20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e Quatro

Linh Pearl saiu do elevador, segurando a alça da bolsa no ombro. Estava tremendo, lívida de raiva. Desde que Cinder deu aquele espetáculo no baile e foi desmascarada não só como sendo uma ciborgue maluca, mas uma lunar mais maluca ainda, o mundo de Pearl desmoronou.
Primeiro, foram pequenas inconveniências, irritantes, mas toleráveis. Sem criada ciborgue e sem dinheiro para contratar novos criados, queriam que Pearl ajudasse no apartamento. De repente, ela tinha “tarefas”. De repente, a mãe passou a querer que ela ajudasse com as compras e fizesse a própria comida e até lavasse a louça quando terminasse, apesar de ter sido uma decisão idiota dela vender a única androide que funcionava.
Mas ela conseguiria viver com isso, se sua vida social não tivesse de repente sido destruída junto com sua dignidade. Da noite para o dia, virou uma pária.
Os amigos lidaram bem com tudo no começo. Cheios de choque e solidariedade, eles revolveram ao redor de Pearl como se ela fosse uma celebridade, querendo saber tudo. Querendo oferecer condolências por saberem que a irmã adotada era tão pavorosa. Querendo saber cada história horrenda da infância. Como uma garota que mal escapou da morte, ela foi o centro de todas as conversas, de toda a curiosidade.
Mas isso passou quando Cinder escapou da prisão e continuou foragida por tempo demais. O nome dela virou sinônimo de traição, e estava arrastando Pearl junto.
Então, a mãe, ignorante e tola, ajudou Cinder, sem saber do sequestro do imperador Kai, ao dar para ela os convites para o casamento.
Ela os trocou por guardanapos. Guardanapos.
E isso a deixou perplexa. Horas antes de terem que sair para o casamento real, já usando as melhores roupas, a mãe virou o apartamento de cabeça para baixo, revirando freneticamente todas as gavetas, engatinhando para espiar embaixo dos móveis, revirando todos os cantos do armário. Enquanto falava palavrões e jurava sem parar que estava com os convites, que os tinha visto naquela manhã mesmo, quando aquela mulher estranha do palácio levou para elas e explicou a confusão e onde eles poderiam ter ido parar?
Elas perderam o casamento, naturalmente.
Pearl gritou e chorou e se escondeu no quarto para ver as transmissões, as filmagens ao vivo que passaram de discussões sobre as tradições de casamento e a decoração do palácio ao relato arrasador de um ataque ao palácio e ao desaparecimento do imperador Kai.
Linh Cinder estava por trás de tudo. Sua monstruosa meia-irmã, mais uma vez, estragou tudo.
A equipe de segurança do palácio demorou dois dias para rastrear os convites de um tal de Bristol-dàren (que estava em casa no Canadá, apreciando uma garrafa de vinho) como sendo os convites enviados a Linh Adri e sua filha, Linh Pearl. Só então sua mãe entendeu. Cinder a fez de idiota.
Aquela foi a gota d’água para os amigos de Pearl.
Traidoras — disse Mei-Xing, acusando Pearl e a mãe de ajudarem a ciborgue e de colocarem Kai em perigo.
Furiosa, Pearl saiu batendo os pés, gritando que eles podiam acreditar no que quisessem. Ela era a vítima e não precisava dos supostos amigos jogando acusações na cara dela. Já tinha muita coisa para enfrentar.
Ela esperou que fossem atrás dela, cheios de pedidos de desculpas.
Mas eles não foram.
Ela foi andando até sua casa com os punhos apertados na lateral do corpo.
Cinder. Era tudo culpa de Cinder. Desde que Peony… não, desde que o pai delas pegou a peste e foi tirado dela. Tudo era culpa de Cinder.
Karim-jiĕ, a vizinha do 1216, não chegou para o lado quando Pearl passou por ela. Seu ombro empurrou a mulher contra a parede, e Pearl parou o bastante para olhar com raiva para ela (a velha estava ficando cega também, além de ser preguiçosa?), mas foi recebida com um som de desprezo e arrogância.
