13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e quatro

— FATEEN-JIE?
A garota se virou, uma trança preta comprida balançando sobre o jaleco.
— Majestade!
A sombra de um sorriso surgiu no rosto de Kai.
— Você tem um momento para nos ajudar com uma coisa?
— É claro.
Fateen colocou um tablet no bolso do jaleco.
Kai seguiu na direção da parede do corredor branco, dando espaço para pesquisadores e técnicos passarem.
— Precisamos de acesso aos dados de alguns pacientes. Sei que devem ser confidenciais, mas...
Kai parou de falar. Não havia “mas”, só uma vaga esperança e uma boa quantidade de confiança de que seu título era a única credencial de que precisava.
Mas o olhar de Fateen ficou sério ao seguir de Torin para ele.
— Dados de pacientes?
— Algumas semanas atrás — disse Kai —, eu vim ver o progresso do dr. Erland, e Linh Cinder estava aqui. O ciborgue lunar de...
— Sei quem é Linh Cinder — disse ela, a rigidez sumindo tão depressa quanto surgiu.
— Certo, claro. — Ele limpou a garganta. — Bem, na época o doutor me disse que ela estava aqui consertando um medidroide, mas eu estava pensando no assunto e acho que talvez ela tenha sido...
— Recrutada?
— É.
Fateen deu de ombros.
— Na verdade, ela era voluntária. Venham, deve haver um laboratório vazio que vocês possam usar. Fico feliz em mostrar os dados de Linh Cinder para vocês.
Ele e Torin a seguiram, e Kai se perguntou se ela seria tão colaborativa se fosse outro paciente. Desde a prisão, Linh Cinder se tornara questão de preocupação pública, e portanto seus registros particulares não eram mais tão particulares assim.
— Ela era voluntária? É mesmo?
— Foi. Eu estava aqui no dia que foi trazida. Tiveram que suplantar o sistema dela para trazê-la aqui. Acho que ela resistiu bem quando vieram buscá-la.
Kai franziu a testa.
— Por que uma voluntária resistiria?
— Estou usando a palavra voluntária no sentido oficial. Acho que a guardiã legal dela a recomendou para os testes.
Ela passou o pulso por um escâner de identificação e os levou para o laboratório 6D. O aposento tinha cheiro de água sanitária e peróxido de hidrogênio, e todas as superfícies brilhavam de forma imaculada. Uma bancada na parede mais distante ficava embaixo de uma janela com vista para um quarto de quarentena. Kai tremeu ao se lembrar dos últimos dias de seu pai passados em um quarto não muito diferente daquele, embora o dele tivesse cobertores e travesseiros, sua música favorita, uma fonte de água tranquilizadora. Os pacientes que vinham para esses laboratórios não receberiam os mesmos luxos.
Fateen seguiu até a parede ao lado.
— Tela, ligar — disse ela, clicando em alguma coisa no tablet. — Acredito que esses dados tenham sido parte da investigação após a fuga dela, Vossa Majestade. Você acha que os detetives podem ter deixado passar alguma coisa?
Ele passou os dedos no cabelo.
— Não. Só estou tentando responder a algumas das minhas próprias perguntas.
A tela de login sumiu e foi substituída pelo perfil de um paciente. Pelo perfil dela.

LINH CINDER, MECÂNICA LICENCIADA
ID #0097917305
NASCIDA EM 29 NOV 109 T.E.
RESIDENTE DE NOVA PEQUIM, COMUNIDADE DAS NAÇÕES ORIENTAIS, SOB CUSTÓDIA DE LINH ADRI.
PORCENTAGEM CIBORGUE: 36,28%

— Está procurando alguma coisa específica? — perguntou Fateen, deslizando os dedos pela tela para o perfil descer e mostrar o tipo sanguíneo (A), as alergias (nenhuma) e os medicamentos (desconhecido).
E o exame da peste. Kai chegou mais perto.
— O que é isso?
— As anotações do doutor de quando a injetou com a solução do micróbio da letumose. Quanto demos a ela e, subsequentemente, quanto tempo o corpo dela demorou para se livrar da doença.
No final do estudo, as palavras simples.
