20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e nove

O vídeo de réplica de Levana estava passando pela terceira vez naquela hora. Cinder esforçava-se o melhor possível para ignorar, mas, toda vez que Kai começava a falar, o som da voz dele a fazia pular, e logo ela lembrava novamente que ele não estava lá. Ele estava sob o controle de Levana, como ela deixou claro com tanta habilidade.
De onde estava, atrás da mesa no terceiro andar de uma fábrica de regolito, Cinder via a maior parte de uma das telas embutidas no domo. Mostrava uma Levana alegre e um Kai tranquilo. Tão felizes juntos. Houve um momento em que Kai se virou para Levana e sorriu com uma expressão sonhadora que fez a pele de Cinder ficar arrepiada de pavor.
Pela bilionésima vez, ela desejou que Cress estivesse com eles. Ela saberia como desligar.
Cinder se virou para longe do vídeo para se concentrar. Ela não tinha maneiras de saber como a mensagem de Levana estava sendo recebida em Luna, assim como não tinha maneiras de saber como seu vídeo estava sendo recebido. O melhor que podia fazer era seguir em frente.
Ela estava reunida com seus aliados: Iko, Thorne, Lobo e Scarlet. A mãe de Lobo também estava presente, junto com alguns residentes do setor que foram indicados para representar os outros. Eles tinham trabalhado a noite toda, planejando e organizando, energizados demais para dormir.
Dois mensageiros voltaram naquela manhã de setores mineradores vizinhos e trouxeram boas notícias. Os guardas foram controlados, as armas foram confiscadas e o povo se juntaria a Cinder na marcha para Artemísia. Mensageiros adicionais assumiram a missão perigosa de viajar pelas minas, pelos tubos de lava e pelos túneis dos trens de levitação magnética, para confirmar a verdade do vídeo de Cinder e convocar o máximo possível de setores para se juntarem à causa.
Era um começo promissor.
O resto dos residentes do setor foi enviado para casa depois que Cinder os encorajou a descansar um pouco. Na verdade, ela precisava de distância da curiosidade deles e dos sussurros impressionados.
Quando se reunissem, ela dividiria as pessoas em equipes e designaria uma tarefa para cada. Embora alguns voluntários já estivessem vigiando as plataformas dos trens, ela logo teria que estabelecer turnos para garantir que ficassem alertas. Alguns grupos ficariam encarregados de reunir os alimentos e suprimentos médicos que encontrassem, e outros vigiariam a casa da guarda, enquanto outros ainda seriam enviados para procurar possíveis armas e ferramentas nas minas. Lobo prometeu passar um tempo treinando qualquer cidadão capaz em técnicas básicas de combate, o que seria iniciado naquela tarde.
Ela abriu o mapa holográfico de Luna com a testa franzida, enquanto Lobo indicava as rotas que achava que deveriam tomar para a capital. Todos concordaram que deveriam chegar à cidade do máximo de direções possíveis, para obrigar Levana a dividir suas defesas contra eles.
— Seria bom evitar Pesquisa e Desenvolvimento e também Serviços Técnicos — disse Lobo, mostrando os dois setores na vizinhança próxima de Artemísia. — A maioria das pessoas lá deve apoiar Levana.
— PD-1 parece fácil de contornar. — Cinder girou a holografia para poder ver melhor. — Mas ST-1 e 2 ficam bem no caminho, se quisermos passar pelos setores agrários.
— Talvez nós não os evitemos — disse Thorne. — Tem algum jeito de podermos bloquear as plataformas embaixo daqueles setores e prender todo mundo lá dentro? Isso nos permitiria uma passagem segura, e também impediria qualquer pessoa de se esgueirar atrás de nós e de nos prender nos túneis.
Cinder bateu com o dedo no lábio inferior.
— Isso pode funcionar, mas vamos bloquear com quê?
— Esse setor não fabrica material de construção? — perguntou Scarlet, indicando um setor chamado CG-6: Construção Geral. — Talvez eles tenham alguma coisa que possamos usar.
Cinder se virou para um dos mineiros.
— Posso escolher você para pesquisar isso?
Ele bateu com a mão no coração em uma saudação orgulhosa.
— Claro, Vossa Majestade. Podemos pegar também alguns dos carrinhos de mineração para transportar os materiais.
