3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e Dois

CINDER ESPEROU POR MEIA HORA ANTES DE MANCAR DE VOLTA para o elevador. O edifício de apartamentos ganhara vida novamente. Ela se manteve grudada na parede, as muletas enfiadas atrás dela, enquanto seus vizinhos entravam e saíam com suas melhores roupas. Uns poucos olhares de pena pousaram sobre Cinder enquanto ela se desviava, tomando cuidado para não sujar nenhum dos lindos vestidos, mas a maioria dos vizinhos a ignorou.
Chegando ao apartamento, ela fechou a porta atrás de si e ouviu por um momento o alegre vazio da sala de estar. Fez uma lista mental de tudo que queria pegar, texto verde rolando por sua visão. Em seu quarto, Cinder abriu o cobertor e nele depositou seus poucos pertences — roupas manchadas de óleo, ferramentas que nunca voltaram para a caixa, presentinhos bobos que Iko lhe dera ao longo dos anos, como um “anel de ouro” que, na verdade, era uma arruela enferrujada.
Tanto o chip de personalidade de Iko quanto o chip de identificação de Peony estavam guardados em segurança no compartimento de sua panturrilha, onde ficariam até que ela encontrasse um lar mais permanente para eles.
Ela fechou os olhos, subitamente cansada. Como aquilo poderia estar acontecendo? A liberdade tão perto no horizonte, e ela de repente sentir um desejo absurdo de se deitar e tirar um cochilo? Agora seu corpo cobrava todas aquelas longas noites consertando o carro.
Afastando a sensação, ela terminou de arrumar suas coisas o mais rápido que pôde, tentando ao máximo não pensar nos riscos que estava assumindo. Seria considerada um ciborgue fugitivo de verdade desta vez. Se fosse pega, Adri poderia mandar prendê-la.
Ela manteve as mãos em movimento. Tentando não pensar em Iko, que havia estado ao seu lado. Nem em Peony, que teria tentado fazê-la ficar. Nem no príncipe Kai.
Imperador Kai.
Ela jamais o veria de novo.
Cinder amarrou as pontas do cobertor com um puxão irado. Estava pensando demais. Tinha apenas que ir embora. Um passo de cada vez e logo estaria no carro, e tudo isso ficaria para trás. Depois de colocar a mala improvisada sobre o ombro, ela mancou de volta para o saguão e depois para baixo, para o porão de depósitos subterrâneos. Mancando para dentro do depósito, ela colocou a trouxa no chão.
Parou por apenas um momento para recuperar o fôlego antes de continuar, destravou a tampa da caixa de ferramentas portátil e jogou tudo de cima da bancada para dentro dela. Haveria tempo para organizar as coisas depois. A caixa de ferramentas vertical que vinha quase até seu peito era grande demais para caber dentro do carro e teria que ficar para trás. O consumo de gasolina seria enorme com todo aquele peso na traseira do carro, de qualquer jeito.
Ela olhou a sala em que passara a maior parte dos últimos cinco anos. Era o mais próximo de uma casa que conhecera, mesmo com o arame de galinheiro que parecia uma gaiola e as caixas que fediam a mofo. Ela não achava que sentiria muita falta daquilo.
O vestido de Peony para o baile, todo amassado, ainda estava jogado em cima do soldador. Ele, como a caixa de ferramentas, não a acompanharia.
Ela foi até as elevadas prateleiras de aço da parede mais distante e começou a procurar por peças que poderiam ser úteis no carro ou até mesmo no caso de seu próprio corpo apresentar algum defeito, jogando peças sortidas em um amontoado no chão. Ela parou quando a mão bateu em algo que ela pensou que nunca mais veria novamente.
O pequeno e gasto pé de um ciborgue de onze anos.
Ela o ergueu da prateleira, onde havia sido escondido. Iko devia tê-lo guardado, mesmo depois de Cinder ter pedido que o jogasse fora.
Talvez, na mente de Iko, fosse o mais próximo de um sapato de androide que ela possuiria. Cinder aninhou o pé contra o peito. Como ela odiava aquele pé. Como estava feliz em vê-lo agora.
Com um sorriso irônico, ela se deixou cair na cadeira pela última vez.
Tirando as luvas, olhou o pulso esquerdo e tentou visualizar o pequeno chip que estava logo abaixo da superfície. O pensamento trouxe Peony à mente. Seus dedos com as pontas azuis. O bisturi em sua pálida pele branca.
