3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e Seis

— NEGOCIAR — DISSE KAI. — PELA VIDA DELA?
— Bem-vindo ao mundo da política de verdade. — Levana tomou um gole de vinho. Apesar de seus lábios vermelho-sangue, nenhuma marca foi deixada no vidro.
— Este não é o momento nem o lugar para essa discussão — disse ele, mal contendo um rosnado.
— Não é? Parece-me que essa discussão envolve todos os seres neste salão. Afinal, você quer paz. Você quer manter seus cidadãos seguros. São metas admiráveis. — Seu olhar deslizou até Cinder. — Você também quer salvar essa criatura infeliz. Assim seja.
O coração de Cinder bateu forte, sua visão piscando ao focar em Kai.
— E você? — perguntou Kai.
— Eu quero ser imperatriz.
Cinder se contorceu sob o aperto do guarda.
— Kai, não. Você não pode fazer isso.
Ele se voltou para ela. Seu olhar era turbulento.
— Não vai fazer diferença — disse Cinder. — Você sabe que não vai.
— Cale a boca da moça — ordenou Levana.
O guarda colocou uma das mãos na boca de Cinder, apertando-a com força contra seu peito, mas não conseguia impedir que seus olhos suplicassem. Não faça isso. Eu não valho a pena, você sabe disso.
Kai andou até a porta. Ele olhou para a tempestade lá fora por um momento, os ombros tremendo, antes de virar-se e varrer o salão com o olhar. O oceano de cores, seda e tafetá, ouro e pérolas. Os rostos assustados, confusos em volta. O baile anual. Cento e vinte e seis anos de paz mundial.
Ele soltou uma respiração estrangulada e endireitou os ombros tensos.
— Eu pensei ter deixado minha decisão bem clara. Apenas algumas horas atrás, falei ao meu país que faria qualquer coisa para mantê-lo seguro. Qualquer coisa. — Ele abriu as palmas das mãos, implorando para a rainha. — Eu reconheço prontamente que vocês são mais poderosos do que todos os reinos da Terra juntos, e não tenho vontade de testar nossas forças contra as suas. Também reconheço que sou ignorante quanto aos costumes de sua cultura e seu povo, e não posso condená-la pela forma como os tem governado. Acredito que sempre teve o interesse de seu povo como prioridade. — Ele encontrou o olhar de Cinder. Seus ombros enrijeceram. — Mas não é como quero que a Comunidade das Nações Orientais seja governada. Nós precisamos ter paz, mas não às custas da liberdade. Eu não posso… Eu não vou me casar com você.
O ar se esvaiu da sala, sussurros apressados cortando a multidão. Uma sensação de alívio preencheu Cinder, mas foi esmagada quando Kai encontrou seu olhar, e ele não poderia parecer mais infeliz. Murmurou, simplesmente:
— Perdão.
Ela desejou que pudesse dizer-lhe que estava tudo bem. Que entendia. Aquela era a decisão que ela queria que ele tomasse desde o começo, e nada mudaria aquilo.
Não valia a pena começar uma guerra por causa dela.
Os lábios de Levana estavam apertados, seu rosto estático senão pela lenta contração da face, sua mandíbula quase cerrada. O escâner de retina de Cinder piscava loucamente no canto de sua visão, números e dados percorrendo a tela, mas ela os ignorou como se fossem um mosquito irritante.
— Você tomou sua decisão?
— Tomei — disse Kai. — A menina… A fugitiva será detida em nossa prisão até sua partida. — Ele ergueu o queixo como se se reconciliasse com a decisão. — Eu não quis desrespeitá-la, Vossa Majestade. Desejo de todo coração que possamos continuar nossas discussões em prol de uma aliança justa.
— Não podemos — disse Levana. A taça em sua mão quebrou, mandando pedaços de cristal ao chão. Cinder deu um salto, um coro de gritos explodiu da multidão ao recuar, mas o guarda lunar pareceu imune à explosão. — As minhas exigências foram bem claras a seu pai, como têm sido bem claras a você, que é um tolo por negá-las — disse a rainha, jogando o fino pé da taça na coluna. Vinho escorreu por seus dedos. — Você insiste em negar meus pedidos?
— Vossa Majestade…
— Responda a pergunta.
O escâner de Cinder se iluminou, como se um holofote caísse sobre a rainha.
Ela engasgou. Seus joelhos perderam as forças, e ela caiu apoiada ao guarda, que a pôs de pé novamente.