— Perfeito. — Tentando não se sentir constrangida por causa do Vossa Majestade, Cinder se virou para o grupo.
Lobo enrijeceu, uma pequena mudança que deixou Cinder alarmada.
— O que foi?
Ele começou a balançar a cabeça, mas parou, com a testa cada vez mais franzida. Seus olhos penetrantes se viraram para a janela. As telas do domo estavam novamente silenciosas.
— Eu achei que… senti um cheiro.
Os pelos da nuca de Cinder se arrepiaram. Se fosse qualquer outra pessoa e não Lobo, ela teria rido. Mas os sentidos dele eram sobrenaturais e ainda não tinham se enganado.
— Que tipo de cheiro? — perguntou ela.
— Não consigo identificar. Tem muitos corpos aqui, muitos odores. Mas houve alguma coisa… — Ele apertou os punhos. — Alguém próximo. Alguém que também estava no telhado de Nova Pequim.
O coração de Cinder disparou: Kai!
Mas não, Lobo teria reconhecido Kai sem dificuldade.
Tinha que ser um dos guardas reais que os atacaram.
Iko pegou o tablet, um aparelho que deixou os civis perplexos, e desligou a holografia.
Um grito agudo ecoou pelas ruas lá fora.
Cinder correu até a janela e encostou o corpo na parede, pronta para se abaixar e se esconder. Thorne grudou na parede ao lado.
— Você deveria se esconder — sussurrou ele.
— Você também.
Nenhum dos dois se mexeu.
Ela ficou olhando a cena abaixo e tentando entender, enquanto o horror crescia dentro de si. Incontáveis guardas marchavam pelas ruas, junto com pelo menos seis taumaturgos, ou ao menos era o que ela enxergava.
Um casaco branco atraiu sua atenção, e seu estômago deu um nó. O taumaturgo Aimery estava na beirada do chafariz central, bem onde Cinder esteve antes. Ele se portava como um príncipe com o rosto bonito e postura orgulhosa.
Mais reforços vinham aparecendo nas ruas estreitas que irradiavam da praça como raios em uma roda. Reforços demais para sufocar um levante simples em um setor minerador que não era ameaça para ninguém.
O nó no estômago de Cinder se apertou.
Eles sabiam que ela estava ali.
Os guardas estavam arrastando as pessoas para fora de casa e as empurrando para formarem filas uniformes ao redor do chafariz. Ela reconheceu o homem que apanhou dos guardas, ainda com hematomas e mancando. Ela viu a mulher idosa que vinha acumulando o que podia dos parcos suprimentos havia anos e que já tinha oferecido entregar para quem fosse lutar em Artemísia. E viu o garoto de doze anos que ficou andando atrás de Iko a manhã toda com expressão sonhadora no rosto.
— Estão agrupando todo mundo no setor — sussurrou Maha, espiando pela janela ao lado. — Sem dúvida também vão revistar esses prédios. — A expressão dela era feroz quando recuou. — Vocês deviam se esconder. Nós vamos nos entregar. Pode ser que não revistem esses andares de cima se acharem que todos estão lá.
Cinder engoliu em seco.
— Não vão parar de procurar.
Maha apertou a mão dela.
— Então se escondam bem.
Ela envolveu Lobo em um abraço apertado. Ele se inclinou para receber o gesto e os nós de seus dedos ficaram brancos quando a abraçou.
Eles ouviram a porta da fábrica ser aberta com um golpe no primeiro andar. Cinder deu um pulo. Ela queria segurar Maha e obrigá-la a ficar, mas Maha se soltou do abraço do filho e saiu andando de cabeça erguida. O resto dos cidadãos foi atrás. Sem uma palavra de Cinder, pareceu que eles concordaram com unanimidade que mantê-la em segurança era prioridade.
Um arrepio desceu por sua coluna enquanto os observava ir.
Não demorou para ela ouvir ordens gritadas pelos guardas e a voz calma de Maha declarando que eles estavam desarmados e descendo por vontade própria. Um momento depois, ela os viu sendo empurrados na direção da multidão na praça com armas apontadas para suas costas.
Scarlet ofegou.
— E Winter?
