3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Trinta e Cinco

CINDER OLHOU PARA O HOMEM, SUA LIGAÇÃO COM O BANCO DE dados da rede informando que ele era Konn Torin, conselheiro real.
— Está na hora? — perguntou ela, meio se desculpando, meio temerosa. Seu estômago se revirou. — Hora de quê?
Kai encarou-a, cheio de temor. Engoliu em seco.
— Hora de selar o destino da Comunidade Oriental.
— Não — sibilou ela. — Kai, você não pode…
— Vossa Majestade — disse Konn Torin, ainda sem se dignar a cruzar seu olhar com o de Cinder. — Permiti que você tivesse sua liberdade, mas está na hora de dar um fim a isso. Você está passando vergonha.
O olhar de Kai caiu, antes que ele fechasse os olhos. Kai esfregou a testa.
— Só um instante. Eu preciso de um instante para pensar.
— Nós não temos um instante. Já passamos da hora e novamente…
— Há novas informações — disse Kai, com a voz áspera. O semblante de Konn Torin se tornou sombrio, e ele lançou um olhar cheio de suspeita para Cinder.
Ela estremeceu diante da desaprovação; pela primeira vez, o ódio era direcionado a ela não porque era um ciborgue, mas porque era uma garota normal, indigna da atenção do imperador.
Daquela vez, não podia discordar.
Se ela deixou transparecer a compreensão em seu rosto, o conselheiro a ignorou.
— Vossa Majestade. Com todo o respeito, você não pode mais se dar o luxo de ser um adolescente apaixonado. Você tem um dever a cumprir com seu povo.
Deixando cair a mão, Kai encontrou o olhar de Konn Torin, os olhos vazios.
— Eu sei — respondeu. — Farei o que for melhor para ele.
Cinder juntou todo o tecido da saia com as duas mãos, a esperança crescendo dentro dela. Ele entendera seus alertas. Entendera o erro que estaria cometendo se concordasse em se casar com Levana. Ela conseguira.
Mas, em seguida, ele se virou para ela, e a esperança se estraçalhou ao ver a impotência gravada em linhas profundas ao longo de sua testa.
— Obrigado por me alertar, Cinder. Ao menos não vou me meter nessa completamente cego.
Ela sacudiu a cabeça.
— Kai, você não pode.
— Eu não tenho escolha. Ela tem um exército que pode nos destruir. Tem o antídoto de que precisamos… Tenho que arriscar.
Cinder cambaleou para trás como se as palavras dele a tivessem acertado como o tapa que ela receberia antes se Kai não a tivesse protegido. Ele se casaria com a rainha Levana.
A rainha Levana seria imperatriz.
— Sinto muito, Cinder.
Kai parecia tão arrasado quanto ela, e ainda que seu corpo tivesse se tornado pesado e imóvel, Kai encontrou forças para se virar com a cabeça erguida e começar a caminhar na direção da plataforma no fim do salão de baile, onde anunciaria a decisão àqueles que se reuniam.
Ela vasculhou seu cérebro em busca de qualquer coisa que pudesse fazer para mudar a decisão dele. Mas o que mais havia?
Kai sabia que Levana ainda começaria uma guerra, e que provavelmente tentaria matá-lo após o casamento. Provavelmente sabia mais sobre os feitos cruéis e diabólicos dela do que Cinder, e nada daquilo fizera diferença. De alguma forma, Kai ainda era ingênuo o bastante para pensar que coisas melhores do que piores viriam da união. Ele não impediria que aquilo acontecesse.
A única outra pessoa que tinha poder para deter aquele casamento era a própria rainha.
Um punho se fechou em volta do coração de Cinder.
Antes que ela soubesse o que estava fazendo, disparou atrás de Kai. Agarrou o cotovelo dele e o virou para que a encarasse.
Sem hesitar, Cinder passou os braços ao redor do pescoço dele e o beijou.
Kai congelou, o corpo tão tenso quanto o de um androide contra o dela, mas seus lábios estavam macios e quentes. Embora Cinder pretendesse que fosse um beijo curto, quando deu por si, estava protelando. Um formigamento quente percorreu seu corpo, surpreendendo-a e assustando-a, mas não de uma forma desagradável, explodindo como eletricidade em seus fios. Dessa vez, ela não teve uma sobrecarga. Dessa vez, sua fiação não ameaçou queimá-la de dentro para fora.
O desespero derreteu e, pelo mais breve dos momentos, os motivos ocultos desapareceram. Ela se descobriu beijando-o por nenhuma outra razão além de querer fazê-lo. Queria que ele soubesse que ela também desejava isso.
