7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Treze

SCARLET SAIU CORRENDO PELO CAMINHO DE ENTRADA, COM O cascalho machucando os pés. O vento açoitou seus cachos, jogando-os no rosto dela.
— Para onde ele foi? — perguntou ela, prendendo o cabelo no capuz. O sol já estava alto no horizonte, tingindo as plantações de dourado e cobrindo o caminho de sombras trêmulas.
— Talvez alimentar as aves? — Lobo apontou para uma galinha que contornou a casa, seguindo no caminho da horta.
Ignorando o cascalho que machucava seus pés, Scarlet saiu correndo para a parte de trás da casa. Folhas de carvalho giravam no vento. O hangar, o celeiro e o galinheiro estavam todos silenciosos no amanhecer. Não havia sinal do pai dela.
— Ele devia estar procurando alguma coisa, ou... — O coração de Scarlet saltou. — Minha nave!
Ela correu, ignorando o caminho de pedras, o mato áspero. Quase se chocou na porta do hangar, mas conseguiu segurar a maçaneta e abrir, quando um estrondo fez a construção tremer.
— Pai!
Mas ele não estava dentro da nave, se preparando para decolar como ela temia. Estava de pé no alto dos armários que ocupavam toda a parede oposta, enfiando a mão na parte de cima e jogando no chão o que se encontrava ali. Latas de tinta, fios de extensões, peças de furadeira.
Uma caixa de ferramentas inteira tinha sido revirada, cobrindo o concreto com pregos e parafusos, e dois armários de metal no fundo estavam escancarados, deixando à mostra uma variedade de uniformes militares de piloto, macacões e um único chapéu de palha de jardinagem enfiado em um canto.
— O que você está fazendo? — Scarlet andou na direção dele, mas se abaixou e ficou imóvel quando uma chave inglesa voou por cima de sua cabeça. Como não houve estrondo depois, ela olhou para trás e viu Lobo segurando a ferramenta a trinta centímetros do rosto, piscando de surpresa. Scarlet virou. — Pai, o quê...?
— Tem alguma coisa aqui! — disse ele, enquanto abria outro armário. Ele virou uma lata de cabeça para baixo, e pareceu surpreso quando centenas de pregos enferrujados caíram estalando no chão.
— Pai, para! Não tem nada aqui! — Ela andou pela confusão, sentindo mais as peças enferrujadas doerem nos pés do que tinha sentido as pedras lá fora. — Para!
— Tem alguma coisa aqui, Scar. — Enfiando uma lata de metal debaixo de um braço, desceu da bancada e se agachou para abrir a tampa. Apesar de também estar descalço, os pregos e parafusos não pareciam incomodá-lo. — Ela tem alguma coisa aqui que eles querem. Tem que estar aqui. Em algum lugar... mas onde...
O ar se encheu dos vapores pungentes de lubrificante de motor quando o pai inclinou uma lata, fazendo com que a graxa amarelada se derramasse por cima da confusão.
— Pai, larga isso! — Ela pegou um martelo no chão e segurou acima da cabeça. — Vou bater em você, eu juro!
O pai a olhou, finalmente, com aquela mesma loucura assombrada. Aquele não era seu pai. Este homem não era vaidoso, encantador e hedonista, todas as coisas que ela admirara quando criança e desprezara quando adolescente. Esse homem estava destruído.
O fluxo de óleo virou um gotejar.
— Pai. Larga a lata. Agora.
Os lábios dele tremeram e sua atenção se desviou, concentrando-se na pequena nave de entregas a menos de dois metros dele.
— Ela amava voar — murmurou ele. — Amava as naves dela.
— Pai. Pai...!
De pé, o pai bateu com a lata no vidro traseiro da nave. Uma rachadura se espalhou como uma teia de aranha.
— A minha nave não! — Scarlet largou o martelo e correu para cima dele, tropeçando em ferramentas e destroços.
O vidro quebrou com o segundo golpe, e seu pai já estava se jogando por entre os estilhaços.
— Para! — Scarlet o segurou pela cintura e o arrastou para fora da nave. — Deixa ela em paz!
Ele se debateu, golpeou a lateral do corpo de Scarlet com os joelhos, e os dois caíram no chão.
Uma lata afundou na coxa de Scarlet, mas só pensava em segurar melhor o pai, em tentar prender seus braços que se debatiam para todos os lados. Havia sangue nas mãos dele por ter segurado o vidro quebrado, e um corte no tronco já estava ficando vermelho.
— Me solta, Scar. Vou encontrar. Vou...
