7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e Dois

OS PÉS DE CINDER ESTAVAM PRESOS AO CHÃO ENQUANTO ELA OBSERVAVA o aposento subterrâneo. Não conseguia afastar a visão de si mesma aos onze anos deitada naquela mesa de cirurgia enquanto cirurgiões desconhecidos cortavam e costuravam pedaços de seu corpo a estranhos membros de aço. Fios no cérebro. Optobiônica atrás da retina. Tecido sintético no coração, vértebras novas, pele enxertada para cobrir cicatrizes.
Quanto tempo demorou? Por quanto tempo ela ficou inconsciente, dormindo naquele porão escuro?
Levana tentou matá-la quando Cinder tinha apenas três anos.
A operação foi concluída quando tinha onze.
Oito anos. Em um tanque, dormindo, sonhando e crescendo.
Não morta, mas também não viva.
Ela olhou para a marca da cabeça sob o vidro do tanque. Centenas de pequenos fios com transmissores neurais estavam presos às paredes, e uma pequena tela estava implantada na lateral. Não, não era uma tela, percebeu Cinder. Nenhum acesso à rede podia se infiltrar neste aposento. Nada que pudesse chegar à rainha Levana.
— Não entendi — disse Thorne, examinando os instrumentos cirúrgicos do outro lado do aposento. — O que você acha que fizeram com ela aqui?
Ela viu que não havia desconfiança no rosto dele, só curiosidade.
— Bem — começou —, programaram e implantaram o chip de identificação dela, pra começar.
Thorne balançou um bisturi para ela.
— Bem pensado. É claro que ela não teria o dela quando voltou pra Terra. — Ele indicou o tanque. — E aquilo tudo?
Cinder segurou as beiradas do tanque para firmar as mãos.
— As queimaduras deviam ser graves, talvez até quase fatais. A prioridade seria mantê-la viva, mas também deixá-la escondida. A animação suspensa resolveria os dois problemas. — Bateu com um dedo no vidro. — Esses transmissores devem ter sido usados para estimular o cérebro enquanto ela dormia. Ela não podia ter uma vida nem aprender como uma criança normal, então tiveram que compensar com aprendizado falso. Experiências falsas.
Ela mordeu o lábio e ficou em silêncio antes de mencionar o sistema de rede implantado no cérebro da princesa, que era uma maneira eficiente de saber quando finalmente fosse despertada, sem que soubesse de nada daquilo.
Era fácil falar sobre a princesa como se fosse outra pessoa. Cinder não conseguia parar de pensar que era outra pessoa. A garota que dormiu naquele tanque era uma pessoa diferente do ciborgue que acordou nele.
Ocorreu a Cinder com um tremor que era por isso que não tinha lembranças. Não porque os cirurgiões danificaram o cérebro dela quando foram inserir o painel de controle, mas porque ela nunca esteve acordada para criá-las.
Se pensasse no passado, será que conseguiria se lembrar de alguma coisa de antes do coma? De alguma coisa da primeira infância? Então, ela se lembrou do sonho recorrente. A cama de carvão, o fogo queimando em sua pele, e se deu conta de que devia ser mais lembrança do que pesadelo.
— Tela, ligar.
As duas telas acima da mesa de cirurgia se acenderam à ordem de Thorne. A da esquerda mostrou uma holografia de um tórax dos ombros, girando e piscando no ar. O coração de Cinder deu um salto, achando que era ela, até observar a segunda tela.

PACIENTE: MICHELLE BENOIT
CIRURGIA: MEDULA E SISTEMA NERVOSO
BLOQUEIO DE SEGURANÇA DE BIOELETRICIDADE.
PROTÓTIPO 4.6
STATUS: COMPLETA

Cinder se aproximou da holografia. Os ombros eram delicados e femininos, mas nada podia ser visto acima da linha do maxilar.
— O que é bloqueio de segurança de bioeletricidade?
Cinder apontou para a holografia quando estava girando para longe, e um ponto escuro e quadrado apareceu na medula, bem abaixo do crânio.