Cinder fechou os olhos, forçando a lembrança a se afastar. Tinha que fazer isso. Ela esticou o braço e pegou o canivete suíço no canto da mesa, a lâmina mergulhada em uma lata cheia de álcool. Ela o sacudiu, respirou fundo e pousou a mão cibernética com a palma virada para cima na mesa. Recordou-se de ter visto o chip na holografia do dr. Erland a menos de dois centímetros e meio de onde a pele encontrava o metal. O desafio seria tirá-lo sem cortar por acidente algum fio importante.
Forçando sua mente a se acalmar, a mão a se firmar, pressionou a lâmina contra o pulso. A dor foi forte, mas ela não vacilou. Firme. Firme.
Um bipe a sobressaltou. Cinder pulou, afastando a lâmina e girando para olhar a parede com prateleiras. Seu coração esmurrou as costelas enquanto ela olhava todas as peças e ferramentas que deixaria para trás.
O bipe tocou de novo. Os olhos de Cinder caíram sobre o velho netscreen que ainda estava escorado nas prateleiras. Ela sabia que ele estava desconectado da rede, e ainda assim um quadrado azul-claro piscava no canto. Outro bipe.
Pousando o canivete, Cinder se esgueirou da cadeira e ajoelhou-se diante da tela.
No quadrado azul estava escrito:

PEDIDO DE LIGAÇÃO DIRETA RECEBIDO DE USUÁRIO DESCONHECIDO. ACEITAR?

Inclinando a cabeça, ela avistou o chip de D-COMM ainda inserido no compartimento da tela. A pequena luz verde diante dele brilhava. À sombra da tela, parecia com qualquer outro chip, mas Cinder lembrou a resposta de Kai quando ela descreveu o material de brilho prateado. Um chip lunar.
Ela pegou um pano sujo da pilha de lixo e o pressionou no corte que mal sangrava.
— Tela, aceite a ligação.
O bipe parou. A caixa de diálogo azul desapareceu. Uma espiral apareceu na tela.
— Olá?
Cinder deu um pulo.
— Olá, olá, olá… tem alguém aí?
Quem quer que fosse ela, soava estar à beira de um colapso.
— Por favor, ah, por favor, alguém responda. Onde está aquele androide estúpido? Olá?
— O-lá?… — Cinder se inclinou em direção à tela.
A garota arfou, o que foi seguido por um curto silêncio.
— Olá? Você pode me ouvir? Tem alguém…
— Sim, eu consigo ouvi-la. Espere, tem algo de errado com o cabo de vídeo.
— Ah, que bom — disse a voz quando Cinder deixou o pano de lado. Ela posicionou a tela de frente para o concreto e abriu a tampa do painel de controle.
— Pensei que o chip talvez tivesse sido danificado ou que eu o tivesse programado com a identidade de conexão errada ou algo assim. Você está no palácio agora?
Cinder encontrou o cabo de vídeo desconectado de seu plugue. Deve ter se soltado quando Adri o quebrou. Cinder ligou o cabo e uma onda de luz azul se espalhou pelo chão.
— Prontinho — disse Cinder, endireitando a tela.
Ela deu um pulo para trás quando viu a garota do outro lado da conexão.
Devia ter mais ou menos a idade de Cinder e o cabelo loiro mais longo, ondulado e embaraçado que se podia imaginar. O ninho dourado ao redor de sua cabeça estava amarrado em um grande nó sobre um dos ombros e cascateava em uma confusão de tranças e cachos, enrolando-se em volta de um dos braços da garota antes de sumirem tela abaixo. A garota estava brincando com as pontas, enrolando-as e desenrolando-as em seus dedos sem parar.
Se não fosse pelo cabelo bagunçado, ela seria bonita. Tinha um rosto doce em forma de coração, olhos grandes e azuis como o céu e sardas salpicadas no nariz.
De alguma forma, não era nada do que Cinder esperava.
A garota pareceu igualmente surpresa ao ver Cinder, com sua mão cibernética e a blusa deprimente.
— Quem é você? — perguntou a garota. Seus olhos dispararam para trás de Cinder, vendo a luz difusa e a cerca de galinheiro. — Por que você não está no palácio?
— Não fui autorizada a ir — respondeu Cinder. Ela semicerrou os olhos para ver o lugar onde a garota estava, se perguntando se procurava um lar na Lua… mas não parecia de jeito nenhum com um lar aonde quer que fosse. A garota estava cercada por paredes de metal e máquinas e telas e computadores e mais controles e botões e luzes do que a cabine de uma nave de carga.
