20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Treze

— Quando você aprendeu a bordar? — perguntou Jacin, remexendo na cesta pendurada no cotovelo de Winter.
Ela ficou exultante.
— Algumas semanas atrás.
Jacin pegou uma toalha de mão na coleção e observou os pontos precisos que formavam um amontoado de estrelas e planetas nas bordas.
— Você estava conseguindo dormir?
— Não muito, não. — Ela mexeu na cesta e entregou para ele um cobertor de bebê bordado com um cardume de peixes nadando pela borda. — Este é meu favorito. Demorei quatro dias inteiros.
Ele grunhiu.
— Imagino que as visões estivessem ruins nessa semana.
— Horríveis — disse ela com tom leve. — Mas agora tenho todos esses presentes. — Ela pegou o cobertor na mão dele e guardou no meio dos tecidos coloridos. — Você sabe que me manter ocupada ajuda. É quando estou à toa que os monstros vêm.
Jacin a observou pelo canto do olho. Ele já era guarda dela havia semanas, mas eles raramente conversavam de forma tão casual ou andavam lado a lado assim; esperava-se que os guardas mantivessem uma distância respeitosa da pessoa que estavam protegendo. Mas, naquele dia, Winter o arrastou até o AR-2, um dos domos adjacentes ao setor central. Era composto por lojas chiques no meio de bairros residenciais, mas cedo assim todas as lojas ainda estavam fechadas, e as ruas, vazias e pacíficas. Não havia ninguém para se preocupar com o que era apropriado.
— E todos esses presentes são para os vendedores?
— Vendedores, trabalhadores, empregados. — Os olhos dela brilharam. — A máquina de Artemísia na qual ninguém presta atenção.
As classes mais baixas, então. As pessoas que cuidavam do lixo e faziam a comida e garantiam todas as necessidades da aristocracia de Luna. Eram recompensadas com vidas bem mais invejáveis do que os trabalhadores dos setores externos. Barrigas cheias, no mínimo. O único lado ruim era que elas tinham que morar em Artemísia, cercadas pela política e pelos jogos mentais da cidade. Um bom empregado era tratado como um bichinho amado, mimado e bajulado quando era querido, mas era surrado e descartado quando não tinha mais utilidade.
Jacin sempre pensou que, dada a escolha, ele preferiria arriscar a sorte nas minas ou fábricas.
— Você os tem visitado muito? — perguntou ele.
— Não tanto quanto eu gostaria. Mas uma das assistentes do chapeleiro teve bebê, e eu queria dar uma coisa para ela. Acha que ela vai gostar?
— Vai ser a melhor coisa que a criança vai ter.
Winter deu um pulinho alegre enquanto andava.
— Minha mãe era ótima costureira, sabe. Estava ficando bem popular entre as lojas de vestidos quando… bem. De qualquer modo, ela bordou meu cobertorzinho. Levana tentou jogar fora, mas papai conseguiu guardar. É um dos meus bens mais preciosos. — Ela bateu os cílios, e Jacin sentiu os lábios tremerem para ela, contra a vontade.
— Eu sabia que ela era costureira — disse ele. — Mas como nunca vi esse seu cobertorzinho especial?
— Fiquei com vergonha de falar sobre ele.
Ele riu, mas como Winter não riu junto, o som sumiu.
— É mesmo?
Winter deu de ombros, dando seu sorriso malicioso.
— É besteira, não é? Eu me apegar a um cobertorzinho de bebê, dentre todas as coisas? — Ela respirou fundo. — Mas também é meu homônimo. Ela bordou uma cena do inverno na Terra, com neve e árvore sem folhas e um par de luvinhas vermelhas. Luvinhas daquelas em que os dedos ficam todos juntos.
Jacin balançou a cabeça.
— Com vergonha de me mostrar. É a coisa mais idiota que já ouvi.
— Tudo bem. Vou mostrar se você quiser.
— Claro que quero.
Ele ficou surpreso com o quanto a confissão dela o magoou. Ele e Winter compartilhavam tudo desde que eram crianças. Nunca lhe ocorreu que ela podia esconder uma coisa assim, principalmente uma coisa tão importante quanto um presente da mãe, que tinha morrido no parto. Mas o humor dele melhorou quando lembrou:
— Eu contei que vi neve quando fui à Terra?
Winter parou de andar, os olhos arregalados.
— Neve de verdade?
— Tivemos que esconder a nave na Sibéria, em uma tundra enorme.
Ela o olhou como se fosse derrubá-lo se ele não desse mais detalhes.
Com um sorrisinho, Jacin passou os polegares no cinto e se balançou nos calcanhares.
— Só isso.
— Não é só isso. Como era?
Ele deu de ombros.
— Branca. Cegante. E muito fria.
— Brilhava como diamante?
— Às vezes. Quando o sol batia nela.
— Como era o cheiro?
Ele se encolheu.
— Não sei, Win… princesa. Meio que como gelo, eu acho. Não passei muito tempo do lado de fora. Na maior parte do tempo, ficávamos enfiados na nave.
