20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e Cinco

— Ali está a casa da guarda — disse Thorne, encolhido em uma viela entre Iko e Lobo. Pela centésima vez desde que eles saíram da casa de Maha, ele verificou o bolso para ver se o cilindro com a mensagem de Cress estava lá.
— Eu tinha expectativas maiores — disse Iko.
Assim como tudo naquele setor, a casa da guarda era sem graça e estava coberta de pó. Também era feita de pedra e não tinha janelas, o que a tornava uma das construções mais impenetráveis que Thorne já tinha visto. Havia um guarda uniformizado na porta, com um fuzil nos braços e um elmo e uma máscara contra o pó escondendo o rosto. Dentro estariam os armamentos, o equipamento de manutenção do domo, uma cela para prender infratores antes de mandá-los para o julgamento em Artemísia e um pequeno centro de controle para acessar a malha de transmissão do domo e o sistema de segurança. Mais importante, era onde ficava o receptor-transmissor que ligava este setor à rede de transmissão controlada pelo governo.
— Quanto tempo nós temos? — perguntou ele.
— Estimados dois minutos e quatorze segundos até que o próximo guarda da patrulha apareça — disse Iko.
— Lobo, é com você.
Houve um brilho de dentes afiados, e Lobo se empertigou e saiu andando da viela.
Thorne e Iko se esconderam.
Uma voz ríspida ordenou:
— Pare e se identifique.
— Agente especial Alfa Kesley. Estou aqui sob ordens do taumaturgo Jael para verificar seu inventário de armas.
— Você é agente especial? O que está fazendo aq… — Um ofego soou, seguido de movimentação e um baque. Thorne se preparou para o estrondo de um tiro, mas não aconteceu. Quando o silêncio voltou, ele e Iko espiaram da viela.
Lobo já estava arrastando o corpo inconsciente do guarda até a porta e segurando a ponta do dedo dele na tela. Thorne e Iko correram para se juntar a ele quando a porta se abriu. Eles arrastaram o guarda para dentro.
O interior da casa da guarda não era muito melhor do que a parte externa. Era um pouco menos poeirento, mas ainda escuro e desconfortável. Naquele aposento principal, uma mesa grande ocupava boa parte do espaço e os separava de duas portas com trancas na parede de trás.
Thorne não perdeu tempo em arrancar a camisa áspera que estava usando para se misturar com os mineiros. Agachado ao lado do guarda, ele começou a desabotoar a camisa do uniforme. Embora o guarda fosse um pouco mais corpulento do que ele, parecia que ia caber.
— Você não está precisando de ajuda com isso, está? — perguntou Iko, parecendo esperançosa demais enquanto via Thorne mexer nos braços inertes do guarda para tirá-los das mangas.
Thorne fez uma pausa para encará-la e, lembrando-se do cilindro, pegou-o e colocou na mão dela.
— Comece a trabalhar.
Iko fez uma saudação rápida e correu para trás da mesa. Em pouco tempo, Thorne ouviu o cantarolar alegre que ela emitiu ao encontrar o conector universal e inserir o cilindro. Uma tela apitou, e Iko proclamou com orgulho:
— Senha: o capitão é rei!
Os lábios de Thorne tremeram quando ele puxou a camisa do guarda pela cabeça.
— Deu certo! Eu entrei! — disse Iko. — Estou fazendo upload do programa agora.
Lobo ajudou Thorne a prender a armadura de ombro desconjuntada.
— Praticamente acabando e… acabou. Selecionando os setores para receber a programação alterada e fazendo upload do vídeo de Cinder para a fila… Uau, Cress não podia ter tornado isso mais fácil.
Thorne grunhiu, pois não queria ouvir sobre o excelente trabalho que Cress fez em ajudá-los de longe. Queria que ela tivesse vindo junto.
Ele colocou a máscara no rosto para esconder a careta e enfiou os pés nas botas do guarda. Levantou uma sobrancelha para Lobo, indicando dúvida.
