7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e Cinco

— ELA VAI FICAR BEM, SABE.
Cinder deu um pulo de susto e foi arrancada do devaneio. Thorne estava pilotando uma pequena nave de passeio em Rieux, na França, e Cinder estava um tanto surpresa de ainda não terem batido e morrido.
— Quem vai ficar bem?
— Aquela Émilie. Você não devia se sentir tão mal por fazê-la dormir com seu truque lunar. Provavelmente ela vai até se sentir mais descansada quando acordar.
Cinder fez uma careta. Seus pensamentos estavam tão direcionados a encontrar uma bateria e voltar para Iko antes que alguém aparecesse na fazenda que nem tinha pensado na loura que deixaram para trás. Estranhamente, depois de tomar a decisão de usar o glamour na garota para que confiasse neles, toda a dúvida e a culpa que sentira desapareceram. Pareceu tão natural, tão fácil, tão óbvio que era a coisa certa a fazer.
A facilidade a assustou mais do que a falta de culpa. Se era tão natural para ela depois de apenas alguns dias praticando o novo dom, como poderia sobreviver enfrentando um taumaturgo? Ou a própria rainha?
— Só espero estar bem longe quando ela acordar — murmurou.
Voltando a atenção para a janela, Cinder refez o rabo de cavalo usando o reflexo fantasma. Conseguia distinguir vagamente os olhos castanhos e as feições comuns. Inclinou a cabeça, se perguntando como era sua aparência com o glamour. Ela jamais saberia, é claro. Os espelhos não podiam ser enganados pelo glamour. Mas Thorne pareceu impressionado, e Kai...
É ainda mais doloroso olhar para você do que para ela.
As palavras fizeram o corpo dela parecer pesado.
A cidade surgiu abaixo e Thorne fez uma descida rápida demais. Cinder segurou o cinto ao redor da cintura.
Thorne endireitou a nave e tossiu.
— Houve uma rajada de vento.
— Claro que sim. — Ela encostou a cabeça no apoio do banco.
— Você está muito para baixo hoje — disse Thorne, beliscando de leve o queixo dela. — Alegre-se. Podemos não ter encontrado Michelle Benoit, mas agora temos certeza de que ela abrigou a princesa. Isso é bom. É um progresso.
— Encontramos uma casa revirada e fomos identificados pela primeira civil que nos viu.
— É, porque somos famosos. — Cantarolou a palavra com uma dose de orgulho. Quando Cinder revirou os olhos, ele a cutucou no braço. — Ah, pare com isso, podia ser pior.
Ela ergueu a sobrancelha para Thorne, e o sorriso dele se alargou.
— Pelo menos temos um ao outro. — Ele esticou o braço, como se fosse dar um grande abraço nela se não estivessem presos pelo cinto de segurança, cada um em seu assento. O bico da nave virou para a direita, e Thorne rapidamente segurou os controles de novo, ajeitando a direção a tempo de desviar de um bando de pombos.
Cinder cobriu uma gargalhada com a mão de metal.
Só começou a perceber que aquela ideia era ruim quando Thorne pousou meio torto em uma rua de pedras secundária. Mas não tinham escolha. Precisavam de uma bateria nova se quisessem levar a Rampion para o espaço de novo.
— As pessoas vão nos ver — disse, olhando ao redor ao sair da nave. A rua estava vazia, serenamente protegida nas sombras de prédios de pedra com séculos de idade e bordos de folhas prateadas. Mas a tranquilidade não ajudou em nada a acalmar os nervos dela.
— E você vai usar sua utilíssima magia de lavagem cerebral em todas elas, e nenhuma vai saber que está nos vendo. Bem, quero dizer, acho que vão nos ver de qualquer jeito, só não vão nos reconhecer. Ou... ei, você consegue nos deixar invisíveis? Isso seria muito útil.
Cinder enfiou as mãos nos bolsos.
— Não sei se estou pronta para enganar uma cidade inteira. Além do mais, eu não gosto de fazer isso. Faz com que eu me sinta... má.
Sabia que, se seu detector de mentiras interno pudesse vê-la, teria reconhecido a mentira. A sensação era certa demais, e talvez fosse isso que parecia mais horrivelmente errado em fazer aquilo.
Os olhos azuis piscando, Thorne prendeu os polegares no cinto. Estava meio ridículo de jaqueta de couro elegante nessa cidadezinha simples e rural, mas tinha o balanço de um homem que fazia parte do local. Que fazia parte de qualquer lugar que quisesse.
— Você pode ser uma lunar maluca, mas não é . Desde que esteja usando o glamour para ajudar as pessoas e, mais importante, para me ajudar, não tem motivo para se sentir culpada. — Ele parou para olhar o cabelo na vitrine suja de uma loja de sapatos enquanto Cinder o observava sem acreditar.
— Espero que essa não seja sua ideia de conversa animadora.
Ele deu um sorrisinho debochado e indicou a loja seguinte com um movimento de cabeça.
— Aqui estamos — disse, abrindo uma porta de madeira barulhenta.
