13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e dois

— AAAAAAIIIIII — GEMEU THORNE AO COLOCAR UMA BOLSA DE GELO na bochecha latejante. — Por que ele precisava bater com tanta força?
— Você tem sorte de ele não ter quebrado seu nariz nem um dente — disse Jamal.
Thorne o ouvia se mexendo, bem como o barulho de copos batendo.
— É verdade. Tenho um grande apego ao meu nariz.
— Tem uma cadeira atrás de você.
Thorne testou o chão com a bengala até bater em uma coisa dura e se sentou na cadeira. Ele apoiou a bengala na lateral e ajeitou a bolsa de gelo na bochecha.
— Aqui.
Esticou a mão livre e ficou feliz quando um copo gelado e molhado de condensação foi colocado nela. Ele cheirou primeiro. A bebida tinha um odor leve de limão. Depois de tomar um gole, descobriu que era fria e espumosa, ácida e deliciosa. A ausência de calor repentino sugeria que não continha álcool.
— Tamr hindi — disse Jamal. — Suco de tamarindo. Meu favorito nas cidades mercadoras.
— Obrigado.
Thorne tomou um gole maior, e suas bochechas se repuxaram com a acidez.
— Você sempre gostou de jogar? — perguntou Jamal.
— Acho que podemos dizer que gosto de um desafio. Não tenho habilidades de sobrevivência? Vou passar a lua de mel no deserto. Não enxergo? Vou jogar cartas. E eu teria ganhado se aquele cara não tivesse ficado tão sensível.
Ele pensou ouvir uma risadinha, mas logo Jamal estava bebendo o suco.
— Você estava lá o tempo todo? Vendo a androide-acompanhante me deixar liso e sem dizer nada?
— Se um cego quer perder a cabeça em um jogo suicida, por que eu deveria impedir?
Thorne relaxou contra o encosto da cadeira.
— Acho que sou capaz de respeitar isso.
— Estou curioso para saber por que você não trouxe sua garota. Eu a acharia um bem valioso.
— Achei que ela precisava descansar. — Thorne ajustou a bolsa de gelo no rosto. — Além do mais, acho que nunca jogou Royals, e tem tantas regras difíceis para explicar...
— E ela provavelmente não gostaria do fato de você querer uma androide-acompanhante, não?
Thorne riu.
— Ah, não, não, eu não queria a androide-acompanhante para mim. Achei que seria um bom presente. — Um silêncio veio em seguida, e ele tinha certeza de que conseguia imaginar o ceticismo no rosto de Jamal, apesar de não ter ideia de como ele era. — Ela era para uma nave... androide... amiga minha. É complicado.
— Sempre é. — Jamal brindou com os copos. — Mas eu entendo. Você bota as mãos em uma androide-acompanhante enquanto desvia a atenção de todo mundo do verdadeiro prêmio lá em cima. Você parece mesmo o tipo protetor.
Os instintos de Thorne vibraram por causa de alguma coisa no tom de Jamal.
— Ah. Sou um homem de sorte.
— É, sim. Uma garota dessas não cai do céu todo dia.
Thorne manteve o sorriso no rosto por um momento, depois bebeu o resto do suco.
Seu nariz se franziu.
— Falando na sra. Smith, eu preciso voltar para ela. Prometi que ia levar comida e me deixei levar... você sabe como é.
— Eu não teria pressa — disse Jamal. — Eu a vi com Jina duas horas atrás. Acho que as moças saíram para comer.
O sorriso ficou congelado no rosto de Thorne, e ele teve certeza de que alguma coisa não estava certa. Cress saiu do hotel sem falar com ele? Improvável.
Mas por que Jamal mentiria sobre uma coisa assim?
— Ah. Que bom — respondeu ele, escondendo a incerteza. Colocou o copo vazio no chão, debaixo da cadeira para não tropeçar nele depois. — Cress precisa de... momentos... femininos. Elas por acaso disseram para onde estavam indo?
— Não, mas tem muitos lugares para comer lá na rua. Por quê? Está com medo de ela fugir sem você?
