7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e Nove

ENCOLHIDA POR CIMA DA AVÓ, SCARLET VIROU NA DIREÇÃO DO corredor. Fios velhos zumbiram acima e uma luz pálida inundou a cela. A porta ainda estava aberta, e as barras lançavam sombras finas no chão.
Seus olhos se ajustaram lentamente. Ela prendeu a respiração para ouvir melhor, mas os passos pararam. Ainda assim, havia alguém ali. Alguém estava se aproximando.
A mão da avó, enrolada em ataduras, alcançou a dela, e ela virou. Seu estômago se contraiu. Linhas de sangue seco cobriam o rosto maltratado, o cabelo estava embaraçado e sujo. Era pouco mais do que um esqueleto agora, embora os olhos castanhos ainda estivessem fortes e vibrantes. Ainda cheios de mais amor do que existia em todo o resto do mundo.
— Corra — sussurrou ela.
Scarlet balançou a cabeça.
— Não vou abandonar você.
— Essa luta não é sua. Corra, Scarlet. Agora.
Passos de novo, chegando mais perto.
Scarlet trincou os dentes e ficou de pé, as pernas trêmulas, de frente para a porta. Seu coração estava disparado, esperando os passos se aproximarem.
Talvez fosse Lobo.
Vindo ajudá-la, vindo ajudá-las.
Estava tonta pela velocidade de sua pulsação, incapaz de acreditar que queria vê-lo de novo, depois de tudo que havia feito com ela.
Mas tinha lhe dado o chip. E era forte o bastante para carregar sua avó. Se fosse Lobo voltando para ela, as duas estariam salvas...
Viu a sombra no chão antes que o homem pisasse na entrada da cela.
Era Ran, e estava sorrindo.
Scarlet engoliu em seco e firmou os joelhos, determinada a não demonstrar o medo. Mas havia alguma coisa de diferente em Ran agora. Os olhos não estavam apenas cruéis; agora estavam famintos, olhando para Scarlet como se ela fosse um alimento que desejava havia muito tempo.
— Ah, raposinha. E como foi que você saiu da sua cela?
Um tremor percorreu o corpo dela.
— Deixe minha neta em paz. — A voz rouca da avó tinha recuperado um traço de força. Ela se mexeu, tentando se erguer.
Scarlet se sentou ao lado dela e apertou a mão da avó.
— Grand-mère... não.
— Eu me lembro de você. — Michelle encarou Ran. — Você estava com os que foram me buscar.
— Grand-mère...
Ran riu.
— Uma memória afiada para uma coisa tão antiga.
— Não se preocupe com ele, Scarlet. Ele é só o ômega. Deve ter sido deixado para trás, porque é fraco demais para entrar na batalha.
Ran rosnou, deixando os caninos protuberantes à mostra, e Scarlet se encolheu.
— Eu fiquei para trás — rosnou — porque tenho negócios a concluir aqui. — Os olhos dele brilharam. Não havia nada além de ódio neles, incandescente e descontrolado.
Scarlet se moveu de forma a esconder melhor a avó com o corpo.
— Você não é nada — disse Michelle, com as pálpebras se fechando de exaustão. O pavor tomou conta do coração de Scarlet. — Nada além de uma marionete daquele taumaturgo. Tiraram seu dom e transformaram vocês todos em monstros, mas, mesmo com toda a força, com os sentidos apurados, toda a sede de sangue, você é o mais baixo de seu grupo, e sempre será.
A mente de Scarlet era um turbilhão. Queria encerrar a conversa, queria que a avó parasse de provocá-lo, mas sabia que não fazia diferença. Havia morte no rosto de Ran.
Uma gargalhada rouca explodiu de dentro dele. As mãos seguraram o batente da porta, seu corpo bloqueando totalmente a passagem.
— Você está errada, sua velha. Já que sabe tanto, deve saber o que acontece com um integrante da matilha que mata seu alfa, não? — Não esperou resposta. — Ele toma o lugar do alfa. — Covinhas surgiram em suas bochechas. — E descobri que meu irmão, meu alfa, tem uma fraqueza. — As palavras foram emitidas na mesma hora em que seu olhar pousou em Scarlet de novo.
— Você é um jovem ingênuo. — A avó tossiu. — Você é fraco. Nunca vai ser mais do que um ômega desprezível. Até eu consigo ver isso.
Scarlet sibilou. Conseguia ver a fúria crescendo dentro de Ran, conseguia sentir a raiva emanando dele.
— Grand-mère!
Então, ficou claro o que a avó estava tentando fazer.