O som oco de sinos digitais os recebeu, misturado com o cheiro de óleo de motor e borracha queimada. Cinder aspirou o aroma tão familiar. Mecânica. Maquinário. Aquele era o lugar dela. Apesar de a loja parecer encantadora pelo lado de fora, com a fachada de pedra e janelas de madeira antiga, ela agora conseguia ver que era enorme, do comprimento do quarteirão. Perto da frente, prateleiras altas de metal exibiam peças de androides e tablets. Mais para os fundos, Cinder conseguia ver partes de máquinas maiores: aerodeslizadores, tratores e naves.
— Perfeito — murmurou, seguindo em direção à parede dos fundos.
Passaram por um funcionário jovem com acne no rosto sentado atrás de uma bancada, e embora Cinder tenha imediatamente acionado o glamour para disfarçar a si mesma e a Thorne com a primeira coisa que lhe veio à mente (os fez parecer trabalhadores de fazenda, sujos e desgrenhados), duvidou que a medida fosse necessária. O garoto nem se deu o trabalho de cumprimentá-los, pois estava com a atenção grudada em um tablet que emanava a melodia animada de um aplicativo de jogo.
Cinder contornou o corredor de conversores de força e viu um homem gigantesco, o único outro freguês da loja, encostado em um elevador de motor. Estava concentrado em limpar as unhas em vez de olhar as prateleiras, e quando encarou o olhar de Cinder, foi com um sorrisinho zombeteiro.
Cinder enfiou a mão de metal no bolso, encontrou a vibração do pensamento dele no ar e o dirigiu para longe. Você não está interessado em nós.
Mas o sorriso dele só se alargou, o que provocou um arrepio na espinha dela.
Quando ele virou de costas um momento depois, Cinder saiu sorrateiramente do corredor, com a atenção dividida entre manter o glamour e observar as peças variadas até encontrar a bateria de que eles precisavam. Ela a pegou na prateleira, ofegou com o peso e voltou rapidamente para a frente da loja.
Thorne suspirou assim que saíram do campo de visão do estranho.
— Ele me deu medo.
Cinder concordou.
— Você devia deixar a nave ligada para o caso de precisarmos fazer uma fuga rápida. — Ela colocou a bateria na bancada do funcionário com um baque.
O garoto nem sequer ergueu o olhar, continuou jogando com o polegar de uma das mãos enquanto com a outra esticava o escâner para Cinder. O laser vermelho piscou na bancada.
O medo se espalhou no estômago de Cinder.
— Hum.
O garoto conseguiu desviar a atenção do jogo e olhou para ela com irritação.
Cinder engoliu em seco. Nenhum dos dois tinha chip de identificação nem como pagar. Será que o glamour a ajudaria a escapar disso? Imaginou que Levana provavelmente não teria dificuldade...
Antes que conseguisse falar, uma coisa brilhosa apareceu no seu canto de visão.
— Isso cobre? — disse Thorne, esticando um relógio digital banhado a ouro. Cinder reconheceu como sendo o que Alak estava usando, o dono do hangar de espaçonaves em Nova Pequim.
— Thorne! — sibilou ela.
— Aqui não é casa de penhores — disse o garoto, largando o escâner na bancada. — Vocês podem pagar ou não?
Cinder olhou com raiva para Thorne, mas viu o homem estranho saindo do corredor perto dos fundos da loja. Vinha andando na direção deles, assobiando uma melodia alegre, e tirou um par de luvas grossas de trabalho de um dos bolsos e colocou uma na mão esquerda com grande exagero de movimentos.
Com o coração disparado, Cinder virou para o garoto.
— Você quer o relógio — disse. — É uma boa troca por essa bateria, e você não vai nos denunciar por levá-la.
Os olhos do garoto ficaram vidrados. Tinha começado a assentir quando Thorne colocou o relógio na palma da mão dele e Cinder pegou a bateria na bancada. Saíram pela porta e deixaram o soar dos sinos falsos para trás.
— Chega de roubar! — disse ela quando Thorne chegou ao seu lado.
— Ei, aquele relógio nos salvou lá dentro.
— Não, eu nos salvei lá dentro, e caso você já tenha esquecido, esse é exatamente o tipo de truque mental que não quero fazer nas pessoas.
— Mesmo se salvar sua pele?
— Sim!
Uma luz piscou no olho de Cinder, indicando a chegada de uma mensagem. Um momento depois, palavras começaram a surgir em seu campo de visão.

FOMOS DETECTADOS — POLÍCIA. VOU MANTÊ-LOS LONGE O MÁXIMO DE TEMPO POSSÍVEL.

Ela cambaleou no meio da rua.
— O quê? — disse Thorne.
— É Iko. A polícia encontrou a nave.
Thorne ficou pálido.
— Então não dá tempo de comprar umas roupas novas.
— Nem um corpo de androide. Vamos.
Ela saiu correndo com Thorne nos seus calcanhares até que dobraram a esquina e pararam de repente.
Dois policiais estavam entre eles e a nave, um comparando o modelo da nave com alguma informação no tablet que segurava.
