3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e Oito

O SILÊNCIO PREENCHEU O AR ESTÉRIL ENTRE CINDER E O DR. ERLAND, e também a nebulosidade nos pensamentos de Cinder. Seu rosto não se livrou da confusão.
— O quê?
O médico estendeu a mão e a colocou sobre a de Cinder.
— Você é a princesa Selene.
Ela se afastou dele.
— Eu não… O quê?
— Eu sei. Parece inacreditável.
— Não, parece… Isso é impossível. Por que você brincaria com uma coisa dessas?
Ele sorriu com delicadeza e afagou-lhe a mão novamente. Foi quando Cinder percebeu que sua visão estava clara. Sem luz laranja incomodando.
Perdeu o fôlego. Seu olhar caiu sobre os fios com as pontas saindo de seu tornozelo.
— Eu sei que vai levar tempo para você aceitar isso — disse o dr. Erland —, e eu gostaria de poder estar aqui para ajudá-la. E ajudarei. Direi tudo que você precisa saber quando chegar à África. Mas agora é fundamental que entenda por que você não pode deixar Levana levá-la. Você é a única que pode destroná-la. Entendeu?
Ela balançou a cabeça, atordoada.
— Princesa…
— Não me chame assim.
O dr. Erland rodou o chapéu no colo.
— Tudo bem. Srta. Linh, preste atenção. Estive procurando por você há tantos anos… Em Luna, eu conhecia o homem que trouxe você para a Terra e realizou sua cirurgia. Segui o rastro dele na esperança de encontrá-la, mas quando o achei ele já havia começado a enlouquecer. Tudo que pude tirar dele era que você estava em algum lugar aqui, na Comunidade. Eu sabia que devia procurar um ciborgue, uma adolescente, e mesmo assim houve tantas vezes em que pensei que também enlouqueceria antes de encontrá-la. Antes de conseguir lhe dizer a verdade. E então, você estava lá, de repente, no meu laboratório. Um milagre.
Cinder levantou a mão, interrompendo-o.
— Por quê? Por que eles me transformaram num ciborgue?
— Porque seu corpo foi danificado demais pelo fogo — disse ele, como se a resposta fosse óbvia. — Seus membros não podiam ser recuperados. É incrível que você tenha sobrevivido e que tenha conseguido ficar escondida por todos esses…
— Pare. Pode parar. — Cinder flexionou a prótese amassada da mão antes de envolver com os dedos o membro novinho que o médico tinha levado. Seus olhos corriam pela cela, sua respiração vinha em suspiros curtos. Ela fechou os olhos quando uma onda de tontura tomou conta dela.
Ela era…
Ela era…
— A pesquisa — sussurrou ela. — Você organizou a pesquisa para me encontrar. Um ciborgue… na Comunidade Oriental.
O dr. Erland se agitou, e quando ela se atreveu a olhar para cima novamente a culpa tomara conta dos seus olhos.
— Todos tivemos que fazer sacrifícios, mas se não impedirem Levana…
Largando a nova prótese, Cinder tapou os ouvidos e escondeu o rosto entre os joelhos. A pesquisa. Todos aqueles ciborgues. Tantas pessoas convencidas de que era a coisa certa. Que era melhor eles serem usados do que os humanos. Uma vez um projeto científico, sempre um projeto científico.
E ele só queria encontrá-la.
— Cinder?
— Eu vou vomitar.
O dr. Erland apertou seu ombro, mas ela o afastou.
— Nada do que aconteceu é sua culpa — disse ele. — E agora eu encontrei você. Podemos começar a acertar as coisas de novo.
— Como posso acertar as coisas? Levana vai me matar! — Ofegante, Cinder levantou a cabeça. — Espere. Ela sabe?
A sua memória lhe respondeu primeiro — Levana no topo da escada, com medo. Furiosa. Ela escondeu o rosto novamente.
— Ai, minhas estrelas, ela sabe.
— Seu encanto é único, Cinder, muito parecido com o da rainha Channary. Levana perceberia imediatamente quem você é, embora eu duvide que alguém mais tenha percebido, e Levana vai tentar manter isso em segredo enquanto puder. Claro, ela não perderá tempo em matar você. Estou certo de que eles estão planejando sua partida, agora mesmo.
A boca de Cinder estava ressecada.
— Olhe para mim, Cinder.
Ela obedeceu. E, embora os olhos do médico fossem de um azul de tirar o fôlego, cheios de piedade e quase reconfortantes, de alguma forma ela sabia que ele não estava fazendo nada para manipular sua mente. Aquele era apenas um velho determinado a destronar a rainha Levana.
Um velho que tinha, de alguma forma, colocado todas as esperanças nela.
— Kai sabe? — sussurrou ela.
O dr. Erland balançou a cabeça, triste.
— Não posso me aproximar dele enquanto Levana estiver presente, e isso não é algo que eu possa enviar por um comunicado. Ela levaria você antes que eu tivesse a chance de vê-lo. Além disso, o que ele poderia fazer?
— Se ele soubesse, iria me liberar.
— E se arriscar a Levana voltar sua ira contra o país inteiro? Levana encontraria uma maneira de matá-la muito antes de você ter alguma esperança de recuperar o trono. Kai seria um tolo por fazer algo tão precipitado sem um plano.
— Mas ele merece saber. Ele está procurando por ela. Por… Ele esteve procurando por…
— Muitas pessoas estiveram à sua procura. Mas encontrar você e ser capaz de restaurá-la como rainha são dois objetivos muito diferentes. Planejei este momento por muito tempo. Eu posso ajudá-la.
Cinder o encarou de um jeito estúpido, enquanto o pânico tomava conta de seus pulmões.