Lobo assentiu.
— Passável.
— Me deem pelo menos mais quatro minutos — disse Iko.
— Pode deixar. Duas batidas significam problema, três querem dizer que a costa está limpa. — Thorne pegou o fuzil do guarda. Ouviu Lobo estalando os dedos e passou pela porta para assumir a posição. A postura de cara feia e ombros para trás veio com facilidade e ele ficou feliz, pela primeira vez, por seu treinamento militar ser útil.
Ele contou seis segundos até que o guarda patrulhando aquela porção do domo aparecesse. O guarda passou por Thorne com a arma apoiada no ombro, procurando civis errantes ou trabalhadores que deviam estar trabalhando.
Thorne não percebeu se o guarda olhou para ele. Manteve o olhar grudado no horizonte, estoico e sério.
O guarda passou.
Por trás da máscara, Thorne deu um sorrisinho cínico.


Cinder queria ter mais espaço para andar. Seus nervos estavam em péssimo estado, enquanto ela esperava uma notícia de Iko.
— Você está bem? — perguntou Scarlet, sentada de pernas cruzadas na cadeira de balanço. Ela também estava agitada e ficava brincando com o cordão do moletom lavado.
— Estou — mentiu Cinder. A verdade era que ela estava tão tensa quanto uma mola encolhida, mas não queria falar sobre isso. Eles já tinham conversado demais sobre a estratégia. Tudo o que podia dar certo. Tudo o que podia dar errado. O povo atenderia ao chamado dela ou não atenderia. Fosse como fosse, ela estava prestes a pôr as cartas na mesa para Levana.
Na cozinha, a princesa Winter estava cantarolando uma música desconhecida. Ela mal parou quieta desde que chegaram na noite anterior. Limpou, esfregou, bateu tapetes, reorganizou armários e dobrou roupas, tudo com a graça de uma borboleta. Todo aquele trabalho fazia Cinder se sentir uma hóspede ruim.
Cinder não sabia como interpretar a princesa. Ela admirava e ao mesmo tempo questionava a decisão de Winter de não usar o glamour. A vida era mais simples antes que Cinder pudesse usar o dom, e ela várias vezes morria de medo só de pensar que estava ficando cada vez mais como Levana. Mas, ao mesmo tempo, uma vez que o tinha, ela não se imaginava abrindo mão dele, principalmente ao ver o preço que isso cobrava da sanidade da princesa.
Mas rotular a princesa apenas como maluca também não parecia certo. Ela era evasiva e estranha e ridiculamente carismática. Também parecia se preocupar de verdade com as pessoas e mostrava vislumbres de inteligência que seriam fáceis de passar despercebidos. Embora exalasse humildade, Cinder não achava que ela ignorava seus encantos como fingia ignorar.
Ela queria se lembrar dela de quando era criança, mas todas as suas lembranças eram compostas de chamas e carvões quentes e carne queimada. Não havia nada sobre uma amiga, uma prima. Nunca lhe ocorreu que ela pudesse ter uma ligação assim de sua breve vida em Luna; ela tinha suposto que todo mundo no palácio era inimigo.
Uma mensagem apareceu no display de retina.
Cinder parou, leu e soltou o ar.
— Eles estão em posição. O vídeo está programado para tocar um minuto depois do anúncio do fim do dia de trabalho em todos os setores externos. Thorne está montando guarda. Nenhum alarme foi disparado… ainda.
Cinder colocou a mão no estômago embrulhado. Esse era o momento para o qual todos os seus preparativos foram destinados.
Mil horrores ocuparam a mente dela. Que não acreditariam nela. Que não a seguiriam. Que não quereriam a revolução.
