7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Três

SCARLET TIROU A CESTA DE BATATAS DA PRATELEIRA MAIS BAIXA e a deixou cair no chão com um baque antes de colocar o engradado de tomates em cima. As cebolas e os nabos foram colocadas ao lado. Teria que fazer mais duas viagens até a nave, e isso a deixava mais zangada do que qualquer outra coisa. Adeus, saída com dignidade.
Ela pegou as alças da cesta mais baixa e a levantou.
— O que você está fazendo agora? — perguntou Gilles, parado na porta com um pano de prato no ombro.
— Levando essas coisas de volta.
Com um suspiro, Gilles se apoiou na parede.
— Scar... eu não falei sério sobre aquilo tudo lá dentro.
— Acho um tanto improvável.
— Olha, eu gosto da sua avó e gosto de você. Sim, ela cobra caro e você me perturba e vocês duas são meio loucas às vezes... — Ele levantou as duas mãos na defensiva quando viu Scarlet voltando a ficar irritada. — Ei, foi você quem subiu no bar e começou a fazer discursos, então não venha me dizer que não é verdade.
Ela franziu o nariz para ele.
— Mas, no fim das contas, sua grand-mère tem uma boa fazenda, e vocês ainda colhem os melhores tomates da França ano após ano. Não quero cancelar minha conta.
Scarlet inclinou a cesta para que os frutos vermelhos e reluzentes balançassem.
— Coloque-os de volta, Scar. Já assinei o pagamento da entrega.
Ele saiu andando antes que Scarlet perdesse o controle de novo.
Soprando um cacho ruivo que lhe caía no rosto, Scarlet colocou a caixa no chão e chutou as batatas de volta para o lugar, debaixo das prateleiras. Ela conseguia ouvir os cozinheiros rindo por causa do drama na sala de jantar. A história já tinha ares de lenda, pelo jeito que os garçons contavam. De acordo com os cozinheiros, o lutador tinha quebrado uma garrafa na cabeça de Roland, que caiu, inconsciente, destruindo uma cadeira no caminho. Teria derrubado Gilles também, se Émilie não o tivesse acalmado com um de seus belos sorrisos.
Sem interesse nenhum em corrigir a história, Scarlet limpou as mãos na calça jeans e voltou para a cozinha. Havia uma frieza no ar entre ela e os funcionários da taverna quando seguia seu caminho até o escâner ao lado da porta dos fundos. Gilles não estava por perto, e dava para ouvir as risadinhas de Émilie que vinham do salão. Scarlet torceu para só estar imaginando os olhares de soslaio que recebia. Ela se perguntou com que velocidade os boatos se espalhariam pela cidade. Scarlet Benoit estava defendendo a ciborgue! A lunar! Está na cara que ela pirou de vez, que nem a... que nem a...
Ela passou o pulso pelo escâner velho. Por puro hábito, inspecionou a ordem de entrega que apareceu na tela, para ter certeza de que Gilles não tinha pagado a menos, como costumava tentar, e reparou que ele tinha mesmo deduzido três univs pelos tomates esmagados. 687U DEPOSITADOS NA CONTA DO VENDEDOR: BENOIT FAZENDAS E JARDINS.
Ela saiu pela porta dos fundos sem se despedir de ninguém.
Apesar de ainda estar quente por causa do sol da tarde, as sombras do beco pareciam frescas em comparação à cozinha quente e abafada, e Scarlet se acalmou ali enquanto reorganizava os engradados no compartimento de carga da nave. Estava atrasada. Já seria bem tarde da noite quando conseguisse voltar para casa. Teria que acordar ainda mais cedo para ir à delegacia de polícia de Toulouse, senão perderia um dia inteiro no qual ninguém estava fazendo nada para encontrar sua avó.
Duas semanas. Duas semanas inteiras em que a avó estava por aí. Sozinha. Indefesa. Esquecida. Talvez... Talvez até morta. Talvez sequestrada e morta e deixada em alguma vala escura e úmida em algum lugar. E por quê? Por quê por quê por quê?