— Restaurar-me como rainha?
O médico limpou a garganta.
— Eu entendo que você esteja com medo agora, e confusa. Não pense muito. Tudo o que estou pedindo é que encontre uma forma de sair desta prisão. Eu sei que você consegue. Em seguida, vá para a África. Depois, vou guiá-la. Por favor. Não podemos deixar Levana vencer.
Ela não conseguia responder, não conseguia sequer começar a entender o que ele estava lhe pedindo. Princesa? Herdeira?
Cinder balançou a cabeça.
— Não. Eu não posso. Não posso ser rainha nem princesa nem… Não sou ninguém. Sou um ciborgue!
O dr. Erland cruzou as mãos.
— Se você não vai me deixar ajudá-la, Cinder, então ela já ganhou, não é? Logo a rainha Levana a levará embora. Ela encontrará uma maneira de se casar com Kai e se tornar imperatriz. Vai travar uma guerra contra a União Terráquea e, não tenho dúvida, será vitoriosa. Muitos morrerão, quem sobrar será feito escravo, assim como nós, lunares. É um destino triste, mas inevitável, suponho eu, se você não estiver disposta a aceitar quem você realmente é.
— Isso não é justo! Você não pode simplesmente jogar isso sobre mim e esperar que eu seja capaz de resolver alguma coisa!
— Não espero, srta. Linh. Tudo o que espero é que você encontre uma forma de sair desta prisão e venha me encontrar na África.
Ela o encarou, boquiaberta, enquanto aquelas palavras gradualmente penetravam em seu cérebro.
Escapar da prisão.
Ir para a África.
Parecia quase simples quando ele falava daquele jeito.
O médico deve ter visto algo mudar em seu rosto, porque ele bateu de leve em seu pulso novamente, então ficou de pé, com as articulações gemendo.
— Eu acredito em você — disse ele ao alcançar a porta e dar uma pancada na grade. — E mesmo que não saiba disso neste momento, Kai acredita em você também.
A porta da cela se abriu e o dr. Erland a saudou com o boné. Ele se foi.
Cinder esperou até que dois pares de passos soassem corredor abaixo antes de tremer convulsivamente e cair de joelhos, apertando as mãos nos ouvidos.
Seu cérebro baixava informações mais rápido do que ela podia absorver: velhos artigos sobre o desaparecimento da princesa, entrevistas com teóricos da conspiração, imagens de escombro queimado do quarto de bebê onde sua carne queimada havia sido encontrada. Datas. Estatísticas. A transcrição da coroação de Levana quando a coroa passou para ela, a seguinte na linha de sucessão para o trono.
Data de nascimento da princesa Selene: 21 de dezembro do ano 109 da Terceira Era.
Ela era quase um mês mais jovem do que sempre acreditara ser. Era um fato pequeno, insignificante, e ainda assim por um momento teve a impressão distinta de que não tinha a menor ideia de quem era realmente. Nenhuma pista de quem seria.
E então veio a pesquisa com ciborgues. Todos os nomes daqueles que haviam participado antes dela piscaram na sua frente. Suas imagens, números de identificação, datas de nascimento, as datas em que haviam sido declarados mortos, honorariamente, por seu sacrifício para o bem da Comunidade das Nações Orientais.
Ela ouviu um relógio tiquetaqueando dentro de sua cabeça.
A respiração de Cinder vinha em engasgos difíceis conforme as informações inundavam sua mente. Pânico se agitou em seu estômago. Sentiu o gosto de bile na boca, queimando quando ela a engolia.
A rainha Levana viria até ela, e ela seria executada. Era seu destino. Cinder estava conformada. Preparara-se para isso. Não para ser uma herdeira. Nem para ser rainha ou heroína.
Seria tão simples deixar tudo acontecer. Tão fácil não lutar contra isso.
Em meio às confusas informações que retiniam em sua mente, seus pensamentos pousavam novamente no mesmo momento tranquilo capturado no tempo.
O sorriso despreocupado de Kai na feira.
Fechando-se como uma bola, Cinder desligou sua rede.
O barulho silenciou. As imagens e vídeos se tornaram um breu.
Se ela não tentasse impedir Levana, o que aconteceria a Kai?
Embora tentasse bloquear a questão, ela continuava a assombrá-la, ecoando em seus pensamentos.
Talvez o dr. Erland estivesse certo. Talvez ela tivesse que fugir. Talvez devesse tentar.
Ela pegou os membros protéticos no colo e passou as mãos neles. Erguendo a cabeça, olhou para a grade na porta da prisão. O guarda nunca a fechara.
Um formigamento percorreu sua espinha. Uma estranha e nova eletricidade retumbava sob sua pele, dizendo-lhe que ela não era mais apenas um ciborgue. Era lunar agora. Podia fazer com que as pessoas vissem coisas que não estavam lá. Sentir coisas que não sentiam. Fazer coisas que não desejavam.
Podia ser qualquer um. Tornar-se qualquer um.
O pensamento a fez mal e a assustou, mas a decisão a acalmou de novo.
Quando o guarda retornasse, ela estaria pronta.
Quando suas mãos pararam de tremer, ela deslizou o estilete para fora do novo dedo folheado de titânio e manobrou a lâmina no pulso. O corte ainda estava fresco quando ela começou a remover seu chip de identificação, para que eles não pudessem rastreá-la. Daquela vez, não haveria hesitação.
Logo, o mundo todo estaria procurando por ela — Linh Cinder.
Um ciborgue deformado com um pé faltando.
Uma lunar com identidade roubada.
Uma mecânica sem ninguém a quem recorrer, sem nenhum lugar para onde ir.
Mas estariam em busca de um fantasma.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!