20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e dois

Cinder estava ficando louca. Eles estavam escondidos no casebre de Maha Kesley havia dias. Lobo e a mãe, Thorne, Iko e ela, todos apertados em cômodos pequenininhos, tropeçando uns nos outros cada vez que tentavam se mexer. Se bem que eles não se mexiam muito. Não havia para onde ir. Eles tinham medo de serem ouvidos pelas janelas pequenas sem vidraça, então se comunicavam basicamente por sinais com as mãos e mensagens digitadas no tablet que restava. O silêncio era horrendo. A quietude era sufocante. A espera era uma agonia.
Ela pensava com frequência em Cress e Scarlet, e se perguntava se alguma das duas estava viva.
Estava preocupada com Kai conforme o casamento se aproximava.
Havia culpa também. Além de terem colocado Maha em perigo só por estarem ali, eles também estavam comendo comida demais, pois já tinham acabado com os poucos pacotes de provisões que tinham levado. Maha não dizia nada, mas Cinder percebia. A comida era muito racionada nos setores externos, e Maha mal conseguia se alimentar.
Eles passavam os dias tentando reestruturar o plano, mas depois de tanto planejamento a bordo da Rampion, Cinder estava desanimada de voltar à estaca zero. O vídeo que eles gravaram continuava sem uso; havia cópias baixadas não só no tablet, mas também nos computadores internos de Cinder e Iko. Não importava quantas cópias eles tinham. Sem Cress junto para hackear o sistema de transmissão, o vídeo era inútil.
Eles discutiram iniciar um movimento popular. Maha Kesley poderia espalhar a notícia da volta de Selene para os trabalhadores da mina e deixar que o boato se propagasse a partir daí. Ou eles poderiam enviar mensageiros pelos túneis para rabiscar mensagens nas paredes. Mas eram estratégias lentas, com risco demais de erros de comunicação e pouca chance de que a notícia chegasse longe.
Havia um motivo para Levana manter seu povo em grupos isolados. Havia um motivo para ninguém ainda ter tentado uma rebelião coesa, e não era por não querer. Estava claro pela propaganda do governo que Levana e seus ancestrais procuraram fazer lavagem cerebral no povo de Luna, para que acreditasse que o governo dela era justo e predestinado. Ficava igualmente claro pelas pichações nos túneis e pelos olhares baixos das pessoas que elas não acreditavam mais — se é que já tinham acreditado um dia.
Qualquer fagulha de rebelião foi sufocada e ameaçada até desaparecer das pessoas, mas, quanto mais lunares Cinder via, mais acreditava que podia reinflamá-los.
Só precisava de um jeito de falar com eles.
Maha foi até a plataforma do trem de levitação magnética esperar na fila pelos alimentos semanais e deixou o resto do grupo estudando um mapa holográfico de Luna.
Fazia mais de uma hora, mas poucas sugestões foram dadas.
Cinder estava começando a ficar sem esperança, e o tempo estava passando. Chegando perto do casamento. Da coroação. Da descoberta inevitável deles.
Um coro inesperado de sinos fez Cinder dar um pulo. O mapa sumiu e a transmissão foi sobreposta por uma mensagem obrigatória sendo transmitida da capital. Cinder sabia que a mesma mensagem estaria passando em uma dezena de telas inseridas no domo lá fora, para garantir que todos os cidadãos a vissem.
O taumaturgo-chefe Aimery Park apareceu na frente deles, lindo e arrogante. Cinder se encolheu. A holografia dava a impressão de que ele estava ali na sala com eles.
— Bom povo de Luna — disse ele —, parem o que estiverem fazendo e escutem esta declaração. Infelizmente, temos uma notícia trágica para dar. Hoje cedo, Sua Alteza Real, a princesa Winter Hayle-Blackburn, enteada de Sua Majestade a rainha, foi encontrada assassinada no jardim real.
Cinder franziu a testa e trocou olhares intrigados com os companheiros. Ela sabia muito pouco sobre a princesa, só que diziam que era bonita e que o povo a amava, o que devia querer dizer que Levana a odiava. Ela tinha ouvido falar sobre o rosto com cicatrizes, uma punição dada pela própria rainha, ou era o que diziam os boatos.
— Estamos repassando as filmagens de segurança em uma tentativa de fazer justiça ao assassinato, e não vamos descansar enquanto nossa amada princesa não for vingada. Embora nossa devotada rainha esteja arrasada com a perda, ela quer seguir em frente com a cerimônia de casamento, como planejado, para que tenhamos uma alegria neste momento de tristeza. Uma procissão funerária para Sua Alteza será marcada nas semanas futuras. A princesa Winter Hayle-Blackburn fará falta a todos nós, mas jamais será esquecida.
