13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Treze

CRESS NUNCA ACREDITARIA QUE TERIA FORÇA PARA ARRASTAR Carswell Thorne para baixo da cama e prender o corpo inconsciente dele contra a parede se a prova não estivesse em seus braços. O tempo todo, fios e telas e plugues e pratos e comida caíram e quicaram ao redor deles. As paredes do satélite gemeram, e ela apertou bem os olhos, tentando não imaginar o calor e a fricção derretendo os parafusos e soldas, tentando não adivinhar o quão estável aquele satélite, que nunca fora testado, poderia ser. Tentando não pensar na queda em direção à Terra, com montanhas e oceanos e geleiras e florestas, e no impacto que um satélite jogado do espaço sofreria quando caísse no planeta e se estilhaçasse em bilhões de pedacinhos.
Ela estava se saindo muito mal na tarefa de não imaginar nada disso.
A queda durou uma eternidade, enquanto seu mundinho se desintegrava.
Cress falhara. O paraquedas já deveria ter se aberto. Ela deveria ter sentido o acionamento, sentido o puxão para trás quando ele começasse a amortecer a queda delicada na direção da Terra. Mas a queda só estava acelerando, enquanto o satélite ficava mais quente. Ou ela havia feito alguma coisa errada, ou o sistema do paraquedas era defeituoso, ou talvez não houvesse paraquedas nenhum e o comando fosse de uma programação falsa. Afinal, Sybil tinha preparado o satélite. É claro que não pretendia que Cress caísse com segurança no planeta azul.
Sybil obtivera sucesso. Eles morreriam.
Cress envolveu o corpo de Carswell Thorne com o seu e afundou o rosto no cabelo dele. Pelo menos, ele estaria inconsciente durante todo o processo. Pelo menos, não precisaria ter medo.
De repente, houve um tremor, uma sensação que não era da queda, e ela ouviu o som forte de cordas de náilon e um sibilar, e ali estava, o puxão repentino que pareceu sugá-los de volta para o céu. Ela deu um grito e agarrou Carswell Thorne com mais força quando seu ombro bateu no estrado da cama.
A queda livre virou uma queda delicada, e o choro desesperado de Cress passou a ser choro de alívio. Ela apertou o corpo inerte de Thorne e chorou e hiperventilou e chorou mais um pouco.
O impacto demorou séculos para chegar, e, quando aconteceu, Cress acabou tombando na cama de novo. O satélite caiu e deslizou, rolou e virou. Eles estavam escorregando em alguma coisa sólida, talvez uma face de colina ou montanha. Cress trincou os dentes para sufocar um grito e tentou proteger Thorne com um braço enquanto os apoiava na parede com o outro. Ela esperara água, pois uma parte tão grande da superfície da Terra era composta de água, não essa coisa sólida em que caíram. A descida rodopiante acabou parando com um baque que fez as paredes tremerem.
Os pulmões de Cress queimavam com o esforço de inspirar o ar. Todos os músculos doíam pela adrenalina e pelo esforço de se preparar para o impacto, além das quedas que seu corpo sofrera.
Mas, em sua mente, a dor era inexistente.
Eles estavam vivos.
Estavam na Terra e estavam vivos.
Um grito agradecido e chocado saiu de dentro de Cress, e ela abraçou Thorne, chorando com alegria, aninhada no pescoço dele, mas a alegria desapareceu quando ele não retribuiu o abraço. Ela quase tinha se esquecido de vê-lo batendo a cabeça na cama, a forma como o corpo dele fora jogado de um lado para outro, a forma como caiu todo torto no canto e não fez som nem movimento enquanto ela o colocava embaixo da cama.
Ela se afastou dele. Estava coberta de suor, e seu cabelo tinha se emaranhado ao redor dos dois, prendendo-os quase com tanta força quanto os lençóis amarrados de Sybil.
— Carswell? — sussurrou ela.