Não tinha percebido o quanto queria que Kai retribuísse o beijo até se tornar claro que ele não o faria.
Cinder se afastou novamente. Suas mãos permaneceram nos ombros de Kai e ainda tremiam devido à energia dentro dela.
Kai ficou boquiaberto, os lábios entreabertos, e apesar da reação instintiva de Cinder ser a de recuar e pedir imensas desculpas, ela se controlou.
— Talvez — disse ela, testando a voz antes de elevar o tom o suficiente para que tivesse certeza de que a multidão ia ouvi-la. — Talvez a rainha não aceite sua proposta, uma vez que saiba que já está apaixonado por mim!
As sobrancelhas de Kai subiram mais ainda.
— O quê…?
Ao lado dele, o conselheiro inspirou fundo por entre os dentes, e uma série de suspiros e sussurros atravessou a multidão. Cinder percebeu que a música havia parado novamente, pois os músicos se levantaram, tentando dar uma olhada no que estava acontecendo.
A explosão de uma risadinha jovial cortou o constrangimento. O som, embora repleto da doçura de um riso de criança, enviou calafrios à espinha de Cinder.
Tirando as mãos do pescoço de Kai, ela se virou lentamente.
A multidão também seguiu o ruído, girando junto como marionetes presas por cordas.
E lá estava a rainha Levana.
Encostada em uma das colunas que ladeavam a porta para os jardins, segurando uma taça de vinho de ouro em uma das mãos e pressionando os dedos da outra a seus sorridentes lábios vermelhos. Sua imagem era a perfeição. Sua postura não poderia ser mais equilibrada se tivesse sido esculpida da mesma pedra que o pilar. Ela usava um vestido azul royal, que brilhava com o que provavelmente eram diamantes, dando a distinta impressão de serem estrelas do céu de um verão sem fim.
A luz laranja piscou no canto do campo de visão de Cinder. O encanto da rainha, a mentira sem fim.
Além da rainha, um guarda lunar estava posicionado um pouco à frente da porta, seu cabelo vermelho gritante arrepiado como a chama de uma vela. Um homem e uma mulher vestidos com o uniforme dos taumaturgos reais também ficaram por perto, aguardando ordens da soberana. Os dois eram belíssimos e, ao contrário da rainha, sua beleza não parecia ser uma ilusão.
Cinder se perguntou se isso era um requisito para servir o trono lunar ou se Levana era a única lunar na galáxia que não tinha nascido com os olhos brilhantes e a pele perfeita.
— Que encantadoramente ingênuo — disse a rainha, deixando escapar outra risadinha. — Você deve compreender mal minha cultura. Em Luna, consideramos a monogamia nada mais do que um sentimentalismo arcaico. Que me importa se meu futuro marido é apaixonado por outra… — ela fez uma pausa, seus olhos escuros analisando o vestido de Cinder — mulher?
Terror envolveu a garganta de Cinder enquanto os olhos da rainha pareciam atravessá-la. A rainha sabia que Cinder era lunar. Ela conseguia perceber.
— O que me preocupa — continuou a rainha Levana, sua voz soando como uma doce canção de ninar que a cortava com as palavras seguintes — é que parece que meu noivo se apaixonou por uma cascuda. Estou enganada?
Os taumaturgos concordaram com a cabeça, seus olhos fixos em Cinder.
— Ela sem dúvida tem o cheiro de uma — disse a mulher.
Cinder franziu o nariz. Segundo o dr. Erland, ela não era realmente uma cascuda, e ela se perguntou se a mulher estava inventando aquele insulto para zombar dela. Ou talvez estivesse sentindo o cheiro do vapor da gasolina.
De repente, sua rede reconheceu a mulher, e Cinder se esqueceu da afronta. Ela era a diplomata que estivera em Nova Pequim durante semanas, cuja imagem aparecera em todos os noticiários, embora Cinder nunca tivesse prestado muita atenção.
Sybil Mira, taumaturga-chefe da rainha lunar.
Sra. Sybil, a menina dissera no chip de comunicação direta. Aquela era a mulher que a obrigara a montar o equipamento de espionagem, que havia colocado o chip em Nainsi.
Cinder tentou relaxar, surpresa que seu painel de controle não houvesse entrado em curto-circuito com toda a adrenalina correndo em suas veias. O que ela não daria por uma arma, mesmo uma simples chave de fenda para se proteger — qualquer coisa além daquele pé inútil e luvas de seda fina.
