3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e Quatro

A TEMPERATURA NO SALÃO DE BAILE SE ELEVOU QUANDO CENTENAS de rostos se viraram na direção de Cinder.
Talvez a multidão tivesse se virado um momento depois, indiferente, se não tivesse visto que a convidada pessoal do imperador era uma garota com cabelos molhados e manchas de lama na bainha do amassado vestido prateado. Mas os olhares se grudaram em Cinder, no alto da escada. Seus pés, diferentes um do outro, se prenderam ao chão como se concreto tivesse se endurecido em volta deles.
Ela olhou para Kai, que tinha o queixo caído ao reconhecê-la.
Kai esperara o tempo todo que ela viesse. Reservara um lugar para ela como sua convidada pessoal. Cinder mal podia imaginar o quanto ele se arrependia daquela decisão no momento.
Ao lado dele, o rosto de Pearl começou a queimar em meio aos candelabros brilhantes. Cinder olhou para a meia-irmã, para Adri, percebeu a mortificação muda delas e lembrou a si mesma de respirar.
Já estava acabado para ela.
Era quase certo que Pearl já houvesse contado a Kai que ela era um ciborgue. Em breve, a rainha Levana também a veria e saberia que ela era lunar. Ela seria levada, talvez morta. Não havia nada que pudesse fazer a respeito disso agora.
Mas correra o risco. Aceitara as consequências que sua ação traria.
Não seria em vão.
Ela endireitou os ombros. Ergueu o queixo.
Segurando a ampla saia de seda, ela fixou o olhar em Kai e desceu lentamente os degraus.
Os olhos dele se suavizaram, quase divertidos, como se tal aparência largada fosse tudo que alguém pudesse esperar de uma renomada mecânica.
Um murmúrio reverberou na multidão e, enquanto o salto da bota de Cinder batia no chão de mármore com uma precisão forçada, o mar de vestidos começou a se mover para os lados. Mulheres sussurravam por trás das mãos. Homens abaixavam os pescoços para acompanhar a fofoca silenciosa. Mesmo os servos haviam parado para observá-la, segurando no alto bandejas de iguarias. O cheiro de alho e gengibre os envolvia, revolvendo o estômago de Cinder em nós. Ela percebeu de repente o quão faminta estava. Todos os preparativos para fugir lhe haviam deixado pouco tempo para comer. Junto à ansiedade, aquilo quase a fez desmaiar. Ela deu tudo de si para ignorar a fome, para ser forte, mas o nervosismo se expandia em seus músculos tensos a cada passo. Seus batimentos formavam uma bateria dentro da cabeça.
Cada olhar sobre Cinder era zombeteiro. Cada cabeça se virava para sussurrar, rumores já levantando voo. Os ouvidos de Cinder tiniam, captando passagens de conversas — Convidada pessoal? Mas quem é ela? E o que é aquilo no vestido dela? — até que ela ajustou a interface de áudio, silenciando as palavras.
Nunca em sua vida ela se sentiu tão grata por não poder ruborizar.
Os lábios de Kai se torceram, e embora ele ainda parecesse confuso, não parecia com raiva nem enojado. Cinder engoliu em seco. Conforme se aproximava, seus braços ardiam de vontade de envolver a si mesma, para cobrir o vestido imundo, amassado e manchado o melhor que pudesse, mas ela não o fez. Seria em vão, e Kai não se importava com o seu vestido.
Na verdade, ele devia estar tentando discernir o quanto dela era metal e silício.
Ela manteve a cabeça erguida, mesmo quando seus olhos ardiam, mesmo quando o pânico enchia seu visor com alertas e precauções.
Não era sua culpa ele ter gostado dela.
Não era culpa dela ser ciborgue.
Ela não pediria desculpas.
Concentrou-se apenas em andar, um passo soando depois do outro, enquanto a multidão se abria diante dela, e então se fechava após sua passagem.
Mas, antes que ela alcançasse o imperador, uma figura saiu da multidão e se pôs em seu caminho. Cinder ficou paralisada, detida pelo olhar irado de sua madrasta.
Ela piscou, perplexa, conforme a realidade se estabelecia aos tropeços naquele sereno e silencioso momento. Ela esquecera que Adri e Pearl estavam lá.
Bochechas manchadas de vermelho apareceram através da maquiagem branca de Adri, e seu peito arfava no modesto decote do quimono. Os risinhos confusos entre dentes se aquietaram, empurrando as perguntas na direção daqueles mais atrás na multidão que não podiam ver o que estava acontecendo, mas podiam, sem dúvida, sentir a tensão aumentando ao redor.