Era estranho dizer o nome dele em voz alta, como se ela ainda não tivesse conquistado intimidade suficiente. Lambeu os lábios, e sua voz falhou uma segunda vez.
— Sr. Thorne?
Colocou os dedos no pescoço dele. Alívio; os batimentos estavam fortes. Ela não sabia se ele respirava durante a queda, mas, com o mundo silencioso e imóvel, ela ouvia o ar saindo pelos lábios dele.
Talvez ele tivesse sofrido uma concussão. Cress já tinha lido sobre concussões sofridas quando as pessoas batiam a cabeça. Não se lembrava do que acontecia a elas, mas sabia que era ruim.
— Acorde. Por favor. Estamos vivos. Conseguimos.
Ela colocou a palma da mão na bochecha dele e ficou surpresa de encontrar aspereza ali, completamente diferente de seu rosto lisinho.
Pelos faciais. Fazia sentido, mas ela jamais tinha inserido a sensação de barba espetando em suas fantasias. Teria que consertar isso no futuro.
Balançou a cabeça, envergonhada por estar pensando em algo assim quando Carswell Thorne estava ferido bem na frente dela, sem ela poder fazer nada...
Ele tremeu.
Cress levou um susto e tentou proteger-lhe a cabeça para o caso de ele se debater muito.
— Sr. Thorne? Acorde. Estamos bem. Por favor, acorde.
Um gemido baixo e doloroso, e a respiração começou a ficar regular.
Cress tirou o cabelo do rosto. Os fios lutaram contra ela, agarrados à pele molhada de suor. Mechas compridas estavam presas debaixo dos corpos deles.
Ele gemeu de novo.
— C-Carswell?
O cotovelo deu um solavanco, como se ele estivesse tentando levantar a mão, mas os pulsos ainda estavam presos. As pálpebras tremeram.
— O qu... hã?
— Está tudo bem. Estou aqui. Estamos em segurança.
Thorne passou a língua pelos lábios, depois fechou os olhos de novo.
— Thorne — grunhiu ele. — A maioria das pessoas me chama de Thorne. Ou de capitão.
O coração dela ficou mais leve.
— É claro, Tho... capitão. Você está sentindo dor?
Ele se mexeu com desconforto e descobriu que as mãos ainda estavam amarradas.
— Sinto como se meu cérebro fosse vazar pelos ouvidos. Mas, fora isso, estou ótimo.
Cress examinou a nuca dele com os dedos. Não havia umidade, então pelo menos não estava sangrando.
— Você bateu a cabeça com força.
Ele gemeu e tentou tirar as mãos das amarras.
— Espere, tinha aquela faca...
Ela parou de falar e examinou a bagunça e os destroços ao redor.
— Caiu da cama — disse Thorne.
— Sim, eu vi... ali!
Ela viu o cabo da faca preso embaixo de uma tela caída e foi buscá-la, mas seu cabelo estava tão enrolado em si mesma e em Thorne que acabou puxando-a de volta. Ela deu um gritinho e massageou o couro cabeludo.
Ele abriu os olhos de novo e franziu a testa.
— Não me lembro de estarmos amarrados um ao outro antes.
— Me desculpe, meu cabelo prende em tudo às vezes, e... se você pudesse só... aqui, role para cá.
Ela segurou o cotovelo dele e empurrou-o para que ficasse de lado. Com expressão de desdém, ele obedeceu, permitindo-lhe movimentar-se o suficiente para alcançar o cabo da faca.
— Você tem certeza de que acabou... — começou Thorne, mas ela já tinha se inclinado e estava cortando o cobertor. — Ah. Você tem boa memória.
— Hã? — murmurou ela, concentrada na lâmina afiada.
A faca cortou com facilidade, e Thorne suspirou de alívio quando o cobertor caiu. Ele massageou os pulsos e levou a mão à cabeça. Quando os emaranhados do cabelo de Cress tentaram puxá-lo para trás, ele puxou com mais força.