— Não! Ela não está falando sério. — Teve ódio de si mesma por implorar, mas não ligava. — Ela está velha, está delirando! Apenas deixe-a...
Ran entrou espumando na cela, agarrou Scarlet pelo cabelo e a afastou da avó.
Gritando, enfiou as unhas no antebraço dele, mas foi jogada no canto.
— Não!
A avó gritou de dor quando Ran a levantou pelo pescoço. Em um piscar de olhos, ela estava presa na parede, fraca demais para se debater, para lutar, para oferecer alguma resistência.
— DEIXE-A EM PAZ! — Scarlet ficou de pé e pulou nas costas de Ran, prendendo os cotovelos ao redor do pescoço dele, apertando com toda força. Quando percebeu que Ran nem tremeu, ela enfiou as unhas nele, pretendendo acertar os olhos.
Ran uivou e largou a avó de qualquer jeito no chão, depois jogou Scarlet para longe. Ela bateu na parede, mas quase não sentiu o impacto, pois estava prestando atenção na forma inerte e enfaixada da avó.
— Grand-mère!
Seus olhares se encontraram e ela conseguiu ver, em um instante, que a avó não voltaria a se mexer. Seus lábios conseguiram formular:
— Cor...
Mas não houve mais nada. Os olhos permaneceram abertos, assustadoramente vazios.
Scarlet se lançou para a parede, mas Ran chegou lá primeiro, o corpo enorme esmagando o da avó, passando a mão pela lombar dela de forma que a cabeça caiu pesadamente no chão.
Como um animal faminto ao derrubar sua primeira presa, Ran se inclinou e enfiou os dentes no pescoço de Michelle.
Scarlet gritou e caiu para trás. O mundo girou com a visão do sangue e de Ran agachado, de quatro.
A acusação da avó ecoou na mente dela. Transformaram vocês todos em monstros.
Ainda em estado de choque, ela se forçou a virar o rosto para longe e rolou para ficar de lado.
Seu estômago se revirou, mas não havia nada nele além de bile e saliva. Sentiu gosto de ferro, ácido e sangue e percebeu que tinha mordido a língua quando Ran a jogou na parede, mas não havia dor. Só vazio e horror, e uma nuvem preta se aproximando.
Ela não estava lá. Isso não estava acontecendo.
Com o estômago queimando por tentar expulsar a comida que não estava lá, rastejou até a parede mais distante, colocando o máximo de distância possível ente ela e Ran. Ran e a avó.
Sua mão caiu sob o raio de luz que entrava pelo corredor. Sua pele estava pálida e doentia.
Scarlet estava tremendo.
Corra.
Ergueu a cabeça e pôde ver o início de uma escada no final do corredor. Ao lado, havia uma placa pintada e muito desgastada. Para o palco.
Corra.
O cérebro dela lutava para encontrar o significado das palavras. Para o palco. Palco. Palco. As últimas palavras da avó.
Corra!
Ela se inclinou para a frente, envolveu as barras da cela com os dedos e usou-as como apoio. Lutou para se levantar. Para ficar de pé. Para seguir em frente, para o corredor, para a luz.
Suas pernas pareciam não existir a princípio, quando Scarlet mancou até o pé da escada, mas, enquanto subia, encontrou forças. Obrigou-se a seguir em frente. Correu.
Uma porta fechada surgiu no alto da escada, uma porta velha de madeira sem escâner de identificação. A porta gemeu quando se abriu.
Ouviu passos abaixo, vindo atrás dela.
Scarlet saiu nos bastidores. Pilares velhos se amontoavam à direita, e um labirinto de muros falsos de pedra e árvores pintadas preenchiam as sombras à esquerda. A porta bateu às suas costas, e Scarlet correu para a floresta de madeira, pegando um candelabro de ferro fundido no caminho.
Ela o levantou com as duas mãos e esperou, com os pés firmados no chão.
Ran explodiu pela porta, com o queixo coberto de sangue.
Scarlet bateu com o máximo de força que conseguiu. Um rugido saiu dos seus lábios quando a barra de ferro acertou o crânio de Ran.
Ele gritou e cambaleou para trás, até a cortina. Tropeçou no tecido e caiu de costas.
Scarlet jogou o candelabro nele, sem saber se tinha a força necessária para erguê-lo de novo. Ouviu um tecido se rasgando, mas já estava correndo, desviando das peças de cenário, observando o piso de madeira rachado enquanto corria por entre fios enrolados e poeirentos e holofotes caídos. Cambaleou até o palco, passou pela área vazia de piso de madeira e alçapões, e meio pulou, meio caiu na orquestra fantasma. Ignorando uma pontada de dor que surgiu no joelho, empurrou os suportes de partitura e correu para o auditório.