Ele gritou ao ser puxado para longe dela. Instintivamente, Scarlet apertou mais, ainda tentando dominá-lo, até perceber que Lobo estava ali, colocando seu pai de pé. Ela soltou, ofegante. Uma das mãos foi esfregar seu quadril, que latejava.
— Me solta! — Virando a cabeça, o pai mordeu o ar.
Lobo ignorou a luta, prendeu os pulsos dele com uma das mãos e ofereceu a outra para Scarlet.
Assim que a palma da mão dela tocou a dele, os gritos do pai reiniciaram.
— Ele é um deles! Um deles!
Lobo puxou Scarlet para que ficasse de pé e a soltou, passando a usar os dois braços para segurar o pai dela, que se debatia. Scarlet quase esperava ver espuma sair dos cantos da boca do pai.
— A tatuagem, Scar! São eles! São eles!
Ela tirou o cabelo do rosto.
— Eu sei, pai. Acalme-se! Posso explicar...
— Você não pode me levar de volta! Ainda estou procurando! Preciso de mais tempo! Por favor, chega. Chega... — E caiu no choro.
Lobo franziu as sobrancelhas e olhou para a parte de trás da cabeça caída do pai, pegou uma corrente fina ao redor do pescoço dele e puxou, quebrando-a.
O pai se encolheu e, quando Lobo o soltou, caiu, pesado, no chão.
Confusa, Scarlet olhou para o colar pendurado na mão de Lobo, com um pingente pequeno e desconhecido. Não conseguia se lembrar de o pai usar acessórios além da aliança de monogamia, que tirou dias depois de sua mãe descobrir que não tinha cumprido seu propósito, e deixá-lo.
— Transmissor — disse Lobo, erguendo o pingente para que o brilho prateado fosse visto na luz. Era do tamanho da unha do dedo mínimo de Scarlet. — Eles o estão rastreando e ouvindo tudo também, eu diria.
O pai de Scarlet abraçou os joelhos e se balançou para a frente e para trás.
— Você acha que estão ouvindo agora? — perguntou Scarlet.
— Provavelmente.
Ela sentiu uma explosão no peito, disparou para a frente e agarrou o punho de Lobo com as duas mãos.
— Não tem nada aqui! — gritou para o pingente. — Não estamos escondendo nada e vocês estão com a mulher errada! É melhor trazerem minha avó de volta, se não, juro pela casa em que nasci que, se tiverem machucado um fio de cabelo, uma ruga, uma sarda do corpo dela, vou caçar cada um de vocês e quebrar seus pescoços como os frangotes que são, estão entendendo? TRAGAM MINHA AVÓ DE VOLTA!
Com a garganta ardendo, ela recuou e soltou a mão de Lobo.
— Terminou?
Tremendo de raiva, Scarlet assentiu.
Lobo deixou o transmissor cair no chão, pegou o martelo e o destruiu com um único golpe.
Scarlet deu um pulo quando o metal foi esmagado no concreto.
— Você acha que eles sabiam que ele viria aqui? — perguntou Lobo, ficando de pé.
— Eles o deixaram no nosso milharal.
A voz do pai dela surgiu entre eles, seca e vazia.
— Eles me mandaram encontrar.
— Encontrar o quê? — perguntou Scarlet.
— Não sei. Eles não disseram. Só... que ela está escondendo alguma coisa. Alguma coisa valiosa e secreta que eles querem.
— Espere... você sabia? — perguntou Scarlet. — Você sabia o tempo todo que tinha um transmissor no pescoço e não me disse nada? Pai, e se eu tivesse dito ou feito alguma coisa que fizesse com que desconfiassem de mim? E se vierem atrás de mim agora?
— Eu não tinha escolha — respondeu ele. — Era a única forma de me soltarem. Eles disseram que eu só poderia ter minha liberdade se descobrisse o que sua avó estava escondendo. Se eu encontrasse alguma pista que ajudasse... Eu tinha que sair de lá, Scar, você não sabe como era...
— Sei que ainda estão com ela! E sei que você é covarde o suficiente para salvar a própria pele e não ligar pro que acontece com ela e nem pro que poderia acontecer comigo.
Scarlet prendeu a respiração, esperando que ele negasse. Que desse alguma desculpa distorcida como sempre fizera, mas ele ficou completamente imóvel, completamente calado.
A pele dela ardeu de raiva.
— Você é uma desgraça para ela, para tudo que ela sempre defendeu. Ela arriscaria a vida pra proteger nós dois! Arriscaria a vida por um estranho se fosse a coisa certa a fazer. Mas você só se importa consigo mesmo. Não posso acreditar que seja filho dela. Não consigo acreditar que seja meu pai.
Ele ergueu os olhos para a filha, assombrado.