CONCLUSÃO: IMUNIDADE À LETUMOSE CONFIRMADA
— Imunidade — disse Torin, ficando de pé ao lado dele. — Nós sabíamos disso?
— Será que os detetives não acharam relevante à investigação? Mas é de conhecimento comum aqui no laboratório. Muitos de nós teorizamos ser resultado do sistema imunológico lunar. Existe uma teoria antiga de que a letumose foi trazida por lunares imigrantes, que são portadores não afetados pela doença.
Kai mexeu na gola da camisa. Quantos lunares teriam que vir para a Terra para criar uma epidemia tão ampla? Se essa teoria estivesse correta, eles poderiam ter bem mais fugitivos no planeta do que ele imaginava. Gemeu com a ideia: a mera possibilidade de ter que lidar com mais lunares o fazia querer bater com a cabeça na parede.
— O que isso quer dizer? — perguntou Torin, apontando para uma caixa no final do perfil.
NOTAS ADICIONAIS: FINALMENTE, EU A ENCONTREI.
As palavras deixaram Kai arrepiado, mas ele não sabia por quê.
Fateen balançou a cabeça.
— Ninguém sabe. O dr. Erland digitou, mas não deu indicação do que queria dizer. Deve se referir à imunidade dela; ele finalmente encontrou o que estava procurando quando ela foi trazida. — O tom dela ficou amargo. — Embora não tenha ajudado em nada o fato de os dois terem decidido sair da cidade.
O tablet de Fateen fez um som, e ela olhou para ele.
— Me desculpe, Vossa Majestade. Parece que o recrutado do dia acabou de chegar.
Kai afastou a atenção das palavras assombradas.
— Os recrutamentos ainda estão valendo?
— É claro — disse Fateen com um sorriso, e Kai percebeu que era uma pergunta idiota.
Aqui estava ele, o imperador, e não fazia ideia do que estava acontecendo em seu país. Nos próprios laboratórios de pesquisa.
— Sem o dr. Erland aqui, achei que talvez tivesse acabado — explicou ele.
— O dr. Erland pode ser um traidor, mas ainda há muitas pessoas aqui que acreditam no que estamos fazendo. Não vamos parar enquanto não tivermos encontrado a cura.
— Vocês estão fazendo um ótimo trabalho aqui — disse Torin. — A coroa valoriza cada avanço que já foi feito nestes laboratórios.
Fateen colocou o tablet de volta no bolso.
— Todos nós perdemos alguém para essa doença.
A língua de Kai ficou pesada.
— Fateen-jie, o dr. Erland alguma vez informou que a rainha Levana desenvolvera um antídoto?
Ela olhou para ele sem entender.
— A rainha Levana?
Ele olhou para os dados de Cinder, para a evidência da imunidade e para a biologia lunar dela.
— Uma parte de nossa aliança de casamento vai incluir a fabricação e distribuição desse antídoto.
Torin foi bem direto:
— Mas Sua Majestade precisa que essa informação permaneça confidencial até que a coroa faça a declaração oficial.
— Entendo — disse ela devagar, ainda observando Kai. — Isso mudaria tudo.
— Mudaria.
O tablet dela tocou de novo. Fateen afastou a surpresa e fez uma reverência para Kai.
— Me desculpe, Vossa Majestade. Você me dá licença?
— É claro. — Torin indicou o corredor. — Obrigado pela ajuda.
— Foi um prazer. Demorem o quanto precisarem.
Ela fez outra reverência e deixou o laboratório com a trança balançando. Assim que a porta se fechou atrás dela, Torin olhou irritado para o imperador.
— Que motivo você teve para dar a ela aquela informação? Até que o antídoto seja confirmado como eficiente, inofensivo e capaz de ser reproduzido, é tolice espalhar tais boatos.
— Eu sei — disse Kai. — Só me pareceu que ela devesse saber. Ela mencionou o recrutamento, e percebi quantas pessoas ainda estão morrendo. Não só sendo mortas pela doença, mas também por nós enquanto tentamos encontrar a cura, e o tempo todo o antídoto está aí, só fora do... — Ele arregalou os olhos. Imunidade confirmada. — Pelas estrelas. O antídoto da rainha!
— Como?