— Isso. Eu também tinha um, para não usar meu dom lunar por acidente quando era pequena. Em um terráqueo, faz com que você não possa sofrer lavagem cerebral pelos lunares. Se Michelle Benoit tinha mesmo informações sobre a princesa Selene, teria que se proteger, para o caso de cair em mãos lunares.
— Se temos tecnologia para anular a magia lunar, por que todo mundo não tem um desses?
Uma onda de tristeza tomou conta dela. O padrasto dela, Linh Garan, tinha inventado o bloqueio bioelétrico, mas morreu de peste antes de vê-lo passar do estágio de protótipo. Embora mal o tivesse conhecido, não conseguia deixar de sentir que a vida dele tinha sido interrompida cedo demais. Como as coisas poderiam ter sido diferentes se ele tivesse sobrevivido... E não só para Pearl e Peony , mas também para Cinder.
Ela suspirou, cansada de pensar, e disse simplesmente:
— Não sei.
Thorne resmungou:
— Bem, isso é uma prova, não é? A princesa esteve mesmo aqui.
Cinder observou o aposento de novo, prestando atenção nas mesas de maquinário. Nas ferramentas que a transformaram em ciborgue. Thorne não tinha reparado nelas ou ainda não tinha entendido para que foram usadas. A confissão estava na ponta da língua. Talvez ele devesse saber. Ele merecia saber com quem estava viajando. O verdadeiro perigo em que ela o colocava.
Mas, antes que pudesse falar, Thorne disse:
— Tela, mostre a princesa Selene.
Cinder girou, com a pulsação disparada, mas não foi uma versão dela com onze anos que estava em exibição. O que ela viu mal era reconhecível como humano.
Thorne cambaleou para trás, com a mão na boca.
— O quê...
O estômago de Cinder revirou antes de ela fechar os olhos, controlando a repulsa. Engolindo em seco, ousou olhar para a tela de novo.
Era a foto de uma criança.
O que havia sobrado de uma criança.
Estava enrolada em ataduras do pescoço até o cotoco da perna esquerda. O braço e o ombro direitos estavam descobertos e mostravam pele vermelha e ferida em certas partes, rosada e brilhosa em outras. Não tinha cabelo, e as marcas de queimadura subiam pelo pescoço até a bochecha. O lado esquerdo do rosto estava inchado e desfigurado, e só a abertura do olho podia ser vista. Uma linha de pontos ia do lóbulo da orelha até os lábios.
Cinder levou dedos, trêmulos, à boca, alisando a pele. Não havia cicatriz, não havia sinal daqueles ferimentos. Só algumas marcas ao redor da coxa e no pulso, onde as próteses foram presas.
Como a consertaram? Como conseguiram consertar aquilo?
Mas foi Thorne quem fez a verdadeira pergunta.
— Quem faria uma coisa dessas a uma criança?
A pele de Cinder se cobriu de arrepios. Não havia lembrança do sofrimento que aquelas queimaduras deviam ter causado nela. Não conseguia conectar a criança consigo mesma.
Mas a pergunta de Thorne ficou no ar, assombrando o aposento frio.
A rainha Levana tinha feito isso.
Com uma criança, pouco mais do que um bebê.
Com a própria sobrinha.
E tudo para governar. Para reivindicar o trono. Para ser rainha.
Cinder fechou os punhos nas laterais do corpo com o sangue fervendo. Thorne a estava observando com uma expressão igualmente sombria.
— Devíamos falar com Michelle Benoit — disse Thorne, colocando o bisturi na mesa.
Cinder soprou uma mecha de cabelo fora do rosto. O fantasma de seu eu criança pairava no ar, uma vítima lutando para permanecer viva. Quantas pessoas ajudaram a resgatá-la e protegê-la, guardaram seus segredos? Quantas arriscaram a vida porque acreditavam que a sua valia mais? Porque acreditavam que ela poderia crescer e virar uma pessoa poderosa o bastante para deter Levana.
