3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Treze

— SEU PAINEL DE CONTROLE É MARAVILHOSAMENTE COMPLEXO. É uma das mais altas tecnologias que já vi em um ciborgue. — O dr. Erland girou o holograma para um lado e depois para o outro. — E repare na fiação ao longo de sua espinha. Funde-se quase perfeitamente ao sistema nervoso central. Acabamento perfeito. E, ah! Olha aqui! — Ele apontou para o holograma da pélvis. — O seu sistema reprodutivo está quase intocado. Sabe, muitos dos ciborgues fêmeas ficam estéreis por causa dos procedimentos invasivos, mas, pelo que posso ver, não acho que você terá problemas.
Cinder sentou-se em uma das mesas de exame, com o queixo apoiado nas palmas das mãos.
— Que sorte a minha.
O médico sacudiu um dedo para ela.
— Você deveria ser grata por seus cirurgiões terem tomado esse cuidado.
— Tenho certeza de que vou me sentir muito mais grata quando encontrar um cara que considere atraente uma fiação complexa em uma menina. — Ela bateu os calcanhares na base de metal da mesa. — Isso tem alguma coisa a ver com a minha imunidade?
— Talvez sim, talvez não. — O médico pegou um par de óculos do bolso e colocou-o no rosto, ainda olhando para o holograma.
Cinder inclinou a cabeça.
— Não pagam o suficiente para você fazer uma cirurgia corretiva de visão?
— Eu gosto de usá-los. — O dr. Erland arrastou o holograma para baixo, revelando o interior da cabeça de Cinder. — Falando em cirurgia nos olhos, você sabe que não tem dutos lacrimais?
— O quê? É mesmo? E eu pensei que era apenas insensível. — Ela puxou os pés para cima da mesa, abraçando os joelhos. — Também sou incapaz de corar, se isso seria a sua próxima brilhante observação.
Ele se virou, seus olhos aumentados pelos óculos.
— Incapaz de corar? Como assim?
— Meu cérebro monitora a temperatura corporal e me obriga a esfriar se ficar muito quente rápido demais. Parece que apenas suar como um ser humano normal não seria suficiente.
O dr. Erland sacou seu tablet e escreveu alguma coisa.
— Isso é realmente muito inteligente — murmurou. — Devem ter ficado preocupados com o superaquecimento do sistema.
Cinder esticou o pescoço, mas não conseguiu ver a pequena tela no tablete dele.
— Isso é importante?
Ele a ignorou.
— E olhe seu coração — disse ele, apontando para o holograma novamente. — Essas duas câmaras são feitas principalmente de silicone, misturado com biotecido. Incrível.
Cinder apertou a mão sobre o peito. Seu coração. Seu cérebro. Seu sistema nervoso. O que não haviam adulterado?
A mão dela correu para o pescoço, traçando as lombadas da coluna enquanto seu olhar percorria as vértebras de metal, as invasoras metálicas.
— O que é isso? — perguntou ela, esticando-se para a frente e apontando para uma sombra no holograma.
— Ah, sim. Eu e meus assistentes estávamos discutindo isso antes. — O dr. Erland coçou a cabeça por cima do chapéu. — Parece feito de um material diferente do das vértebras, e está justo sobre uma aglomeração central de nervos. Talvez tenha sido concebido para corrigir uma falha.
Cinder franziu o nariz.
— Ótimo. Eu tenho falhas.
— Seu pescoço já a incomodou?
— Só quando passo o dia todo embaixo de um aerodeslizador.
E quando estou sonhando. Em seu pesadelo, o fogo sempre parecia mais quente abaixo de seu pescoço, o calor escorrendo pela espinha. A dor era implacável, como se uma brasa tivesse entrado debaixo de sua pele. Ela estremeceu, lembrando-se de Peony no sonho da noite passada, chorando e gritando, culpando Cinder pelo que havia acontecido com ela.
O dr. Erland a observava, batendo levemente o tablet contra os lábios.
Cinder contraiu o corpo.
— Tenho uma dúvida.
— Sim? — disse o médico, guardando o tablet.
— Você disse antes que não fiquei contagiosa depois que meu corpo se livrou daqueles micróbios.
— Está certo.
— Então… se eu tivesse contraído a peste naturalmente, digamos… dois dias atrás. Quanto tempo demoraria para que eu já não fosse mais contagiosa?
O dr. Erland franziu os lábios.
— Bem. Pode-se imaginar que seu corpo fica mais eficiente em se livrar dos hospedeiros a cada vez que entra em contato com eles. Então, se demorou vinte minutos para destruir todos desta vez… ah, acho que não teria levado mais de uma hora antes. Duas, no máximo. Difícil dizer, é claro, uma vez que cada doença e cada corpo funcionam de forma pouco diferente.
Cinder cruzou as mãos no colo. Ela levara pouco mais de uma hora a pé do mercado para casa.
— E… podem aderir à roupa?
— Apenas brevemente. Os patógenos não sobrevivem muito tempo sem um hospedeiro. — Ele franziu o cenho para ela. — Você está bem?
Ela brincou com os dedos das luvas. Assentiu.
— Quando é que vamos começar a salvar vidas?
O dr. Erland ajustou seu chapéu.
— Receio que não possamos fazer muita coisa até que eu tenha a oportunidade de analisar amostras de seu sangue e mapear o sequenciamento do seu DNA. Mas primeiro eu queria ter uma melhor compreensão da sua composição corporal, caso pudesse afetar os resultados.
— Ser ciborgue não pode mudar o DNA, pode?
— Não, mas existem estudos que sugerem que o corpo humano desenvolve diferentes hormônios, desequilíbrios químicos, anticorpos, esse tipo de coisa, como resultado das operações. Claro, quanto mais invasivo o procedimento, mais…
— Você acha que isso tem algo a ver com a minha imunidade? Ser ciborgue?
Os olhos do médico brilhavam, risonhos, enervando Cinder.
— Não exatamente — disse ele. — Mas, como disse antes… Eu tenho uma ou duas teorias.
— Você estava pensando em compartilhar alguma delas comigo?
— Ah, sim. Uma vez que saiba que estou correto, pretendo compartilhar minha descoberta com o mundo. Na verdade, tive uma ideia sobre a sombra misteriosa na sua coluna. Você se importaria se eu tentasse uma coisa? — Ele tirou os óculos e deslizou-os de volta para o bolso, ao lado do tablet.
— O que você vai fazer?
— Apenas uma pequena experiência, nada para se preocupar.
Ela torceu a cabeça enquanto o dr. Erland andou ao redor da mesa e colocou as pontas dos dedos em seu pescoço, apertando as vértebras logo acima dos ombros. Ela enrijeceu com o toque. As mãos dele estavam quentes, mas ela tremeu mesmo assim.
— Diga-me se sentir alguma coisa… incomum.
Cinder abriu a boca, prestes a anunciar que qualquer toque humano lhe parecia incomum, mas o ar não saiu.
Fogo e dor romperam sua coluna, invadindo suas veias.
Ela gritou e caiu da mesa, dobrando-se no chão.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!