— Cinder estava aqui no dia em que dei o antídoto para o dr. Erland. Ele deve ter dado para ela, e ela foi direto para a quarentena porque sabia que era imune. Ela estava levando para a irmã, tentando salvá-la. Mas deve ter chegado tarde demais, então deu o antídoto para aquele garotinho, Chang Sunto. — Ele balançou a cabeça, surpreso com o quanto essa percepção o deixava mais leve. — A guardiã dela está errada. Cinder não levou o chip de identificação da irmã por inveja ou por querer roubar a identidade dela, nem nada assim. Ela levou porque a amava.
— E você acredita que arrancar o chip de identificação de um ente querido é uma reação saudável?
— Talvez ela tenha descoberto que nossos androides os estavam recolhendo e dando para os lunares. Ou talvez tenha sido só o choque. Mas acho que não foi por maldade.
Ele caiu contra a parede, sentindo como se tivesse acabado de descobrir uma pista importante no mistério que era Linh Cinder.
— Temos que contar para Fateen-jie e para os outros que Chang Sunto não teve uma recuperação milagrosa. Isso confirma que o antídoto da rainha é real, e talvez eles possam usar essa informação na pesquisa. Pode ser útil, ou...
Ele bateu com o cotovelo na tela, e uma imagem surgiu ao lado dele. Kai deu um pulo quando a holografia se projetou, girando ao alcance da mão dele.
Era uma garota, de tamanho real, com as camadas piscando e se dobrando umas sobre as outras. Pele e tecido fibroso se uniam a uma mão e a uma perna de aço. Fios se misturavam com o sistema nervoso. Sangue azul era bombeado por câmaras em um coração de silicone. Todo o tecido inorgânico tinha um brilho leve, a holografia assim mostrando o que não era natural nela, de forma que até um olhar leigo fosse capaz de compreender.
Ciborgue.
Kai recuou, sentindo-se desorientado enquanto olhava boquiaberto. Até os olhos dela tinham aquele brilho leve, junto com os nervos óticos que seguiam até o fundo do cérebro, onde havia uma placa de metal coberta de portas e cabos e fios e um acesso que se abria na parte de trás do crânio.
Lembrou-se da guardiã dizendo que Cinder não era capaz de chorar, mas ele nunca pensou... nunca esperou isso. Os olhos dela, o cérebro...
Ele afastou o olhar e passou a palma da mão no rosto. Isso era uma invasão, um tipo horrível de voyeurismo, e a culpa repentina o fez desejar poder apagar a visão da mente para sempre.
— Tela, desligar.
Um silêncio os envolveu, e ele se perguntou se Torin sentia a mesma culpa que ele ou se tinha sido capturado pela mesma curiosidade mórbida.
— Você está bem, Majestade?
— Ótimo. — Ele engoliu em seco. — Nós sabíamos que ela era ciborgue. Nada disso devia ser surpresa. Eu só não esperava que fosse tanto.
Torin enfiou as mãos nos bolsos.
— Sinto muito. Sei que nem sempre fui justo quando o assunto é Linh Cinder. Desde o momento em que vi você conversando com ela no baile, fiquei com medo de ela ser uma distração desnecessária para você, e você estava sempre lidando com tanta coisa. Mas está óbvio que você tinha sentimentos legítimos por ela, e lamento por tudo o que aconteceu desde então.
Kai deu de ombros com desconforto.
— O problema disso é que nem eu sei se tinha sentimentos legítimos por ela ou se foi tudo truque desde o começo.
— Vossa Majestade. O dom lunar tem limitações. Se Linh Cinder estivesse forçando esses sentimentos, você não os estaria sentindo mais.
Com um susto, Kai olhou nos olhos de Torin.
— Eu não... — Ele engoliu em seco, calor subindo pelo pescoço. — É tão óbvio?
— Bem, como a rainha Levana gosta de observar, você ainda é jovem e não tão bom em disfarçar as emoções como o resto de nós. — Torin deu um sorriso, com um olhar provocador que enrugou os cantos dos olhos. — Para ser sincero, sinto que é uma de suas melhores qualidades.
Kai revirou os olhos.
— Ironicamente, acho que pode ser por isso que gostei tanto de Cinder logo de cara.