O olhar dela vacilou com o escorregão de Jacin ao quase dizer seu nome. Parecia desapontada, o que deu a ele um vislumbre de culpa.
Ele bateu de leve nas costas dela com o ombro.
— Seus pais escolheram bem. Você foi batizada em homenagem a uma coisa bonita. É adequado.
— Winter — sussurrou ela. — Inverno.
Sua expressão ficou especulativa, com as luzes de uma loja de vestidos acentuando as manchas cinzentas nos olhos.
Jacin tentou não ficar constrangido quando afastou o olhar. Havia vezes que ela estava tão perto que ele ficava impressionado com sua própria habilidade de não botar as mãos nela.
Passando a cesta para o outro braço, Winter recomeçou a andar.
— Nem todo mundo me acha bonita.
Ele riu.
— Quem disse isso estava mentindo. Ou com inveja. Provavelmente, as duas coisas.
— Você não me acha bonita.
Ele riu de novo, de um jeito meio descontrolado, depois gargalhou mais quando ela fez cara feia.
— Isso é engraçado?
Ele controlou a expressão e imitou a cara feia dela.
— Se ficar dizendo coisas assim, as pessoas vão começar a pensar que você ficou maluca.
Ela abriu a boca para refutar. Hesitou. Quase deu de cara com uma parede, mas Jacin a puxou para o centro do beco estreito.
— Você nunca me chamou de bonita, nem uma vez — disse ela, depois que ele puxou a mão de volta para perto do corpo.
— Caso não tenha reparado, você tem um país inteiro de pessoas cantando elogios para você. Sabia que escrevem poesias sobre você nos setores externos? Eu tive que ouvir um bêbado cantar uma balada inteira alguns meses atrás sobre sua perfeição de deusa. Tenho certeza de que a galáxia não precisa da minha opinião sobre o assunto.
Ela baixou a cabeça e escondeu o rosto atrás de uma cascata de cabelo. E isso foi ótimo. As bochechas de Jacin tinham ficado quentes, o que o deixou ao mesmo tempo sem graça e irritado.
— Sua opinião é a única que interessa — sussurrou ela.
Jacin enrijeceu e lançou um olhar que não foi retribuído. Ele se deu conta de que talvez os tivesse levado a um assunto que não tinha intenção de explorar mais.
Fantasias, claro.
Desejos, o tempo todo. Mas realidade? Não, isso era tabu. Não terminaria em nada de bom.
Ela era uma princesa. Sua madrasta era uma tirana que casaria Winter com alguém politicamente benéfico para os desejos dela.
Jacin era o oposto de politicamente benéfico.
Mas ali estavam eles, e ali estava ela, toda bonita e rejeitada. Por que ele teve que abrir a boca enorme e burra?
Jacin suspirou, exasperado. Com ela. Consigo mesmo. Com a situação toda.
— Por favor, princesa. Você sabe o que sinto por você. Todo mundo sabe o que sinto por você.
Winter parou de novo, mas ele continuou andando, balançando o dedo acima do ombro.
— Não vou dizer essas coisas e olhar para você ao mesmo tempo, então me acompanhe.
Ela deu uma corridinha atrás dele.
— O que você sente por mim?
— Não. Já chega. Isso é tudo o que eu vou dizer. Eu sou seu guarda. Estou aqui para proteger você e deixá-la longe de problemas, só isso. Nós não vamos trocar palavras que vão resultar em um monte de noites constrangedoras minhas de pé em frente à porta do seu quarto, entendeu?
Ele ficou surpreso com a irritação em sua voz; não, com o quanto pareceu estar irritado.
Porque era impossível. Era impossível e injusto, e ele passou anos demais nas trincheiras da injustiça para se irritar com isso.
Winter andou ao lado dele, os dedos envolvendo a alça da cesta. Pelo menos ela não estava tentando mais chamar a atenção, o que era uma pequena misericórdia.
— Eu sei o que você sente por mim — admitiu ela por fim, e pareceu uma confissão. — Sei que você é meu guarda e é meu melhor amigo. Sei que você morreria por mim. E sei que, se isso acontecesse, eu morreria logo depois.
— É — disse ele. — É basicamente isso.
O som de um moedor de grãos de café ecoou pela passarela de pedra, e o cheiro de pão assando atacou os sentidos de Jacin. Ele se preparou.
— Eu também acho você meio bonitinha. Você sabe. Em um dia bom.
Ela riu e o cutucou com o ombro. Ele a cutucou de volta, e ela cambaleou para cima de um vaso de flores, rindo mais.
— Você também é meio bonitinho — disse ela.
Ele fez uma cara feia, mas era impossível se segurar quando ela estava rindo assim.
— Vossa Alteza!
Os dois pararam. Jacin enrijeceu e a mão foi até o coldre da arma, mas era só uma garotinha olhando os dois da porta de uma lojinha. Um balde cheio de sabão estava intocado aos pés dela, e os olhos estavam tão grandes e redondos quanto a Terra.
