13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e seis


ELES PARARAM DE NOVO NAQUELA NOITE, E CRESS RECEBEU PÃO, frutas secas e água. Prestou atenção aos sons do acampamento fora da van e tentou dormir, mas foi um sono interrompido. Eles partiram cedo na manhã seguinte.
Ela foi ficando menos e menos segura de que Thorne iria buscá-la. Ficava vendo-o abraçando aquela outra mulher e imaginava que estava feliz de não ter mais trabalho com a cascuda lunar fraca e ingênua.
Até as fantasias que a consolaram e reconfortaram por tantos anos a bordo do satélite estavam ficando fracas. Ela não era uma guerreira corajosa e forte e pronta para defender a justiça. Não era a garota mais bonita do mundo, pronta para conquistar empatia e respeito até do vilão de coração mais duro. Não era nem uma donzela que sabia que um herói um dia a salvaria.
Na verdade, passava as horas agonizantes se perguntando se iria se tornar escrava, serva, banquete de canibais, sacrifício humano, ou se seria devolvida para a rainha Levana e torturada por causa da traição.
Em determinado momento, no fim do segundo dia aprisionada, as vans pararam e as portas foram abertas. Cress se encolheu por causa da claridade e tentou recuar, mas foi agarrada e puxada para fora. Caiu de joelhos. Uma dor subiu por sua coluna, mas o captor ignorou o choro, puxou-a para que ficasse de pé e amarrou os pulsos.
A dor logo sumiu, sufocada pela adrenalina e pela curiosidade. Eles chegaram a uma nova cidade, mas mesmo ela percebia que o local nunca fora tão rico nem populoso quanto Kufra. Prédios modestos da cor do deserto seguiam por uma rua suja de areia. Paredes de argila vermelha, pintadas de azul e rosa, tinham desbotado no sol, seus telhados cobertos de telhas quebradas. Uma área cercada não muito longe guardava uma dezena de camelos, e havia outros veículos de roda, sujos, parados na rua, e...
Ela piscou para afastar o sol e a areia dos olhos.
Havia uma nave no meio da cidade. Uma Rampion.
O coração dela pulou de esperança desesperada, que logo morreu. Mesmo de longe, via que a área principal da Rampion estava pintada de preto, não enfeitada com a mulher recostada como foi relatado quando a nave de Thorne pousou na França.
Ela choramingou e afastou o olhar quando os captores a levaram para o prédio mais próximo. Eles entraram em um corredor escuro. Só uma pequena janela na frente deixava alguma luz entrar e estava coberta de areia soprada pelo vento ao longo dos anos. Havia uma mesinha encostada em um canto com um quadro de chaves antiquadas pendurado na parede. Cress foi empurrada para depois disso e levada até o final do corredor.
As paredes fediam a alguma coisa acre; não era um cheiro ruim, mas era forte demais para ser agradável. O nariz de Cress coçou.
Ela foi empurrada escada acima, uma escada tão estreita que precisou ir atrás de Jina, com Niels em seguida. Um silêncio sinistro assombrava as paredes cor de areia. O fedor era mais forte lá em cima, e um tremor desceu pela coluna dela, fazendo aparecer arrepios nos braços. Seu medo estava encolhido em um punhado de nervos na base da coluna.
Quando eles chegaram à última porta do corredor e Jina ergueu o punho para bater, Cress estava tremendo tanto que quase não conseguia ficar de pé. Ficou surpresa de se ver desejando a segurança da van.
Jina precisou bater duas vezes até ouvirem passos e a porta rangendo. Niels manteve Cress em segurança atrás de Jina, e ela só viu a barra da calça marrom de um homem e sapatos brancos gastos com cadarços desfiando.
— Jina — disse um homem, parecendo ter acordado de um cochilo. — Ouvi um boato em Kufra de que você estava a caminho.
— Eu trouxe outro elemento. Encontrei andando no deserto.
Uma hesitação. O homem disse, sem que fosse uma pergunta:
— Uma cascuda.
A certeza dele fez Cress se contorcer por dentro. Se ele não precisava perguntar, isso queria dizer que a sentia. Ou melhor, não a sentia. Ela se lembrou de Sybil reclamando que não sentia os pensamentos de Cress, do quanto era mais difícil treinar e comandar uma pessoa como ela, como se fosse culpa de Cress.
Esse homem era lunar.
Ela se encolheu, sentindo vontade de diminuir até ficar do tamanho de um grão de areia, até soprar pelo deserto e desaparecer.
Mas não podia desaparecer. Então Jina deu um passo para o lado, e ela se viu cara a cara com um homem de idade avançada.
Ela levou um susto. Estavam cara a cara. Ele era bem pouco mais alto do que ela.
