7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e Oito

UIVOS PREENCHERAM O PORÃO DO TEATRO. NO CANTO DA cama, na penumbra da cela, Scarlet prendeu a respiração e escutou. Os gritos solitários estavam abafados e distantes, em algum lugar nas ruas. Mas deviam ser bem altos, para chegarem até a masmorra dela.
E parecia haver dezenas. Animais procurando uns aos outros na noite, assustadores e apavorantes.
Não devia haver animais selvagens na cidade.
Scarlet se levantou da cama e andou lentamente até as barras. Uma luz se espalhava pelo corredor, vinda da escada que levava ao palco, tão suave que mal conseguia enxergar as barras de ferro na porta. Olhou pelo corredor. Nenhum movimento. Nenhum som. Só um letreiro de SAÍDA que provavelmente não era aceso havia cem anos.
Olhou para o outro lado. Só escuridão.
Teve a sensação horrível de estar presa sozinha. De ter sido deixada para morrer naquela prisão subterrânea.
Outro uivo ecoou, mais alto desta vez, embora ainda abafado. Talvez na rua em frente ao teatro.
Scarlet passou a língua pelos lábios.
— Olá? — disse, hesitante. Como não houve resposta, nem mesmo um uivo distante, ela tentou de novo, mais alto. — Tem alguém aqui?
Fechou os olhos para ouvir. Nada de passos.
— Estou com fome.
Nenhum movimento.
— Preciso ir ao banheiro.
Nada de vozes.
— Vou fugir agora.
Mas ninguém se importava. Ela estava sozinha.
Scarlet apertou a barra, se perguntando se era uma armadilha. Talvez eles a estivessem enganando com um falso senso de segurança, para ver o que faria. Talvez quisessem que tentasse fugir para poderem usar isso contra ela.
Ou talvez, só talvez, Lobo realmente tivesse tido a intenção de ajudá-la.
Ela resmungou. Se não fosse por ele, não estaria naquela encrenca. Se Lobo tivesse falado a verdade e explicado o que estava acontecendo, teria elaborado outro plano para salvar a avó, em vez de ser levada como uma ovelha para o banquete.
As juntas dos dedos dela começaram a doer de tanto apertar as barras.
Então, do vazio do porão, Scarlet ouviu o próprio nome.
Foi um som fraco e inseguro, pronunciado como uma pergunta delirante.
— Scarlet?
Com um nó no estômago, Scarlet apertou o rosto nas barras, sentindo o ferro frio nas bochechas.
— Olá?
Ela começou a tremer enquanto esperava.
— Scar... Scarlet?
— Grand-mèreGrand-mère?
A voz ficou em silêncio, como se aquela palavra a tivesse esgotado.
Scarlet se afastou da porta com barras e correu de volta até a cama, para pegar o pequeno chip que tinha enfiado debaixo do colchão.
Voltou para a porta, desesperada, implorando, esperançosa. Se Lobo a tivesse enganado quanto a isso...
Enfiou a mão pelas barras e passou o chip pelo escâner. Ele apitou com o mesmo tom alegre e doentio de quando os guardas levavam comida, um som que desprezara até o momento.
A porta se abriu sem resistência.
Scarlet ficou na passagem aberta, com o coração disparado. Mais uma vez, se viu lutando para ouvir algum som dos guardas, mas o teatro parecia abandonado.
Seguiu para o lado oposto da escada, para a escuridão do corredor. As mãos nas paredes de cada lado eram seu único guia. Quando chegou à outra porta com barras, ela fez uma pausa e se inclinou na abertura.
— Grand-mère?
A cela estava vazia.
Três, quatro, cinco celas, todas vazias.
— Grand-mère? — sussurrou.
Na sexta porta, um choramingo.
— Scarlet?
— Grand-mère! — Ela soltou o chip ao ser tomada pela emoção, mas imediatamente ficou de quatro para procurá-lo. — Grand-mère, está tudo bem, estou aqui. Vou salvar você... — Seus dedos encontraram o chip e o passou na frente do escâner. Uma onda de alívio tomou conta dela quando ele apitou, embora um som doloroso e apavorado tenha saído da avó no mesmo momento.
Scarlet abriu as barras e entrou na cela, sem se dar ao trabalho de ficar de pé para não tropeçar acidentalmente na avó na escuridão. A cela estava fedendo a urina, suor e ar estagnado.
— Grand-mère?
E encontrou-a encolhida no chão sujo perto da parede dos fundos da cela.
— Grand-mère?
— Scar? Como...?
— Sou eu. Estou aqui. Vou tirar você daqui. — As palavras se dissolveram em soluços, e ela segurou os braços frágeis da avó, puxando-a para um abraço.
A avó deu um grito, um som horrível e lastimável que feriu os ouvidos de Scarlet. Ela ofegou e a soltou.
— Não — choramingou a avó, com o corpo inerte no chão. — Ah, Scar... você não devia estar aqui. Não devia estar aqui. Não consigo suportar você estar aqui. Scarlet... — Ela começou a chorar, com soluços úmidos e engasgados saindo em gorgolejos pela boca.
Scarlet ficou de pé ao lado da avó, com o medo dominando todos os músculos. Não conseguia se lembrar de ter ouvido a avó chorar.
— O que fizeram com você? — sussurrou, passando as mãos pelos ombros da avó. Por baixo de uma camisa fina e surrada, havia amontoados de curativos e algo úmido e grudento.
