13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e nove

CRESS SUFOCOU UM GRITINHO QUANDO FOI VIRADA. VIU-SE DE cara com um rosto que era ao mesmo tempo bonito e assassino, os olhos cintilando na luz da tela.
— Quem é você?
Seu instinto foi gritar, mas ela se controlou e engoliu o barulho até não passar de um choramingo.
— M-Me desculpe por invadir — disse ela. — Eu precisava de uma tela. M-Meu amigo está em perigo e eu precisava mandar uma mensagem e... Me desculpe, juro que não roubei nada. P-Por favor, não chame o doutor. Por favor.
Ele parecia ter parado de ouvir e estava observando o quarto com olhar gelado. Soltou o braço dela, mas permaneceu tenso e na defensiva. Não estava de camisa, mas tinha bandagens ao redor do tronco que o cobriam quase tanto quanto uma camisa cobriria.
— Onde estamos? O que aconteceu?
As palavras dele saíram atropeladas e arrastadas.
Ele fez uma careta e apertou bem os olhos. Quando voltou a abrir, parecia que não focava o olhar em nada.
Foi nessa hora que a atenção de Cress se desviou para uma coisa mais apavorante do que as cicatrizes claras e os músculos intimidantes.
Ele tinha uma tatuagem no braço. Estava escuro demais para ler, mas Cress soube na mesma hora o que era. Já tinha visto em incontáveis vídeos e fotos e documentários montados apressadamente. Ele era um agente especial lunar. Um dos mutantes da rainha.
Visões de homens enfiando as unhas nos peitos das vítimas, apertando os maxilares contra pescoços expostos, uivando para a lua surgiram e se espalharam pela mente dela.
Dessa vez, não conseguiu controlar o instinto. Ela gritou.
Ele a segurou e forçou a fechar a boca com as mãos enormes. Ela chorou e tremeu. Estava prestes a morrer. Seu corpo seria tão resistente a ele quanto uma vareta de madeira.
Ele rosnou, e ela viu a ponta afiada dos dentes.
— Você devia ter me matado quando teve a chance — disse ele, com respiração quente no rosto dela. — Mas me transformou nisso, e vou matar você antes de me tornar outro experimento. Entendeu?
Lágrimas começaram a escorrer pelos cílios. O maxilar doía no ponto em que ele segurava, mas ela estava com mais medo do que aconteceria quando a soltasse. Será que ele achava que ela trabalhava para o doutor? Seria possível que fosse mais uma vítima vendida para o coroa? Ele era lunar, eles tinham isso em comum. Se ela o convencesse de que eram aliados, talvez pudesse se afastar o bastante para sair correndo. Mas seria possível argumentar com esses monstros?
— Entendeu?
As pálpebras dela tremeram, e a porta atrás dele se abriu.
Os movimentos dele eram rápidos e fluidos, e a cabeça de Cress girou quando o homem se virou e a colocou na frente dele, grudando-a no peito. Ele cambaleou, como se o movimento repentino o tivesse deixado tonto, mas se controlou quando a luz se espalhou pelo quarto. Havia uma silhueta na porta; não o coroa, mas um guarda. Um guarda lunar.
Os olhos de Cress se arregalaram de reconhecimento. O guarda de Sybil. O piloto da nave de Sybil, que poderia tê-la salvado, mas não salvou.
O agente lobo sibilou. Cress teria caído se o aperto dele não fosse tão firme.
Sybil a tinha encontrado. Sybil estava aqui.
Suas lágrimas começaram a escorrer. Estava encurralada. Estava morta.
— Dê um passo e eu quebro o pescoço dela!
O guarda não disse nada. Cress nem sabia se ele tinha ouvido a ameaça. Estava com as sobrancelhas erguidas enquanto avaliava a cena e pareceu reconhecê-la. Mas, em vez de vitorioso, ele só pareceu confuso.
— O que... Scarlet? — As palavras eram quase incompreensíveis por baixo do rosnado. — Onde está Scarlet?
— Você não é aquela hacker? — perguntou o guarda, ainda olhando para Cress.
O aperto do agente ficou mais forte.
— Você tem cinco segundos para me dizer onde ela está, senão a garota está morta e você será o próximo.
— Eu não estou com eles — disse Cress, sufocando. — Ele... ele não se importa comigo.
O guarda levantou as mãos em um gesto de calma. Cress se perguntou onde estava a mestra Sybil.
Como o aperto do agente não afrouxou, ela se deu conta de que os dois homens trabalhavam para a rainha lunar. Por que estariam ameaçando um ao outro?
— Relaxe — disse o guarda. — Vou chamar Cinder ou o doutor. Eles podem explicar.
O agente se encolheu.
— Cinder?
— Ela está na nave. — Ele desviou o olhar para Cress. — De onde você veio?
Ela engoliu em seco, sua cabeça ecoando a mesma pergunta que o agente fez.
Cinder?
— O que está acontecendo aqui?
Ela tremeu ao ouvir a voz do doutor, mais forte do que durante as negociações com Jina. Em seguida, passos. O guarda deu um passo para o lado a fim de permitir ao doutor entrar no quarto, ainda escuro exceto pela luz do corredor. Cress até sentiu uma pontada de orgulho ao ver que deixara uma marca no maxilar dele.
Embora, no fim das contas, sua recente coragem não tenha feito bem nenhum a ela.
O doutor ficou imóvel e avaliou a cena.
— Ah, estrelas — murmurou ele. — De todos os momentos ruins...
Apesar de a visão dele ter reacendido o ódio de Cress, ela também se lembrou de que ele não era só um velho cruel que comprava escravos lunares. Era o homem que tinha ajudado Cinder a fugir.