Cinder virou olhos arregalados para ela. Eles deixaram a princesa na casa de Maha, achando que era o lugar mais seguro, mas agora…
— Eu posso ir — disse Iko. — Eles não conseguem me detectar como detectariam qualquer um de vocês.
Cinder apertou bem os lábios enquanto pensava. Queria Iko junto de si, sua única aliada que não podia ser manipulada. Mas isso também fazia dela a melhor escolha para garantir a segurança da princesa.
Ela assentiu.
— Tome cuidado. Saia discretamente pela porta de carga.
Iko deu um aceno breve e também foi embora.
Cinder estava tremendo quando olhou para Thorne, Lobo e Scarlet. Ali do alto, ela não sentia a bioeletricidade dos taumaturgos na multidão, então estava confiante de que eles também não sentiriam a dela e a dos amigos lá em cima, mas isso não a consolou muito.
Eles foram atrás dela, Cinder sabia. E não tinha para onde ir. Onde se esconder.
Além do mais, ela não sabia se queria se esconder. Aquelas pessoas depositaram sua confiança nela. Como poderia abandoná-las?
A voz de Aimery chegou aos ouvidos dela. Apesar de ele não estar gritando, o som subiu e ecoou nas superfícies duras das paredes da fábrica. Cinder ajustou a interface de áudio para ter certeza de que captaria todas as palavras.
— Residentes do setor minerador de regolito nove — disse ele —, vocês foram reunidos aqui para enfrentar as consequências de seu comportamento ilegal. Ao abrigar e ajudar criminosos conhecidos, vocês são todos culpados de traição contra a coroa. — Ele fez uma pausa para permitir que o impacto de suas palavras fosse absorvido. — A sentença para esse crime é a morte.
O corpo de Cinder se contraiu todo quando ela espiou novamente pela janela. As pessoas que foram reunidas em grupos ordenados foram obrigadas a ficar de joelhos. Havia mais de dois mil residentes, menos os que foram enviados como mensageiros para os setores vizinhos. Os corpos ajoelhados ocupavam as ruas até onde ela conseguia ver.
Ele não mataria todos. Não ousaria reduzir a força de trabalho de Luna tão drasticamente.
Ou ousaria?
Aimery encarou as pessoas reunidas à frente, enquanto a estátua de Levana as observava como uma mãe orgulhosa. Havia dois guardas de cada lado do chafariz. Cinder reconheceu o guarda ruivo e se perguntou se foi dele o cheiro que Lobo sentiu. O resto dos guardas estava espalhado com seus elmos e armaduras, apontando armas para os civis. Os outros taumaturgos ficaram misturados à multidão, com os braços enfiados nas mangas.
Cinder esticou os pensamentos o máximo que conseguiu. Procurando, alcançando a energia de Aimery. Se ela conseguisse tomar controle só dele poderia obrigá-lo a oferecer misericórdia. Ele poderia mandar as pessoas serem libertadas.
Mas não. Ele estava longe demais.
Ela se sentiu frustrada, sabendo que Levana seria capaz de exercer seu dom mesmo de tão longe. Levana controlaria facilmente Aimery ali de cima, provavelmente controlaria todos ali de cima. Cinder não se importava com o fato de que a tia tinha uma vida inteira de prática a mais do que ela. Ela deveria ser forte assim. Deveria ser capaz de proteger as pessoas que a protegeriam.
Ofegante, ela voltou a atenção para os guardas mais próximos, posicionados embaixo da janela. Conseguiu detectá-los, pelo menos, mas eles já estavam sob controle de um dos taumaturgos.
O pânico tomou conta. Ela tinha que pensar.
Ainda tinha cinco balas na mão. Thorne e Scarlet também estavam armados. Estava confiante de que conseguiria acertar um dos guardas mais próximos e talvez até um taumaturgo, mas a tentativa entregaria a localização deles.
Além do mais, assim que Aimery percebesse que estavam sob ataque, começaria a usar os residentes do setor como escudos.
Ela não sabia se era capaz de arriscar.
Ela não sabia se tinha escolha.
— No entanto — disse Aimery, com o olhar escuro grudado na multidão —, Sua Majestade está preparada para oferecer anistia a todos. Cada um de vocês será poupado. — Os lábios dele se curvaram em um sorriso gentil. — Tudo o que precisam fazer é nos dizer onde estão escondendo a ciborgue.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!