Por trás de um par de óculos de aro fino, os olhos azuis se arregalaram e pareceram incrivelmente vivos apesar das rugas que os envolviam. Ele era calvo, e tufos de cabelo desgrenhado se projetavam acima das orelhas. Um déjà-vu bizarro acometeu-a, como se ela já o tivesse visto antes, mas era impossível.
Ele tirou os óculos e esfregou os olhos. Quando os recolocou, os lábios estavam repuxados enquanto examinava Cress como se ela fosse um inseto a ser dissecado. Ela se encostou à parede, mas Niels a segurou pelo cotovelo e a puxou para a frente.
— Definitivamente cascuda — murmurou o homem — e fantasma, ao que parece.
O coração de Cress pulou em um ritmo forte e errático contra o peito.
— Estou pedindo trinta e dois mil univs por ela.
O homem olhou para Jina como se tivesse esquecido que ela estava ali. Ele se empertigou e exagerou ao tirar os óculos de novo e limpá-los desta vez.
Cress afundou as unhas na palma da mão para se distrair do pânico. Olhou para trás do homem. Uma única janela estava coberta por uma persiana, e havia poeira girando em um raio de sol que entrava por ela. Havia uma porta fechada, presumivelmente um armário, uma mesa, uma cama e uma pilha de cobertores bagunçados no canto. Os cobertores estavam manchados de sangue.
Um arrepio percorreu a pele dela.
E então ela viu a tela.
Uma tela de comunicação. Ela poderia pedir ajuda. Poderia fazer contato com o último hotel, em Kufra. Poderia dizer para Thorne...
— Eu pago vinte e cinco mil. — O homem assumiu um tom mais firme, como o de um empresário, enquanto limpava os óculos.
Jina riu com deboche.
— Não vou hesitar em levar essa garota para a polícia a fim de que seja deportada. Vou receber a recompensa de cidadã deles.
— Só mil e quinhentos univs? Você se sacrificaria tanto pelo orgulho, Jina?
— Por meu orgulho e por saber que um lunar a menos caminha pelo meu planeta. — Ela disse isso com desprezo, e, pela primeira vez, ocorreu a Cress que Jina poderia de fato odiá-la, simplesmente por causa de onde ela havia nascido. — Deixo por trinta mil, doutor. Sei que você anda pagando isso por cascudos hoje em dia.
Doutor? Cress engoliu em seco. Esse homem não se parecia em nada com os homens e mulheres educados e elegantes das novelas, com jalecos brancos impecáveis e tecnologia avançada. De alguma forma, o título serviu para deixá-la mais temerosa, com imagens de bisturis e seringas piscando na mente.
Ele suspirou.
— Ah, vinte a sete mil.
Jina inclinou a cabeça e olhou para ele.
— Feito.
O doutor segurou a mão dela, mas parecia ter mergulhado em si mesmo. Não olhava para Cress diretamente, como se estivesse com vergonha de ela ter testemunhado a transação.
Uma sensação de desafio vibrou pela coluna de Cress.
Ele devia sentir vergonha. Todos deviam sentir vergonha.
E ela não se permitiria virar mera bagagem a ser comercializada. A mestra Sybil tinha tirado vantagem dela por tempo demais. Não permitiria que acontecesse de novo.
Antes que esses pensamentos se tornassem mais do que raiva rebelde, ela foi empurrada para dentro do quarto. Jina fechou a porta e prendeu todos no espaço quente e poeirento com cheiro de produtos químicos velhos.
— Faça a transferência depressa — disse ela, cruzando os braços. — Tenho outros negócios a resolver em Kufra.
O médico resmungou e abriu o armário. Não havia roupas lá dentro, mas um laboratório de ciências em miniatura, máquinas misteriosas e escâneres e um gabinete de gavetas de metal que estalou quando ele abriu. Puxou uma agulha e uma seringa e não demorou para retirá-las do pacote.
Cress recuou, puxando os braços contra as amarras, mas Niels a segurou.
— Sim, sim, me deixe pegar uma amostra de sangue dela e depois faço a transferência.
— Por quê? — disse Jina, ficando entre eles. — Para você poder determinar se tem alguma coisa de errado com ela e comprometer nosso acordo?
O doutor resmungou:
— Não tenho intenção de comprometer nada, Jina. Só pensei que ela ficaria mais cooperativa com você aqui e me permitiria extrair uma amostra com mais segurança.
O olhar de Cress percorreu o quarto. Uma arma. Uma fuga. Um sinal de misericórdia nos olhos do captor.
Nada. Não havia nada.
— Tudo bem — disse Jina. — Niels, segure-a para o doutor fazer o que precisa.
— Não! — A palavra foi arrancada de Cress, e ela cambaleou para longe. Seu ombro bateu em Niels e ela começou a cair para trás, mas ele a segurou pelo cotovelo e a puxou de volta. As pernas estavam moles e inúteis. — Não... por favor. Me deixe em paz!
Ela implorou e viu uma mistura tão grande de emoções no rosto marcado do médico que ficou em silêncio.