A cabeça dela girou.
— Solte-a — disse o doutor, falando delicadamente. — Não somos seus inimigos. Essa garota não é sua inimiga. Por favor, deixe que eu explique.
Lobo afastou um braço dela e passou a mão pelo rosto. Oscilou por um momento, mas recuperou o equilíbrio.
— Já estive aqui antes — murmurou ele. — Cinder... África?
Um baque alto na escadaria distante invadiu a confusão dele. Em seguida, houve gritos, e Cress pensou ter ouvido seu nome, e a voz...
— Cress!
Ela deu um grito, esquecendo o aperto, exceto pelo fato de impedi-la de correr para cima dele.
— Capitão!
— CRESS!
O doutor e o guarda se viraram quando passos soaram no corredor. Eles todos viram o capitão Thorne, vendado, passar correndo direto pela porta.
— Capitão! Estou aqui!
Os passos pararam e mudaram de direção, e ele correu de volta até a bengala bater na moldura da porta. E ficou parado, ofegante, com uma das mãos na cintura. Estava com um hematoma horrível em um lado do rosto, embora estivesse quase todo escondido pela bandana.
— Cress? Você está bem?
O alívio dela não durou.
— Capitão! À sua esquerda há um guarda lunar e à sua direita há um médico que está fazendo testes em lunares, e estou sendo segurada por um dos híbridos lobos de Levana e por favor tome cuidado!
Thorne deu um passo para trás no corredor e tirou uma arma da cintura. Passou um momento virando o cano da arma em cada direção, mas ninguém se mexeu para atacá-lo.
Com certa surpresa, Cress percebeu que o aperto do agente diminuiu.
— Er... — Thorne franziu a testa e apontou a arma para algum ponto perto da janela. — Você poderia descrever todas essas ameaças de novo? Porque eu sinto que perdi alguma coisa.
— Thorne?
Ele apontou a arma para Lobo e para Cress, que estava entre eles.
— Quem disse isso? Quem é você? Você a machucou? Porque juro que, se você a machucou...
O guarda lunar esticou o braço e tirou a arma da mão dele.
— Ei!
Furioso, Thorne ergueu a bengala, mas o guarda bloqueou o golpe com facilidade usando o antebraço e em seguida tomou a bengala. Thorne ergueu os punhos.
— Já chega! — gritou o doutor. — Ninguém está machucado e ninguém vai se machucar!
Rosnando, Thorne se virou para encará-lo.
— É o que você pensa, homem lobo... doutor... espere, Cress, qual deles é esse aqui?
— Eu sou o dr. Dmitri Erland e sou amigo de Linh Cinder. Você talvez me conheça como o homem que a ajudou a fugir da prisão de Nova Pequim.
Thorne deu um riso debochado.
— Bela história, mas tenho certeza de que fui eu que ajudei Cinder a fugir da prisão.
— Improvável. O homem em quem você acabou de bater também é aliado de Cinder, assim como o soldado lupino que ainda está tomando analgésicos pesados e deve estar delirante e que sem dúvida vai arrebentar alguns pontos se não se deitar imediatamente.
— Thorne — disse o agente de novo, ignorando os avisos do doutor. — O que está acontecendo? Onde estamos? O que aconteceu com seus olhos?
Thorne inclinou a cabeça.
— Espere... Lobo?
— Sim.
Houve uma longa pausa antes que a compreensão tomasse conta da expressão de Thorne e ele risse.
— Ah, Cress, você quase me provocou um ataque cardíaco com o comentário sobre o lobo híbrido. Por que não me contou que era ele?
— Eu... hum...
— Onde está Cinder? — perguntou Thorne.
— Não sei — respondeu Lobo. — E onde... Achei que Cinder tivesse dito alguma coisa sobre Scarlet. Antes? — Com um dos braços ainda ao redor do pescoço de Cress, embora mais frouxo, ele levou a mão livre ao rosto, gemendo. — Só um pesadelo...?
— Cinder está aqui. Ela está em segurança — disse o médico.
Thorne sorriu. Foi o maior e mais enigmático sorriso que Cress viu desde o satélite.
Cress olhou pelo quarto, quase hiperventilando quando sua visão do mundo virou de cabeça para baixo.
O guarda de Sybil, que ela viu pela última vez a caminho da Rampion. Será que ele tinha traído Sybil e se juntado a eles?
O médico que ajudou Cinder a fugir da prisão.
O agente lobo. Só então, com o reconhecimento de Thorne, ela se deu conta de que ele era o homem que tinha visto no vídeo quando eles fizeram contato com ela.
E em algum lugar... Cinder.
Em segurança. Eles estavam em segurança.
Thorne esticou a mão, e o guarda devolveu a bengala.
— Cress, você está bem? — Ele atravessou o quarto e se inclinou, como se fosse capaz de inspecioná-la... ou beijá-la, embora não tivesse feito isso. — Está ferida?
— Não, eu... eu estou bem. — As palavras eram tão estranhas, tão impossíveis. Tão libertadoras. — Como você me encontrou?
— Um dos homens de Jina me contou o nome deste lugar, e tudo o que precisei fazer foi mencionar “doutor maluco” para o pessoal lá fora, e todos sabiam de quem eu estava falando.
Com os joelhos fracos de repente, ela esticou as mãos para os antebraços dele para se estabilizar.
— Você veio me buscar.
Ele abriu um sorriso largo, parecendo um herói altruísta e ousado.
— Não pareça tão surpresa. — Ele largou a bengala e puxou-a para um abraço apertado que a arrancou de Lobo e a ergueu do chão. — Acontece que você vale muito dinheiro no mercado negro.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!