O rosto de Aimery desapareceu.
— Você acha que Levana a matou? — perguntou Iko.
— Claro que sim — disse Cinder. — Queria saber o que a princesa fez para irritá-la.
Thorne cruzou os braços.
— Acho que não se precisa fazer nada para conquistar a fúria de Levana.
Ele estava desgrenhado e com a barba por fazer e parecia cansado, mais ainda do que no dia que Cinder o conheceu na prisão de Nova Pequim. Apesar de ninguém ter ousado falar sobre o abandono a Cress, Cinder sabia que ele estava tendo mais dificuldade com a perda dela do que os outros. Ela percebeu desde o momento em que eles se reencontraram em Farafrah que Thorne sentia responsabilidade por Cress, mas pela primeira vez estava começando a se perguntar se as coisas não eram mais profundas do que isso.
Lobo levantou a cabeça de repente e fixou o olhar na janela coberta por um pedaço de tecido.
Cinder ficou rígida e se preparou para carregar uma bala no dedo ou para usar seu dom lunar para defender a si mesma e aos amigos, conter essa ameaça invisível. Sentiu a tensão crescer. Todo mundo ficou em silêncio e observou Lobo.
O nariz dele tremeu. A testa se franziu, em dúvida. Desconfiada.
— Lobo? — disse Cinder.
Ele farejou de novo e seus olhos se iluminaram.
De repente, ele sumiu; passou correndo pelo grupo e abriu a porta da frente.
Cinder ficou de pé.
— Lobo! O que você…
Tarde demais. A porta bateu e ele já estava lá fora. Ela falou um palavrão. Aquela não era a hora para seu aliado lobo mutante sair correndo por aí chamando atenção.
Ela calçou as botas para ir atrás dele.


Scarlet pousou a nave em um pequeno porto subterrâneo que só abrigava duas naves antigas de entrega. Quando a câmara foi selada, duas lâmpadas cegantes se acenderam no teto, uma delas com um tremeluzir esporádico. Scarlet saiu primeiro, observou cada canto e inspecionou embaixo de cada nave. Tudo vazio.
Havia dois elevadores de carga enormes e três escadarias levando à superfície, com letreiros indicando MR-8, MR-9, MR-11.
Todas as superfícies estavam cobertas de poeira.
— Você vem? — perguntou ela para Winter, que já tinha chegado à porta da nave. O cabelo da princesa estava todo embaraçado e a saia estava cheia de sangue seco. A toalha que elas roubaram tinha escorregado até os ombros dela. A fuga encheu Scarlet de adrenalina, mas deixou Winter esgotada. A cabeça dela estava frouxa quando saiu da nave.
Scarlet colocou as mãos nos quadris, com a paciência levada ao limite.
— Vou ter que carregar você?
Winter balançou a cabeça.
— Acha que nós não fomos seguidas?
— Espero que ninguém tenha descoberto que estamos desaparecidas. — Scarlet leu as placas de novo, com as letras quase indetectáveis embaixo da poeira. — Não que tenhamos muitas opções agora, mesmo que tivéssemos sido seguidas.
Scarlet se virou e apertou a toalha na cintura de Winter, para que parecesse uma saia desengonçada e cobrisse o sangue, depois tirou o casaco e ajudou Winter a enfiar os braços nas mangas. Enfiou o cabelo volumoso da princesa dentro do casaco nas costas e escondeu o rosto com o capuz da melhor maneira que conseguiu.
— Não está ótimo, mas está melhor do que nada.
— Você acha que ele já está morto?
Scarlet parou no meio de fechar o zíper do casaco. Winter olhou para ela, com expressão frágil e vulnerável.
Ela suspirou.
— Ele é inteligente e é forte. Vai ficar bem. — Ela fechou o zíper até o pescoço de Winter. — Venha.
Quando elas saíram na superfície, protegidas embaixo do domo gigantesco, Scarlet parou para ver onde estava. Tinha pesquisado o endereço dos Kesley na base de dados da nave, mas as séries de números e letras não faziam sentido para ela.
O porto era feito para carga, e aquela entrada ficava entre dois armazéns, uma parede cheia de carrinhos lotados até o alto com pedras pretas lascadas. Não muito longe, havia uma abertura enorme para o que parecia uma mina ou pedreira. Mineração de regolito, dizia o mapa do setor.
Os pais de Lobo eram mineiros? Lobo teria se tornado mineiro também se não tivesse sido convocado para o exército? Era impossível imaginar uma vida na qual ele morasse ali, naquela Lua, embaixo daquele domo, sem nunca ir à Terra. Sem conhecê-la.