Thorne deu uma risada debochada, mas que pareceu forçada até para ele.
— Não. Vai ser bom para ela. Fazer amizades... Comer.
— Explorar tudo o que a Terra tem a oferecer?
A expressão dele deve ter sido hilária, porque a gargalhada de Jamal foi alta e abrupta.
— Eu sabia que você não ficaria surpreso — disse ele. — Kwende achou que você não sabia que ela era lunar, mas achei que sabia sim. Você me parece o tipo de homem com um senso preciso de valor. Principalmente quando vi você negociando pela androide lá embaixo. Mesmo cego, você parece ter um gosto impecável quanto a companhia feminina.
— Isso é verdade — murmurou Thorne, tentando repensar a conversa. Senso de valor? Gosto impecável? Do que ele estava falando?
— Me conte como a encontrou. Foi no satélite lunar, isso eu percebi, mas como você foi se enrolar com ela? Você a encontrou ainda no espaço ou aqui no deserto? Deve ter sido no espaço, eu acho. Tinha uma nave de passeio nos escombros.
— Hã. É uma história comprida.
— Não importa. Não vou pro espaço num futuro próximo. Mas cair. Isso não podia ser parte do seu plano original. — Cubos de gelo estalaram. — Me conte uma coisa, você planejou trazê-la para a África o tempo todo, ou há mercados mais lucrativos em outro lugar da União?
— Hum. Achei... a África... — Thorne coçou o maxilar. — Você disse que elas saíram há duas horas?
— Mais ou menos. — Pernas de cadeira arranharam o chão. — Você devia saber que ela era cascuda quando a encontrou, então? Eu não faria comércio com um deles se não fosse assim, por mais que sejam mais valiosos.
Thorne abriu a mão livre no joelho e direcionou o pânico repentino para ela. Então eles sabiam sobre a queda do satélite e que Cress era cascuda, e pareciam estar com a impressão de que havia mercado para isso. E que Thorne queria o quê? Vendê-la? Trocá-la como mercadoria roubada? Será que havia uma busca estranha e desconhecida, ao menos para ele, no mercado negro por cascudas?
— Sinceramente, os lunares também me apavoram — disse ele, tentando esconder a ignorância. — Mas não Cress. Ela é inofensiva.
— Inofensiva e nem um pouco ruim para os olhos. Mas baixa demais. — Houve passos, Jamal andando para o outro lado do aposento, som de alguma coisa sendo derramada. — Outra bebida?
Thorne relaxou os dedos tensos sobre a perna.
— Estou bem, obrigado.
Vidro batendo na madeira.
— Então você já sabe para onde a está levando? Ou ainda está procurando um bom preço? Achei que você estivesse levando-a para aquele médico velho em Farafrah, mas tenho que dizer, acho que Jina está interessada. Poderia poupar muito trabalho a você.
Thorne disfarçou o desconforto e tentou imaginar que eles não estavam falando sobre Cress. Eles eram parceiros de negócio discutindo mercadoria. Só tinha que descobrir o que Jamal sabia que ele obviamente não conhecia.
Ele passou o dedo por baixo da venda e afastou o tecido dos olhos. Estava ficando apertada demais, e a bochecha latejava de forma mais dolorosa agora.
— Proposta interessante — disse ele lentamente. — Mas por que lidar com um intermediário quando posso ir direto ao cliente final?
— Conveniência. Vamos tirá-la das suas mãos, e você pode sair em sua próxima caça ao tesouro. Além do mais, conhecemos esse mercado melhor do que ninguém. Vamos cuidar para que ela vá para um lugar bom, se é que você liga para esse tipo de coisa. — Ele fez uma pausa. — Quanto você queria por ela, afinal?
Mercadoria. Transação de negócios. Ele tentou ser indiferente, mas sua pele estava formigando, e teve dificuldade em afastar a lembrança da mão de Cress na dele.
— Me faça uma proposta — disse ele.
Houve uma longa hesitação.
— Não posso falar por Jina.
— Então por que estamos tendo essa conversa? Me parece que você está desperdiçando meu tempo.