Cinder dobrou as pernas, deixando a panturrilha sem pé se apoiar mais confortavelmente na coxa.
— Você é lunar?
Os olhos da garota tremularam, como se surpreendida pela pergunta. Em vez de responder, ela se inclinou para a frente.
— Preciso falar com alguém no palácio de Nova Pequim imediatamente.
— Então por que você não manda um comunicado para o painel de informações do palácio?
— Eu não posso! — O grito desafinado da garota foi tão inesperado, tão desesperado, que Cinder quase caiu para trás. — Eu não tenho um chip global de comunicação… esta foi a única ligação direta que consegui com a Terra!
— Então você é lunar.
O olhos da garota se arregalaram até quase se tornarem círculos perfeitos.
— Isso não é…
— Quem é você? — perguntou Cinder, a voz aumentando. — Você está trabalhando para a rainha? Foi você quem instalou o chip naquele androide? Foi você, não foi?
As sobrancelhas da garota se juntaram, mas em vez de ficar irritada com as perguntas de Cinder, ela pareceu assustada. Até mesmo envergonhada.
Cinder cerrou a mandíbula para controlar o ataque violento de perguntas e respirou lentamente antes de perguntar com calma:
— Você é uma espiã lunar?
— Não! É claro que não sou! Quero dizer… bem… tipo isso.
— Tipo isso? O que você quer dizer…
— Por favor, me escute! — A garota juntou as mãos, como se travasse uma batalha interna. — Sim, eu programei o chip, e estou trabalhando para a rainha, mas não é o que você pensa. Programei todos os sistemas de vigilância que Levana usou para observar o imperador Rikan nos últimos meses, mas não tive escolha. Minha senhora me mataria se eu… Pelas estrelas sobre minha cabeça, ela vai me matar quando descobrir sobre isso.
— Senhora quem? A rainha Levana?
A garota fechou bem os olhos, o rosto contorcido pela dor. Quando os abriu novamente, cintilavam.
— Não. Sra. Sybil. Ela é a taumaturga-chefe de Sua Majestade… e minha guardiã.
Reconhecimento atravessou a mente de Cinder. A primeira suspeita de Kai sobre quem poderia ter instalado o chip em Nainsi recaíra sobre a taumaturga da rainha.
— Mas ela está mais para uma captora, na verdade — continuou a garota. — Não sou nada para ela exceto uma prisioneira e escra…ava. — Ela soluçou na última palavra e enterrou a cabeça em um monte de cabelo, ainda soluçando. — Me desculpe. Me desculpe. Sou uma garota perversa, sem nenhum valor e deplorável.
Cinder sentiu o coração se apertar em compaixão — ela podia se dizer uma “escrava” de sua guardiã, mas não conseguia se lembrar de temer que Adri a matasse de fato. Bem, além da vez em que ela a vendeu como cobaia para a pesquisa da letumose.
Ela contraiu a mandíbula diante da crescente pena, lembrando a si mesma de que aquela garota era lunar. Havia ajudado a rainha Levana a espionar o imperador Rikan e Kai. Ela imaginou rapidamente se a garota estava apenas manipulando suas emoções agora, antes de se lembrar de que lunares não podem controlar pessoas por meio de netscreens.
Soprando o cabelo que estava em seu rosto, Cinder se inclinou para a frente e gritou:
— Pare com isso! Pare de chorar!
A garota parou e olhou para Cinder com seus grandes e úmidos olhos.
— Por que você está tentando entrar em contato com o palácio?
A garota se encolheu e soluçou, mas as lágrimas pareciam ter sido drenadas.
— Preciso entregar uma mensagem ao imperador Kai. Preciso alertá-lo. Ele está em perigo, todos na Terra… a rainha Levana… e é tudo minha culpa. Se pelo menos eu tivesse sido mais forte, se tivesse tentado lutar, isso não teria acontecido. É tudo minha culpa.
— Pelas estrelas sobre nossas cabeças, você pode parar de chorar? — disse Cinder, antes que a menina entrasse em histeria de novo. — Você precisa se recompor. Como assim, Kai corre perigo? O que você fez?
A garota abraçou a si mesma, seus olhos implorando a Cinder como se o perdão dela resolvesse tudo.