A mão de Adri se lançou para a frente, segurando a saia de Cinder. Ela sacudiu o material.
— Onde você conseguiu isso? — sibilou ela, sua voz baixa como se ela temesse causar uma cena maior do que a que Cinder já havia causado.
Contraindo o maxilar, Cinder recuou, tirando o vestido das mãos da madrasta.
— Iko guardou o vestido. Peony iria gostar que eu ficasse com ele.
Atrás da mãe, Pearl engoliu em seco, as mãos voando para a boca. Cinder olhou para ela e viu Pearl olhando para os pés dela com horror.
Cinder deu de ombros, imaginando sua perna de ciborgue visível para qualquer um, até que Pearl apontou para seu pé e deu um grito agudo:
— Minhas botas! Essas são as minhas botas! Nela!
Os olhos de Adri se estreitaram.
— Sua pequena ladra. Como ousa vir aqui e tornar esta família motivo de piada? — Ela esticou o dedo sobre o ombro de Cinder, na direção da escada principal. — Eu ordeno que você vá para casa neste instante, antes que me envergonhe ainda mais.
— Não — disse ela, cerrando os punhos. — Eu tenho o mesmo direito de estar aqui que vocês.
— O quê? Você? — A voz de Adri começou a aumentar. — Mas você não é nada além de uma… — Ela segurou a língua, ainda não querendo dividir o segredo humilhante de sua enteada. E, em vez disso, ela ergueu a mão espalmada.
A multidão engoliu em seco e Cinder se encolheu, mas o golpe não veio.
Kai postara-se ao lado de sua madrasta, a mão fechada com firmeza ao redor do pulso dela. Adri se virou para ele, o rosto queimando de raiva, mas a expressão logo se desfez.
Ela se encolheu, gaguejando.
— Vossa Majestade!
— Já basta — disse ele, a voz gentil mas austera, e a soltou. Adri fez uma reverência patética, assentindo.
— Sinto muito, Vossa Majestade. Minhas emoções… meu temperamento… essa garota é… sinto muito que ela tenha interrompido… está sob minha guarda… não deveria estar aqui…
— É claro que deveria. — Houve uma leveza nas palavras dele, como se acreditasse que sua presença, por si só, pudesse acabar com a hostilidade de Adri. Ele fixou o olhar em Cinder. — Ela é minha convidada pessoal.
Ele olhou em volta, acima das cabeças da plateia chocada, em direção ao palco, onde a orquestra estava em silêncio.
— Esta é uma noite de celebração e diversão — disse ele em voz alta. — Por favor, voltem a dançar.
A banda começou, hesitante no início, até que a música novamente tomou o salão de baile — Cinder não conseguia se lembrar de quando a música parara, mas sua audição ainda estava confusa devido ao barulho das fofocas ao seu redor.
Kai olhava para ela de novo. Ela engoliu em seco e percebeu que tremia — de raiva, terror e nervoso, e pela sensação de ter sido capturada pelos olhos castanhos dele. Sua mente estava em branco, incerta se queria agradecer a ele ou se virar e continuar gritando com sua madrasta, mas ele não lhe deu a chance de fazer nenhuma das duas coisas.
Kai esticou o braço, pegou a mão dela e, antes que ela percebesse o que estava acontecendo, a afastou de sua madrasta e da meia-irmã e a tomou em seus braços.
Eles estavam dançando.
O coração palpitando, Cinder desviou o olhar dele e olhou por cima do ombro de Kai.
Eles eram os únicos a dançar.
Kai havia percebido isso também, porque tirou levemente a mão da sua cintura, gesticulou para a multidão pasma e disse, em um tom encorajador e de comando, ao mesmo tempo:
— Por favor, vocês são meus convidados. Aproveitem a música.
Constrangidos, os mais próximos trocaram olhares com seus próprios parceiros, e logo a pista estava repleta de saias em movimento e caudas de casacas. Cinder arriscou uma olhada para o local onde haviam largado Adri e Pearl — elas ainda estavam paradas no meio da multidão em movimento, observando enquanto Kai sabiamente guiava Cinder para cada vez mais longe delas.
Pigarreando, Kai murmurou:
— Você não faz a menor ideia de como dançar, não é?
Cinder fixou o olhar nele, a mente ainda titubeando.
— Eu sou mecânica.