Ela fechou os olhos, certa de que estava imaginando coisas, e em seguida os abriu novamente. O diagrama estava realinhado. Retas apontavam os ângulos exatos do rosto de Levana. Coordenadas mostravam a posição dos olhos, o comprimento do nariz, a largura da testa. Uma ilustração perfeita se sobrepôs à mulher perfeita, e elas não eram compatíveis.
Cinder ainda estava olhando embasbacada para a rainha, tentando compreender as linhas e ângulos que seu escâner estava lhe mostrando, quando percebeu que a discussão havia acabado. Sua reação foi tão abrupta que a atenção de todos se voltou para ela.
— Pelas estrelas — sussurrou. Seu escâner estava vendo além da ilusão. Incólume ao glamour lunar, ele sabia onde os verdadeiros limites do rosto da rainha estavam, as imperfeições, as inconsistências. — É realmente uma ilusão. Você não é bela.
A rainha empalideceu. O mundo parecia ter congelado em torno dos diagramas no olhar de Cinder, os pequenos pontos e medições revelando o maior segredo da rainha. Ela ainda via o encanto da rainha, as maçãs do rosto altas e lábios carnudos, mas o efeito estava escondido sob a verdade do diagrama. Quanto mais olhava, mais dados seu visor reunia, gradualmente preenchendo as verdadeiras feições de Levana.
Ela estava tão extasiada com a lenta revelação que não percebeu Levana curvando os dedos longos ao seu lado. Só depois que uma corrente elétrica pareceu tremeluzir no ar foi que Cinder removeu seu foco dos rabiscos em sua visão.
A rainha flexionou os dedos. O guarda se afastou, soltando os pulsos de Cinder.
Firmando-se de pé, Cinder mal conseguiu não tombar para a frente — ao mesmo tempo que sua mão se esticou para trás, como se tivesse vontade própria, e tirou a arma do coldre do guarda.
Ela enrijeceu ao sentir a arma pesada de forma tão abrupta e inesperada em sua mão de aço.
Seus dedos deslizaram para o gatilho como se fosse uma extensão dela. A arma parecia confortável na palma de sua mão. Mas não deveria. Ela nunca tinha segurado uma arma antes.
Seu coração disparou.
Cinder levantou a arma, pressionando o cano contra a própria têmpora. Um grito trêmulo escapou de sua boca. Um fio de cabelo estava grudado nos lábios ressequidos. Os olhos dispararam para a esquerda, incapazes de ver a arma e a mão traidora que a segurava. Ela olhou para a rainha, para a multidão, para Kai. Seu corpo todo tremia, exceto pelo braço confiante que segurava a arma pronta para matá-la.
— Não! Deixe-a em paz! — Kai correu para ela, agarrando seu cotovelo. Ele tentou puxá-lo, mas ela estava imobilizada, sólida como uma estátua. — Solte-a!
— K-Kai — gaguejou, o terror tomando conta dela. Ela implorou a sua mão que largasse a arma, implorou ao dedo que se afastasse do gatilho, mas foi inútil.
Ela apertou os olhos. Sua cabeça latejava. NÍVEIS CRESCENTES DE ADRENALINA. CORTISONA. GLICOSE. RITMO CARDÍACO CRESCENTE. PRESSÃO ARTERIAL CRESCENTE. ALERTA, ALERTA…
Seu dedo se contraiu brevemente, e em seguida enrijeceu de novo.
Ela imaginou como a arma soaria. Imaginou o sangue. Imaginou seu cérebro desligando, não sentindo nada.

MANIPULAÇÃO BIOELÉTRICA DETECTADA.
INICIALIZANDO PROCESSO DE RESISTÊNCIA
3… 2…

Seu dedo soltou o gatilho de modo lento, deliberado.
Fogo explodiu em sua coluna vertebral, percorrendo rapidamente seus fios e nervos, deslizando pelos pinos de metal em seus membros.
Cinder gritou e forçou a arma a se afastar de sua cabeça. Com o braço esticado, o cano apontava para o teto. Ela parou de lutar. Puxou o gatilho. Um lustre se despedaçou acima dela, vidro e cristal e faíscas.
A multidão gritou e fugiu para a saída.
Cinder desabou de joelhos e se curvou para a frente, segurando a arma contra a barriga. Uma enorme dor a rasgou, cegando-a. Fogos de artifício explodiam em sua cabeça. Ela sentiu como se seu corpo tentasse se livrar de todas as partes de ciborgue — explosões, faíscas e fumaça dilacerando sua pele.
A voz de Kai acima do tumulto em seus ouvidos a fez perceber que a dor estava diminuindo. Ela estava quente ao toque, como se alguém a tivesse jogado em um forno, mas a dor e o calor tinham se transferido para seu exterior, para sua pele e pontas dos dedos em vez de consumi-la por dentro. Cinder abriu os olhos. Pontos brancos salpicavam seu olhar. Seu visor exibia alertas vermelhos.