Scarlet sufocou as próprias lágrimas e passou os dedos pelo peito e pelas costelas da avó. Havia ataduras em todas as partes. Acariciou os braços e as mãos, que pareciam mais duas clavas de tão cobertas que estavam de ataduras.
— Não, não toque nisso. — A avó tentou se afastar, mas estava tremendo incontrolavelmente.
Com o máximo de delicadeza que conseguiu, Scarlet passou o polegar pelas mãos da avó.
Lágrimas quentes escorriam por suas bochechas.
— O que fizeram com você?
— Scar, você precisa sair daqui. — Cada palavra era uma luta, ela mal conseguia falar, mal conseguia respirar.
Scarlet ficou ajoelhada acima dela, com a cabeça apoiada no seio da avó e acariciando o cabelo grudento para longe da testa.
— Vai ficar tudo bem. Vou tirar você daqui e vamos para o hospital, e você vai ficar bem. Você vai ficar bem. — Ela se obrigou a sentar. — Você consegue andar? Fizeram alguma coisa com as suas pernas?
— Não consigo andar. Não consigo me mexer. Você tem que me deixar aqui, Scarlet. Tem que ir embora.
— Não vou deixar você. Todos foram embora, grand-mère. Temos tempo. Só precisamos pensar em uma maneira. Posso carregar você. — Lágrimas pingaram do queixo de Scarlet.
— Venha cá, meu amor. Chegue mais perto. — Scarlet limpou o nariz e afundou o rosto no pescoço da avó. Braços tentaram envolvê-la, mas só serviram para bater fracamente na lateral do corpo dela. — Eu não queria envolver você nisso. Me desculpe.
— Grand-mère.
— Shh. Escute. Preciso que você faça uma coisa para mim. Uma coisa importante.
Ela balançou a cabeça.
— Pare. Você vai ficar bem.
— Me escute, Scarlet. — O sussurro da avó pareceu ficar ainda mais baixo. — A princesa Selene está viva.
Scarlet apertou bem os olhos.
— Pare de falar, por favor. Poupe suas energias.
— Ela foi morar na Comunidade das Nações Orientais com a família Linh. Com um homem chamado Linh Garan.
Scarlet deu um suspiro triste e frustrado.
— Eu sei, grand-mère. Sei que você a abrigou e sei que a entregou para um homem da Comunidade das Nações Orientais. Mas não importa mais. Não é mais problema seu. Vou tirar você daqui e mantê-la em segurança.
— Não, querida, você precisa encontrá-la. Ela deve ser adolescente agora... e é ciborgue.
Scarlet piscou, desejando conseguir ver a avó na escuridão.
— Ciborgue?
— A não ser que tenha mudado o nome, chama-se Cinder agora.
O nome despertou um quê de familiaridade no fundo da mente de Scarlet, mas o cérebro estava ocupado demais para identificar quem era naquele momento.
— Grand-mère, por favor, pare de falar. Preciso...
— Você precisa encontrá-la. Logan e Garan são os únicos que sabem, e se a rainha me encontrou, pode encontrá-los. Alguém precisa contar à garota quem ela é. Alguém precisa encontrá-la. Você precisa encontrá-la.
Scarlet balançou a cabeça.
— Não ligo para a princesa idiota. Ligo para você. Vou proteger você.
— Não posso ir com você. — As mãos machucadas tocaram os braços de Scarlet. — Por favor, Scarlet. Ela pode fazer toda a diferença.
Scarlet se encolheu.
— É apenas uma adolescente — conseguiu dizer em meio a novos soluços. — O que ela pode fazer?
Nesse momento, se lembrou do nome. O noticiário surgiu em seu pensamento, uma garota correndo pela escada de um palácio, caindo, indo parar em um caminho de cascalho.
Linh Cinder.
Uma adolescente. Ciborgue. Lunar.
Engoliu em seco. Então Levana já tinha encontrado a garota. Encontrou, mas perdeu novamente.
— Não importa — murmurou, apoiando a cabeça no peito da avó. — Não é problema nosso. Vou tirar você daqui. Vamos para bem longe.
Sua mente buscou desesperadamente uma forma de fugirem juntas. Alguma coisa que pudesse usar como maca ou cadeira de rodas ou...
Mas não havia nada.
Nada que pudesse subir a escada. Nada que ela conseguisse carregar. Nada que a avó pudesse aguentar.
Seu coração se partiu, e a dor arrancou uma lamúria de sua garganta.
Scarlet não podia deixá-la assim. Não podia deixar que a ferissem mais.
— Minha doce garota.
Ela fechou bem os olhos e deixou cair mais duas lágrimas quentes.
— Grand-mère, quem é Logan Tanner?
A avó deu um beijo leve na testa de Scarlet.
— Ele é um bom homem, Scarlet. Teria amado você. Espero que você o conheça um dia. Diga oi para ele por mim. Diga adeus.
Um soluço cortou o coração de Scarlet. A camisa da avó estava encharcada por suas lágrimas.
Scarlet não conseguiu contar para ela que Logan Tanner estava morto. Que tinha enlouquecido. Que tinha se matado.
Seu avô.
— Eu te amo, grand-mère. Você é tudo pra mim.
Os braços cobertos de curativos acariciaram seus joelhos.
— Eu também te amo. Minha garota tão corajosa e teimosa.
Ela fungou e prometeu a si mesma que ficaria até de manhã. Ficaria para sempre. Não a abandonaria. Se os captores voltassem, as encontrariam juntas e matariam as duas juntas, se quisessem.
Jamais abandonaria a avó de novo.
A jura já estava feita, a promessa já estava determinada, quando passos ecoaram no corredor.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!