As sobrancelhas dele estavam unidas e a boca, apertada. Ele ficava piscando depressa por trás dos óculos, como se tentasse se livrar de um cílio solto, até que seu olhar se afastou dela. Havia pena nele. Ela sabia; sabia que era solidariedade que ele estava tentando disfarçar.
— Por favor — soluçou ela. — Por favor, me solte. Sou só uma cascuda e estou presa aqui na Terra, e não fiz nada para ninguém, e não sou ninguém. Não sou ninguém. Por favor, me solte.
Ele não olhou nos olhos de Cress de novo, nem quando deu um passo à frente. Ela ficou tensa e tentou recuar, mas Niels a segurou com firmeza. O toque do doutor era leve, mas ficou firme quando segurou o pulso com a mão.
— Tente relaxar — murmurou ele.
Ela se encolheu quando a agulha afundou na pele, no mesmo ponto em que Sybil tirara sangue cem vezes. Mordeu com força o lábio por dentro, recusando-se a chorar.
— Acabou. Não foi horrível, foi? — O tom dele era estranhamente delicado, como se estivesse tentando consolá-la.
Cress se sentia um pássaro cujas asas foram cortadas e que foi jogado em uma gaiola, mais uma gaiola, nojenta e podre.
Ela viveu em uma gaiola a vida toda. De alguma forma, nunca esperou encontrar uma horrível assim na Terra.
Terra, lembrou a si mesma quando o doutor caminhou pelo piso que gemia. Estava na Terra. Não presa em um satélite no espaço. Havia um jeito de sair disso. A liberdade estava do lado de fora daquela janela ou escada abaixo. Ela não seria prisioneira de novo.
O doutor colocou a seringa com o sangue dela em uma máquina e ligou um tablet.
— Pronto, vou transferir os fundos e você pode ir.
— Você está usando uma conexão segura? — perguntou Jina, dando um passo para a frente quando o doutor digitou algum tipo de código.
Cress apertou os olhos, prestou atenção nos pontos que os dedos tocavam, para o caso de precisar depois. Poderia poupar tempo se não precisasse quebrar a senha.
— Confie em mim, Jina, tenho mais motivo do que você para manter minhas transações escondidas de olhares xeretas. — Ele observou uma coisa na tela antes de dizer de um jeito mais solene: — Obrigado por trazê-la.
Jina olhou com desprezo para a cabeça calva.
— Espero que você mate todos esses lunares quando terminar. Já temos problemas suficientes com a peste. Não precisamos deles também.
Os olhos azuis cintilaram, e Cress detectou um brilho de desprezo por Jina, mas ele disfarçou com outro olhar benigno.
— O pagamento foi feito. Por favor, desamarre a garota antes de ir.
Cress ficou imóvel quando as cordas foram desamarradas. Puxou as mãos assim que ficaram soltas e correu para a parede mais próxima.
— Foi ótimo fazer negócio com você de novo — disse Jina.
O doutor apenas resmungou. Estava olhando para Cress com o canto do olho, tentando examiná-la sem ser óbvio.
Em seguida, a porta se fechou, e Jina e Niels foram embora. Cress ouviu os passos deles no corredor, o único barulho no prédio.
O doutor passou as mãos pela camisa, como se estivesse se limpando da presença de Jina. Cress achava que ele não podia estar com a sensação de sujeira tanto quanto ela, mas ficou imóvel na parede, olhando com raiva.
— Sim, bem — disse ele. — É mais constrangedor com os cascudos, sabe. Não é tão fácil explicar.
Ela falou com irritação:
— Você quer dizer que não é tão fácil fazer lavagem cerebral.
Ele inclinou a cabeça, e a expressão estranha voltou. A que dava a ela a sensação de estar num experimento de ciência sob o microscópio.
— Você sabe que sou lunar.
Ela não respondeu.
— Entendo que esteja com medo. Não posso imaginar que tipo de tratamento ruim Jina e os valentões dela deram a você. Mas não vou machucar você. Na verdade, estou fazendo coisas grandiosas aqui, coisas que vão mudar o mundo, e você pode me ajudar. — Ele fez uma pausa. — Qual é seu nome, criança?
Ela não respondeu.
Quando ele chegou mais perto, com as mãos esticadas em sinal de paz, Cress enfiou o medo goela abaixo e usou a parede para se impulsionar contra ele.
Um rugido subiu pela garganta, e ela bateu com o cotovelo com o máximo de força que conseguiu, acertando o queixo dele. Ouviu o estalo dos dentes batendo, sentiu o choque nos ossos, e ele caiu para trás com tanta força no chão que o prédio todo tremeu ao redor deles.
Ela não olhou para ver se ele estava inconsciente, nem se provocara um ataque cardíaco, nem se ele estava em condições de segui-la.
Abriu a porta e saiu correndo.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!