7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e Quatro

O SONO DE SCARLET FOI AGITADO, CHEIO DE TAUMATURGOS E lobos rondando.
Quando conseguiu sair do estado de torpor, viu que duas bandejas de comida tinham sido deixadas para ela. Seu estômago roncou quando ela as viu, mas ignorou a sensação, rolou para o lado e se encolheu no colchão imundo. Muitos anos atrás, alguém tinha entalhado as iniciais na parede do camarim, e Scarlet passou os dedos por elas. Seriam trabalho de uma estrela da ópera em ascensão na segunda era ou de um prisioneiro de guerra?
Será que a pessoa morreu neste aposento?
Apoiou a testa na parede fria.
O escâner apitou no corredor e a porta se abriu.
Scarlet se deitou de costas e ficou paralisada.
Lobo estava de pé na porta e precisou baixar a cabeça para não bater no batente. Seus olhos perfuraram a escuridão, mas eram a única coisa nele que não tinha mudado. O cabelo antes bagunçado e espetado tinha sido penteado para trás, deixando as feições bonitas angulosas demais, cruéis demais. Ele tinha lavado a sujeira do rosto e agora usava o mesmo uniforme que tinha visto nos outros soldados: uma camisa marrom com decorações de runas nos ombros e antebraços. Uma série de cintos e faixas sustentava coldres vazios. Ela se perguntou se Lobo preferia lutar sem armas ou se simplesmente não tinha permissão de levar armas para a cela dela.
Ela pulou da cama, mas se arrependeu imediatamente, pois o mundo se inclinou e precisou se apoiar na parede. Lobo permaneceu em silêncio, observando, até que os olhares dos dois se encontraram no meio do quarto; o dele, escuro e sem expressão, o dela ficando cada vez mais cheio de ódio, mais cheio de raiva a cada segundo.
— Scarlet. — Um traço de esforço cruzou seu rosto.
A repulsa tomou conta dela, e ela gritou. Não tinha lembrança de atravessar o aposento, mas o impacto dos punhos no maxilar, na orelha e no peito dele fez seus braços doerem.
Ele permitiu que ela batesse cinco vezes, sem nem fazer cara de dor, antes de forçá-la a parar. Segurou os pulsos dela no meio do movimento e os prendeu com força perto da barriga.
Scarlet recuou e mirou o calcanhar na patela dele, mas ele a virou tão rápido que ela perdeu o equilíbrio e se viu de costas, com os braços presos.
— Me solte! — gritou, batendo com o pé nos dedos do pé dele, pisando e gritando e se debatendo, mas, se o machucou, ele não deu sinal. Ela virou o pescoço e mordeu, mas não tinha possibilidade de alcançá-lo. Então, com uma dolorosa virada de cabeça, conseguiu cuspir no maxilar dele.
Ele se encolheu de novo, mas não a soltou. Nem olhou para ela.
— Seu traidor! Seu filho da mãe! Me solte!
Levantou um joelho para dar outro chute para trás quando ele obedeceu e a soltou. Ela caiu para a frente com um gritinho.
Scarlet correu para longe, trincando os dentes. Seus joelhos latejavam e ela teve que usar a parede para conseguir ficar de pé. Virou para olhar para ele. Seu estômago se revirou, e teve certeza de que vomitaria de ódio, nojo e fúria.
— O quê? — gritou ela. — O que você quer?
Lobo limpou o cuspe do queixo com o pulso.
— Eu tinha que te ver.
— Por quê? Pra poder se gabar do quanto me fez de boba? De como foi fácil me convencer de que você... — Um tremor percorreu o corpo dela. — Não consigo acreditar que deixei você tocar em mim. — Ela se contorceu e passou as mãos pelos braços para afastar a lembrança. — Vá embora! Me deixe em paz!
Lobo não se moveu nem falou por um longo tempo. Scarlet virou, cruzou os braços sobre o peito e olhou com raiva para a parede, tremendo.
— Menti pra você sobre muitas coisas — disse ele por fim.
Ela deu uma gargalhada debochada.
— Mas falei sério cada vez que pedi desculpas.
Ela fez uma expressão de raiva e viu pontos brilhantes na parede.
— Eu nunca quis mentir para você, nem assustar você, nem... E tentei, no trem...
— Não ouse. — Ela o encarou de novo e afundou as unhas nos braços para se impedir de partir para cima dele e fazer papel de boba de novo. — Nem pense em tocar nesse assunto, nem em tentar justificar o que fez comigo. O que seu povo fez com minha avó!
— Scarlet... — Ele deu um passo na direção dela, mas ela levantou as mãos e recuou até suas pernas baterem no colchão.
— Não chegue perto de mim. Não quero ver você. Não quero ouvir você. Prefiro morrer a ser tocada por você de novo.
Viu a garganta dele se movendo quando engoliu em seco. Seu rosto demonstrou dor, mas isso só serviu para deixá-la com mais raiva.
Lobo lançou um olhar para a porta e Scarlet o acompanhou. Ela reparou que o guarda de sempre estava esperando do lado de fora, assistindo aos dois como se fossem uma novela popular sendo transmitida nas telas. O estômago dela deu um nó.
— Lamento ouvir isso, Scarlet — disse Lobo, virando para ela. A voz tinha perdido o tom de arrependimento e era pura praticidade e crueldade de novo. — Porque não vim pedir desculpas. Vim por outro motivo.
Ela se empertigou.
— Não ligo pro que você...
Ele a alcançou com um único passo, afundou as mãos em seu cabelo e pressionou-a na parede. A boca de Lobo sufocou o grito surpreso dela, depois um grito de raiva. Ela tentou empurrá-lo, mas teve tão pouco sucesso quanto teria com as barras de ferro da porta.
Seus olhos se arregalaram quando sentiu a língua dele, e, em um vislumbre de rebeldia, pensou em mordê-lo, mas havia outra coisa. Uma coisa pequena, achatada e dura sendo pressionada para sua boca. Todos os músculos ficaram contraídos.
Lobo se afastou. Seu toque ficou mais leve, aninhando a cabeça dela. As cicatrizes eram um borrão na visão dela. Scarlet não conseguia respirar.
Então ele murmurou, tão baixo que ela mal conseguiu entender as palavras quando saíram dos lábios quentes.
— Espere até de manhã — disse. — O mundo não vai estar seguro esta noite.
Lobo se concentrou nos próprios dedos quando segurou um cacho. Fechou a cara, como se o toque provocasse dor.
A indignação voltando, Scarlet o empurrou e passou por baixo do braço dele. Correu para o canto do aposento e se agachou na cama. Depois de cobrir a boca com uma das mãos, colocou a outra na parede para se equilibrar.
Esperou, com o corpo todo em chamas, até Lobo sair do aposento. As barras se abriram e fecharam.
Do lado de fora, o guarda riu, debochando.
— Acho que todo mundo tem seus fetiches — disse ele, e os passos seguiram pelo corredor.
Caída na parede, Scarlet cuspiu o objeto estranho na palma da mão.
Um pequeno chip de identificação brilhou para ela.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!