Com os nervos arranhando o estômago, ela saiu com Thorne pelo armário, se certificando de fechar a porta escondida quando passou.
Quando saíram à luz do dia, a casa ainda estava estranhamente imóvel e silenciosa atrás de um pequeno jardim. A Rampion parecia enorme e deslocada no campo.
Thorne verificou o tablet, e sua voz estava tensa quando disse:
— Ela não se mexeu desde que chegamos aqui.
Ele não tentou disfarçar os passos no cascalho. Bateu na porta da frente, e cada batida ecoou no pátio. Esperaram o som de passos lá dentro, mas só o som das galinhas no quintal os recebeu.
Thorne verificou a maçaneta e a porta destrancada se abriu.
Ele entrou no saguão e olhou para a escada de madeira. À direita havia uma sala de estar cheia de mobília gasta. À esquerda, uma cozinha com pratos sujos na mesa. Todas as luzes estavam apagadas.
— Olá? — gritou. — Srta. Benoit?
Cinder ligou a rede e rastreou o sinal até o chip de identificação de Michelle Benoit.
— O sinal vem lá de cima — sussurrou. A escada gemeu sob o peso da perna de metal.
Pequenas telas ocupavam a parede, revezando fotos de uma mulher de meia-idade de uniforme de piloto e uma garota de cabelos ruivos. Embora fosse gorducha e coberta de sardas quando criança, as fotos dela mais velha mostravam-na lindíssima, e Thorne falou baixinho quando passou:
— Olá, Scarlet.
— Srta. Benoit? — repetiu Cinder. Ou a mulher dormia muito profundamente ou eles estavam prestes a dar de cara com alguma coisa que Cinder tinha certeza de que não queria ver. A mão dela tremeu quando empurrou a primeira porta depois da escada, se preparando para não gritar se visse um corpo em decomposição caído na cama.
Mas não havia corpo.
O quarto estava tão bagunçado quanto o hangar. Havia sapatos e roupas, enfeites e cobertores, mas nenhum ser humano. Nenhum cadáver.
— Olá?
Cinder olhou ao redor e viu a penteadeira ao lado da janela. Seu coração se apertou. Andou até lá, pegou o pequeno chip e segurou para Thorne ver.
— O que é isso? — perguntou ele.
— Michelle Benoit — respondeu ela. Suspirando, desligou a rede.
— Quer dizer... que ela não está aqui?
— Tente acompanhar os acontecimentos, cara — resmungou Cinder e passou por ele em direção ao corredor. Colocou os punhos nos quadris e observou a outra porta fechada; sem dúvida, outro quarto.
A casa estava abandonada. Michelle Benoit não estava ali, nem sua neta. Ninguém podia dar respostas.
— Como rastreamos uma pessoa sem chip de identificação?
— Não rastreamos — respondeu. — É por isso que as pessoas tiram.
— Devíamos falar com os vizinhos. Talvez eles saibam de alguma coisa.
Cinder gemeu.
— Não vamos falar com ninguém. Ainda somos fugitivos, caso você tenha se esquecido. — Ela olhou para as fotos em sequência. Michelle Benoit e uma jovem Scarlet ajoelhada toda orgulhosa ao lado de um canteiro recém-plantado.
— Venha — disse, limpando as mãos como se tivesse sido ela a cavar na terra. — Vamos sair daqui antes que a Rampion atraia atenção. — As tábuas do piso estalavam sob seus pés conforme Cinder descia a escada e dobrava o primeiro patamar.
A porta da frente se abriu.
Cinder ficou paralisada.
Uma menina bonita de cachos cor de mel estava congelada na frente dela.
Os olhos da menina se arregalaram, primeiro de surpresa, depois de reconhecimento. Eles desceram até a mão ciborgue de Cinder, e a cor sumiu do seu rosto.
— Bonjour, mademoiselle — cumprimentou Thorne.
A menina olhou para Thorne. Em seguida, os olhos se reviraram e ela caiu no chão.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!