— Por ela não conseguir disfarçar as emoções?
— Por ela nem tentar. Pelo menos, era o que parecia. — Kai se encostou na mesa de exame, sentindo o papel estéril enrugar por baixo dos dedos. — Às vezes parece que todo mundo ao meu redor está fingindo. Os lunares são os piores. Levana e seu grupo... Tudo neles é tão falso. Estou noivo de Levana e nem sei como é a aparência dela de verdade. Mas não são só eles. São os outros líderes da União, até os membros do meu próprio gabinete. Todo mundo está tentando impressionar todo mundo. Tentando se fazer parecer mais inteligente ou mais confiante do que realmente é.
Ele passou a mão pelo cabelo.
— E aí, apareceu Cinder. Uma garota normal, trabalhando em um emprego comum. Estava sempre coberta de sujeira ou graxa e era tão sensacional consertando coisas. E brincava comigo sobre tudo, como se estivesse falando com um cara normal, não um príncipe. Tudo nela parecia tão genuíno. Pelo menos, foi o que pensei. Mas acabou que ela era igual a todo mundo.
Torin andou até a janela com vista para o quarto de quarentena.
— Mas você ainda está tentando encontrar motivos para acreditar nela.
Era verdade. Essa aventura toda tinha sido despertada pelas acusações de Torin de que Kai não sabia nada sobre Cinder. Que, mesmo naquele momento, sabendo que ela era ciborgue, ele ainda queria acreditar que nem tudo nela foi baseado em alguma enganação complicada.
E, ao vir aqui, ele descobriu coisas.
Descobriu que ela era imune à letumose, que talvez todos os lunares fossem. Descobriu que aqueles olhos castanhos que viviam invadindo seus sonhos tinham sido feitos por um homem, ou pelo menos alterados. Descobriu que a guardiã vendeu o corpo dela para testes, que ela não odiava a irmã e que o recrutamento ciborgue ainda acontecia. Até então chegavam ciborgues ao laboratório todos os dias. Também os sacrificavam para encontrar um antídoto que a rainha Levana já tinha.
— Por que ciborgues? — murmurou ele. — Por que só usamos ciborgues no recrutamento?
Torin suspirou.
— Com todo o respeito, Vossa Majestade. Você acha mesmo que é o melhor assunto com o qual se preocupar agora? Com o casamento, a aliança, a guerra...
— Sim, acho. É uma pergunta válida. Como nossa sociedade decidiu que as vidas deles valem menos? Sou responsável por tudo o que acontece nesse governo, tudo. E quando alguma coisa afeta os cidadãos assim...
O pensamento o atingiu como uma bala.
Eles não eram cidadãos. Ou eram, desde que o Ato de Proteção dos Ciborgues foi instituído por seu avô décadas antes, mas era mais complicado do que isso. O ato veio depois que uma série de crimes ciborgues terríveis provocou ódio generalizado e levou a revoltas catastróficas em todas as grandes cidades da Comunidade. Os protestos podiam ter sido gerados pela onda de violência, mas foram resultado de gerações de desdém crescente. Durante anos, as pessoas reclamavam sobre o aumento da população de ciborgues, muitos dos quais tinham passado por suas cirurgias por causa dos cidadãos.
Os ciborgues eram inteligentes demais, as pessoas reclamaram. Estavam roubando os salários do homem comum.
Os ciborgues eram capacitados demais. Estavam tirando empregos do cidadão trabalhador e da classe média.
Os ciborgues eram fortes demais. Não deviam poder competir em eventos esportivos com pessoas comuns. Dava uma vantagem injusta a eles.
E então um pequeno grupo de ciborgues teve um surto de violência e roubo e destruição, mostrando o quanto podiam ser perigosos.
Se os médicos e cientistas iam continuar a executar essas cirurgias, as pessoas argumentaram, era preciso haver restrições para esse grupo de pessoas. Elas precisavam ser controladas.
Kai estudou tudo isso quando tinha quatorze anos. E concordou com as leis. Foi convencido, assim como seu avô tinha sido, de que eles estavam certos. Os ciborgues precisavam de leis e provisões especiais, para a segurança de todos.
Não precisavam?