Pelo que ela sabia, essa seria a primeira vez que os setores externos de Luna seriam expostos a uma mensagem que não era propaganda sancionada pela coroa nem alarmismo. Cada transmissão que recebiam vinha da coroa, de execuções públicas que transformavam em vilão qualquer pessoa que ousasse criticar a rainha a documentários sobre a generosidade e compaixão da família real. Os setores podiam ser separados para transmissões individuais ou programados para receber todos uma mensagem só ao mesmo tempo, embora Cinder desconfiasse que a rainha raramente fizesse comunicados em massa. Na verdade, as comunidades ricas de Artemísia viam cobertura sobre a maioria das festas de elite do momento, enquanto os trabalhadores dos setores externos viam relatos sobre escassez de comida e redução de rações. Mas, sem ter como se comunicar entre si, como eles poderiam saber como as coisas eram?
Cinder estava prestes a sequestrar a ferramenta mais valiosa de lavagem cerebral de Levana, mais poderosa até que o glamour. Pela primeira vez, os povos dos setores externos ouviriam uma mensagem de verdade e empoderamento. Pela primeira vez, estariam unidos.
Ela torcia por isso.
Um sino familiar tocou lá fora, seguido do hino de Luna e da voz educada da mulher mandando os trabalhadores para casa depois de um dia de trabalho.
Cinder abraçou o próprio corpo e se apertou em uma tentativa de não desaparecer.
— É agora — disse ela, olhando para Scarlet. Elas tinham discutido consideravelmente se Cinder devia correr o risco de estar lá fora quando a mensagem fosse tocada. Os companheiros todos a encorajaram a esperar e deixar o vídeo fazer o trabalho sem ela se arriscar, mas ela soube naquele momento que esperar não era uma opção. Ela tinha que estar lá fora para ver a reação das pessoas, ao menos naquele setor, já que não podia ver a reação nos outros lugares.
Scarlet fez uma careta.
— Você vai lá para fora, não vai?
— Eu tenho que ir.
Scarlet revirou os olhos, mas não pareceu surpresa. Ela se levantou e olhou para a cozinha, onde o cantarolar de Winter tinha ficado dramático e exagerado.
— Winter.
A princesa apareceu um momento depois, com as mãos cobertas de massa de parede.
Scarlet colocou as mãos nos quadris.
— O que você está fazendo?
— Consertando a casa — disse Winter, como se fosse óbvio. — Para que não caia.
— Certo. Bom trabalho. Cinder e eu vamos ver o vídeo. Se alguém vier até a casa, se esconda. Não saia e tente não fazer nenhuma maluquice.
Winter piscou.
— Serei um bastião de sanidade desimpedida.
Com um balançar exasperado de cabeça, Scarlet se virou para Cinder.
— Ela vai ficar bem. Vamos.
O relógio na cabeça de Cinder estava contando os minutos, e ela e Scarlet mal tinham saído de casa quando o domo escureceu. Ao longe, ela via os primeiros trabalhadores indo para casa depois de saírem das fábricas. Todos olhavam para cima, querendo saber que notícia ruim a rainha tinha para eles.
Uma série de quadrados do tamanho de prédios surgiu na superfície do domo e se sintonizou em uma imagem, duplicada doze vezes em todas as direções. O rosto de Cinder grudado um monte de vezes no céu.
Cinder fez uma careta ao ver isso. Quando eles gravaram o vídeo a bordo da Rampion, ela se sentiu ousada e decidida. Não se deu ao trabalho de se arrumar e preferiu se mostrar como era. No vídeo, estava usando a mesma camiseta militar e calça cargo que encontrou a bordo da Rampion séculos atrás. O cabelo estava preso no mesmo rabo de cavalo que ela sempre usava. Os braços estavam cruzados, a mão ciborgue exposta.
Ela não se parecia em nada com a tia majestosa, glamourosa e poderosa.
— Cinder — sibilou Scarlet. — Você não devia estar usando seu glamour?
Ela levou um susto e botou em uso o glamour de garota adolescente comum que usou durante o trajeto até ali vindo de Artemísia. Ao menos impediria qualquer pessoa do setor de reconhecê-la, embora não fosse capaz de protegê-la de imagens de câmera.