Kai deixou Cinder, marchando em direção à rainha.
— Vossa Majestade, peço desculpas por esta interrupção — disse ele, Cinder só ouvindo suas palavras quando ajustou sua interface de áudio. — Mas não precisamos fazer uma cena na frente dos meus convidados.
Os olhos da rainha, negros como carvão, faiscaram com a luz quente do salão.
— Parece que você é perfeitamente capaz de fazer uma cena sem a minha ajuda. — Seu sorriso tornou-se um beicinho brincalhão. — Ah, querido, parece que estou mais magoada do que julguei por sua volubilidade. Eu acreditava ser sua convidada pessoal esta noite. — Mais uma vez, seus olhos acariciaram o rosto do Cinder. — Você não pode achá-la mais bonita do que eu. — Ela estendeu um dedo e traçou a mandíbula de Kai com a unha. — Meu querido, você está corando?
Kai afastou a mão de Levana, mas antes que pudesse responder, ela se virou para Cinder e sua expressão se encheu de nojo.
— Qual é o seu nome, criança?
Cinder engoliu em seco, obrigando seu nome a sair da garganta.
— Cinder.
— Cinder. — Uma risada condescendente. — Que apropriado. Cinzas. Poeira. Sujeira.
— Chega! — interrompeu Kai, mas Levana passou por ele com facilidade, o vestido cintilante balançando em seus quadris. Ela segurou seu copo de vinho no ar, como se estivesse preparada para cumprimentar o príncipe por um jantar tão agradável.
— Diga-me, Cinder — disse ela —, de qual pobre moça da Terra você roubou esse nome?
A mão de Cinder voou para seu pulso e agarrou a luva de seda e a pele que escondiam seu chip de identificação, ainda dolorido pela pequena incisão que fizera mais cedo. Um peso se instalou na boca de seu estômago.
A rainha fungou.
— Vocês, cascudos — disse ela, erguendo a voz para a multidão —, acham que são tão inteligentes. Então, você roubou o chip do pulso de uma terráquea morta. Assim conseguiu entrar no sistema do governo. Acha que se passa por humana, que pode existir aqui, sem quaisquer repercussões. Vocês são tolos.
Cinder apertou o maxilar. Ela queria explicar que não tinha lembrança de nada além de ser terráquea — nada além de ciborgue. Mas de quem ela estaria se defendendo? Certamente não era da rainha. E Kai… Kai, que olhava entre ela e a rainha, tentando encaixar as peças das palavras de Levana em sua cabeça.
A rainha voltou-se para o imperador.
— Não só abrigando lunares, mas também se misturando com eles. Estou decepcionada com você, Vossa Majestade. — Ela estalou a língua. — O fato de esta menina viver dentro de suas fronteiras prova que você está violando o Acordo Interplanetário. Eu levo o desrespeito descarado a tal estatuto muito a sério, imperador Kaito. Na verdade, poderia justificar uma proposta de guerra. Eu insisto que esta traidora seja encarcerada e devolvida a Luna imediatamente. Jacin?
Um segundo guarda lunar saiu da multidão, tão bonito quanto os outros, com longos cabelos loiros e graves olhos azul-claros. Sem aviso, agarrou os pulsos de Cinder, prendendo-os atrás dela. Ela suspirou, seu olhar sobrevoando descontroladamente a plateia reunida enquanto gritos alarmados se espalhavam.
— Pare! — Kai correu em direção a Cinder e agarrou seu cotovelo. Ele a puxou para si e ela tropeçou, mas o guarda não afrouxou seu aperto.
O guarda puxou Cinder novamente e seu braço, escorregadio por causa das luvas de seda, foi arrancado das mãos de Kai. Ela se viu grudada ao lunar. O peito dele era sólido por detrás dela e um fraco zumbido ressoava em sua cabeça, como eletricidade estática no cabelo.
Magia, ela percebeu. Bioeletricidade zumbindo dentro dele.
Será que todos poderiam ouvi-lo de tão perto, ou seria mais um sinal de seu dom a despertar?
— Solte-a! — disse Kai, apelando para a rainha. — Isso é um absurdo. Ela não é fugitiva, nem mesmo é lunar. Ela é apenas uma mecânica!
Levana ergueu uma sobrancelha fina. Seus olhos brilhantes ultrapassaram Kai, pousando em Cinder com um olhar ao mesmo tempo belo e cruel.
O calor estava aumentando na coluna de Cinder, um calor constante e crescente. Ela temia um colapso. A dor viria, ela desmaiaria e seria inútil.