Lágrimas frustradas arderam em seus olhos, mas ela piscou para afastá-las. Batendo a porta, foi para a frente da nave e ficou paralisada.
O lutador estava ali, apoiado de costas na parede do prédio de pedra. Observando-a.
Para sua surpresa, uma lágrima quente escapou de seus olhos. Ela a limpou antes que escorresse pela bochecha. Scarlet retornou seu olhar, avaliando se a postura dele era ameaçadora ou não. O lutador estava a uns dez passos da frente da nave, e sua expressão parecia mais hesitante do que perigosa. Mas ele também não parecia perigoso quando quase estrangulou Roland.
— Eu queria ter certeza de que você estava bem — disse ele, com a voz quase perdida em meio ao barulho vindo da taverna.
Ela colocou a mão espalmada na parte de trás da nave, irritada pela forma como seus nervos zumbiam, como se não conseguissem decidir se devia ter medo dele ou ficar lisonjeada.
— Estou melhor do que Roland — retrucou ela. — O pescoço dele já estava ficando roxo quando saí.
O lutador olhou para a porta da cozinha.
— Ele merecia coisa pior.
Scarlet teria sorrido, mas não tinha mais energia depois de engolir toda a raiva e a frustração da tarde.
— Queria que você não tivesse se envolvido. Eu tinha a situação sob controle.
— Isso é óbvio. — Ele apertou os olhos como se estivesse tentando resolver um quebra-cabeça. — Mas fiquei com medo de você apontar sua arma pra ele, e uma cena assim poderia não ser muito boa no seu caso. Com relação a ser maluca, é o que quero dizer.
Os pelos da nuca de Scarlet se eriçaram. Ela levou a mão instintivamente para a cintura, onde uma pequena pistola estava quente contra sua pele. A avó tinha lhe dado a arma de presente no seu décimo primeiro aniversário, com o aviso paranoico: você nunca sabe quando um estranho vai querer levá-la para um lugar aonde não quer ir. Ela ensinou Scarlet a usá-la, e Scarlet não saía de casa sem ela desde então, independentemente de isso parecer ridículo ou desnecessário.
Sete anos se passaram, e Scarlet tinha certeza de que ninguém nunca tinha reparado na arma escondida debaixo do casaco vermelho com capuz que ela costumava usar. Até agora.
— Como você soube?
Ele deu de ombros, ou fez o que seria um dar de ombros se o movimento não fosse tão tenso e desajeitado.
— Vi o cabo quando você subiu no balcão.
Scarlet levantou a parte de trás do moletom o bastante para afrouxar a pistola presa na cintura. Tentou inspirar calmamente, mas o ar estava tomado pelo fedor de cebola e lixo do beco.
— Obrigada por sua preocupação, mas estou bem. Tenho que ir... Estou atrasada com as entregas... atrasada com tudo. — Ela andou em direção à porta do motorista.
— Você tem mais tomates?
Ela parou.
O lutador se encolheu ainda mais nas sombras, encabulado.
— Ainda estou com um pouco de fome — murmurou ele.
Scarlet achou que conseguia sentir o cheiro de tomate na parede atrás de si.
— Posso pagar — acrescentou ele rapidamente.
Ela fez que não com a cabeça.
— Não, tudo bem. Temos bastante. — Ela andou até a parte de trás, mantendo os olhos nele, e reabriu a porta. Pegou um tomate e algumas cenouras tortas. — Tome, elas também são boas cruas — disse, jogando para ele.
Ele os pegou com facilidade. O tomate desapareceu em seu punho grande, e a outra mão segurou as cenouras pelos cabos folhosos. Ele observou-as de todos os ângulos.
— O que são estas coisas?
Uma gargalhada surpresa saiu dos lábios dela.
— Cenouras. Você está falando sério?
Mais uma vez, ele pareceu desconfortavelmente ciente de ter dito alguma coisa incomum.
Seus ombros se retraíram em uma tentativa vã de se encolher.
— Obrigado.