— Este local não parece ser residencial — murmurou ela.
— As residências costumam ficar nos anéis externos de cada setor — disse Winter.
— Anéis externos. Certo. — Scarlet observou os armazéns retangulares. — Para que lado fica isso?
Winter apontou para o domo que as cobria. Mesmo sem os prédios ao redor, estava claro onde ficava o ponto mais alto do domo e onde se arredondava, perto das beiradas.
Scarlet virou de costas para o centro do domo.
Enquanto andavam, ela tentou montar um plano. Primeiro, encontrar onde as pessoas moravam. Segundo, descobrir como eram os endereços das casas e encontrar a dos pais de Lobo. Terceiro, desenvolver uma conversa esquisita na qual ela ia tentar explicar quem era e por que eles precisavam abrigar a ela e Winter.
Quando as construções industriais deram lugar às casas instáveis, Scarlet ficou aliviada de ver números de endereços pintados no concreto em frente a cada construção, apagados após anos sendo pisoteados.
— A-49, A-50 — murmurou ela baixinho, acelerando o passo. O círculo de casas seguinte tinha a letra B. — É bem fácil. A casa dos Kesley era D-313, certo? Então, vamos até a fileira dos e…
Ela olhou para trás.
Winter tinha sumido.
Scarlet falou um palavrão e deu uma volta inteira, mas não havia sinal da princesa.
— Isso não pode ser sério — resmungou ela, refazendo os passos. Estava tão concentrada em encontrar a casa que não se lembrava de ouvir Winter ao seu lado desde que deixou os armazéns para trás. Ela devia ter saído vagando, levada por alguma alucinação…
Scarlet parou ao ver a princesa em uma viela. Ela estava entre duas fábricas, hipnotizada por um duto de metal que se projetava de uma das construções. Pedras brancas quebradas caíam dele em um carrinho embaixo.
O capuz vermelho ainda estava puxado por cima do rosto da princesa, e uma nuvem de poeira girava ao seu redor, mas ela não pareceu reparar.
Bufando, Scarlet empertigou os ombros e começou a andar na direção dela, pronta para arrastar a garota maluca pelo cabelo se precisasse. Mas não tinha atravessado metade da distância quando Winter virou a cabeça para o outro lado, para longe de Scarlet.
Scarlet foi mais devagar, sentindo o medo latejar no corpo ao também ouvir passos. Passos altos, como se alguém estivesse correndo a toda a velocidade na direção delas.
Ela pegou a faca que Jacin lhe tinha dado.
— Winter — sibilou ela… mas ou ela estava longe demais ou o barulho das pedras e das máquinas estava alto demais. — Winter!
Um homem dobrou a esquina, correndo na direção da princesa. Winter ficou com o corpo rígido meio segundo antes de ele chegar nela. Segurando o cotovelo de Winter, ele puxou o capuz vermelho para trás.
Scarlet sufocou um grito. Seus joelhos ficaram frouxos. O homem olhou para Winter com uma mistura de confusão e decepção, talvez até raiva, tudo preso em olhos tão vividamente verdes que Scarlet os via brilhando de onde estava.
Era ela quem estava tendo uma alucinação.
Deu um passo cambaleado e incerto para a frente. Queria correr para ele, mas morria de medo de ser um truque. Sua mão apertou o cabo da faca enquanto Lobo, ignorando que Winter estava tentando se afastar, puxava seu braço e farejava a manga vermelha imunda do casaco de Scarlet, manchado de sujeira e sangue.
Ele rosnou, pronto para fazer a princesa em pedacinhos.
— Onde você conseguiu isso?
Tão desesperado, tão determinado, tão ele. A faca escorregou da mão de Scarlet.
A atenção de Lobo se desviou para ela.
— Lobo? — sussurrou ela.
Os olhos dele se iluminaram, selvagens e esperançosos.
Soltando Winter, ele seguiu em frente. Os olhos agitados se concentraram nela.
Devoraram o que viam.
Quando ele estava ao alcance dela, Scarlet quase desabou, mas no último momento teve a presença de espírito de dar um passo para trás. Ela colocou a mão no peito dele.
Lobo parou, mágoa surgindo no rosto.
— Desculpe — disse Scarlet, com a voz tremendo de exaustão. — É que… estou tão fedida que quase não consigo me aguentar agora, então nem imagino como é para você e seu sentido de olfa…
Afastando a mão de Scarlet de seu peito, Lobo enfiou os dedos no cabelo da garota e apertou a boca na dela. Os protestos de Scarlet morreram num suspiro abafado.