Ela torcia para que Levana tivesse muitas filmagens para examinar.
Sua similar no céu começou a falar.
— Cidadãos de Luna, peço que vocês parem o que estão fazendo para ouvir esta mensagem. Meu nome é Selene Blackburn. Sou a filha da falecida rainha Channary, sobrinha da princesa Levana e herdeira por direito do trono de Luna. — Ela tinha treinado o discurso mil vezes e ficou aliviada de não parecer idiota ao dizê-lo. — Vocês foram informados que morri treze anos atrás em um incêndio, mas a verdade é que minha tia Levana tentou me matar, mas fui salva e levada para a Terra. Lá, fui criada e protegida em preparação para a época em que voltaria a Luna e exigiria a restituição do meu direito. Na minha ausência, Levana escravizou vocês. Ela tira seus filhos e os transforma em monstros. Ela tira seus bebês cascudos e os mata. Ela deixa vocês passarem fome, enquanto o povo de Artemísia se empanturra de comidas caras e iguarias.
A expressão dela ficou feroz.
— Mas o reinado de Levana está chegando ao fim. Eu voltei e vim recuperar o que é meu.
Tremores percorreram os braços de Cinder ao ouvir sua voz parecendo tão capaz, tão confiante, tão digna.
— Em pouco tempo — prosseguiu o vídeo —, Levana vai se casar com o imperador Kaito, da Terra, e vai ser coroada imperatriz da Comunidade das Nações Orientais, uma honra que não poderia ser dada a uma pessoa menos merecedora. Eu me recuso a permitir que Levana aumente sua tirania. Não vou ficar de lado enquanto minha tia escraviza e explora meu povo aqui em Luna, e declara guerra para toda a Terra. E é por isso que, antes que uma coroa terráquea possa ser colocada na cabeça de Levana, eu vou levar um exército para os portões de Artemísia.
Acima dela, seu sorriso ficou malicioso e inabalável.
— Eu peço que vocês, cidadãos de Luna, sejam esse exército. Vocês têm o poder de lutar contra Levana e as pessoas que os oprimem. Começando agora, hoje, peço que vocês se juntem a mim na rebelião contra esse regime. Não vamos mais obedecer aos toques de recolher dela nem deixar passar nosso direito de nos encontrar e conversar e ser ouvidos. Não vamos mais abrir mão de nossos filhos para que se tornem guardas e soldados descartáveis. Não vamos mais ser escravizados para plantar comida e criar animais que serão enviados para Artemísia enquanto nossos filhos passam fome. Não vamos mais construir armas para a guerra de Levana. O que vamos fazer é tomá-las para nós, para nossa guerra.
“Tornem-se meu exército. Levantem-se e recuperem suas casas dos guardas que agridem e apavoram vocês. Enviem uma mensagem para Levana de que vocês não vão mais ser controlados pelo medo e pela manipulação. E, no começo da coroação real, peço que todos os cidadãos capazes fisicamente se juntem a mim em uma marcha contra Artemísia e o palácio da rainha. Juntos, vamos garantir um futuro melhor para Luna. Um futuro sem opressão. Um futuro em que qualquer lunar, independentemente do setor onde mora e da família em que nasceu, possa alcançar suas ambições e viver sem medo de perseguição e de uma vida de escravidão.
“Sei que estou pedindo que vocês arrisquem suas vidas. Os taumaturgos de Levana são poderosos, os guardas são hábeis e os soldados são brutais. Mas, se nos juntarmos, poderemos ser invencíveis. Eles não podem controlar todos nós. Com as pessoas unidas em um exército, vamos cercar a capital e destronar a impostora que está sentada no meu trono. Ajudem-me. Lutem por mim. Eu serei a primeira governante na história de Luna que também vai lutar por vocês.”
O vídeo fechou o foco na expressão indomável de Cinder por um momento, e acabou.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!