Thorne esticou a mão para pegar a bengala.
— Ela me deu um número — falou Jamal. Thorne parou, e, depois de um longo silêncio, Jamal prosseguiu: — Mas não estou qualificado para finalizar nada.
— Poderíamos pelo menos descobrir se estamos todos no mesmo jogo.
Mais som de bebida, seguido de um suspiro.
— Poderíamos oferecer vinte mil por ela.
Dessa vez, o choque foi impossível de esconder. Thorne sentiu como se Jamal tivesse dado um chute no peito dele.
— Vinte mil univs?
Uma gargalhada alta ecoou nas paredes.
— Muito pouco? Você vai precisar discutir com Jina. Mas se não se importa com a pergunta, quanto você queria obter por ela?
Thorne fechou a boca. Se a oferta inicial era vinte mil univs, quanto será que ele achava que ela valia de verdade? Ele se sentiu um tolo. O que era isso, tráfico lunar? Algum tipo de fetichismo estranho?
Ela era uma garota. Uma garota viva, inteligente e doce e desajeitada e diferente, e valia muito mais do que eles podiam imaginar.
— Não fique tímido, sr. Smith. Você deve ter algum número em mente.
Seus pensamentos começaram a clarear, e lhe ocorreu que, de muitas formas, ele era como essas pessoas. Um negociante querendo lucro rápido, que teve sorte o suficiente para encontrar uma cascuda lunar inocente e muito confiante.
Só que ele tinha o mau hábito de simplesmente pegar as coisas que queria.
Ele afundou as unhas nas coxas. Se ela valia tanto, por que eles não a levavam?
O pânico tomou conta dele, como um relâmpago percorrendo cada membro. Isso não era uma negociação, era uma distração. Ele estava certo antes. Jamal desperdiçava o tempo dele. De propósito.
Thorne largou a bolsa de gelo e pulou da cadeira enquanto pegava a bengala. Chegou à porta em dois passos, remexeu na maçaneta e abriu.
— Cress! — gritou ele, tentando lembrar por quantas portas eles passaram para chegar ao quarto de Jamal. Ele se virou, mas não se lembrava de que lado do corredor o quarto dele e de Cress ficava. — CRESS!
Ele correu pelo corredor, batendo aleatoriamente em paredes e portas ao passar.
— Posso ajudar, mestre?
Ele se virou para a voz feminina, seu otimismo pensando por um segundo que era ela, mas não. O som era distraído e falso demais, e Cress o chamava de capitão.
Quem o chamaria de mestre?
— Quem é?
— Meu dono anterior me chamava de Querida — disse a voz. — Sou sua nova androide-acompanhante. As regras da casa deram ao meu ex-dono a escolha entre devolver seus ganhos ou aceitar sua proposta de troca. Ele escolheu a troca, o que quer dizer que agora sou propriedade sua. Você parece estressado. Quer que eu cante uma música relaxante enquanto massageio seus ombros?
Ao perceber que estava segurando a bengala como arma, Thorne balançou a cabeça.
— O quarto oito. Onde fica?
Ele ouviu algumas portas se abrirem no corredor.
— Cress?
— Que barulheira é essa? — perguntou um homem.
Outra pessoa começou a falar naquela língua que Thorne não reconhecia.
— Aqui está o quarto oito — disse a androide. — Devo bater?
— Sim! — Ele seguiu o som das batidas e testou a maçaneta. Trancada. Falou um palavrão. — CRESS!
— Dá para parar o barulho?
— Lamento informar que estou programada para evitar destruição de propriedade, então não posso derrubar esta porta para você, mestre. Devo ir buscar uma chave na recepção?
Thorne bateu na porta de novo.
— Ela não está aí — disse Jamal do corredor.
Aquela outra língua de novo, rápida e irritada.
— Devo traduzir, mestre?
Rosnando, Thorne andou na direção de Jamal, batendo com a bengala nas paredes do corredor. Ele ouviu gritinhos de surpresa quando as pessoas se lançavam de volta nos quartos para evitar os golpes.