— Ah, oi — disse Winter, ajeitando a cesta. — Astrid, não é?
A garota assentiu, com calor subindo pelas bochechas enquanto olhava para a princesa.
— Eu… — Ela olhou para a loja e de novo para Winter. — Espere aqui! — gritou, e largou um trapo no balde com um barulho molhado e entrou correndo pela porta.
Winter inclinou a cabeça para o lado e o cabelo caiu por cima do ombro.
— Você conhece aquela criança?
— A mãe e o pai dela são donos dessa floricultura. — Ela passou os dedos por uma trepadeira na janela.
Jacin grunhiu.
— O que ela quer?
— Como eu posso saber? Eu queria ter trazido alguma coisa para eles…
A garota reapareceu, com dois garotos menores junto.
— Está vendo? Eu falei que ela ia voltar! — disse ela. Os garotos pararam para olhar Winter com o queixo caído. O mais novo estava segurando um aro de galhos e flores secas com as duas mãos.
— Oi — cumprimentou Winter, fazendo uma reverência para cada um. — Acredito que não tivemos o prazer de nos conhecer. Sou Winter.
Como os garotos não encontraram coragem para falar, Astrid respondeu:
— Eles são meus irmãos, Vossa Alteza, Dorsey e Dylan. Eu falei que você comprou flores na nossa loja e eles não acreditaram.
— Ah, é verdade. Comprei um arranjo de belldandies azuis e deixei na minha mesa de cabeceira por uma semana.
— Uau — sussurrou Dorsey.
Winter sorriu.
— Peço desculpas por não podermos ficar para dar uma olhada na loja de vocês esta manhã, mas estamos indo visitar a assistente do chapeleiro. Vocês já viram o bebê?
Os três balançaram a cabeça. Em seguida, Astrid cutucou o menino mais novo, Dylan, com o cotovelo. Ele deu um pulo, mas não conseguiu reunir coragem para falar.
— Nós fizemos uma coisa para você — disse Astrid. — Estávamos esperando que voltasse. É só… é só das sobras, mas… — Ela cutucou o irmão de novo, com mais força desta vez, e ele finalmente levantou o aro de flores.
— O que é isso? — perguntou Winter, pegando nas mãos.
Jacin franziu a testa, mas levou um susto ao perceber o que era.
O garoto mais velho respondeu:
— É uma coroa, Vossa Alteza. Demoramos quase uma semana juntando todas as peças. — As bochechas dele estavam bem vermelhas.
— Sei que não é muito — disse a garota. — Mas é para você.
O garoto mais novo, depois de entregar o presente, disse de repente “Você é linda” antes de se esconder atrás do irmão.
Winter riu.
— Vocês são muito gentis. Obrigada.
Uma luz enevoada chamou a atenção de Jacin. Ele olhou para cima e viu um nódulo no beiral da loja ao lado, uma pequena câmera observando as lojas e os empregados. Havia milhares de câmeras idênticas em setores de toda a Luna, e ele sabia que as chances de alguém dar atenção às filmagens de uma manhã sem movimento em AR-2 eram improváveis, mas um arrepio ameaçador subiu pela espinha.
— A coroa é linda — disse Winter, admirando os pequenos galhinhos de flores. Ela colocou em cima dos cachos pretos densos. — Tão esplêndida quanto as joias da rainha. Vou sempre gostar dela.
Com um rosnado, Jacin arrancou a coroa da cabeça dela e a colocou na cesta.
— Ela vai ser bem apreciada aí dentro — cortou ele, com um alerta na voz. — A princesa está ocupada. Voltem para dentro e não comentem com os amigos sobre isso.
Com gritinhos assustados e olhos arregalados, as crianças não podiam ter voltado para a floricultura mais rápido. Segurando o cotovelo de Winter, Jacin a arrastou para longe, mas ela logo soltou o braço da mão dele.
— Por que você fez aquilo? — perguntou ela.
— Passou uma impressão ruim.
— Aceitar um presente de crianças? Sinceramente, Jacin, você não precisa ser tão mau.
— Você poderia ser um pouco menos gentil — respondeu ele, observando as paredes e janelas, mas sem ver mais nenhuma câmera. — Colocar na cabeça. Você está maluca? — Ela fez cara feia para ele, que fez cara feia para ela, sem pedir desculpas. — Você tem sorte de ninguém ter visto. — Ele indicou a cesta. — Cubra antes que eu a tire daí e enterre em um desses vasos.
— Você está exagerando — disse Winter, mas puxou algumas toalhas de mão para esconder os galhos.
— Você não é rainha, princesa.
O olhar dela encontrou o dele, perplexo.
— Eu não quero ser rainha.
— Então, pare de aceitar coroas.
Bufando, Winter se virou e saiu andando, como uma verdadeira princesa marcharia na frente de seu guarda.

Um comentário:

  1. Ele está certo, a rainha mataria estas crianças se descobrisse, e a princesa também!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!