Pearl também viu essa reação com frequência desde o baile. Quem era aquela mulher para olhar com superioridade para Pearl e a mãe? Ela não passava de uma viúva velha cujo marido morrera por causa do amor pela bebida, e que ficava sentada no apartamento com cheiro de lixo com uma coleção triste de macacos de cerâmica. E ela achava que era melhor do que Pearl?
O mundo todo tinha se virado contra ela.
— Desculpe — disse Pearl entredentes, seguindo até o próprio apartamento.
A porta estava ligeiramente aberta, mas Pearl não pensou no assunto até tê-la escancarado e batido na parede.
Ela ficou paralisada.
A sala tinha sido revirada. Estava pior do que quando a mãe estava procurando os convites idiotas.
As fotos e placas foram derrubados da prateleira acima da lareira, o netscreen novinho estava virado para baixo no chão, e a urna contendo as cinzas de Peony…
Pearl sentiu um frio na barriga. A porta voltou e bateu no ombro dela.
— Mãe? — disse ela, atravessando o corredor.
Ela parou. Um grito chegou até a garganta, mas morreu em um gemido petrificado. Ele estava encostado na parede oposta da sala. Embora tivesse a forma de um homem, os ombros estavam encolhidos e as mãos eram enormes como garras. O rosto era desfigurado, um focinho com dentes que se projetavam entre os lábios e olhos escuros e vidrados afundados na cara.
Pearl choramingou. O instinto a fez dar um passo para trás, embora o instinto também lhe dissesse que era inútil.
Cem histórias horríveis, de noticiários a fofocas sussurradas, encheram a cabeça dela. Os assassinatos eram aleatórios, o povo dizia. Os monstros lunares poderiam estar em qualquer lugar a qualquer hora. Ninguém conseguia discernir padrão ou lógica no ataque deles. Eles podiam invadir um prédio lotado de escritórios em um dia e matar todo mundo do nono andar, mas deixar o resto em paz. Podiam matar uma criança dormindo na cama, mas não o irmão no quarto em frente. Podiam desmembrar um homem correndo de um aerodeslizador para a porta de casa e tocar a campainha para que sua companheira o encontrasse ainda sangrando nos degraus.
O terror da situação era a aleatoriedade. A brutalidade e o jeito sem sentido como eles escolhiam as vítimas enquanto deixavam tantas testemunhas para espalharem o medo.
Ninguém estava em segurança.
Ninguém nunca estava em segurança.
Mas Pearl nunca achou que eles fossem até lá, até o apartamento irrelevante delas, em uma cidade tão cheia de gente…
E… e a guerra estava em meio a um cessar-fogo. Não houve ataques em vários dias. Por que agora? Por que ela?
Um choramingo se espremeu pela garganta. A criatura deu um sorrisinho, e ela percebeu que o maxilar dele estava trabalhando desde que ela entrou. Como se estivesse fazendo um lanchinho.
Mãe.
Chorando, ela se virou para correr.
A porta foi fechada. Uma segunda criatura bloqueava a passagem.
Pearl caiu de joelhos, chorando e tremendo.
— Por favor. Por favor.
— Tem certeza de que não podemos comê-la? — perguntou o que estava ao lado da porta, com as palavras quase ininteligíveis em meio ao tom áspero e rouco. Ele segurou os braços de Pearl e a levantou. Ela gritou e tentou se encolher, mas o aperto dele era imperdoável. Ele afastou o braço do corpo dela e o esticou para dar uma boa olhada no antebraço. — Só uma provinha? Ela parece tão doce.
— Mas o cheiro é tão azedo — disse o outro.
Pearl, em meio à histeria, também sentiu o cheiro. Havia uma umidade quente entre as pernas dela. Ela chorou, e as pernas cederam novamente, deixando-a pendurada na mão do monstro.
— A mestra disse para levá-la ilesa. Se você quiser dar uma mordidinha, vá em frente. A fúria dela vai custar sua cabeça.
O que estava segurando Pearl apertou o nariz molhado no cotovelo dela e farejou com desejo. Em seguida, soltou o braço e jogou Pearl por cima do ombro.
— Não vale a pena — disse ele com um grunhido.
— Concordo. — O segundo animal se aproximou e beliscou o rosto de Pearl com a mão enorme e peluda. — Mas pode ser que possamos experimentar quando acabarem.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!