13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e oito

CRESS PRENDEU A RESPIRAÇÃO E PRESTOU ATENÇÃO, COM TANTA força que chegou a dar dor de cabeça. Mas só escutou silêncio. A perna esquerda estava começando a doer por permanecer encolhida em uma posição tão ruim, mas não ousava se mexer por medo de esbarrar em alguma coisa e o coroa acabar percebendo onde ela estava.
Ela não saiu correndo do hotel. Apesar de ter ficado tentada, sabia que Jina e os outros ainda podiam estar lá fora, e correr até eles faria com que voltasse para o mesmo lugar.
Então, encolheu-se no terceiro quarto no corredor comprido e estreito depois da surpresa de encontrar a porta destrancada e o quarto abandonado. Tinha a mesma disposição do quarto do doutor: cama, armário, mesa; mas, para sua infelicidade, não tinha tela de comunicação. Se ela não estivesse tão desesperada para encontrar um esconderijo, teria chorado.
Acabou entrando no armário. Estava vazio, só tinha uma barra para pendurar roupas embaixo de uma única prateleira. Cress usou toda a sua força para subir naquela prateleira, apoiando-se nas paredes do armário com os pés antes de se espremer no buraco. Usou os dedos dos pés para fechar a porta. Pela primeira vez, ficou feliz com seu tamanho pequeno e concluiu que, se ele a encontrasse, ela pelo menos teria vantagem por ser tão alto. Desejou ter pensado em pegar algum tipo de arma.
Mas a esperança dela era que isso não fosse necessário. Ela desconfiava que, quando ele acordasse, acharia que tinha corrido para a cidade e iria atrás, o que daria tempo para que ela voltasse até aquela tela e fizesse contato com Thorne no hotel.
Ficou deitada ali durante horas, esperando e escutando. Apesar de ser desconfortável, lembrava um pouco dormir embaixo da cama no satélite durante as longas horas em que Luna podia ser vista pelas janelas. Ela sempre se sentia segura assim, e a lembrança trouxe uma estranha sensação de proteção, mesmo naquele momento.
Depois de um tempo, ela começou a se perguntar se tinha matado o homem. A culpa que surgiu no seu peito a deixou com raiva. Não tinha nada que sentir culpa. Estava se defendendo, e ele era um monstro traficante de lunares.
Pouco depois de pensar nisso, ouviu um movimento tão baixo que poderia ser um rato nas paredes. Foi seguido de alguns baques e um gemido. O corpo dela se contraiu, o ombro direito doendo pela forma como estava deitada.
Isso foi um erro. Ela devia ter saído correndo quando teve oportunidade. Ou devia ter usado o tempo que ele estava inconsciente para acessar a tela. Ao olhar para trás, viu que tinha tido tempo suficiente, mas era tarde demais e ele estava acordado e a encontraria e...
Ela fechou bem os olhos até pontos brancos surgirem na escuridão.
O plano ainda não tinha falhado. Ele ainda podia sair para procurá-la. Ainda podia sair do prédio.
Ela esperou.
E esperou.
Inspirando e expirando. Enchendo-se de ar quente e sufocante. A pulsação pulava a cada som, a cada movimento abafado, a cada baque na madeira, tentando criar uma imagem na mente do que estava acontecendo no quarto no fim do corredor.
Ele não saiu do quarto. Não foi procurá-la.
Ela fez cara de irritação no escuro. Uma gota de suor desceu pelo nariz.
Quando a escuridão sólida invadiu o armário e, apesar do desconforto e dos músculos doloridos, Cress acabou cochilando, ela se obrigou a despertar e determinou que já tinha ficado escondida muito tempo. O coroa não a estava procurando, o que parecia absurdo, considerando o quanto pagou por ela. Será que não devia ter ficado mais preocupado?
Ou talvez ele só quisesse o sangue dela. Era uma coincidência peculiar, considerando a forma como a mestra Sybil salvou tantos bebês sem o dom da morte porque viu algum valor no sangue deles.
Ela tentou não deixar a desconfiança e a paranoia se aprofundarem. Fosse lá o que o coroa quisesse, ela não podia ficar naquele armário para sempre.
Esticando o pé para fora da prateleira, empurrou a porta do armário, que gemeu, um som incrivelmente alto, e ficou paralisada, com uma perna esticada.
Esperando. Ouvindo.
Como nada aconteceu, ela empurrou a porta um pouco mais e chegou à beira da prateleira. Desceu da forma mais delicada possível até o chão.
O piso de madeira gemeu. Ela parou de novo, o coração disparado.
Esperou. Ouviu.
Tonta e com sede, Cress seguiu até o corredor. Estava vazio. Ela prosseguiu até o quarto ao lado. Mais uma vez, destrancado, mas o quarto era idêntico ao que ela ocupou um momento antes. Abandonado e vazio.
A pele dela estava coçando, cada sentido mais apurado quando ela fechou a porta e foi até o quarto seguinte.
No terceiro quarto, a janela estava fechada, mas a luz do corredor bateu em uma tela pendurada na escuridão. Ela quase não conseguiu sufocar um grito. Tremendo de expectativa, fechou a porta.
Mas sua atenção se dirigiu para a cama, e ela apertou a mão sobre a boca.
Havia um homem deitado ali. Dormindo, ela percebeu, enquanto esperava os batimentos pararem de fazer as costelas doerem. Só ousou se mexer quando teve certeza de que o padrão de movimento do peito dele era regular e profundo. Ela não o acordou.
Olhou para a tela de novo, avaliando os riscos.
Podia voltar para o corredor e continuar a procurar. Havia duas portas que ainda não abrira... mas as duas eram perto do quarto do coroa. Ou podia descer a escada e tentar a sorte.
