
Cinder ficou tensa.
— Ah, Maha, não precisa…
Ela parou de falar quando, ao redor dela, em todos os lados, a multidão começou a fazer o mesmo. A mudança foi gradual no começo, mas se espalhou como ondas em um laguinho. Só os amigos dela ficaram de pé, e Cinder ficou grata pela falta de reverência deles.
Seus medos começaram a evaporar. Ela não sabia se o vídeo tinha persuadido todos os civis a se juntarem à causa, e talvez nem a maioria deles.
Mas a visão à frente dela era prova de que a revolução tinha começado.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!