— Onde ela está? E não tente me dizer que está apreciando uma refeição agradável na cidade.
— E o que você vai fazer se eu não contar? Propor um jogo do sério?
Ele desprezava o fato de sua preocupação aparecer, mas cada palavra elevava sua temperatura, grau a grau, até a fervura. Parecia que horas tinham se passado desde que dera um adeus despreocupado para Cress, quando ela ainda estava no banho, quando sua cantoria ainda ecoava nos ouvidos dele. E ele a abandonou. Simplesmente a abandonou, e por quê? Para exibir seu talento no jogo? Para provar que ainda era autossuficiente? Para provar que não precisava de ninguém, nem dela?
Cada momento que se prolongava era sofrimento. Eles podiam tê-la levado para qualquer lugar, ter feito qualquer coisa com ela, que estaria sozinha e assustada, perguntando-se por que ele não tinha ido salvá-la. Perguntando-se por que a abandonou.
Ele esticou a mão de repente e acertou a orelha de Jamal. Surpreso, Jamal tentou desviar, mas Thorne já estava segurando a frente da camisa e o puxando para mais perto.
— Onde ela está?
— Ela não é mais preocupação sua. Se era tão ligado, acho que devia ter ficado de olho, em vez de sair para flertar com a primeira acompanhante de ossos de aço que passou. — Ele colocou a mão sobre a de Thorne. — Ela viu, sabe. Viu a acompanhante pendurada em você lá embaixo. Ficou bem abalada com a visão. Nem hesitou quando Jina se ofereceu para levá-la.
Thorne trincou os dentes e o sangue subiu para o rosto. Ele não sabia se Jamal estava mentindo, mas a ideia de Cress vê-lo jogando com aquela androide-acompanhante, sem ter ideia do que ele realmente estava fazendo...
— Sabe, são só negócios — continuou Jamal. — Você a perdeu, nós a levamos. Pelo menos você ganhou um brinquedo novo e bonito, então tente não ficar chateado.
Thorne fez uma cara feia, apertou a bengala e bateu-a com o máximo de força que conseguiu entre as pernas de Jamal.
Jamal berrou. Recuando, Thorne bateu com a bengala na direção da cabeça dele. Acertou com força, mas o objeto foi logo arrancado das mãos dele enquanto Jamal soltava uma série de palavrões.
Thorne pegou a arma que ficara quase esquecida desde que ele e Cress saíram do satélite. Ele a tirou da cintura e mirou. Gritos de outras pessoas no corredor ecoaram, seguidos de portas sendo batidas e do barulho de pés na escada.
— Dessa distância — disse ele —, tenho certeza de que acerto você algumas vezes. Quantos tiros será que acerto antes de conseguir um fatal? — Ele inclinou a cabeça. — Mas acho que só vou pegar seu tablet, que deve ter todos os seus contatos de negócios. Você falou alguma coisa sobre um médico em... Fara-quê? Acho que vou tentar ele primeiro.
Ele soltou a trava.
— Espere, espere! Você está certo. Eles a estão levando para Farafrah, um pequeno oásis cerca de trezentos quilômetros a nordeste daqui. Tem um médico lá que tem uma quedinha por cascudos lunares.
Thorne recuou um passo no corredor, mas mantendo a arma erguida e pronta.
— Androide-acompanhante, você ainda está aí?
— Sim, mestre. Posso ajudar?
— Me dê as coordenadas de uma cidade chamada Farafrah e o jeito mais rápido de chegar lá.
— Você é um idiota de ir atrás dela — retrucou Jamal. — Ela já vai ter sido vendida, e aquele coroa não vai pagar duas vezes por ela. Você devia aceitar a perda e seguir em frente. Ela é só uma cascuda lunar, não vale isso tudo.
— Se você acredita nisso de verdade — disse Thorne, guardando a arma —, então não sabe reconhecer valor verdadeiro quando está na sua frente.

2 comentários:

  1. amando,tadinha de cress e que ódio de thorne,parte disso foi culpa dele.

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  2. Ela foi levada pro cientista, que quer achar a cura! Kkkk que bom.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!