— Sua mãe nunca obrigou você a comer legumes, né?
Os olhares se encontraram, e o constrangimento foi imediato. Algo quebrou na taverna e fez Scarlet pular de susto. Em seguida, ouviu-se uma onda de gargalhadas.
— Deixe pra lá. São deliciosas, você vai gostar. — Ela fechou a porta, voltou para a frente e passou a identificação pelo escâner da nave. A porta se abriu, formando uma barreira entre eles, e as luzes internas se acenderam. Elas acentuaram o hematoma no olho do lutador, fazendo-o parecer mais escuro do que antes. Ele se encolheu como um criminoso sob holofotes.
— Eu queria saber se você precisa de ajuda na fazenda? — perguntou ele, embolando as palavras na pressa de falar rapidamente.
Scarlet parou ao entender de repente por que ele esperou por ela, por que enrolou tanto. Observou os ombros largos, os braços fortes. Ele era perfeito para trabalho braçal.
— Você está procurando emprego?
O lutador começou a sorrir, um visual que era perigosamente malicioso.
— O dinheiro das lutas é bom, mas não é uma profissão das mais promissoras. Pensei que você poderia me pagar com comida.
Ela riu.
— Depois de ver o tamanho do seu apetite, acho que eu acabaria perdendo até as roupas se fizesse um acordo desses. — Ela ficou vermelha assim que terminou de falar. Sem dúvida ele agora a estava imaginando sem roupas. Mas, para seu choque, o rosto dele permaneceu sereno e neutro, e ela se apressou para preencher o vazio antes que por fim reagisse às suas palavras. — Qual é seu nome, aliás?
Ele fez aquele constrangido dar de ombros de novo.
— Me chamam de Lobo nas lutas.
— Lobo? Parece tão... predador.
Ele assentiu, com uma expressão completamente séria.
Scarlet escondeu um sorriso.
— Talvez fosse melhor você tirar seu nome de lutador do currículo.
Ele coçou o cotovelo com a tatuagem estranha que mal podia ser vista no escuro, e ela pensou que talvez o tivesse constrangido. Talvez Lobo fosse um apelido de que ele gostasse.
— Bem, eu sou Scarlet. Sim, por causa do cabelo escarlate, que observação inteligente.
A expressão dele se suavizou.
— Que cabelo?
Scarlet colocou o braço por cima da porta e apoiou o queixo.
— Boa.
Por um momento, ele pareceu quase satisfeito, e Scarlet se viu gostando desse estranho, dessa anomalia. Desse lutador de rua de fala mansa.
Um aviso piscou no fundo de sua mente. Ela estava perdendo tempo. Sua avó estava por aí. Sozinha. Assustada. Morta em uma vala. Scarlet apertou a porta.
— Sinto muito, mas já tenho gente suficiente. Não preciso de mais trabalhadores.
O brilho sumiu dos olhos dele, e em um instante ele parecia constrangido de novo. Confuso.
— Entendo. Obrigado pela comida. — Ele chutou uma embalagem de fogos de artifício usados no chão, um resquício das comemorações de paz da noite anterior.
— Você devia ir pra Toulouse, ou quem sabe Paris. Há mais emprego nas cidades, e as pessoas daqui não recebem estranhos muito bem, como você deve ter reparado.
Ele inclinou a cabeça de forma que seus olhos de cor esmeralda brilharam ainda mais sob as luzes da nave, quase parecendo achar graça.
— Obrigado pela dica.
Scarlet virou e se sentou no banco do motorista.
Lobo virou para a parede quando ela ligou o motor.
— Se mudar de ideia quanto a precisar de um ajudante, pode me encontrar na casa abandonada Morel quase todas as noites. Posso não ser muito bom com pessoas, mas acho que me sairia bem em uma fazenda. — Os cantos dos lábios dele se levantaram de leve. — Os animais me adoram.
— Ah, aposto que sim — disse Scarlet, dando um sorriso de falso encorajamento. Ela fechou a porta antes de murmurar: — Que animais de fazenda não adoram um lobo?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!