20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e oito

Assim que o imperador foi levado pelos guardas, Levana saiu do estúdio e entrou na sala de controle.
— Edite esse vídeo e mande ser transmitido em todos os setores em que a mensagem da ciborgue foi transmitida. Monitore as transmissões com atenção. Quero relatórios de hora em hora sobre como cada transmissão está sendo recebida. Qual é o status atual dos setores externos?
— Estamos vendo levantes menores em trinta e um setores — informou uma mulher. — Na maioria, os civis se recusam a respeitar as leis do toque de recolher, e houve alguns ataques a guardas de setor.
Um homem acrescentou:
— Também estamos vendo um aumento nos roubos em dois setores agrários. Os trabalhadores voltaram aos campos e começaram a colher alimento para uso próprio. Os guardas foram incapacitados nos dois setores.
Levana bufou.
— Mande segurança adicional a todos os setores que mostrem sinais de insurgência. Temos que sufocar isso imediatamente. E encontre aquela ciborgue!
Ela ficou olhando o piscar dos vídeos de vigilância por um momento, embora os pensamentos estivessem longe. Enquanto o sangue fervia, ela se viu novamente em Nova Pequim, vendo a garota passar correndo por ela com aquele vestido prateado espalhafatoso. Ela a viu tropeçar na escada e cair na direção do jardim. O pé de metal horrendo quebrou no tornozelo, e a força do glamour oscilou sobre ela, estalando como eletricidade, emanando do corpo dela como ondas de calor no deserto.
Em sua condição sem prática, a garota não fez nada além de conjurar uma versão exageradamente bonita de si mesma, e, ao fazer isso, se transformou em Channary. Sua mãe. A atormentadora de Levana.
Levana ainda a via como uma fotografia impressa para sempre em sua memória. Um ódio que ela não sentia havia anos correu por suas veias. A fúria explodiu em sua visão, branca e cegante.
Selene. Ela tinha que ter morrido treze anos antes, mas ali estava, desastrosamente viva. E, como Levana temia na época, ela tiraria tudo seu. Tudo o que Levana se esforçara tanto para ter.
Isso a deixava enjoada. Por que Selene não pôde morrer com facilidade e misericórdia, como ela planejou? Quando convenceu aquela jovem babá a botar fogo no quarto de brinquedos da princesa, tudo deveria ter terminado. Não deveria haver sobrinha. Nem princesa. Nem futura rainha.
Mas ela foi enganada. Selene estava viva e tentando tirar o trono dela.
Sua atenção voltou para as telas.
— Esse é meu povo — sussurrou ela. — Meu sangue e minha alma. Eu sou sua rainha.
Aimery apareceu ao lado dela.
— Claro que é, Vossa Majestade. A ciborgue não faz ideia do que é ser rainha. Das escolhas com as quais é preciso viver. Dos sacrifícios que precisam ser feitos. Quando ela se for, o povo vai reconhecer que você sempre foi a pessoa com direito de se sentar no trono.
— “Quando ela se for” — repetiu Levana, se agarrando às palavras. — Mas como vou saber que ela foi, se não a encontro?
Era irritante. Ela soube que a ciborgue era uma ameaça desde o momento em que a reconheceu na Terra. Mas tentar virar os cidadãos de Levana contra ela foi um golpe que não previu. A ideia do amor deles virando um ódio controlado roubava o ar de seus pulmões e a deixava se sentindo vazia por dentro.
E esse era o plano da ciborgue. Virar o máximo de pessoas que pudesse contra Levana, sabendo que os números grandes seriam sua maior vantagem. Quando precisava, Levana controlava centenas, talvez milhares de seus cidadãos. Com os taumaturgos, eles podiam controlar setores inteiros, cidades inteiras.
Mas até ela tinha limites.
Ela balançou a cabeça. Não importava. O povo não se revoltaria contra ela. O povo a amava.
Ela massageou a testa com dois dedos.
— O que vou fazer?
— Minha rainha — disse Aimery —, talvez eu possa oferecer uma boa notícia.
Ela soltou o ar e se virou para o taumaturgo.
— Uma boa notícia seria muito bem-vinda mesmo.
— Recebi um relato interessante dos seus laboratórios esta manhã, mas não tive chance de compartilhar as descobertas após a transmissão da ciborgue. No entanto, foi confirmado que somos capazes de duplicar os micróbios da letumose com a mutação que recuperamos do corpo do dr. Sage Darnel na Terra, e que nossa imunidade à doença original ficou mesmo comprometida com essa mutação.
Levana demorou um momento para mudar o rumo dos pensamentos.
— E o antídoto?
— Ainda funciona, embora haja uma janela bem menor em que pode ser usado.
Levana bateu com os dedos no lábio inferior.
— Isso é interessante mesmo.
Anos antes, Levana soltou a peste na Terra e logo desfrutaria dos resultados. A Terra estava fraca e desesperada. Desesperada para curar a peste. Desesperada para acabar com a guerra.
Quando ela lhes desse o antídoto, eles ficariam imensamente gratos à nova imperatriz.
Mas ela não esperava que sua doença criada em laboratório fosse sofrer mutação depois de liberada. Agora, ninguém era imune, nem mesmo seu próprio povo. Que coisa estranha e milagrosa.
— Obrigada, Aimery. Essa pode ser a resposta que eu estava procurando. Se o povo não enxergar seus erros e não voltar rastejando para mim, posso ter que empregar novos meios de persuasão. Partiria meu coração ver meu povo sofrendo, mas essa é uma daquelas decisões difíceis que uma rainha tem que tomar de tempos em tempos.
O coração dela saltou quando imaginou o povo enchendo o pátio do palácio depois dos muros e se ajoelhando para ela, com lágrimas nos olhos. Eles a idolatrariam por salvá-los. Ela salvaria a todos com sua bondade e caridade.
Ah, eles a idolatrariam, a salvadora, a rainha por direito.
— Vossa Majestade!
Ela se virou para a voz. Uma mulher tinha se levantado e estava ajustando uma invisitela.
— Acho que encontrei uma coisa.
Levana passou por Aimery para ver melhor. A tela mostrava a praça central de um setor externo, de mineração de regolito, talvez, a julgar pelo pó que cobria cada superfície e sujava até a lente da câmera. O chafariz com a imagem dela podia ser visto no filme, uma coisa bela naquele mundo feio.
A praça estava cheia de gente, uma raridade por si só. O toque de recolher ordenado por ela garantia que as pessoas se concentrassem no trabalho e no descanso, sem a tentação de se juntar aos vizinhos nas horas em que não estavam trabalhando.
— Isso é ao vivo? — perguntou ela.
— Não, minha rainha. Foi filmado não muito tempo depois do final do dia de trabalho.
Ela acelerou a filmagem, e Levana apertou o olhar para tentar entender. Guardas, civis, uma punição justa, e então…
— Pause o vídeo.
A mulher obedeceu, e Levana se viu olhando para o rosto que a assombrou durante meses. Se havia alguma dúvida, a mão de metal monstruosa acabou com ela.
— Onde é isso?
— Mineração de regolito nove.
Levana curvou os lábios.
A ciborgue era dela.
— Aimery, reúna uma equipe que parta imediatamente para esse setor. Linh Cinder deve ser presa e trazida até mim para julgamento e execução públicos. Use o método que achar necessário para detê-la.
A visão dela sangrou com ódio enquanto olhava para a tela. A garota arrogante com as palavras ignorantes e exibições orgulhosas.
— Não vamos tolerar nenhum simpatizante e nenhum aliado. Esse levante tem que ser encerrado.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!