— Sou a programadora da rainha, como disse. Sou boa no que faço, me infiltrar em redes, sistemas de segurança e coisas semelhantes. — Ela disse isso sem um pingo de arrogância na voz oscilante. — Pelos últimos anos, minha senhora vem me pedindo para conectar as atualizações dos líderes políticos da Terra ao palácio de Sua Majestade, a rainha Levana. No começo, eram só discussões de corte, reuniões, transferências de documentos, nada muito interessante. Sua Majestade não descobria nada que seu imperador não tivesse dito a ela, então não pensei que muito mal pudesse vir disso.
A garota torceu o cabelo em volta dos dedos.
— Mas então ela me pediu para programar um chip de comunicação direta que pudesse instalar em um dos androides reais, pensando que assim poderia espionar o imperador fora das redes. — Ela ergueu os olhos para Cinder, com a culpa estampada no rosto. — Se tivesse sido qualquer outro androide, qualquer androide de todo o palácio, ela ainda não saberia de nada. Mas agora ela sabe! E é tudo minha culpa! — Ela choramingou e passou o nó de cabelo em volta da boca como uma mordaça.
— Espere. — Cinder ergueu a mão, tentando diminuir a velocidade das palavras da garota. — O que exatamente Levana sabe?
A garota puxou o cabelo quando lágrimas começaram a escorrer por suas bochechas.
— Ela sabe de tudo que o androide sabia, tudo que ele esteve pesquisando. Sabe que a princesa Selene está viva e que o príncipe, desculpe, o imperador Kai estava procurando por ela. Sabe que o imperador queria encontrar a princesa e declará-la a verdadeira rainha lunar.
Temor contorceu o estômago de Cinder.
— Ela sabe os nomes dos médicos que a ajudaram a escapar e quem é a pobre idosa na Federação Europeia que a abrigou por tanto tempo… Sua Majestade já enviou pessoas para caçá-la, usando a informação que Kai tinha. E, quando eles a encontrarem…
— Mas o que ela fará contra Kai? — interrompeu Cinder. — Levana já venceu. Kai já deu a entender que dará a ela o que quiser, então por que isso importa agora?
— Ele tentou tirá-la do trono! Você não conhece a rainha, os seus rancores. Ela jamais perdoará isso. Tenho que entregar uma mensagem a ele, a alguém no palácio. Ele tem que saber que é uma armadilha.
— Uma armadilha? Que tipo de armadilha?
— Para se tornar imperatriz! Quando ela tiver o controle sobre a Comunidade, pretende usar seu exército para declarar guerra contra o resto do mundo. E ela pode fazer isso mesmo, o exército dela… esse exército… — Ela tremeu e baixou a cabeça como se alguém a tivesse golpeado.
Cinder sacudiu a cabeça.
— Kai não permitiria isso.
— Não importa. Quando ela se tornar imperatriz, ele não terá mais utilidade.
Cinder sentiu o sangue pulsar nas têmporas.
— Você acha… mas ela seria uma idiota se tentasse matar Kai. Todos saberiam que foi ela.
— Os lunares desconfiam que ela tenha matado a rainha Channary a princesa Selene, mas o que podem fazer a esse respeito? Podem pensar em rebelião, mas assim que estivessem na presença dela, ela faria uma lavagem cerebral neles e restauraria sua cooperação.
Cinder esfregou os dedos na testa.
— Ele ia anunciar no baile desta noite — murmurou para si mesma. — Ele vai anunciar sua intenção de se casar com ela. — Seu coração estava disparado, os pensamentos transbordando do cérebro.
Levana sabia que ele estivera atrás da princesa Selene. Ela o mataria. Tomaria a Comunidade. Declararia guerra contra… todo o planeta.
Ela agarrou a cabeça enquanto o mundo girava a seu redor.
Precisava avisá-lo. Não podia permitir que ele fizesse a declaração.
Podia mandar um comunicado para ele, mas quais eram as chances de ele os checar durante o baile?
O baile.
Cinder olhou para suas roupas sem graça. Para o tornozelo vazio.
O vestido de Peony. O pé velho que Iko salvara. As luvas de seda.
Sua cabeça assentiu antes que ela soubesse com o que concordava, e usou as prateleiras para se apoiar e se levantar.
— Eu vou — murmurou ela. — Vou encontrá-lo.
— Leve o chip — disse a garota na tela. — No caso de precisarmos contatar uma à outra. E, por favor, não conte a eles sobre mim. Se minha senhora descobrir…
Sem esperar que ela terminasse, Cinder se abaixou e tirou o chip do compartimento. A tela ficou escura.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!