Passos soaram no palco atrás dela. Tão rápidos que pareciam sobrenaturais.
As fileiras de cadeiras vazias pareciam voar, e tudo que ela conseguia ver era a porta à frente.
Ele pegou-a pelo capuz.
Scarlet deixou que a puxasse para trás, usando o impulso para virar e mirar o joelho na virilha dele.
Ele soltou um grito de dor e cambaleou.
Scarlet correu pelos arcos de mármore em ruínas, passou pelos querubins com braços quebrados, pelos candelabros destruídos e atravessou o piso quebrado. Voou pela escada de mármore, concentrada nas portas enormes que levariam à rua. Se ao menos conseguisse chegar lá fora. Num lugar público. No mundo real.
Quando chegou ao saguão, a silhueta de outro homem surgiu na saída.
Seus pés escorregaram até pararem no quadrado pálido de luz do sol que entrava pela claraboia no teto.
Scarlet girou e correu para a outra escadaria, a que levava para o interior do teatro da ópera. Acima, uma porta bateu e ela ouviu passos, mas não conseguiu identificar se pertenciam a uma ou duas pessoas.
As costas da blusa estavam cobertas de suor. Suas pernas doíam e a explosão de adrenalina estava se desfazendo.
Dobrou uma esquina e foi parar em uma área tomada de escuridão. O aposento principal era usado no passado para convidados importantes do teatro da ópera, e uma série de portas e corredores conduzia a cada canto do subsolo. Scarlet sabia que os corredores à direita levariam de volta às celas da prisão, então virou à esquerda. Um chafariz seco ocupava o espaço entre as duas escadarias que levavam ao andar de cima. A estátua de bronze de uma dama seminua ficava em uma alcova em cima de um pedestal, uma das poucas estátuas que pareciam ter sobrevivido a tantos anos de abandono.
Scarlet correu para a escadaria oposta, se perguntando se voltar para o saguão seria suicídio, mas sabendo que ficar presa ali embaixo não era uma alternativa.
Chegou ao começo da escada e seu pé bateu na beirada da base do chafariz. Ela tropeçou e deu um grito.
Ran estava em cima dela antes que caísse no chão.
Unhas afundaram em seu ombro, virando-a de costas para o chão nos azulejos quebrados do chafariz seco. Olhou nos olhos cintilantes dele, os olhos de um louco, de um assassino, e se lembrou de Lobo na luta.
O medo apertou sua garganta e ela estrangulou um grito.
Ele agarrou sua blusa e a ergueu do chão. Ela segurou os pulsos dele, mas estava apavorada demais para lutar quando ele aproximou o rosto do dela. Scarlet quase vomitou com o fedor do hálito, de carne podre e sangue, muito sangue, da avó...
— Se não fosse um pensamento tão repulsivo, eu poderia me aproveitar de você aqui, agora que estamos sozinhos — disse, e Scarlet tremeu. — Só para ver a expressão na cara do meu irmão quando eu lhe contasse. — Com um rugido, a jogou em cima da estátua.
As costas dela bateram no pedestal de bronze, e a dor explodiu na cabeça, deixando-a sem fôlego. Caiu no chão com a mão no peito, tentando encher os pulmões de ar novamente.
Ran se agachou à sua frente, pronto para atacar. Passou a língua pelos caninos e os cobriu com uma camada de saliva.
O estômago dela deu um nó. Scarlet moveu os pés em uma tentativa de se impulsionar para o espaço estreito entre a estátua e a parede. Para desaparecer. Para se esconder.
Ele saltou.
Ela se encolheu na parede, mas o impacto não aconteceu.
Scarlet ouviu um grito de ataque seguido de um baque surdo. Rosnados.
Ela baixou os braços trêmulos. No meio do aposento, duas formas estavam entrelaçadas. Maxilares estalavam. O sangue pingava em músculos fortes.
Com a vista borrada, ela conseguiu respirar mais devagar, satisfeita ao sentir o peito se expandir. Esticou a mão, segurou a estátua e tentou se levantar, mas os músculos das costas protestaram.
Trincando os dentes, ela se forçou a encolher as pernas sob o corpo e lutou contra a dor até conseguir ficar de pé, ofegando e suando junto à deusa de bronze.
Se conseguisse fugir antes de a luta acabar...
Ran prendeu o outro homem em uma gravata. Os olhos cintilantes de esmeralda do oponente observaram Scarlet por um momento de parar o coração antes de ele girar Ran por cima da cabeça.
O chão vibrou com o impacto, mas Scarlet quase não sentiu.
Lobo.
Era Lobo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!