Um diagnóstico rolava pelo canto de sua visão. A temperatura estava muito elevada, a frequência cardíaca disparada, a pressão arterial altíssima. Algumas substâncias estranhas, que seu sistema não reconhecia e não conseguia dissipar, tinham invadido seu sangue. Algo está errado, sua programação gritava para ela.
Você está mal. Você está doente. Você está morrendo.
Mas ela não sentia como se estivesse morrendo.
Ela sentia seu corpo tão quente que se surpreendeu quando não incinerou o frágil vestido. Suor chiava ao evaporar em sua testa. Ela se sentiu diferente. Forte. Poderosa.
Em chamas.
Tremendo, sentou-se sobre os calcanhares e olhou para as mãos. A luva esquerda começara a derreter, formando manchas pegajosas de seda na mão de metal incandescente. Cinder podia ver a eletricidade chiando na superfície de aço, mas não conseguia dizer se eram seus olhos humanos ou ciborgue a detectá-la.
Ou talvez, não humano. Não ciborgue.
Lunar.
Ela ergueu a cabeça. O mundo estava coberto por uma fria névoa cinza, como se tudo tivesse congelado, menos ela. Seu corpo estava começando a esfriar. Sua pele empalidecia, seu metal ficava opaco. Ela tentou cobrir a mão de metal — estupidamente, caso Kai não tivesse notado, caso tivesse sido cegado pelo brilho.
Ela trocou olhares com a rainha. Levana parecia soluçar de raiva quando seus olhares se encontraram. A rainha engoliu em seco e recuou um passo. Por um momento, ela quase pareceu estar com medo.
— Impossível — sussurrou ela.
Cinder convocou todos os nanobites de força que possuía para conseguir ficar de pé e apontou a arma para a rainha. Ela puxou o gatilho.
O guarda ruivo estava lá. A bala o atingiu no ombro.
Levana nem sequer vacilou.
O cérebro de Cinder alcançou seu corpo enquanto o sangue pingava sobre a armadura do guarda.
Cinder deixou cair a arma e correu. Sabendo que a multidão frenética era impenetrável, ela fugiu em direção à saída mais próxima, as portas maciças que levavam aos jardins. Passou o guarda, a rainha e a comitiva, com vidro sendo triturado sob suas botas roubadas.
O eco vazio do pátio de pedra. Uma poça espirrando em suas pernas. O cheiro fresco da chuva que se transformara em garoa.
A escada se estendia à sua frente. Doze passos e um jardim japonês, um muro muito alto, um portão, a cidade — a fuga.
No quinto degrau, ela ouviu o estalo dos parafusos. Os fios se soltaram, como tendões esticados ao máximo. Ela sentiu a perda de força na base da panturrilha, enviando um sinal de alerta ofuscante até seu cérebro.
Ela caiu, gritando, e tentou impedir a queda com a mão esquerda. Um choque de dor subiu pelo ombro até a coluna. O metal retiniu na pedra quando ela desabou no caminho de cascalho.
Estava deitada de lado. Buracos desgastaram sua luva onde Cinder havia tentado amortecer a queda. Sangue manchava a linda seda cor de creme em seu cotovelo direito.
Ela lutava para respirar. Sentiu sua cabeça subitamente pesada e a deixou afundar no chão, pedrinhas incomodando seu couro cabeludo. Seus olhos confusos focaram no céu, onde a tempestade tinha malogrado, deixando uma leve neblina que se agarrava aos cabelos e cílios de Cinder, refrescante em sua pele quente. A lua cheia tentava romper a cobertura de nuvens, queimando lentamente um buraco acima dela, como se planejasse engolir o céu inteiro.
Uma movimentação chamou sua atenção de volta para o salão. O guarda que a segurara alcançou as escadas e congelou. Um segundo depois, Kai estava ao lado dele e parava de repente, segurando o corrimão.
Seus olhos a assimilavam — o brilho dos dedos de metal, os fios faiscando na ponta de sua perna de metal amassada. Seu queixo caiu, e por um momento pareceu a ponto de vomitar.
Mais barulho no topo da escada. O homem e a mulher apareceram em seus uniformes de taumaturgos, e o guarda que ela tinha acertado, incontido pelo ferimento gotejando. O conselheiro de Kai e finalmente a própria rainha Levana.
Seu encanto tinha voltado com força total, mas toda a beleza não conseguia esconder a fúria que contorcia suas feições. Levantando a saia cintilante nas mãos, ela se moveu para descer os degraus em direção a Cinder, mas a taumaturga a deteve com delicadeza e apontou para a parede do palácio.