— Você está enganada, Scarlet. Ela os viu me torturar. A mim. E ainda assim não contou os segredos. — Um brilho desafiador surgiu em seu rosto. — Tem alguma coisa que sua avó nunca contou pra nós, Scar, e nos colocou em perigo. Ela é que é egoísta.
— Você não sabe nada sobre ela!
— Não, você não sabe! Você a idolatra desde que tinha quatro anos, e isso cegou você para a verdade! Ela nos traiu, Scarlet.
Com as veias pulsando na testa, Scarlet apontou para a porta.
— Saia. Saia da minha fazenda e não volte nunca mais. Não quero nunca voltar a ver você.
Ele ficou pálido, e as olheiras pareciam hematomas sob os olhos. Lentamente, ele se levantou do chão.
— Você vai me abandonar também? Minha própria filha e minha própria mãe, as duas se virando contra mim?
— Você nos abandonou primeiro.
Scarlet se deu conta de que, nos cinco anos desde que o viu pela última vez, tinha alcançado a altura do pai. Eles se olharam nos olhos, ela queimando por dentro, ele franzindo a testa como se quisesse se desculpar, mas não conseguisse entender o sentimento.
— Adeus, Luc.
Ele trincou os dentes.
— Eles virão atrás de mim de novo, Scarlet. E a culpa será sua.
— Não ouse. Foi você quem estava usando o transmissor, foi você quem estava disposto a me vender.
Ele sustentou o olhar dela por um longo momento, como se estivesse esperando que a filha mudasse de ideia. Esperando que ela o convidasse de volta para casa, para sua vida. Porém, tudo que Scarlet conseguia ouvir era o barulho do metal esmagando o transmissor. Ela pensou nas marcas de queimadura no braço dele e soube que seu pai a entregaria para ser torturada se isso salvasse a pele dele.
Por fim, ele baixou o olhar e, sem levantar a cabeça, sem olhar para Lobo, foi andando pelos destroços e saiu do hangar.
Os punhos de Scarlet se apertaram. Ela teria que esperar. Ele entraria em casa para pegar os sapatos. Ela o imaginou revirando a cozinha em busca de comida antes de ir embora, ou tentando encontrar uma garrafa de bebida. Ela não ousaria correr o risco de cruzar com ele de novo antes que fosse embora de vez.
O covarde. O traidor.
— Eu ajudo você.
Ela cruzou os braços para proteger a raiva da voz gentil de Lobo. Observou o caos ao redor, a bagunça que levaria semanas para arrumar.
— Não preciso da sua ajuda.
— Quero dizer que vou ajudar a trazer sua avó de volta. — Lobo se abaixou, como se estivesse surpreso por ter feito a proposta.
Demorou um tempo patético para seu pensamento mudar de curso, indo do xingamento interno contra o pai traidor para a enormidade das palavras de Lobo. Olhou para ele e prendeu a respiração, imaginando as palavras presas em uma bolha que poderia estourar.
— Vai mesmo?
A cabeça dele tremeu no que poderia ser um aceno de concordância.
— Os Lobos têm um quartel-general em Paris. Deve ser onde ela está.
Paris. A palavra preencheu a mente dela. Uma pista. Uma promessa.
Ela olhou para a nave e para a janela quebrada. Uma nova onda de ódio pelo pai surgiu, mas murchou rapidamente. Não havia tempo. Não agora. Não com o primeiro sinal de esperança que ela conseguia em duas intermináveis semanas.
— Paris — murmurou ela. — Podemos pegar o trem em Toulouse... Leva o quê, umas oito horas? — Odiava a ideia de estar sem a nave, mas até um trem de levitação magnética irritantemente lento seria mais rápido do que mandar trocar o vidro. — Alguém vai ter que cuidar da fazenda enquanto eu estiver fora. Talvez Émilie, depois do trabalho. Vou mandar uma mensagem pra ela, e preciso pegar umas roupas e...
— Scarlet, espere. Não podemos sair correndo para lá. Precisamos planejar.
— Sair correndo? Não podemos sair correndo? Eles estão com ela há mais de duas semanas! Isso não é correr!
O olhar de Lobo ficou mais sombrio e Scarlet parou, reconhecendo o desconforto dele pela primeira vez.
— Olha — disse ela, umedecendo os lábios —, vamos ter oito horas no trem para pensar em alguma coisa. Mas não posso ficar aqui nem mais um segundo.
— Mas e se seu pai estiver certo? — Os ombros dele continuaram rígidos. — E se ela escondeu alguma coisa aqui? E se eles vierem procurar?
Ela balançou a cabeça.
— Podem procurar o quanto quiserem, mas não vão encontrar nada. Meu pai está errado. Grand-mère e eu não temos segredos.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!