Mas cada passo que dava no piso de madeira velho podia alertar alguém da presença dela, e ela não tinha garantia de que as outras portas estariam destrancadas, nem que teriam telas.
Os minutos se passaram, e ela ficou com uma das mãos na maçaneta e a outra sobre a boca, presa na indecisão. O homem não se mexeu, nem tremeu.
Por fim, ela se obrigou a dar um passo na direção da tela. Seu olhar ficava voltando para a forma adormecida, para ter certeza de que a respiração não tinha mudado.
— Tela — sussurrou ela. — Ligar.
A tela piscou, e ela começou a repetir:
— Tela, muda, tela, muda, tel...
Mas a ordem foi desnecessária. Quando a tela se iluminou, Cress deu de cara com um mapa da Terra, não com uma novela ou um noticiário. Quatro locações tinham sido marcadas. Nova Pequim. Paris. Rieux, na França. Uma pequena cidade em um oásis no canto noroeste da Província do Nilo, na União Africana.
Uma sensação de coincidência surgiu nela, mas seu cérebro já estava adiantado demais para ela ficar pensando nisso. Em poucos momentos, descartou o mapa e ativou um link de mensagem. Hesitou. A única vez que mandou uma mensagem foi quando falou com Cinder, usando uma ligação que não podia ser rastreada e nem monitorada. Ela sabia com detalhes quanto acesso a rainha Levana tinha à rede da Terra e a todas as mensagens que os terráqueos acreditavam enganosamente ser particulares.
Mas não podia se prender a isso. Que interesse a rainha Levana teria em uma única mensagem estabelecida entre duas cidadezinhas no norte da África? Ela devia estar envolvida demais com os planos de dominação intergaláctica.
— Tela — sussurrou ela —, mostrar hotéis em Kufra.
Sua pronúncia estranha gerou uma lista de sete Kufras possíveis. Ela escolheu a menos distante da localização atual e viu os nomes de doze opções de hospedagem, com anúncios e informações de contato piscando na barra lateral. Fez uma expressão séria e leu cada uma com atenção. Nenhum dos nomes pareceu familiar.
— Mostrar no mapa.
A cidade de Kufra apareceu na tela, uma foto tirada por satélite que, depois de um momento de observação atenta das ruas marrons, começou a preencher os vazios em sua lembrança. E então ela viu um pátio em frente a um dos hotéis e, depois de dar zoom na foto, reconheceu um limoeiro perto do muro. Ela ousou sorrir e clicou na informação de contato do hotel.
— Estabelecer ligação.
Em segundos, estava olhando para a mesma funcionária que fez o registro dela e de Thorne, com a ajuda de Jina. Ela quase desabou de alívio.
— Obrigada por ligar...
— Shh!
Cress balançou os braços para silenciar a mulher e olhou para o homem na cama. Ele se mexeu, mas só de leve.
— Me desculpe — sussurrou ela. A mulher se aproximou da tela para ouvi-la. — Meu amigo está dormindo. Preciso falar com um hóspede do hotel. O nome dele é Carswell Tho... Smith. Acho que está no quarto oito.
Ela ficou feliz quando a voz da mulher soou baixa.
— Um momento.
Ela digitou alguma coisa fora da tela.
Cress deu um pulo ao ouvir o estalo, mas o homem continuou dormindo. Um alerta apareceu no canto da tela.
(97) ALERTAS DE NOTÍCIA EM RELAÇÃO À BUSCA “LINH CINDER”
Ela piscou sem entender. Linh Cinder?
— Sinto muito — disse a recepcionista, atraindo novamente a atenção de Cress. — O sr. Smith saiu do hotel ontem à noite depois de provocar uma confusão com alguns outros hóspedes. — Os olhos dela ficaram desconfiados, e ela observou o quarto escuro com curiosidade crescente. — Na verdade, estamos fazendo uma investigação no momento, pois algumas testemunhas acreditam que ele podia ser procurado pela...
Cress cortou a ligação. Seus nervos estavam vibrando debaixo da pele, e os pulmões pareciam pequenos demais para absorver todo o ar de que ela precisava.
Thorne não estava lá. Precisou fugir, e ela não fazia ideia de como encontrá-lo, ele estava sendo caçado e seria capturado, e ela jamais voltaria a vê-lo.
A tela piscou de novo. Os alertas sobre Linh Cinder tinham aumentado em dois.
Linh Cinder. Nova Pequim. Paris. Rieux, França.
A sequência começou a encaixar.
Perplexa, Cress clicou nos alertas. Eram as mesmas notícias que ela lera durante semanas a bordo do satélite. Críticas e especulações e teorias de conspiração e bem poucas evidências. Ainda sem confirmação de ela ter sido vista. Ainda sem prisões feitas e nem uma menção ao capitão Thorne, apesar do que a recepcionista do hotel disse.
E então, a atenção dela se fixou em uma manchete, e suas pernas quase se dobraram.
Ela apoiou a mão com os dedos abertos na mesa para conseguir ficar de pé.
CÚMPLICE LUNAR DMITRI ERLAND AINDA ESCAPA ÀS AUTORIDADES
Dmitri Erland.
O médico lunar que fazia parte da equipe de pesquisa da letumose. O médico que ajudou Cinder a fugir da prisão. O médico que era talvez o segundo fugitivo mais procurado da Terra, mais ainda do que Thorne.
Ela sabia que era ele antes mesmo de clicar na foto. Foi por isso que o homem pareceu familiar. De fato ela já o tinha visto antes.
Mas... ele não devia estar do lado deles?
Ela estava tão absorta na pergunta não respondida que não ouviu o sutil estalo da cama até que uma certa mão a segurou.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!