Cinder seguiu o movimento.
Uma câmera de segurança estava sobre eles — sobre ela. Vendo tudo.
Os últimos sinais de força escaparam de Cinder, deixando-a exausta e fraca.
Kai desceu as escadas com cuidado, como se estivesse se aproximando de um animal ferido. Curvando-se, ele pegou o pé ciborgue enferrujado que tinha caído da bota de veludo. Seu maxilar se retesou enquanto estudava o objeto, talvez o reconhecendo do dia em que conheceu Cinder no mercado. Ele não olhou para ela.
Os lábios de Levana se curvaram.
— Nojento — disse ela da porta, escondida com segurança dos olhos da câmera. Suas palavras eram altas e estranhamente forçadas em comparação com sua habitual voz melodiosa. — A morte seria misericordiosa.
— Ela não era uma cascuda mesmo — disse Sybil Mira. — Como escondeu isso?
Levana escarneceu.
— Não importa. Ela estará morta em breve. Jacin?
O guarda loiro desceu um único degrau em direção a Cinder. Ele estava segurando sua arma novamente, aquela que ela deixara cair.
— Espere. — Kai pulou os últimos degraus até estar no caminho diante dela. Parecia precisar forçar-se a olhar nos olhos dela, e chegou a vacilar. Cinder não conseguia interpretá-lo, a constante mudança de uma mistura de descrença, confusão e arrependimento. Seu peito arfava. Ele tentou falar duas vezes antes que as palavras saíssem, palavras silenciosas que nunca mais deixariam a cabeça de Cinder.
— Foi tudo uma ilusão? — perguntou ele.
Dor dilacerava seu peito, deixando-a sem ar.
— Kai?
— Estava tudo na minha cabeça? Foi um truque lunar?
O estômago dela se revirou.
— Não. — Ela balançou a cabeça com fervor. Como explicar que ela não tinha o dom antes? Que não poderia tê-lo usado contra ele? — Eu nunca mentiria…
As palavras esvaeceram. Ela havia mentido. Tudo o que ele sabia sobre ela era mentira.
— Sinto muito — concluiu ela, as palavras saindo desajeitadas ao ar livre.
Kai forçou-se a mover os olhos, a achar um lugar de conforto no belo jardim.
— É ainda mais doloroso olhar para você do que para ela.
O coração de Cinder murchou dentro dela até ter certeza de que pararia de bater completamente. Ela levou a mão ao rosto, sentindo a seda em sua pele úmida.
Trincando o maxilar, Kai virou-se para a rainha. Cinder olhou fixamente para as costas de sua camisa vermelha com as pombas da paz bordadas ao longo do colarinho. A mão ainda segurava seu pé ciborgue.
— Ela será levada sob custódia — disse ele, emitindo as palavras com pouca força. — Será detida até decidirmos o que fazer. Mas, se você matá-la hoje à noite, juro que nunca concordarei com qualquer aliança com Luna.
O olhar da rainha escureceu. Mesmo que ela concordasse, Cinder acabaria sendo levada de volta à Lua. E tão logo Levana a tivesse em seu poder, um laço seria colocado em volta de seu pescoço.
Kai estava ganhando tempo. Mas provavelmente não muito.
O que ela não conseguia entender era o porquê.
Cinder assistiu à rainha lutando contra seu temperamento, sabendo que poderia matar Cinder e Kai em um piscar de olhos.
— Ela será minha prisioneira — concedeu Levana finalmente. — Será devolvida a Luna e julgada sob o nosso sistema judicial.
Tradução: ela morreria.
— Eu entendo — disse Kai. — Em troca, você concordará em não declarar guerra contra o meu país ou o planeta.
Levana ergueu a cabeça, olhando para baixo de nariz empinado para ele.
— Concordo. Não declararei guerra contra a Terra por esta infração. Mas eu seria cautelosa, jovem imperador. Você já testou muito a minha paciência por hoje.
Kai inspirou uma única vez, inclinou a cabeça para ela e em seguida se afastou enquanto os guardas lunares desciam os degraus. Eles levantaram o corpo alquebrado de Cinder do caminho de cascalho. Ela fez o melhor que podia para ficar de pé, olhando para Kai, desejando que pudesse ter apenas um minuto para dizer-lhe que sentia muito. Um segundo para explicar.
Mas ele não a olhou enquanto ela era arrastada, passando por ele. Seus olhos estavam fixos no pé de aço sujo que agarrava com as duas mãos, seus dedos brancos pela força com que segurava o objeto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!