Alguma coisa apitou no cinto do outro policial. Quando ele esticou a mão para pegar, Cinder e Thorne recuaram e se esconderam atrás do prédio.
Com a pulsação disparada, Cinder olhou para Thorne, mas ele estava avaliando a vitrine mais próxima. TAVERNA RIEUX estava pintado no centro da vidraça.
— Aqui — indicou, puxando-a para contornar duas mesas de ferro forjado e atravessar a porta.
A taverna fedia a bebida e fritura e vibrava com esportes nas telas e gargalhadas exageradas. Cinder deu dois passos para a frente, prendeu a respiração e virou para ir embora. Thorne bloqueou o caminho com o braço esticado.
— Aonde você vai?
— Tem gente demais. Vamos ter mais sorte com a polícia. — Ela o empurrou, mas parou quando viu um aerodeslizador verde pousando nas pedras lá fora, com o emblema das forças militares da Comunidade das Nações Europeias pintado na lateral. — Thorne.
O braço dele ficou rígido e a taverna pareceu ficar em silêncio. Cinder encarou lentamente a multidão. Dezenas de estranhos olhavam boquiabertos para ela.
Um ciborgue.
— Pelas estrelas — sussurrou. — Preciso de um novo par de luvas.
— Não, você precisa se acalmar e começar a usar sua bruxaria cerebral.
Cinder chegou perto de Thorne e engoliu o pânico crescente.
— Nós somos daqui — murmurou ela. Cinder estava com a nuca coberta de suor, que escorria pela coluna. — Não somos estranhos. Vocês nos reconhecem. Não têm interesse, nem curiosidade, nem... — Parou de falar quando a atenção das pessoas no salão começou a voltar para as comidas e bebidas e telas atrás do bar. Cinder continuou a repetição mecânica em pensamento, Nós somos daqui, não somos estranhos, até as frases se misturarem em uma sensação de invisibilidade.
Eles não eram estranhos. Eram dali.
Ela se forçou a acreditar.
Ao observar as pessoas, viu que apenas um par de olhos permanecia nela, azuis vibrantes e tomados de humor. Era um homem musculoso sentado a uma mesa perto dos fundos, com um sorriso brincando nos lábios. Quando o olhar de Cinder sustentou o dele, ele se recostou e voltou a atenção para as telas.
— Venha — disse Thorne, guiando-a para uma mesa livre.
O som da porta gemendo atrás deles fez o estômago de Cinder se contrair como um motor morrendo. Eles se sentaram à mesa do canto.
— Foi uma ideia ruim — sussurrou ela, colocando a bateria ao seu lado no banco. Thorne não disse nada, e os dois curvaram os pescoços por cima da mesa quando três pessoas de uniforme vermelho passaram. Um escâner apitou, o que fez a pulsação de Cinder latejar nas têmporas, e o último oficial parou.
Com a mão ciborgue por baixo da mesa, Cinder abriu o tambor da arma tranquilizante embutida do dedo pela primeira vez desde que o dr. Erland lhe deu a mão.
O oficial ficou ao lado da mesa deles, e Cinder se forçou a virar para ele, pensando inocente, normal, indistinguível de qualquer outra pessoa.
O oficial estava segurando um tablet com um escâner de identificação embutido. Cinder engoliu em seco e olhou para cima. Era jovem, tinha talvez vinte e poucos anos, e seu rosto estava contorcido pela confusão.
— Algum problema, monsieur? — perguntou, repugnada por ouvir a própria voz sair adocicada como uma vez tinha ouvido a da rainha Levana.
Os olhos dele piscaram rapidamente. A atenção dos outros oficiais, um homem e uma mulher, também tinha sido atraída, e Cinder conseguia percebê-los por perto.
Um calor se espalhou da base de seu pescoço e desceu desconfortavelmente pelos membros.
Ela apertou os punhos. A onda de energia no salão era pulsante, quase visível. Seu dispositivo óptico biônico estava começando a entrar em pânico e a enviar avisos preocupados sobre hormônios e desequilíbrios químicos para o campo de visão dela, e o tempo todo procurou controlar desesperadamente o dom lunar. Sou invisível. Não sou importante. Vocês não me reconhecem. Por favor, não me reconheçam.
— Oficial?
— Você é... hum. — Dirigiu os olhos para o tablet e para o rosto dela, depois balançou a cabeça como se quisesse afastar teias de aranha em sua mente. — Estamos procurando uma pessoa, e aqui diz... Você por acaso não...
Todos estavam olhando agora. As garçonetes, os fregueses, o cara estranho com olhos inquietos. Nenhuma quantidade de súplica interior poderia torná-la invisível com um oficial militar de outro país falando com ela. Estava ficando tonta com o esforço. Seu corpo estava se aquecendo e havia suor em sua testa.
Ela engoliu em seco.
— Está tudo bem, oficial?
Ele franziu a testa.
— Estamos procurando uma garota... uma adolescente da Comunidade das Nações Orientais. Você por acaso não seria... Linh...
Cinder ergueu as sobrancelhas, fingindo ignorância.
— Peony?

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