Desta vez ela desabou, as pernas não conseguindo mais sustentá-la. Lobo caiu junto, ficou de joelhos para amenizar a queda de Scarlet e aninhou o corpo dela ao seu.
Ele estava aqui. Ele estava aqui.
Ela estava chorando quando se separou dele; parte dela odiou isso, e a outra parte sentia que já tinha passado da hora.
— Como?
— Eu senti seu cheiro. — Lobo estava sorrindo tanto que ela via os dentes afiados que ele normalmente tentava esconder. Fazia muito tempo que ela não o via tão feliz. Na verdade… ela não sabia se já o tinha visto tão feliz.
Ela começou a rir, embora fosse uma gargalhada vinda do delírio.
— Claro que sentiu — disse ela. — Preciso muito de um banho.
Ele afastou um cacho do cabelo sujo de Scarlet da bochecha dela e seguiu o gesto com os olhos, ainda sorrindo. Passou o polegar pelo ombro dela, pelo braço, e levantou uma das mãos de Scarlet, a que tinha o curativo no dedo. Um momento de fúria enfraqueceu o sorriso dele, mas foi breve, e logo Lobo estava examinando o rosto dela de novo.
— Scarlet — sussurrou ele. — Scarlet.
Com um soluço, ela apoiou a cabeça no pescoço dele.
— Se isso for um truque lunar, eu vou ficar furiosa.
Um polegar roçou a orelha dela.
— Você os chamou de porcos.
Ela franziu a testa.
— O quê?
Lobo se afastou e segurou o rosto dela com as mãos gigantes, ainda sorrindo.
— Na taverna em Rieux, quando todos aqueles homens estavam fazendo piada sobre Cinder no baile. Você os chamou de porcos e subiu no bar e a defendeu apesar de ela ser lunar, e foi naquele momento que comecei a me apaixonar por você.
As bochechas dela ficaram quentes.
— Por que você…?
— Nenhum lunar saberia disso. — Seu sorriso ficou malicioso. — Então, não posso ser um truque lunar.
Ela abriu os lábios ao compreender, e outro soluço virou uma gargalhada.
— Você está certo. — Ela pensou em uma época antes de saber sobre soldados mutantes e uma princesa lunar desaparecida. — Quando você foi até a fazenda e achei que teria que atirar em você. Você me mandou mirar no tronco porque o alvo era maior, depois riu quando eu falei que sua cabeça me parecia grande o bastante. — Ela afundou os dedos na camisa dele. — Foi quando eu…
Ele a beijou de novo e seus corpos se uniram.
Um assobio agudo soou em meio ao barulho das pedras, assustando-a. Quando se afastou, ela viu Cinder e Thorne, a fonte do assobio, junto com uma garota de pele escura com cabelo azul, as mãos encostadas nas bochechas com expressão sonhadora.
Era uma visão tão incrível que Scarlet começou a chorar de novo. Soltando-se dos braços de Lobo, ela se levantou. Ele logo se juntou a ela, um braço ao redor de seus ombros.
— Não acredito. Vocês estão aqui. Em Luna.
— Nós estamos aqui — concordou Thorne. — E se você tivesse se dado ao trabalho de avisar, a gente teria trazido um lanche. — Ele observou o corpo dela. — Quando foi a última vez que você comeu?
Scarlet olhou para baixo. As roupas pareciam penduradas nos ossos, os músculos murchos até não ter sobrado quase nada na gaiola apertada. Mesmo assim, ele não precisava ter comentado.
— Você está linda — disse a garota de cabelo azul. — Um pouco maltratada, talvez, mas dá mais personalidade.
— Hã, obrigada — disse Scarlet, secando as lágrimas das bochechas. — E você é…?
A garota se balançou.
— Sou eu, Iko! O capitão conseguiu um corpo para mim.
Scarlet ergueu as sobrancelhas. Aquela era Iko? A espaçonave?
Antes que ela respondesse, uma voz doce cantarolou pela viela.
— Os papagaios cantam, tuí, tuí, e as estrelas brilham a noite toda…
Quatro pares de olhos se viraram para o carrinho cheio de pedras brancas cintilantes, e o duto saindo do prédio estava em silêncio. Em algum momento, Winter entrou atrás dele, se enfiando entre o carrinho e a parede. Scarlet via o topo do capuz vermelho por cima do cabelo de Winter.
— E os macaquinhos brincam, ee-ee-ee, enquanto foguetes passam voando…
Cinder se aproximou do carrinho com a testa franzida e o empurrou. Winter estava encolhida de lado, de frente para a parede, fazendo desenhos na poeira. A toalha de mesa tinha caído e deixava à mostra a saia coberta de sangue.