Cress deu um gritinho e caiu sobre o peito de Thorne. Ele não pareceu notar enquanto passava os dedos na parte de trás da cabeça.
— Ai — murmurou ele.
— É — concordou ela.
— Esse galo vai demorar para sair. Aqui, sinta só.
— O quê?
Ele pegou a mão dela e levou até a parte de trás da cabeça.
— Estou com um galo enorme aqui. Não é surpresa eu estar com tanta dor de cabeça.
Ele estava mesmo com um galo impressionante na cabeça, mas Cress só pensava na maciez do cabelo e no fato de que estava praticamente deitada em cima dele. Ela corou.
— É. Certo. Acho que você devia, hã...
Ela não fazia ideia do que ele devia fazer.
Beijá-la, pensou. Não era isso o que as pessoas faziam depois de sobreviverem a experiências emocionantes e quase morrerem juntas? Cress tinha certeza de que não era uma sugestão apropriada, mas, próximos assim, era tudo em que pensava. Ela desejava chegar mais perto, encostar o nariz no tecido da camisa dele e inspirar fundo, mas não queria que ele pensasse que ela era estranha. Nem que adivinhasse a verdade, que esse instante, cheio de ferimentos, no satélite destruído e longe dos amigos dele, era o momento mais perfeito de toda a vida dela.
Ele franziu a testa e puxou uma mecha de cabelo que apertava seu bíceps.
— Precisamos fazer alguma coisa com esse cabelo.
— Certo. Certo!
Cress se afastou, e seu couro cabeludo doeu quando o cabelo ficou preso embaixo dele. Ela começou a desemaranhar os nós com delicadeza, um a um.
— Talvez ajudasse se acendêssemos as luzes.
Ela fez uma pausa.
— As luzes?
— São ativadas por voz? Se o sistema de computador quebrou na queda... Droga, devemos estar no meio da noite. Tem um tablet ou alguma coisa que possamos ligar, pelo menos?
Cress inclinou a cabeça.
— Eu... não estou entendendo.
Por um breve momento, ele pareceu irritado.
— Ajudaria se conseguíssemos enxergar.
Os olhos dele estavam abertos, mas ele não enxergava nada mais distante que o ombro de Cress. Então soltou algumas mechas de cabelo que estavam enroladas no pulso e balançou a mão na frente do rosto.
— Essa é a noite mais escura que já vi. Devemos estar em algum ambiente rural... a lua de hoje é nova? — A testa dele se franziu mais, e ela percebeu que ele estava tentando lembrar em que ponto do ciclo lunar a Terra estava. — Não me parece certo. O céu deve estar muito nublado.
— Capitão? Não... está escuro. Estou vendo perfeitamente.
Ele franziu a testa confuso e, depois de um momento, preocupado. Seu maxilar se contraiu.
— Por favor, me diga que está sendo sarcástica.
— Sarcástica? Por que eu faria isso?
Balançando a cabeça, ele apertou bem os olhos. Abriu de novo. Piscou depressa.
Falou um palavrão.
Cress apertou os lábios e ergueu os dedos na frente dele. Balançou de um lado para outro. Não houve reação.
— O que aconteceu? — disse ele. — A última coisa de que me lembro é de tentar entrar debaixo da cama.
— Você bateu a cabeça de lado e eu arrastei você para baixo. Depois, pousamos. Foi meio sacolejante, mas... só isso. Você só bateu a cabeça.
— E isso pode provocar cegueira?
— Pode ser algum tipo de trauma no cérebro. Talvez seja só temporário. Talvez... talvez você esteja em choque.
Ele encostou a cabeça no chão. Um silêncio pesado os envolveu.
Cress mordeu o lábio.
Por fim, ele voltou a falar, e sua voz assumiu um tom determinado:
— Precisamos fazer alguma coisa com esse cabelo. Onde foi parar aquela faca?
Antes que pudesse questionar a lógica por trás de dar uma faca para um cego, ela a colocou na palma da mão dele. Thorne esticou a outra mão para trás dela e pegou um punhado de cabelo. O toque provocou um arrepio delicioso na espinha dela.