As sobrancelhas dele se ergueram em gozação.
— Acredite, eu percebi. Essas manchas nas luvas que lhe dei são de graxa?
Envergonhada, ela olhou para os dedos entrelaçados deles e as manchas negras nas luvas de seda branca. Antes que pudesse se desculpar, sentiu que era afastada com delicadeza e girada nos braços dele. Ela arfou, por um momento sentindo-se leve como uma borboleta, antes de tropeçar em seu pé de ciborgue menor do que o ideal e cair no abraço dele.
Kai deu um sorrisinho, conduzindo as costas dela para a altura do braço, mas não a provocou.
— Então aquela é a sua madrasta.
— Guardiã legal.
— Certo, o erro foi meu. Ela parece uma pessoa realmente encantadora.
Cinder riu e seu corpo começou a relaxar. Sem nenhuma sensibilidade no pé, era como tentar dançar com uma bola de ferro soldada no calcanhar. Sua perna começava a doer de carregá-la, mas ela resistiu ao impulso de mancar, visualizando a sempre graciosa Pearl em seu vestido de baile e seus saltos, e forçou seu corpo a se conformar.
Pelo menos, seu corpo parecia estar memorizando o padrão dos passos de dança, executando cada movimento de forma ligeiramente mais fluida do que o anterior, até que ela quase sentisse saber o que estava fazendo. É claro, a delicada pressão da mão de Kai em sua cintura não era nada ruim.
— Sinto muito por isso — disse ela. — Por ela e por minha meia-irmã. Você acredita que elas pensam que eu sou motivo de vergonha? — Ela fez com que o comentário soasse como uma piada, mas não podia evitar analisar a reação dele, esperando pelo momento em que ele perguntaria se era verdade.
Se ela era realmente um ciborgue.
Então, conforme o sorriso dele começou a desmoronar, percebeu que o momento viera muito antes, e ela desesperadamente desejou nunca ter feito o comentário. Preferia que eles continuassem fingindo para sempre que seu segredo estava guardado. Que ele ainda não sabia.
Que ele ainda queria que ela fosse sua convidada pessoal.
— Por que você não me contou? — perguntou Kai, sua voz mais baixa apesar do barulho de risadas e saltos retinindo que preenchia o ar ao redor deles.
Cinder abriu a boca, mas suas palavras entalaram na garganta. Ela queria refutar a declaração de Pearl, chamá-la de mentirosa. Mas a que aquilo a levaria? A mais mentiras. Mais traição. Os dedos em sua mão de metal apertaram mais o ombro dele, o duro, impiedoso limite do membro. Ele não vacilou, apenas esperou.
Ela queria se sentir aliviada porque agora eles não tinham mais segredos um para o outro, mas isso também não era totalmente verdadeiro. Ele ainda não sabia que ela era lunar.
Ela abriu a boca de novo, incerta do que ia dizer até que as famosas palavras lhe ocorreram.
— Eu não sabia como.
Os olhos de Kai se suavizaram, pequenas rugas formando-se nos cantos.
— Eu entenderia — respondeu ele.
De maneira quase imperceptível, ele chegou mais perto, e Cinder viu seu cotovelo subir até o ombro dele de um jeito que parecia impossivelmente natural. Ainda assim, ele não recuou. Não encolheu o ombro nem o tensionou.
Ele sabia e, mesmo assim, não estava enojado? Ainda a tocava? De alguma forma, inacreditavelmente, talvez ele ainda gostasse dela?
Ela sentiu que choraria se tivesse essa opção.
As pontas dos dedos dela, com hesitação, se enrolaram no cabelo da nuca dele, e Cinder percebeu que tremia, certa de que ele a afastaria a qualquer momento. Mas ele não fez isso. E também não recuou. Não fez careta.
O lábios dele se separaram, apenas um pouco, e Cinder imaginou se talvez ela não era a única a ter dificuldade para respirar.
— É só que… — começou ela, correndo a língua pelos lábios. — Isso não é algo de que eu goste de falar. Eu não contei a ninguém que…
— Que não conhecia ela?
As palavras de Cinder evaporaram. Ela?
Com dedos rígidos, ela os tirou do cabelo dele e pousou a mão de volta em seu ombro.
A intensidade do olhar de Kai se derreteu em solidariedade.