— Bem, Cinder? — disse a rainha Levana, agitando o vinho pálido. — Parece que você vem mantendo segredos de seus superiores reais. Você deseja refutar minha alegação?
Kai se virou para ela, e ela pôde sentir seu desespero, mesmo que não conseguisse olhá-lo. Ela se concentrou apenas na rainha, seu maxilar doendo com a tensão e o ódio.
Ela estava contente que lágrimas não revelariam sua humilhação. Contente que nenhum sangue em seu rosto revelaria sua raiva. Contente que seu odioso corpo de ciborgue servia para alguma coisa enquanto ela se agarrava a sua dignidade despedaçada. Levantou o olhar, fixando-o na rainha.
Seu visor começou a entrar em pane, observando seus níveis elevados de adrenalina, a pulsação acelerada. Advertências piscavam diante dela, mas ela as ignorou, por incrível que pareça, calma.
— Se eu não tivesse sido trazida à Terra — respondeu —, seria uma escrava sob seu governo. Não vou pedir desculpas por escapar.
No canto do olhar, viu o rosto de Kai desmoronar, olhos arregalados enquanto a verdade tornava-se inegável. Ele vinha cortejando uma lunar.
Um grito ecoou da multidão. Uma série de gritinhos sufocados, um baque suave. Adri tinha desmaiado.
Engolindo em seco, Cinder endireitou os ombros.
— Não quero desculpas — disse Levana, lançando um sorriso perverso. — Eu só quero ver os erros de sua vida corrigidos de forma rápida e garantida.
— Você quer me ver morta.
— Como ela é inteligente. Sim, quero. E não só você, mas todos como você. Vocês, cascudos, são uma ameaça à sociedade, um perigo para nossa cultura ideal.
— Porque você não pode fazer lavagem cerebral para nos convencer a adorar você como faz com o resto das pessoas?
Os lábios da rainha afinaram, endurecendo como gesso no rosto. Sua voz baixou, gelando a sala. Uma súbita explosão de chuva atrás dela sacudiu as janelas.
— Não é só para o meu povo, mas para todos os terráqueos também. Vocês, cascudos, são uma praga. — Ela fez uma pausa, a leveza retornando a seus olhos, como se fosse rir. — Literalmente, parece.
— Minha rainha — disse a mulher de cabelos escuros — se refere à chamada febre azul, que causou tantos estragos em seus cidadãos. E, claro, na própria família real… que o imperador Rikan descanse…
— O que isso tem a ver? — interrompeu Kai.
A mulher enfiou as mãos nas mangas em forma de sino de seu casaco cor de marfim.
— Seus brilhantes cientistas ainda não chegaram a essa conclusão? Muitos lunares não dotados são portadores de letumose. Eles a trouxeram para a Terra. E continuam a espalhá-la, sem preocupação, ao que parece, pelas vidas que estão tomando.
Cinder balançou a cabeça.
— Não — disse ela. Kai virou-se para ela, inconscientemente dando um passo adiante. Ela sacudiu a cabeça com mais veemência. — Eles não sabem que estão fazendo isso. Como poderiam? E, claro, os cientistas já descobriram, mas o que podem fazer, além de tentar encontrar uma cura?
A rainha riu com energia.
— Ignorância é a sua defesa? Quão banal. Você deve ver a verdade, o fato de que você deveria estar morta. Seria muito melhor para todos se estivesse.
— E, só para constar — disse Cinder, erguendo a voz —, eu não sou cascuda.
A rainha sorriu maliciosamente, sem se convencer.
— Basta — disse Kai. — Não me importa onde ela nasceu. Cinder é uma cidadã da Comunidade das Nações Orientais. Eu não vou permitir que a prendam.
Levana não tirou o olhar de Cinder.
— Abrigar um fugitivo é motivo para guerra, jovem imperador. Você sabe disso.
A visão de Cinder esmaeceu enquanto sua retina derramava sobre ela um diagrama sem sentido. Ela fechou os olhos com força, xingando. Aquele não era o momento para uma avaria cerebral.
— Mas talvez — disse a rainha — possamos chegar a algum tipo de acordo.
Cinder abriu os olhos. A película escura permaneceu, mas o diagrama confuso tinha desaparecido. Ela se concentrou na rainha bem a tempo de ver uma curva cruel em seus lábios.
— Essa menina parece pensar que você a ama, e aqui está sua chance de prová-lo. — Ela baixou os cílios faceiramente. — Então, diga-me, Vossa Majestade, você está preparado para negociar por ela?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!