Até esse momento, ele não tinha nem voltado a pensar na questão.
Ao perceber que estava olhando para uma mesa de laboratório vazia com os nós dos dedos pressionados contra a testa, ele se virou e se empertigou um pouco. Torin o estava observando com aquela expressão de sabedoria sempre presente que tanto enlouquecia Kai, esperando com paciência que Kai formasse os pensamentos.
— É possível que as leis estejam erradas? — disse ele, com um nervosismo peculiar, como se estivesse falando uma blasfêmia contra sua família e as tradições antigas de seu país. — Quanto aos ciborgues?
Torin olhou para ele por muito tempo, sem dar sinal do que achava da pergunta de Kai, até que por fim suspirou.
— O Ato de Proteção dos Ciborgues foi elaborado com boas intenções. As pessoas viam uma necessidade de controlar a crescente população ciborgue, e a violência nunca mais chegou ao nível daquela época.
Os ombros de Kai murcharam. Torin devia estar certo. Seu avô devia ter estado certo.
Mesmo assim...
— Mesmo assim — disse Torin —, acredito que seja a marca de um grande líder questionar as decisões tomadas antes dele. Talvez, depois que resolvermos parte de nossos problemas mais imediatos, possamos rever isso.
Problemas mais imediatos.
— Não discordo de você, Torin. Mas tem um ciborgue recrutado nesta ala, neste momento. Tenho certeza de que isso parece um problema imediato para ele... ou ela.
— Vossa Majestade, você não pode resolver todos os problemas em uma semana. Precisa se dar tempo...
— Então você concorda que é um problema?
Torin franziu a testa.
— Milhares de cidadãos estão morrendo dessa doença. Você acabaria com o recrutamento e as oportunidades de pesquisa que ele oferece porque os lunares vão resolver tudo para nós?
— Não, claro que não. Mas usar ciborgues e só ciborgues... parece errado. Não parece?
— Por causa de Linh Cinder?
— Não! Por causa de todo mundo. Porque, apesar do que a ciência lhes causou, eles também já foram humanos. E não acredito... não consigo acreditar que são todos monstros. De quem foi a ideia do recrutamento? De onde veio?
Torin olhou para a tela com uma expressão estranha de conflito interno.
— Se me lembro bem, foi ideia de Dmitri Erland. Tivemos muitas reuniões para discutir. Seu pai ficou inseguro no começo, mas o dr. Erland nos convenceu de que era para o bem da Comunidade. Os ciborgues são fáceis de registrar, fáceis de encontrar, e com as restrições legais...
— Fáceis de tirar vantagem.
— Não, Majestade. Era fácil convencer eles mesmos e o povo de que são os melhores candidatos para testes.
— Porque não são humanos?
Ele via que Torin estava ficando frustrado.
— Porque os corpos deles já foram ajudados pela ciência. Porque agora é a vez deles de retribuir, para o bem de todos.
— Eles deviam ter escolha.
— Eles tiveram escolha quando aceitaram as alterações cirúrgicas. Todo mundo sabe bem quais são as leis sobre os direitos ciborgue.
Kai apontou a tela apagada.
— Cinder virou ciborgue quando tinha onze anos, depois de um acidente de aerodeslizador. Você acha que uma criança de onze anos tem alguma escolha?
— Os pais dela... — Torin parou de falar.
De acordo com o arquivo, os pais de Cinder morreram no mesmo acidente. A pessoa que aprovara a cirurgia ciborgue era desconhecida.
Torin apertou a boca em uma linha reta de insatisfação.
— Ela é uma circunstância incomum.
— Pode ser, mas continua não parecendo certo. — Kai andou até a janela do quartinho enquanto massageava um nó no pescoço. — Vou acabar com isso. Hoje.
— Tem certeza de que essa é a mensagem que você quer passar para o povo? De que estamos desistindo do antídoto?
— Não estamos desistindo. Eu não estou desistindo. Mas não podemos obrigar as pessoas a isso. Vamos levantar dinheiro para pagar voluntários. Vamos aumentar nossos programas de conscientização, encorajar as pessoas a se voluntariar se quiserem. Mas, a partir de agora, o recrutamento acabou.

2 comentários:

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!