— Eu entendo por que você não disse nada. Mas agora me sinto egoísta. — A mandíbula dele se contraiu e a testa se franziu em uma expressão de culpa. — Eu sei, eu devia ter concluído depois que você me falou que ela estava doente, para começar, mas com a coroação, a visita da rainha Levana e o baile, eu só… Acho que esqueci. Sei que isso faz de mim o maior patife do mundo, e eu devia ter me dado conta de que sua irmã tinha… e por isso você estava ignorando meus comunicados. Faz sentido agora. — Ele a trouxe mais para perto, até que ela quase pudesse deitar a cabeça no seu ombro, mas ela não o fez. O corpo de Cinder ficara tenso de novo, os passos de dança esquecidos. — Eu só queria que você tivesse me contado.
Cinder fixou o olhar no vazio, para além do ombro dele.
— Eu sei — disse —, eu devia ter contado.
Ela sentiu como se todas as suas partes sintéticas estivessem se comprimindo, esmagando-a por dentro.
Kai não sabia.
Lamentava por ter sentido a presença confortante da aceitação, só para ser confinada ao segredo novamente, o que era ainda mais insuportável do que mentir para ele, para começar.
— Kai — disse ela, sacudindo a autocomiseração que a ameaçou. Ela recuou a distância de um braço, fazendo com que voltassem à posição aceitável para dois estranhos, ou de uma mecânica dançando com seu imperador. Pela primeira vez, Kai errou um passo de dança, os olhos surpresos. Ela ignorou a culpa que arranhava sua garganta.
— Eu vim até aqui para lhe contar uma coisa. É importante. — Ela olhou em volta, assegurando-se de que ninguém os ouvia. Embora tivesse percebido alguns semblantes fechados de ciúmes mirando-a, ninguém estava perto o bastante para ouvi-los acima da música, e a rainha lunar não estava em nenhum lugar à vista. — Escute. Você não pode se casar com Levana. Independente do que ela quiser, independente do que ela ameaçar.
Kai corou com a menção à rainha.
— O que você está querendo dizer?
— Ela não quer apenas a Comunidade. Ela vai começar uma guerra contra a Terra de qualquer forma. Ser imperatriz será apenas uma forma de abrir o caminho.
Foi a vez de ele olhar em volta, simultaneamente transformando seu olhar de pânico em indiferença, embora de perto Cinder pudesse enxergar temor.
— E tem mais. Ela sabe sobre Nainsi… sobre o que Nainsi descobriu. Ela sabe que você estava tentando encontrar a princesa Selene, e, a partir do que você descobriu, está agora caçando a garota. Ela tem gente procurando Selene… se é que já não a encontrou.
Os olhos se arregalando, Kai olhou de volta para ela.
— E você sabe — continuou Cinder, não permitindo que ele a interrompesse — você sabe que ela não perdoará você por tentar encontrar a princesa. — Ela engoliu em seco. — Kai, assim que você se casar com Levana, e ela tiver o que quer… vai matar você.
A cor sumiu do rosto dele.
— Como você sabe de tudo isso?
Ela respirou fundo, de certa forma exausta por relatar toda a informação, como se tivesse apenas reservado energia suficiente para chegar até aquele momento.
— O chip de comunicação direta que encontrei em Nainsi. Havia uma garota, que é a programadora… ugh. É complicado. — Ela hesitou, pensando que deveria dar o chip a Kai enquanto podia. Ele talvez fosse capaz de conseguir mais informações com a garota. O problema era que, em sua pressa de ir ao baile, ela o guardara no compartimento na panturrilha. Seu estômago afundou. Recuperá-lo agora significava revelar-se a Kai e a todos ao seu redor.
Ela engoliu em seco, espantando sua aflição. Salvar seu próprio orgulho era o mais importante para ela?
— Há algum lugar aonde possamos ir? — pediu ela. — Longe da multidão? Vou lhe contar tudo.
Ele olhou em volta. Em sua dança, haviam percorrido quase toda a extensão do salão de baile, e agora estavam diante de portas maciças que se abriam para os jardins reais. Além dos degraus, um salgueiro pingava por causa da chuva pesada e um pequeno lago quase transbordava. O estrondo do impacto da chuva vinha em ondas, quase suplantando o som da orquestra.
— Os jardins? — disse ele, mas antes que pudesse se mover, uma sombra caiu sobre os dois. Olhando para cima, Cinder viu a expressão contrariada de um oficial real, olhando para Kai com os lábios tão cerrados que começavam a embranquecer. Ele não tomou conhecimento da presença de Cinder.
— Vossa Majestade — disse o homem, com rosto tenso. — Está na hora.

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