— Me desculpe, mas cresce de novo — disse ele, sem parecer arrependido.
Ele começou a cortar os nós, um punhado de cada vez. Segurava, cortava, soltava.
Cress ficou perfeitamente imóvel. Não por ter medo de ser cortada; a faca estava firme na mão dele, apesar da cegueira, e Thorne manteve a lâmina virada cuidadosamente para longe do pescoço dela. Mas por ser Thorne. Por ser o capitão Carswell Thorne passando as mãos pelo cabelo dela, o queixo áspero a centímetros dos lábios dela, a testa franzida de concentração.
Quando ele encostou dedos leves como penas no pescoço dela, procurando mechas que tivesse deixado passar, ela ficou tonta de euforia.
Ele encontrou uma mecha perto da orelha esquerda e cortou.
— Acho que acabei. — Ele colocou a faca debaixo da perna para poder encontrá-la de novo e enfiou as mãos no cabelo curto e impossivelmente leve, desembaraçando os nós que faltavam. Um sorriso satisfatório se abriu no rosto dele. — Talvez um pouco irregular nas pontas, mas bem melhor.
Cress levou a mão à nuca, impressionada pela sensação da pele nua, ainda úmida de suor, e do cabelo curto com um ondulado sutil que não tinha mais peso. Passou as unhas pelo couro cabeludo, paralisada pelo prazer de uma sensação tão desconhecida. Parecia que dez quilos tinham sido cortados de sua cabeça. A tensão sumia de músculos que ela nem sabia que existiam.
— Obrigada.
— De nada — disse ele, afastando as mechas de cabelo ainda grudadas nele.
— E sinto muito... pela cegueira.
— Não é sua culpa.
— É um pouco minha culpa. Se eu não tivesse pedido que você viesse me salvar e se eu tivesse...
— Não é sua culpa — repetiu ele, interrompendo o argumento dela com um tom duro. — Você parece Cinder. Ela sempre se culpa pelas coisas mais idiotas. A guerra é culpa dela. A avó de Scarlet é culpa dela. Aposto que assumiria a responsabilidade pela peste também se pudesse.
Ele pegou a faca e saiu de baixo da cama, empurrando os braços em um círculo amplo para afastar qualquer detrito antes de se elevar até a beirada do colchão. Seu progresso foi lento, como se não confiasse em si mesmo para se mover mais do que alguns centímetros de cada vez. Cress foi atrás e ficou de pé ao lado dele, empurrando alguns escombros com os dedos dos pés. Uma das mãos permaneceu afundada no cabelo.
— A questão é que aquela bruxa tentou nos matar, mas sobrevivemos — disse Thorne. — E vamos encontrar um jeito de fazer contato com a Rampion, e eles vão nos buscar, e vamos ficar bem.
Ele falou como se estivesse tentando convencer a si mesmo, mas Cress não precisava ser convencida. E estava certo. Estavam vivos e juntos, e ficariam bem.
— Só preciso de um momento para pensar — falou Thorne. — Para descobrir o que vamos fazer.
Cress assentiu e se balançou nos calcanhares. Por um longo momento, Thorne pareceu estar mergulhado em pensamentos, com as mãos unidas no colo. Depois de um minuto, Cress percebeu que estavam tremendo.
Por fim, Thorne inclinou a cabeça na direção dela, embora os olhos perdidos estivessem direcionados para a parede. Ele respirou fundo, soltou a respiração e sorriu.
— Vamos recomeçar, e com apresentações apropriadas. Ouvi que seu nome é Crescente?
— Só Cress, por favor.
Thorne esticou a mão na direção dela. Quando ela ofereceu a sua, ele a puxou para perto, inclinou a cabeça e deu um beijo nos dedos. Cress ficou tensa e tonta, e os joelhos ameaçaram ficar moles.
— Capitão Carswell Thorne ao seu serviço.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!