— E a Terra está cheia esta noite, esta noite, e os lobos todos uivam, auuuuu…
O uivo delicado foi morrendo.
Scarlet sentia os olhares curiosos de todo mundo indo dela para a princesa. Ela limpou a garganta.
— Ela é inofensiva — disse ela. — Tenho quase certeza.
Winter se deitou de costas e olhou para Cinder de cabeça para baixo.
Cinder arregalou os olhos. Os outros se aproximaram.
Depois de piscar três vezes, devagar, Winter se deitou de barriga para baixo e ficou de joelhos. Puxou o capuz e deixou o cabelo cair nos ombros.
— Oi.
Scarlet começou a rir de novo. Ela se lembrou de como foi ver a princesa pela primeira vez. Os lábios carnudos, os ombros delicados, os olhos enormes com manchas cinzentas, tudo ao lado das cicatrizes inesperadas na bochecha direita, que deviam deixá-la menos linda, mas não deixavam.
Ocorreu a Scarlet que Lobo não parecera reparar. Ela sentiu uma pontada de orgulho.
— Estrelas — sussurrou Iko. — Você é linda.
Um clique alto ecoou na viela.
— Pare com o glamour — exigiu Thorne, apontando uma arma para a princesa.
A pulsação de Cinder deu um salto.
— Espere… — começou ela, mas Cinder já tinha colocado a mão no pulso dele e estava empurrando a arma para baixo.
— Não é glamour — disse Cinder.
— Sério? — Thorne se inclinou na direção de Cinder e sussurrou: — Tem certeza?
— Tenho.
A declaração foi seguida de um silêncio longo e carregado, durante o qual Winter deu o mais doce sorriso para cada um deles.
Thorne acionou a trava de segurança da arma e guardou no coldre.
— Santas espadas, vocês lunares têm genes ótimos. — Uma pausa constrangida veio em seguida, e ele acrescentou: — Quem é ela?
— Esta é Winter — disse Scarlet. — A princesa Winter.
Thorne riu e levantou a mão no ar.
— Estamos abrindo um lar para realeza desabrigada aqui, por acaso?
— A princesa Winter? — disse Cinder. — Acabaram de anunciar que você foi assassinada.
— Jacin forjou o assassinato — disse Scarlet. — E nos ajudou a fugir.
Cinder olhou para ela com surpresa.
— Jacin?
Scarlet assentiu.
— O guarda que nos atacou na Rampion.
A expressão de Cinder foi encoberta por uma sombra. Ela afastou o olhar.
— Ela é tão linda. — Iko suspirou e tateou o próprio rosto para comparar.
Scarlet fez cara feia.
— Ela consegue ouvir.
Inclinando a cabeça, Winter esticou a mão para Thorne. Ele arregalou os olhos, e isso pareceu uma resposta automática que a fez ficar de pé.
Ele estava corando quando Winter afastou a mão e ajeitou a saia.
— Vocês são todos muito gentis — disse ela, mas sua atenção se voltou para Cinder. Ela observou a ciborgue com curiosidade. Cinder encolheu os ombros. — E você é minha prima desaparecida e querida amiga — continuou Winter. — Eu não acreditava até agora, mas é verdade. — Winter segurou as mãos de Cinder. — Você se lembra de mim?
Cinder balançou a cabeça devagar.
— Tudo bem — disse Winter, e a expressão dela dizia que estava tudo bem. — Minhas lembranças também estão enevoadas, e sou um ano mais velha. Mesmo assim, espero que possamos ser boas amigas de novo. — Ela entrelaçou os dedos com Cinder. — Esta mão é diferente — disse ela, levantando a que tinha placa de titânio. — É feita de cinzas?
— É feita de… desculpe, o quê?
— Não — disse Scarlet, balançando a mão. — Descobri que é melhor não perguntar.
A princesa sorriu de novo.
— Me perdoe. Você não é mais minha amiga e minha prima, e isso não é jeito de cumprimentar você. — Ela fez uma reverência de dançarina e deu um beijo nos dedos de metal de Cinder. — Minha rainha, é uma honra servir a você.
— Er… obrigada? — Cinder afastou a mão e escondeu nas costas. — É gentileza sua, mas você não precisa fazer isso. De novo. Nunca mais.
Thorne limpou a garganta.
— Precisamos voltar para casa. Já corremos muito risco de chamar atenção, e ela… — Ele olhou para Winter. Havia uma tensão na expressão dele, como se não confiasse em ninguém mais atraente do que ele mesmo. — Ela vai chamar mais atenção ainda.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!